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24 de outubro de 2011

OUTONO DA ALMA, Fátima Pitta Dionísio

Pelas praias desertas ao sol-pôr
Vagueia a minha sombra fugidia.
E nos corcéis do vento o meu cabelo
Esvoaça ao sabor da tarde fria.
E no abandono dos areais lisos
A espuma vem de longe desmaiar...
Recolhem as gaivotas às cavernas
Enquanto o pescador vai para o mar.

Descerra a noite a ponta do seu manto
Sobre a terra nessa hora de magia
E as rochas vão batendo contra as rochas
Enquanto o sino canta o fim do dia.
E na solidão da praia deserta
E no escuro da noite sem luar
O Outono da minha alma se apodera
E eu caio sobre a areia a soluçar.

Da Ilha que Somos, coordenação e prefácio de A. J. Vieira de Freitas, Funchal, Câmara Municipal, 1977, p. 45.

(lido numa sessão de 2011)

14 de outubro de 2011

CECÍLIA COBRA, António Quintela Proença

Cecília me chama a minha mãe
Todos os outros cobra

Vivo no ilhéu de Câmara de Lobos
Há nove anos crescida descalça
E já fui duas vezes ao Funchal

Moro na «galaria»
São 25 quartos para 25 famílias
E 3 retretes ao lado
Nós somos 9, aqueles 6, aqueles 8
 
Sou a décima-quarta de 16 filhos de um pescador
Companheiro sem barco

Não ando na escola
A senhora diz que só para o ano vai haver sala para todos
 
O meu pai quando vem bêbado
Dá-me com cada malha
Que me mijo toda
Mas quando não, traz peixe e é bom

Sei dizer dinheiro em todas as línguas
Para pedir aos senhores bonitos e bem vestidos que cá vêm
Mesmo aos senhores do Funchal

A gente pede em inglês
Se não, não dão
Lavo-me ao domingo para ir à missa
E se lá não vou, a minha mãe dá-me porrada que me desfaz
 
O mar é a nossa horta
 
Quando troveja
A minha mãe reza e grita
Mas quando o mar alteia e quase galga a rocha
Ela diz «diabos o levem, era um freguês a menos na tasca»

Dormimos os 9 no mesmo quarto
Às vezes o meu pai manda-nos para a rua
Já tenho espreitado pela fechadura

Justiça é vir o polícia e levar a gente presa

Outro dia um homem de barbas disse que tinha o 5º. ano
Mas logo vimos que não podia ter:
Fumava Santa Maria

A minha irmã mais velha tem 4 filhos
E já anda outra vez de barriga
Ontem ouvi-a dizer para a minha mãe:
«O que mais me custa é pensar que vou ter o filho
por causa do abono»

Todos os turistas tiram retratos
Aos socalcos da vinha
Que sobem da Vila do Pico
Dizem que é lindo
O verde moço
Com que agora estão
Mas eu não vejo...
O verde mora nas vivendas do Funchal
O meu pai diz que bom para o pescador
Foi Marcelo Caetano
Tirou a guarda fiscal e deu os abonos
Nós andamos sujos
Somos tontos e falamos mal
Comemos o milho com a cebola
Se na loja fiarem
O peixe não do fino
Pior estão os filhos dos vilões
Que já têm de trabalhar nas fazendas
 
As mulheres do Ilhéu invejam a mãe da Goreti
Depois que lhe morreu o homem no mar
Recebe agora dinheiro
Como nunca antes
E não atura borracheiras.
Mas eu cá ficava triste
Se o meu pai morresse

Da Ilha que Somos, coordenação e prefácio de A. J. Vieira de Freitas, Funchal, Câmara Municipal, 1977, pp. 29-33.

(lido na sessão de 1 de Julho de 2011)

11 de outubro de 2011

AMAR, Ana Paula Rosa Soares

É ter sede e querer beber
É estar fraco e com força
É ter tudo e querer sempre mais
É sentir fogo e não arder
É chaga aberta sem doer
É ganhar sem conta
É sem conta perder
É dar ao frio o maior calor
É fingir sempre que não é amor
É estar longe e estar perto
É ver água no mais seco deserto
É julgar o incerto sempre certo
É estar cego sem querer ver
É ser tudo e nada ser
É, enfim, estar morto e não querer viver.

Da Ilha que Somos, coordenação e prefácio de A. J. Vieira de Freitas, Funchal, Câmara Municipal, 1977.

(lido numa sesão de 2011)

4 de outubro de 2011

FRÉMITO LITERAL, António Duarte Camacho de Brito Figueirôa

frémito literal ou palavra tressuada
a morder as gengivas deputadas

um olhar crepe rés ao barro
a terra entumescida o sexo venal
o gesto afásico nos contornos flácidos
da várzea informe

palavra desconhecida inventada
o estrépito adstrito
vagalhão real
a pedra revolta
palavra desenhada para ser esquecida

recordação migratória em que te embalas
nas profundezas da madrugada
sublime o entendimento
em que arrastas o foco
do regozijo baço:
é um tempo quebrado ao longo
das portas que já não abrigam o movimento
enquanto a dor se refresca num largo voo

frémito literal ou palavra tressuada
a morder as gengivas deputadas

um sangue que acaricia ao ritmo
dum olhar que passa
o grito duma terra indecisa
a força da memória derrotada pelo lamento
nu e húmido

na fronte o vil metal
na boca o pão sem sal: frémito

Da Ilha que Somos, coordenação e prefácio de A. J. Vieira de Freitas, Funchal, Câmara Municipal, 1977, p. 17.
(lido numa sessão de 2011)