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1 de agosto de 2019

IP 2

Oito óbitos por quilómetro
é muito insecto esborrachado no
no pára-brisas.


São muitas vidas.
É muita abelha, muita borboleta,
muito mosquito.


Mas tu não és menos chegado ao finito
e o mais certo é que andes distraído
de que há um vidro


entre ti e o horizonte.


Rui Lage, Estrada Nacional, Lisboa, IN-CM, 2016, p. 32.

22 de fevereiro de 2019

CM 1339 - Serranilha das bombas de Candedo

A estrada é serrana, erma, ventosa;
vi venir senhora obesa, torpe, andrajosa.

Vi-a venir detrás de barraca indecorosa;
cheguei-me per'ela com grã cortesia.

Cheguei-me per'ela de grã cortesia,
disse-lhe: senhora, tendes gasolina?

Disse-me: forasteiro, segui vossa via,
aqui só temos gasóleo agrícola.


Rui Lage, Estrada Nacional (2015)

30 de dezembro de 2018

PARA ACICATAR OS INDECISOS...


CM 1122

A pele dos estofos é ainda a tua,
e o calor do banco dianteiro.

Radiador vazio,
o meu coração sobreaqueceu.

Desço o vidro e ponho a cabeça de fora
a ver se o vento ma limpa
ou ma leva.

O gelo reluz no asfalto.

O cigarro que lhe atiro:
há instantes apenas acendido
pela tua mão soberana,
provinciana, emigrante.

A pele dos estofos é ainda a tua,
e o calor do banco dianteiro

e a minha alma um cinzeiro
que não posso despejar.

(Estrada Nacional, Rui Lage, pag. 29)

24 de outubro de 2018

CANÇÃO SEGUNDA, Manuel Alegre

Canto de pé no meio do país amado.
Os ventos tristes batem no meu rosto
batem no meu poema as vozes muito antigas
de não sei que desgosto sempre tão cantado
nas cantigas nocturnas do país amado.

Eu cantarei os homens assentados
nas cadeiras de chuva sobre a dor.
Dos nervos do meu canto lançarei mil dardos
eu cantarei o amor e os ombros libertados
de seus fardos. Que eu vi na dor os homens assentados.

Deixai-me ouvir os homens que falam tão baixo.
Porque não sei trair a honra de cantar deixai-me
cantar meu povo onde meu povo não cantar.
Eu quebrarei qualquer açaime e do luar farei um facho
para encher de luar os homens que se queixam baixo.

Canto de pé no meio do país amado.
Outros falem de si tecendo a frágil dor
deitados no poema entre cortinas e almofadas.
Eu cantarei o amor que sempre foi negado
às gentes ignoradas do país amado.



Praça da canção (1965), 4. ª ed., Mem Martins, Publicações Europa-América, 1979, p. 45.


Prisioneiro da pide em Luanda, c. 1963



3 de julho de 2018

de PRAÇA DA CANÇÃO (Manuel Alegre)

APRESENTAÇÃO


Cantar não é talvez suficiente.
Não porque não acendam de repente as noites
tuas palavras irmãs do fogo
mas só porque as palavras são
apenas chama e vento.
E contudo canção
só cantando por vezes se resiste
só cantando se pode incomodar
quem à vileza do silêncio nos obriga.

Eu venho incomodar.
Trago palavras como bofetadas
e é inútil mandarem-me calar
porque a minha canção não fica no papel.
Eu venho tocar os sinos.
Planto espadas
e transformo destinos.
Os homens ouvem-me cantar
e a pele
dos homens fica arrepiada.
E depois é madrugada
dentro dos homens onde ponho
uma espingarda e um sonho.

E é inútil mandarem-me calar.
De certo modo sou um guerrilheiro
que traz a tiracolo
uma espingarda carregada de poemas
ou se preferem sou um marinheiro
que traz o mar ao colo
e meteu um navio pela terra dentro
e pendurou depois no vento
uma canção.

Já disse: planto espadas
e transformo destinos.
E para isso basta-me tocar os sinos
que cada homem tem no coração.


30 de agosto de 2017

uma epígrafe de Óssip Mandelstam,

a abrir os «Excertos do diário» de A Guerra não Tem Nome de Mulher (1985), de Svetlana Alexievich:

                                                        Milhões de mortos ao desbarato
                                                        Trilharam o seu caminho nas trevas...

fonte

29 de dezembro de 2015

ÀS CHAGAS, Frei Agostinho da Cruz

Divinas mãos e pés, peito rasgado,
Chagas em brandas carnes imprimidas,
Meu Deus, que, por salvar almas perdidas,
Por elas quereis ser crucificado.

Outra fé, outro amor, outro cuidado,
Outras dores às Vossas são devidas,
Outros corações limpos, outras vidas,
Outro querer no Vosso transformado.

Em vós se encerrou toda a piedade,
Ficou no mundo só toda a crueza,
Por isso cada um deu o que tinha:

Claros sinais de amor, ah, saudade!
Minha consolação, minha firmeza,
Chagas do meu Senhor, redenção minha.

in José Régio, Poesia de Ontem e de Hoje para o Nosso Povo Ler, Lisboa, Campanha Nacional de Educação de Adultos, 1956, pp. 24-25.
Lido na sessão de 4 de Dezembro de 2015.

19 de agosto de 2015

MANHÃS DE INFÂNCIA


Ter-te nas mãos em concha ó Serra
de Sintra verde pomba mansa de heras
manhãs de infância hibernadas
pitosporo a exalar primaveras
paralelas obsessivas derramadas
no tempo escorregadio voz e violino rosto à janela
manto inconsútil nómada sobre castelo e bosques
morrinha orvalho lágrima chorada
pelo coração do mar.



SEM MOLDURA
Maria Almira Medina


6 de julho de 2015

À NOITE DE NATAL, Frei Agostinho da Cruz


Era noite de inverno longa e fria,
Cobria-se de neve o verde prado;
O rio se detinha congelado,
Mudava a folha cor, que ter soía.

Quando nas palhas duma estrebaria,
Entre dois animais brutos lançado,
Sem ter outro lugar no povoado
O Menino Jesus pobre jazia.

-- Meu amor, meu amor, porque quereis
(Dizia Sua Mãe) nesta aspereza
Acrescentar-me as dores que passais?

Aqui nestes meus braços estareis;
Que, se Vos força amor sofrer crueza,
O meu não pode agora sofrer mais.


Poesias Selectas de Frei Agostinho da Cruz, edição de Augusto C. Pires de Lima, 2.ª ed., Porto, Editorial Domingos Barreira, s.d., pp. 41-42.

(lido na sesão de 3 de Julho de 2015)




13 de junho de 2015

A propósito de uma efeméride... (13 de Junho de 1888)



Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.

É tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho,
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto maias longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.



9 de junho de 2015

CÍRCULO VICIOSO, Machado de Assis












Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
- Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
que arde no eterno azul, como uma eterna vela !
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

- Pudesse eu copiar o transparente lume,
que, da grega coluna á gótica janela,
contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela !
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

- Misera ! tivesse eu aquela enorme, aquela
claridade imortal, que toda a luz resume !
Mas o sol, inclinando a rutila capela:

- Pesa-me esta brilhante aureola de nume...
Enfara-me esta azul e desmedida umbela...
Porque não nasci eu um simples vaga-lume?

in Evaristo Pontes dos Santos, Antologia Portuguesa e Brasileira, Porto, 1974, p. 84
(lido na sessão de 5 de Junho)

31 de janeiro de 2015

EURICO DE SOUSA, POETA





Nasceu no Funchal em 1933. Foi arquitecto e professor do ensino secundário. Poeta, pertenceu à geração de 50, a de Herberto Helder, com quem conviveu de perto. A sua obra poética está representada em A Festa Sendo em Agosto (1980), com ilustrações da inspiradíssima pintora Alice de Sousa, sua irmã , e Disgrafia Florestal (1995) . Surge, também, em vários livros colectivos: O Natal na Voz dos Poetas Madeirenses (1989); Poet’Arte 90; Olhares Atlânticos/Poesia da Ilha (mostra das artes e letras da Madeira, BN, 1991); e, na antologia Ilha-5,(2008) com um núcleo de poemas denominados As marés como vínculo da memória.   

 Conviveu com a minha geração, no segundo lustre da década de 70. Participou connosco nas Exposições de Poesia Ilustrada, no Teatro de Baltazar Dias, no Funchal. Manteve na década de 80 na RDP-Madeira um programa, importante, para a divulgação e reflexão da poesia moderna integrando nesta as vertentes da poesia insular portuguesa  lendo aos microfones desta estação emissora os seus elucidativos ensaios.  

 Direi, numa opinião muito pessoal, que, a sua poesia faz lembrar algum Helder: a exploração das imagens em movimento, o objecto-poema,  os objectos no espaço e no tempo, a tensão que se estabelece entre criador e leitor onde os seres e as coisas evoluem.  Helder, em carta que lhe escreveu em 1980 disse ser Eurico de Sousa “ um dos pouquíssimos poetas vivos portugueses” na medida em que o poeta refaz imperativamente o mundo. Por sua vez, Frias Martins, em 1984,  considerou-o, de uma discursividade redundante (Poesia em Portugal 1974-1984, Leitura de uma década).

 Aqui, fica em sua homenagem, de A Festa Sendo em Agosto um poema,

A Cor

“Ora se nos é dada a mobilidade das lâmpadas//roçagantes anémonas//entre o casario iluminando-o/rápida luz descendo a terra contornando/os sulcos da alegria cavalgando até ao mar// Protege-te do sol maldito – vês como tudo volta/ao silêncio? Esta visão se sobrepõe ao teu corpo/Seres e coisas se movem vertiginosamente/troca-se os pares dispõem-se as janelas/Rotativo é o céu por sobre as nossas cabeças//ondulam os barcos no porto ondulam//o sangue hibernante”.

Ontem o telefone tocou. A voz da escritora Irene Lucília anunciou-me que o poeta escolheu as nuvens para morada dos seus poemas.                                                         

29 de janeiro de 2015

de Bertolt Brecht



Estes que aqui vêem
são os delatores. Por três vinténs
vendem seu vizinho.
Que são conhecidos
bem no sabem; mas a gente
lembrar-se-á sempre?
A noite dormem-na mal --
-- muitos dias há
antes do dia final.

Poema em epígrafe ao quadro «A denúncia», in O Terror e a Miséria no terceiro Reich, tradução de Fiama Hasse Pais Brandão, Lisboa, Portugália Editora, s.d., p. 13,

23 de janeiro de 2015

Em Todas as Ruas te Encontro, Mário Cesariny

Kai Ziehl
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo...
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco


 in "Pena Capital" 

Renata Correia BotelhoLido


Lido na sessão de 21 de Janeiro.

Seremos sempre cinco, José Luís Peixoto


Lido na sessão de 21 de Janeiro.

Ruy Cinatti


Lido na sessão de 21 de Janeiro.

15 de dezembro de 2014

IN MEMORIAM, José Carlos Ary dos Santos

Requiem aeternum dona eis,
                                                                                                                                                                         Domine, et lux perpetua
                                                                                                                                                                                         luceat eis.»

Que a terra lhe seja pesada.
Que lhe apodreça o corpo e os olhos fiquem vivos,
Se lhe soltem os dentes e a fome fique intacta
E a alma, se a tiver, que lha fustigue o vento
E arrase com ela a memória gravada
Na lembrança demente dos que o choram.

Que a mulher que foi dele oiça o vento na noite,
Cheio de ossos e uivos
E garfos aguçados
E que reparta o medo com o primeiro intruso
E o vento se insinue pelas portas fechadas
E rasteje no quarto
E suba pela cama
E lhe entre no olhar como estiletes de aço
Lhe penetre os ouvidos como agulhas de som,
Lhe emaranhe os cabelos como um nó de soluços,
Lhe desfigure o rosto como um ácido em chama.

Que a mulher que foi dele oiça o vento na noite,
Que a mulher que foi dele oiça o vento na cama!

Que o nome que era o seu o persigam os ecos,
O gritem no deserto as gargantas com sede,
O murmurem no escuro os mendigos com frio,
O clamem na cidade as crianças com fome,
O soluce o amante de súbito impotente,
O maldigam no exílio as almas sem descanso

Que o nome que era o seu seja a bandeira negra,
A pálpebra doente,
O vómito de sangue..

Que o gesto que era o seu o imitem as mães
Que se torcem de dor quando abortam nas trevas,
O desenhem a lume os braços amputados,
O perpetue o esgar dos jovens mutilados,
O dance o condenado que morre na fogueira.

Que o gesto que era o seu seja o punhal do louco
A arma do ladrão
A marca do vencido.

Que o sangue que era o seu seja o rictus da tara,
A máscara de sal,
A vingança do pobre.
E que o Exterminadsor, no seu trono de enxofre,
O faça tilintar os guizos da tortura
Até que o mundo o esqueça
E mais ninguém o chore.


José Carlos Ary dos Santos, A Liturgia do Sangue (1963) / Obra Poética, edição de Francisco Melo, 6.ª edição, Lisboa, Edições «Avente!», 2002.
(lido na sessão de 4.ª feira, 19 de Novembro de 2014)

2 de dezembro de 2014

QUEIXA E IMPRECAÇÕES DUM CONDENADO À MORTE, José Carlos Ary dos Santos

Por existir me cegam,
Me estrangulam,
Me julgam,
Me condenam,
Me esfacelam.
Por me sonhar em vez de ser me insultam,
Por não dormir me culpam
E me dão o silêncio por carrasco
E a solidão por cela.
Por lhes falar, proíbem-me as palavras,
Por lhes doer, censuram-me o desejo
E marcam-me o destino a vergastadas
Pois não ousam morder o meu corpo de beijos.


Passo a passo os encontro no caminho
Que os Deuses e o sangue me traçaram.
E negando-me, bebem do meu vinho
E roubam um lugar na minha cama
E comem deste pão que as minhas mãos infames amassaram
Com angústia e com lama.


Passo a passo os encontro no caminho.
Mas eu sigo sozinho!
Dono dos ventos que me arremessaram,
Senhor dos tempos que me destruíram,
Herói dos homens que me derrubaram,
Macho das coisas que me possuíram.


Andando entre eles invento as passadas
Que hão-de em triunfo conduzir-me à morte
E as horas que sei que me estão contadas,
Deslumbram-me e correm, sem que isso me importe.


Sou eu que me chamo nas vozes que oiço,
Sou eu quem se ri nos dentes que ranjo,
Sou eu que me corto a mim mesmo no pescoço,
Sou eu que sou doido, sou eu que sou anjo.


Sou eu que passeio as correntes e as asas
Por sobre as cidades que vou destruindo,
Sou eu o incêndio que lhes devora as casas,
O ladrão que entra quando estão dormindo.


Sou eu quem de noite lhes perturba o sono,
Lhes frustra o amor, lhes aperta a garganta.
Sou eu que os enforco numa corda de sonho
Que apodrece e cai mal o sol se levanta.


Sou eu quem de dia lhes cicia o tédio,
O tédio que pensam, que bebem e comem,
O tédio de serem sem nenhum remédio
A perfeita imagem do que for um homem.


Sou eu que partindo aos poucos lhes deixo
Uma herança de pragas e animais nocivos.
Sou eu que morrendo lhes segredo o horror
De serem inúteis e ficarem vivos.



José Carlos Ary dos Santos, A Liturgia do Sangue (1963) / Obra Poética, edição de Francisco Melo, 6.ª edição, Lisboa, Edições «Avente!», 2002.
(lido na sessão de 4.ª feira, 19 de Novembro de 2014)