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6 de janeiro de 2017

ÚLTIMAS PÁGINAS, de Eça de Queirós

Nas «Lendas de Santos» de Eça de Queirós (Últimas Páginas, 1912, edição póstuma organizada por Luís de Magalhães), biografias ficcionadas de santos. «São Cristóvão», aliás o único que o escritor concluiu, é um dos textos queirosianos que prefiro. Numa imprecisa Idade Média francesa, Cristóvão é um ser disforme (um gigante) e simples, cheio de amor para dar; amor forjado no conhecimento da incrível história do Menino-Deus, que por amor virá a morrer na cruz ("Cristóvão", o que tem Cristo em si...). De tal forma Cristóvão é possuído por esse amor ao semelhante, que nunca é abalado pelas inúmeras rasteiras e traições que lhe são infligidas pelos seus irmãos em humanidade; o mesmo amor e coração puro que, não suportando a miséria o leva a chefiar  jacqueries... Eça mantinha bem viva a leitura do seu Proudhon. Da narrativa desprende-se  um ambiente benfazejo e etéreo, no meio de guerra e de opressão do forte em relação ao fraco (a mesma atmosfera que se evola do magnífico «O Suave Milagre», trazendo-me à memória, por essa mesma atmosfera miraculosa do indizível «O Gigante Egoísta», do Oscar Wilde). 
Em Eça sempre adorei a sua paixão pela História e a forma simultaneamente séria e lúdica com que lhe pegava. «Santo Onofre» é um dos padres do deserto, indivíduos que fugiam do mundo para encontrar Deus através da oração e da renúncia, sujeitando-se a todas as solicitações do Demónio, que mais não eram do que alucinações provocadas pela carência física e psicológica de tudo... Talvez o menos conseguido.
«S. Frei Gil», cujo plano da obra chegou até nós, poderia ser uma das grandes narrativas queirosianas, provavelmente abandonada (e isto é um palpite; precisaria de verificar cronologias) pelo felizmente concluído A Cidade e as Serras. Várias vezes me veio à memória a dispersão e a inconsistência do Jacinto de A Cidade e as Serras, ou mesmo de Gonçalo Mendes Ramires. Em todo o caso, ficamos com pena do corte abrupto da narrativa quando o volúvel Gil a caminho de Paris, na companhia do escudeiro Pêro, para estudar Medicina, é desviado do intento por um misterioso cavaleiro...
O segundo bloco desta Últimas Páginas, consiste num conjunto de «Artigos Diversos», textos todos de primeira água, em que avulta o também incompleto «O "Francesismo"», um magnífico ensaio de irónica autobiografia cultural.
Eça é sempre Eça. Imortal.
(também aqui)

7 de fevereiro de 2013

"A MORTE DO REI DE ESPANHA", de Carlos Daniel

Tínhamos falado – eu e o Carlos Daniel – em se fazer uma crítica ao seu livro nas páginas do blogue. Acertámos que após essa crítica o autor faria um comentário.
O resultado é o que aqui fica.  

INSCIÊNCIA E AMBIGUIDADE NO NARRADOR DE A MORTE DO REI DE ESPANHA
 
Depois de Foste tu que me escreveste de Sintra? (2005), Carlos Daniel publicou em Julho do ano passado um segundo romance com o título A Morte do Rei de Espanha. Vamos tentar uma leitura deste seu trabalho a partir da compreensão da figura do narrador, instância do romance  que intervém em três peças fundamentais do seu paratexto: a que é designada por “Narrador – apresentação” (p. 7), a transcrição da decisão do 3º Juízo da Vara Criminal de Cádis (pp. 381-387) e o posfácio (pp. 388-390).
O narrador, que não deve ser confundido com o autor empírico, é a instância em que recai a lógica da construção romanesca.  Normalmente, o leitor pode desconfiar de tudo, menos de que a história por ele contada possa não ser a história “verdadeira”. Omnisciente ou nem tanto, o narrador  é, normalmente, uma personagem de rectas intenções, confiável tanto quanto pode ser, o que não significa que não trate com simpatia diferenciada cada uma das personagens que coloca em cena. Zé Fernandes, narrador intradiegético de A Cidade e as Serras, deverá ter-nos contado a história tal como ela “aconteceu”, embora se perceba o favorecimento da sua pessoa e se saiba da admiração que nutre por Jacinto, protagonista do romance, por ele referido como “o meu Príncipe”.  O narrador de Madame Bovary parece equidistante de Charles  e  Emma, salientando a mediocridade do primeiro e a conduta imoral da segunda, mas sente-se que é impiedoso no tratamento que dispensa aos amantes da heroína e a alguns comparsas  como, por exemplo, o farmacêutico Homais.
Se o leitor aceita com naturalidade a bondade do narrador (a inversa seria razão suficiente para nem sequer pegar no livro) é porque acredita que ele é a chave de entrada nos mistérios da história que deseja conhecer.
Como diz Roland Barthes, o narrador é um “ser de papel”, uma invenção do autor, mas um ser que sabe coisas que as outras personagens não sabem e que, em princípio, está interessado em contá-las. Assim, parece invulgar que o narrador de A Morte do Rei de Espanha se disponha a perturbar a confiança do leitor através de uma declaração prévia sobre a verdade do seu relato. Leia-se o que nos diz: “Não me quero desculpar por, de vez em quando, ter revelado alguma parcialidade e um pouco de precipitação na descrição dos acontecimentos”. Para  acrescentar no parágrafo seguinte: “Mas posso garantir-vos que relatei as verdades essenciais ou, pelo menos, a interpretação que fiz delas” (p.7). Não sendo uma narrativa referencial, o romance não pode ser submetido a uma prova de verdade, pelo que aquilo que o narrador conta – e só ele sabe o que deve contar – é lei. O romance é ficção (veja-se a epígrafe retirada de Histórias Falsas de Gonçalo M. Tavares) e as tentativas de o apresentar como “história verdadeira” são próprias de períodos histórico-literários em que o género ainda não tinha conquistado a dignidade que o Romantismo e o Realismo viriam a conceder-lhe. No actual estádio dos gostos literários, os leitores amam a ficção, sendo esta entendida como condição básica da literariedade duma obra.
A disposição do narrador de A Morte do Rei de Espanha tem, porém, uma lógica interna. Carlos Daniel move as suas personagens num quadro de ambiguidade  de que participa a instância narrativa. Porque, afinal, este consciencioso narrador que diz relatar as “verdades essenciais” conta uma história que se verifica não conhecer por completo. Vejamos então que história é essa.
Pedro Olivares, cabeça de um grupo económico andaluz, é acusado de um triplo homicídio e acaba por ser condenado em juízo. Seu filho, Juan Muriel, na altura ainda criança, não acredita que o pai seja o autor desses crimes e por tal razão toma a decisão de matar o rei de Espanha, primeira figura do estado que ele vê como primeiro responsável da injustiça cometida. Note-se que esta ideia, aparentemente bizarra, é verosímil. Pela exposição obsessiva da sua imagem – nos ministérios, gabinetes da polícia e salas de tribunal –, um chefe de estado como o rei de Espanha pode muito bem ser visto pelo cidadão comum (e também por uma criança) como a figura tutelar de todos os erros e injustiças cometidos pela administração pública. São os inconvenientes da personalização do poder, do uso e abuso da imagem do rei como símbolo desse mesmo poder.
Entrado na idade adulta, Juan Muriel vai urdindo sucessivos planos para liquidar o monarca. Só que o filho do poderoso Pedro Olivares, entretanto licenciado em Direito e preparado para assumir o controle dos negócios da família, reencontra Sara Marques, a sua namorada da adolescência, e algo de novo começa e nascer em si. Juan Muriel terá percebido, talvez ao princípio de forma não muito consciente, que a vida dum rei ou o poder dum grupo económico poderão valer um ou mais crimes, mas não valerão certamente a emoção dum grande amor. Ou, se quisermos seguir outra pista, que o afecto pode e deve dirigir-se a uma pessoa digna de o receber, não se deixando ficar pelo melancólico despir e vestir do “manequim lindíssimo”, mas imóvel, com que ornamenta a sala de sua casa (capítulo 10, p. 185).
No final do romance, Juan Muriel tem o rei sob a mira da sua arma, poderia ter consumado o atentado, mas não o faz. Sara Marques, curiosamente agente de informação dos serviços secretos espanhóis, está do outro lado da rua por onde o rei passa numa visita oficial em Lisboa. Nem ela o impediu, nem ele avançou para o atentado. A vingança não se consuma, talvez por não ser compatível com o amor.
Voltando ao narrador, note-se que a narrativa encerra, conforme data que consta do livro, em 17 de Novembro de 2003, enquanto a decisão judicial que iliba Pedro Olivares do crime de triplo homicídio (repetição do julgamento face a novas provas surgidas, a segunda peça a que nos referimos) é de 26 de Abril de 2007. Vem a saber-se por essa peça que foi a sua mulher, Maria Mercedes Olivares, a mandante dos crimes depois atribuídos ao marido. Pedro Olivares seria amante de uma das vítimas, Isabella Perrugini, pelo que a matança, perpetrada com a ajuda de apaniguados, teria, além de outros motivos, razões passionais. 
Não sendo omnisciente  como poderia o narrador  intradiegético de A Morte do Rei de Espanha antecipar tão decisiva reviravolta judicial? Note-se que, embora inominado, ele é, com toda a probabilidade, um dos dois amigos do protagonista referidos no romance pelos nomes de Tiago e Clemente. Com a narrativa fechada, o recurso do narrador é anexar-lhe a cópia da nova decisão do tribunal e lançar-se num posfácio em que pretende justificar o desconhecimento dos factos. Referindo-se à mistificação organizada pela mulher de Pedro Olivares, diz: “Durante muito tempo todos fomos enganados pela sua actuação maquiavélica e uma boa parte das especulações que se seguiram, e às quais eu dei voz, revelaram-se infundadas”(p. 388). Mas não se fica por aqui o seu mea culpa. Ele mesmo declara ter participado numa mistificação: o encobrimento do verdadeiro estado mental de Pedro Olivares depois do atentado de que foi vítima na prisão. Assim se confessa: “ Não é verdade que Pedro Olivares tenha ficado diminuído, física ou mentalmente, após o atentado na prisão. A estratégia desenhada por ele, que o dava inutilizado para qualquer acto de gestão, tinha como único objectivo garantir a sua segurança. (…) Dada a proximidade deste relato com os factos ocorridos, e estando prevista a publicação deste livro muito antes de Pedro Olivares ter cumprido a sua pena, não hesitei em participar nesta mistificação, por me parecer uma boa garantia para a sua sobrevivência” (pp. 388-389).
Enfim, um narrador pouco confiável, metido num papel que o aproxima das restantes personagens do romance. Errou e mistificou, tendo assumido os seus desvios, da mesma forma que Juan Muriel parece ter admitido o erro da sua vingança e a Justiça de Cádis reconheceu e remediou a falha da instrução criminal do processo.
E isto leva-nos a considerar que, em rigor, as três peças paratextuais (assim lhes chamámos) em que o narrador intervém (duas por declaração própria e a outra por simples transcrição da decisão judicial), não funcionarão como paratexto, mas como parte integrante do texto romanesco. O autor manipula o narrador de forma a que se dê ao leitor o suspense duma história que, no final, por uma peça jurídica e algumas declarações, se revela razoavelmente diferente daquilo que o texto principal deixa entrever.
Não situaríamos este expediente narrativo nos domínios da originalidade, pois cremos que na arte do romance já tudo foi feito ou experimentado e nada surgirá que seja verdadeiramente novo. Mas lá que é curioso, é. E inusitado: um narrador insciente e ambíguo mas que, pelo menos, tem a humildade de reconhecer as suas limitações e tentar emendar os erros que cometeu. Este é um aspecto interessante do romance de Carlos Daniel, um texto articulado com outros textos a que não falta imaginação e arte de contar.
Manuel Nunes

Passado um ano sobre a conclusão deste livro a crítica do Manuel Nunes despertou-me para ele.
Vem de novo a propósito esta ideia recorrente, que muitas vezes me assalta, de que somos feitos de duas metades: aquela que nós percepcionamos e a outra, talvez mais importante, que reside naquilo que os outros vêem em nós.
Falta ainda uma "terceira metade", que refiro no livro, e que é o valor intangível das coisas.
Quando alguém mete uma mão tão competente naquilo que escrevemos (que somos?), ficamos libertos de explicações, ganhamos liberdade. Mas ao mesmo tempo sentimo-nos obrigados a olharmo-nos com mais profundidade.
Penso que o meu narrador, inconstante e imperfeito, sou eu.
Nunca quero sobrevalorizar importância de escrever um livro como se isso fosse uma grande coisa, uma tarefa maior e mais nobre do que as vidas que nos rodeiam e que contêm uma grandeza e uma miséria que nunca conseguiremos reproduzir. E se nos conseguirmos aproximarmos delas isso corresponderá sempre a um mérito e a um talento relativos, cuja verdadeira "propriedade" pertence aos donos dessas vidas, aquilo que eles "são", aquilo que fizeram de nós.
Apropriamo-nos despudoradamente de outras vidas, de outras histórias e fazemos delas uma coisa nossa:
... "e já será um privilégio se alguém se reconhecer nelas e disser "é isso que eu sou" , ainda que se não reconheça naquilo que acabou de ler"...
Como diz o Manuel já tudo foi testado e inventado. É por isso que privilegio o plano das emoções e das convicções nunca o da verdade, e da segurança que é sempre uma presunção.
Essa é a história do meu "honesto" narrador.

1- Este livro tem três pontas: o enfrentar das paixões, a procura do carácter e a prepotência(?) do acaso.
Sobre as paixões é preciso não fugir delas com o pretexto de "não sofrer". É bom usá-las, gastá-las, vivê-las para podermos sair delas mais estóicos e mais felizes. Elas não são a razão de viver mas são uma boa razão para viver. "Amar é preciso, viver não é preciso". Perseguirei sempre as paixões nos meus livros.

2- O carácter é outra ponta. Ele não corresponde a coisas formais e tangíveis como a verdade e a honestidade. É antes um acerto com os condicionalismos da nossa existência, com a definição da nossa posição no mundo, com a busca de um equilíbrio que sejamos capazes de afirmar e defender.
Contém a permeabilidade à aprendizagem, à busca de sabedoria, à consonância com o instinto, ao assumir do erro, ao confronto com as nossas forças e fraquezas.
Pedro Olivares procurava esse carácter.

3- A nossa vida constrói-se nas entrelinhas do acaso.
O nosso intelecto é uma brincadeira de crianças.
As imagens que acumulamos arrastam-nos para a ideia de alma.
Estamos no dia 1 da humanidade e temos à nossa frente um puzzle para adultos. E já descobrimos que lhe faltam peças.
Trocar um Deus ausente por um acaso omnipresente, trágico e divertido, pode ser bom negócio.

Carlos Daniel