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29 de novembro de 2019

o início de O INSTINTO SUPREMO

«Com os remos a chapejarem surdamente, cautelosos como os dos ladrões, nas proas um ruído fino, menor ainda que o dos botos cortando a tona da água, as canoas meteram a terra.» Ferreira de Castro, O Instinto Supremo [1968], 6.ª ed., Lisboa, Guimarães Editores, 1988, p. 21.

30 de setembro de 2019

O INSTINTO SUPREMO



"-Tinha ouvido dizer que você era criado de bordo até vir para cá...
- Fui. Pouco tempo - tornou Manga Verde, com secura, como se lhe desagradasse aquela intervenção. Logo, porém, o seu rosto, longo e oval, na boca o espaço vazio de três dentes emigrados da frente, se abriu de novo. - É, ainda outro dia me estava a lembrar dessas coisas, quando se falava da loja de seu Lobo, em Três Casas. Você ouviu? Diferentes as coisas, mas parecidas. Quando eu era curumim, também havia uma loja diante da minha casa, em Manaus, mesmo diante, diante. Não mercearia, nem de dono de seringal, não. Loja pequena, de sírio, que tinha sido mascate. Fazendas, não sei que mais, brinquedos, pouca mercadoria. Havia um tambor pequeno e bonito, como esse dos brindes. Eu queria ele, mamãe não dava dinheiro, não tinha, e eu pensava que quando fosse homem também havia de ter uma loja. Loja maior, muita coisa, muitos brinquedos. Pensava, mas duvidava.
Calou-se um instante, olhou ao longe, como se fosse das cristas da floresta que a sua memória, voando, lhe acudisse melhor:
- Aos dezassete anos é que fui para criado de bordo. Para o «Japurá». Viu algum dia essa gaiola?
Etelvino hesitou:
- Há tantos vapores... Mas tenho uma ideia... Não era um de cano amarelo, com barra preta? Um pequeno, que ia para o Purus, para o Juruá...
Esse! Não era grande como um vaticano, não, mas também não era assim nenhuma lancha. Comida, muita e boa. Mas ordenado de moleque."

***

 Sempre a mesma mestria na construção da narrativa. Parece que tudo foi planeado ao pormenor, antes de começar a escrever. E sempre uma qualidade literária inquestionável.
Penso que a volta ao nosso patrono FC pode e deve ser um motivo para a enchente da sala, que tão desfalcada tem andado.
Até sexta-feira!
FF

20 de maio de 2015

Sérgio Luís de Carvalho fala sobre O INSTINTO SUPREMO

Sérgio Luís de Carvalho, Prémio Ferreira de Castro de Ficção Narrativa / 1989 
com o romance Anno Domini 1348
«Ler Ferreira de Castro, 40 anos depois»
22 de Maio, sexta-feira, pelas 19 h.
no
Musa - Museu das Artes de Sintra
tel: 219238828


capa da 1.ª edição (1968)
vinheta da capa de Artur Bual


3 de maio de 2015

MANOEL DE OLIVEIRA E FERREIRA DE CASTRO


Ver, entre 40:40 e 41:10, as imagens em que aparece o livro "O Instinto Supremo". -- Conforme informação do Prof. Pedro Calheiros, ontem, nos III ENCONTROS FERREIRA DE CASTRO.

6 de abril de 2013

Os Fragmentos -- Um Romance e Algumas Evocações

Livro híbrido, como indica o subtítulo, completando a designação principal da obra: fragmento, o que ficou estilhaçado, o que não se completou. Trata-se de um melancólico acerto de contas de Ferreira de Castro com uma parte do trabalho literário (e também jornalístico) que a Censura suprimiu.
Morto em 29 de Junho de 1974, o percurso do autor de A Selva foi marcado por essa circunstância, de Emigrantes (1928) a O Instinto Supremo (1968) -- e mesmo estes fragmentos tiveram de aguardar pela revolução do 25 de Abril para que pudessem ver a luz do dia.
Foi importante termos lido no ano passado os textos dos Ecos da Semana, crónicas publicadas  no suplemento de A Batalha, entre 1924 e 1926, para verificarmos que, descontado o arrebatamento quase juvenil desses escritos anarquistas, Ferreira de Castro, se manteve visceralmente libertário.
Presumo que ele soubesse que este livro não acrescentaria nada à relevância da sua obra literária e do lugar que ela ocupa na ficção narrativa portuguesa novecentista; mas fora-lhe um imperativo a subtracção desses textos ao esquecimento:
     O Intervalo, o tal romance com pano de fundo na Revolta da Andaluzia (1931), que fazia parte dum painel mais vasto, intitulado «Biografia do Século XX», nunca concretizado, com pretexto para a contextualização epocal em «Origem de "O Intervalo"»;
     «O Natal em Ossela», inofensivo (ou nem por isso...) conto alusivo à quadra, que não escapou ao lápis azul, motivando uma importante reflexão a propósito do sentido de pertença a essa «Aldeia Nativa», para além dos artifícios nacionalistas;
     o sensacional «Historial da Velha Mina», evocação duma reportagem nunca publicada junto dos homens das Minas de São Domingos, exploradas por capital britânico; e sensacional, acima de tudo, pela extrema contensão do tom castriano, característica da generalidade da sua escrita madura.
Os Fragmentos são, pois, a um tempo, testemunho, (re)afirmação de um ideário e de uma concepção da literatura impregnada de sentido no tempo que lhe coube.