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14 de maio de 2018

Que sabemos nós disso?...

«"Fazíamos prisioneiros, trazíamo-los ao acampamento... Não eram fuzilados, seria para eles uma morte demasiado fácil, matávamo-los como porcos com varetas de espingardas, cortávamo-los em pedaços. Ia ver isso... Ansiava por isso! Esperava o momento em que os olhos lhes começassem a rebentar de dor... As pupilas...
O que é que sabe disso?! Eles queimaram a minha mãe com as minhas irmãzinhas numa fogueira no meio da aldeia..."» Svetlana Alexievich, A Guerra não Tem Rosto de Mulher (1985), trad. Galina Mitrakhovich, Lisboa, Elsinore, 2016, p. 36.


1 de março de 2018

das implicações da leitura

«Tenho pena dos que vão ler este livro e dos que o não o vão ler...» Svetlana Alexievich, A Guerra não Tem Rosto de Mulher (1985), trad. Galina Mitrakhovich, Lisboa, Elsinore, 2016, p. 33.

12 de janeiro de 2018

o passado é outro país

«Acabo de receber a seguinte carta: "Nós, os velhos, temos uma vida difícil... Mas não sofremos por causa das pensões pequenas e humilhantes. O que mais nos magoa é sermos expulsos de um grande passado para um presente insuportavelmente pequeno. Já ninguém nos convida para discursar nas escolas, nos museus, já não fazemos falta. Nos jornais, os nazis são cada vez mais nobres, e os soldados vermelhos cada vez mais hediondos."» Svetlana Alexievich, A Guerra não Tem Rosto de Mulher (1985), trad. Galina Mitrakhovich, Lisboa, Elsinore, 2016, p. 32.

13 de novembro de 2017

da coragem

«A coragem na guerra e a coragem do pensamento são duas coragens diferentes. E eu julgava que eram a mesma.» Svetlana Alexievich, A Guerra não Tem Rosto de Mulher (1985), trad. Galina Mitrakhovich, Lisboa, Elsinore, 2016, p. 29.

11 de outubro de 2017

"Percebi que as mulheres têm maior dificuldade em matar."


«A sensação insuportável de que não se quer morrer está sempre no centro. Ter de matar é ainda mais insuportável porque a mulher dá vida. Doa-a. Transporta-a longamente dentro de si, cria-a, desfaz-se em cuidados. Percebi que as mulheres têm maior dificuldade em matar.» Svetlana Alexievich, A Guerra não Tem Nome de Mulher (1985), trad. Galina Mitrakhovich, Lx., Elsinore, 2016, p. 24.

12 de setembro de 2017

1944, DESFILE DE 60000 PRISIONEIROS DE GUERRA ALEMÃES NAS RUAS DE MOSCOVO - Este o filme referido pela nossa colega Maria José na última sessão


historiadora da alma

fonte
«Não escrevo sobre a guerra, mas sobre o ser humano na guerra. Não escrevo a história da guerra, mas a história dos sentimentos. Sou historiadora da alma. Por um lado, estudo um homem concreto que vive num tempo concreto, tendo participado em acontecimentos concretos, por outro, preciso de descobrir um homem eterno. A trepidação da eternidade. O que sempre existe no homem.»

Svtelana Alexievich, A Guerra não Tem Rosto de Mulher, trad. Galina Mitrakhovich, Lisboa, Elsinore, 2016, pp. 21-22.

5 de setembro de 2017

A GUERRA NÃO TEM ROSTO DE MULHER - Notas de leitura

- querer devorar o livro, mas, ao contrário de outros que ficam no palato como um vinho bom quando o estilo é superior, ou se debicam continuamente como um petisco num fim de tarde de praia, sem querer nem saber como parar a leitura, querer e não querer que esta acabe, tal a pressão psicológica a que somos sujeitos;

- testemunho indirecto da saga da mulher soviética de armas (e outros artefactos) na mão, enfrentando o invasor germânico, uma miríade de histórias pessoais e contraditórias, tendo por comum pano de fundo a bestialidade da guerra e sofrimento generalizado. Por vezes, uma centelha de humanidade, o milagre da humanidade no meio do inferno que os homens engendram;

- A Guerra não Tem Rosto de Mulher (1985), de Svetlana Alexievich pertence àquela categoria de obras que nos retratam cruamente, como realmente podemos ser em situações-limite. No testemunho pode emparceirar com Se Isto É um Homem (1947), de Primo Levi, ou O Arquipélago Gulag (1973), de Alexander Soljenitsin; em ficção, podemos verificar uma clima opressivo correspondente em narrativas de inspiração autobiográfica, como A Oeste Nada de Novo (1929), de Erich Maria Remarque, ou A Selva (1930), de Ferreira de Castro, ou ainda a desesperança sórdida da Viagem ao Fim da Noite (1932), de Céline;

- forma superior de jornalismo, é já literatura, uma literatura para a História.

31 de agosto de 2017

UMA PÁGINA...

"Correu o rumor de que os alemães tinham trazido à vila os nossos prisioneiros e quem reconhecesse os seus poderia levá-los. As nossas mulheres levantaram-se, correram para lá! À noite, umas trouxeram os seus, e outras trouxeram estranhos, contaram coisas inacreditáveis: as pessoas apodreciam vivas, morriam de fome, comeram todas as folhas das árvores... Comiam erva... Cavavam raízes... No dia seguinte, corri para lá também, não encontrei nenhum familiar, pensei que podia salvar o filho de alguém. Reparei num moreninho. Chamava-se Schakó, como agora o meu netinho. Tinha uns dezoito anos... Dei a um alemão toucinho e ovos, jurei: «É o meu irmão.» Fiz sinais da cruz. Chegámos a casa, ele não era capaz de comer um ovo, tão fraco estava. Não passou um mês sequer de estar connosco, apareceu um canalha. Vivia como outros, era casado, com dois filhos... Foi ao comando alemão e denunciou-nos, que tínhamos trazido gente estranha. No dia seguinte, os alemães vieram de moto. Suplicámos, caímos de joelhos, mas eles enganaram-nos, disseram que iam levá-los para mais perto das suas casas. Dei ao Schakó o fato do meu avô... Pensava que ele iria viver...
Levaram-nos para fora da aldeia... E abateram-nos a tiros de pistola metralhadora... Todos. Todinhos... Eram jovens, bonitos!"

A GUERRA NÃO TEM ROSTO DE MULHER, pg. 324-325

(A escritora (ou a testemunha) chamou canalha ao delator. É pouco. Ando aqui à procura de palavra mais adequada... Talvez não haja. Os inventores da língua talvez não tivessem conhecido malvadez tamanha...)  

30 de agosto de 2017

uma epígrafe de Óssip Mandelstam,

a abrir os «Excertos do diário» de A Guerra não Tem Nome de Mulher (1985), de Svetlana Alexievich:

                                                        Milhões de mortos ao desbarato
                                                        Trilharam o seu caminho nas trevas...

fonte