2 de dezembro de 2011

valter hugo mãe fotografado por Nélio Paulo

Jaime Ramos e Isaltino de Jesus

As personagens Jaime Ramos e Isaltino de Jesus são dois detectives da Polícia Judiciária. Incumbidos por Francisco José Viegas de resolver os mais variados crimes, veêm-se agora na contigência de serem personagens "roubados" por valter hugo mãe. E esta, hein?

Romances Protagonizados por Jaime Ramos e Isaltino de Jesus
  • Crime em Ponta Delgada (1989)
  • Morte no Estádio (1991)
  • Um Crime na Exposição (1998)
  • Um Crime Capital (2001)
  • Longe de Manaus (2005)
  • A Poeira que cai sobre a Terra (2006)
  • O Mar em Casablanca (2009)

valter hugo mãe internaútico

O Esteves sem Metafisica

...
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
...
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
A Tabacaria, Álvaro de Campos, 15-1-1928

24 de novembro de 2011

despojamento

Era uma pequena casa de camponeses. Uma casa nua, onde só estavam escritos os gestos da vida. Havia uma cozinha e dois quartos. Num rebordo da parede de cal estava colocada uma imagem; em frente da imagem ardia uma lamparina de azeite; ao lado, alguém poisara um ramo de flores bentas na Páscoa.

Sophia de Mello Breyner Andresen, «A viagem», Contos Exemplares, Lisboa, Portugália Editora, s.d., pp. 90-91.

22 de novembro de 2011

grande prosa de altíssimo poeta

A filhita do carvoeiro, bonita e suja como uma moeda, brilhantes os olhos negros e rebentando sangue os lábios pretos entre a fuligem, está à porta da choça, sentada numa telha, adormecendo o irmãozinho.

Juan Ramón Jiménez, Platero e Eu, tradução de José Bento, Lisboa, Livros do Brasil, s.d., p. 57.

16 de novembro de 2011

no país da infância

     Estendido onde a sombra lhe parecera mais agradável, Manuel da Bouça seguia o trabalho da ave e recordava o tempo da infância, já distante, em que vasculhava veigas e montes à busca de ninhos, só pelo prazer de os descobrir e disso se vangloriar ante o rapazio do lugarejo. Outrora não teria hesitado e, zape-zape, pinheiro arriba, iria ver em que estado se encontrava o novo berço e voltaria, depois, pelos ovos ou pelas avezitas ainda implumes, as pálpebras cerradas e o biquito glutão semiaberto ante qualquer ruído. Mas, hoje, só se fosse em pinheiro baixo e de gaio ou de rola, que eram bons com arroz.
     Felizes esses tempos em que pastoreava a cabra pelas barrocas, roubava maçãs na quinta do Almeida e seguia, na Primavera, o voo dos pássaros de ramo em ramo!

     Ferreira de Castro, Emigrantes, 24.ª edição, Lisboa, Guimarães Editores, 1988, p. 20.

Saramago, 89

José Saramago nasceu há 89 anos, na Azinhaga, Golegã
(caricatura de Carlín, daqui)

13 de novembro de 2011

fim de festa com panache

Aquele mundo estava a acabar para eles, em África; penso que ninguém ali poria isso em causa não obstante todos os discursos e todo aquele cerimonial; mas estavam todos à vontade, a usufruir do momento, enchendo o velho salão com conversas e risos como quem não se importa, como quem sabe viver com a história. Nunca admirei tanto os portugueses como naquela altura. 

V. S. Naipaul, Uma Vida pela Metade, tradução de Maria João Delgado, 4.ª edição, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2003, p. 174.

8 de novembro de 2011

VOLÚPIA, Florbela Espanca

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frémito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade...
A nuvem que arrastou o vento norte...
-- Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço...
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças...

Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 21.

(lido na sessão de 4 de Novembro de 2011)

7 de novembro de 2011

Saramago despista-se

     Para que não haja dúvidas: sou um admirador de José Saramago, considero-o um grande escritor, um merecido Prémio Nobel. Li seis dos seus romances (Levantado do Chão, Memorial do Convento, O Ana da Morte de Ricardo Reis, Jangada de Pedra, Ensaio Sobre a Lucidez e A Viagem do Elefante), além de As Pequenas Memórias e a peça A Noite. Tenho especial interesse na História do Cerco de Lisboa, O Evangelho Segundo Jesus Cristo e Ensaio Sobre a Cegueira, e também pela peça In Nomine Dei, os três primeiros com anos de espera na minha pilha infinita.
     Começando por referir-me ao que gostei nesta leitura dum livro que não apreciei: o uso rigoroso da palavra; as digressões já não garrettianas mas já muito saramaguianas -- característica própria que nele aprecio; a ironia, o sarcasmo; piscadelas de olho maliciosas ao leitor.
     Tal como não gostei da Jangada de Pedra, um romance desiquilibrado (aliás o próprio escritor admitiu algures o seu falhanço), também este Ensaio Sobre a Lucidez não me satisfez. Saramago a certa altura perdeu a mão, despistou-se, algo que ele também reconhece, lúcido romancista, desta vez no próprio corpo do texto (p. 188).
     A história é conhecida: os eleitores de uma cidade capital, mais de 80%, decidem expressar o seu voto de forma inusitada: depositam na urna o boletim em branco. Em presença estão três força políticas: o partido da direita (no governo), o partido do meio e o partido da esquerda. Os dois primeiro representam o establishment; o último está nele (digamos: pdd=psd[+cds?]; pdm=ps; pde=pcp). A partir daqui, o autor construiu uma trama em que um movimento popular de claras tendências anarquizantes (não esquecer que anarquismo é uma palavra de sentido positivo e nobre, com um laivo de utopia  que nada tem que ver com desordem e vocábulos equivalentes, apesar de se ter generalizado a percepção contrária) afronta dessa forma o poder instituído, que se sente ameaçado e irá ripostar.
     E como riposta, nesta ficção de Saramago, um governo de um sistema demo-liberal? Com a determinação e a violência de uma junta militar chilena, em 1973, ou polaca em 1981. Os freios e contrapesos de um sistema demo-liberal é coisa que não se vislumbra: nem parlamento nem tribunal constitucional, para não falar na imprensa -- a que conta, mancomunada com os interesses do Estado; a que não conta, residual. Existe o governo e o pr, do pdd; o pdm só existe porque o narrador nos afirma que ele existia, mas não passa de uma extensão do primeiro; o pde, o terceiro partido, não está na origem desta sedição eleitoral, mas identifica-se com, e os militantes apoiam-na, que remédio. Não sei se é por ser tão absurda esta parte do romance que o autor nele se perdeu, inflectindo a narrativa numa direcção investigatória e policiária, recorrendo a personagens do Ensaio Sobre a Cegueira, cosidas à trama inicial de uma forma bastante atabalhoada.  Há, portanto, uma incongruência e uma inverosimilhança intrínsecas ao romance que são irreparáveis.
     Sem querer ser injusto, partindo do esquema ideológico do autor, de base totalitária e fundamentalmente antiliberal, a denúncia simplista de uma espécie de ditadura democrática carece de base de sustentação, é inaplicável aos velhos estados democráticos e até aos menos velhos, como o nosso. O próprio sobressalto libertário do povo da cidade fica em suspenso (o que talvez não admire, sendo o anarquismo por alguns qualificado como o mais socialista dos liberalismos ou o mais liberal dos socialismos...). É evidente que quotidianamente assistimos a inúmeros entorses à democracia, que todos os estados democráticos cometem acções que extravasam e violam grosseiramente a legalidade (lembremo-nos dos serviços secretos franceses e do barco da GreenPeace; ou do estado espanhol e os GAL...), e que o poder, regra geral, se exerce antes de tudo para ser conservado. Mas o que é inestimável numa sociedade aberta é, entre outras coisas, a livre circulação da informação; e só ela permite que as populações tomem consciência e resistam aos abusos de poder perpetrados pelos governantes. Como dizia o velho Churchill, não há pior sistema que a democracia, à excepção de todos os outros.
    No fundo, o que quer Saramago com este livro? Denunciar o sistema? Francamente, é pouco.

6 de novembro de 2011

Sophia, 92

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu há 92 anos, no Porto.
(desenho de Árpád Szenes)

3 de novembro de 2011

O REFERENDO

O primeiro-ministro, olhando o ministro do interior e o ministro da defesa, o olhar gelado como naquele dia em que a democracia fora abalada com a votação em branco de mais de oitenta por cento dos eleitores, disse, Então o presidente da câmara vai realizar um referendo, assim se dá mais uma machadada no nosso sistema democrático, Um referendo, qual referendo, perguntou o ministro da defesa, o que comprava submarinos como quem enche o saco das compras de latas de feijão, ao que o ministro do interior respondeu, Um referendo sobre o estado de sítio democrático que foi imposto à capital, então o colega não sabia, Eu não, eu habituei-me a saber das notícias pelos telejornais, mas um referendo, francamente, uma consulta popular, é algo que pode abalar os fundamentos do nosso ordenamento constitucional, é o abrir de uma caixa de Pandora, o fim da nossa querida moeda única e da nossa união nacional, Presidentes da câmara como este, assentiu o ministro do interior, deviam ser imediatamente escorraçados do seio da democracia, interrogados diante do polígrafo, pestíferos que querem dar voz aos brancosos e arruinar os fundamentos da nossa civilização e de todos os estados de sítio democráticos por nós criados para salvação dos povos, amém.

(Texto apócrifo de um ensaio sobre a lucidez)

2 de novembro de 2011

Morte ao Meio-dia, Ruy Belo

No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente tem saúde e assistência cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

O português paga calado cada prestação
Para banhos de sol nem casa se precisa
E cai-nos sobre os ombros quer a arma quer a sisa
e o colégio do ódio é a patriótica organização

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz do dia
pois a areia cresceu e o povo em vão requer
curvado o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer

31 de outubro de 2011

Alcipe, 261

Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre, Marquesa de Alorna, nossa companheira de poesia,
nasceu há 261 anos, em Lisboa
(auto-retrato, Museu de Arte de São Paulo, Assis Chateaubriand)

30 de outubro de 2011

uma epígrafe de Gil Vicente

Mal haya quien los envuelve
Los mis amores;
Mal haya quien los envuelve.

Auto dos Quatro Tempos

(à porta de Os Meus Amores, de Trindade Coelho) 

28 de outubro de 2011

CANÇÃO DO NU, Afonso Duarte

Lindo
Mármore precioso que na alcova
Surpreendi dormindo!
E lindo
À luz dum fósforo, acendido a medo,
Despertou sorrindo.
E, lindo,
Dos olhos as meninas me saltaram
Para o nu que se estava descobrindo.

Linda!
Ficou-se ao desgasalho adormecida,
Ai vida,
Como ainda não vi coisa tão linda.

Linda,
Braços abertos em desnudo amplexo,
Seu corpo era uma púbere mendiga,
E ele é que estava pedindo,
Lindo,
O meu sexo.

Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 13.
(lido na sessão de 7 de Outubro de 2011).

a nossa equipa

Afonso Duarte

27 de outubro de 2011

E nisto:

Os Santos vão bem obrigado, já não é tempo de mártires por aqui. Apesar do ar sofrido com que nos tentam convencer já não tenho dúvida nenhuma de que não vão cair pois já se teriam despencado há séculos desta espécie de palco se as cavilhas os não tivessem atravessado, de lado a lado, contra a plataforma deste andor portentoso.

Carlos Daniel, Foste tu que me escreveste de Sintra?, Queluz, Distribuidora Editora Vral, 2005, p. 19.

26 de outubro de 2011

gosto de tropeçar nisto:

O pálio vai-se distanciando como um majestático elefante, soprando um ligeiro véu de poeira e incenso [...].

Carlos Daniel, Foste Tu que Me Escreveste de Sintra?, Sintra, Distribuidora Editora Vral, 2005, p. 17. 

24 de outubro de 2011

OUTONO DA ALMA, Fátima Pitta Dionísio

Pelas praias desertas ao sol-pôr
Vagueia a minha sombra fugidia.
E nos corcéis do vento o meu cabelo
Esvoaça ao sabor da tarde fria.
E no abandono dos areais lisos
A espuma vem de longe desmaiar...
Recolhem as gaivotas às cavernas
Enquanto o pescador vai para o mar.

Descerra a noite a ponta do seu manto
Sobre a terra nessa hora de magia
E as rochas vão batendo contra as rochas
Enquanto o sino canta o fim do dia.
E na solidão da praia deserta
E no escuro da noite sem luar
O Outono da minha alma se apodera
E eu caio sobre a areia a soluçar.

Da Ilha que Somos, coordenação e prefácio de A. J. Vieira de Freitas, Funchal, Câmara Municipal, 1977, p. 45.

(lido numa sessão de 2011)

20 de outubro de 2011

E esta, hein?

Passava da meia-noite quando o escrutínio terminou. Os votos válidos não chegavam a vinte e cinco por cento, distribuídos pelo partido da direita, treze por cento, pelo partido do meio, nove por cento, e pelo partido da esquerda, dois e meio por cento. Pouquíssimos os votos nulos, pouquíssimas as abstenções. Todos os outros, mais de setenta por cento da totalidade, estavam em branco.
José Saramago, Ensaio sobre a Lucidez, Lisboa, Editorial Caminho, 2004, p. 26.

19 de outubro de 2011

Bébé da semana

Ernest Hemingway

mestria

Tudo nele e dele era velho, menos os olhos, que eram da cor do mar e alegres e não vencidos.

Ernest Hemingway, O Velho e o Mar, tradução de Jorge de Sena, Lisboa, Livros do Brasil, s. d., p. 8.


(imagem daqui)

18 de outubro de 2011

e assim começa AS PEQUENAS MEMÓRIAS

À aldeia chamam-lhe Azinhaga, está naquele lugar por assim dizer desde os alvores da nacionalidade (já tinha foral no século décimo terceiro), mas dessa estupenda veterania nada ficou, salvo o rio que lhe passa mesmo ao lado (imagino que desde a criação do mundo), e que, até onde alcançam as minhas poucas luzes, nunca mudou de rumo, embora das suas margens tenha saído um número infinito de vezes.

José Saramago, As Pequenas Memórias, Lisboa, Editorial Caminho, 2006, p. 11.

15 de outubro de 2011

Ainda a propósito de

A Religiosa de Diderot

algumas notas soltas:

O estilo de base epistolar torna-o diferente do usual e dá-lhe um cunho mais intimista.
Classifico-o como um livro de intenção ou intenções: parece-me evidente que o autor quis demonstrar que, na vida religiosa, por cada madre boa, atinada, perfeita, justa, aparecem 3 vingativas, atrabiliárias, mesquinhas, ambiciosas, maquiavélicas, torpes, imorais, manipuladoras, desequilibradas ou tresloucadas mesmo.
As freiras, por outro lado, são claramente divididas em vocacionadas ou forçadas (aparecem uns bandos que não se sabe bem como foram lá parar). Em qualquer caso tornam-se, pelo ambiente e modo de vida, coscuvilheiras, invejosas, vingativas, aduladoras, manipuláveis.
Nem a freira subscritora da longa missiva, escapa a estes meandros e sombras, também ela vasculhando as movimentações das outras, manipulando, desvendando ou encobrindo, escutando o que não deve, embora se vá posicionando super omnia.
Angélica (e reconheçamos que a simples privação da liberdade de escolha já nos merece todo o apoio e uma dose ilimitada de perdão), passa por aquele tormento todo, sem pegar fogo ao convento (como chega a referir, em determinada altura), sempre acima – vai ela dizendo – de qualquer pecado, pelo menos, dos capitais.
O envolvimento com a última das madres parece-me para além da realidade. Se no início se entende a pureza dos gestos e das intenções – até porque a superiora já se especializara, com assaltos feitos anteriormente e sabia como devia conduzir a ovelha – nos encontros finais em que se sentia “doente, sem forças, com febres”… e não diz o resto, com vinte e poucos anos, parece-me ingenuidade a mais; mesmo depois de os confessores lhe garantirem que aquilo é pecado dos que levam ao inferno.
Nos padres e confessores há também uma ideia preconcebida de os classificar, desde os ingénuos e bondosos sorridentes, aos rigorosos e afáveis, aos frios mas justos, acabando nos sinceros e contundentes… que viram bandido logo que se apanham fora do sistema religioso.
Os advogados – mal afamados, na sociedade atual, surgem representados, aqui por personagem reto, empenhado, desapegado: boa alma.
Finalmente há, de qualquer modo, uma imagem da época – que não quereríamos para nós certamente.
José Marcos Serra, em 2011-09-23

100 anos de Manuel da Fonseca

Manuel da Fonseca, de quem lemos Aldeia Nova,
nasceu há 100 anos, en Santiago do Cacém.

Agustina Bessa Luís, 90 anos

Agustina Bessa Luís, de quem lemos Os Meninos de Ouro,
nasceu há 90 anos, em Vila Meã, Amarante.

14 de outubro de 2011

CECÍLIA COBRA, António Quintela Proença

Cecília me chama a minha mãe
Todos os outros cobra

Vivo no ilhéu de Câmara de Lobos
Há nove anos crescida descalça
E já fui duas vezes ao Funchal

Moro na «galaria»
São 25 quartos para 25 famílias
E 3 retretes ao lado
Nós somos 9, aqueles 6, aqueles 8
 
Sou a décima-quarta de 16 filhos de um pescador
Companheiro sem barco

Não ando na escola
A senhora diz que só para o ano vai haver sala para todos
 
O meu pai quando vem bêbado
Dá-me com cada malha
Que me mijo toda
Mas quando não, traz peixe e é bom

Sei dizer dinheiro em todas as línguas
Para pedir aos senhores bonitos e bem vestidos que cá vêm
Mesmo aos senhores do Funchal

A gente pede em inglês
Se não, não dão
Lavo-me ao domingo para ir à missa
E se lá não vou, a minha mãe dá-me porrada que me desfaz
 
O mar é a nossa horta
 
Quando troveja
A minha mãe reza e grita
Mas quando o mar alteia e quase galga a rocha
Ela diz «diabos o levem, era um freguês a menos na tasca»

Dormimos os 9 no mesmo quarto
Às vezes o meu pai manda-nos para a rua
Já tenho espreitado pela fechadura

Justiça é vir o polícia e levar a gente presa

Outro dia um homem de barbas disse que tinha o 5º. ano
Mas logo vimos que não podia ter:
Fumava Santa Maria

A minha irmã mais velha tem 4 filhos
E já anda outra vez de barriga
Ontem ouvi-a dizer para a minha mãe:
«O que mais me custa é pensar que vou ter o filho
por causa do abono»

Todos os turistas tiram retratos
Aos socalcos da vinha
Que sobem da Vila do Pico
Dizem que é lindo
O verde moço
Com que agora estão
Mas eu não vejo...
O verde mora nas vivendas do Funchal
O meu pai diz que bom para o pescador
Foi Marcelo Caetano
Tirou a guarda fiscal e deu os abonos
Nós andamos sujos
Somos tontos e falamos mal
Comemos o milho com a cebola
Se na loja fiarem
O peixe não do fino
Pior estão os filhos dos vilões
Que já têm de trabalhar nas fazendas
 
As mulheres do Ilhéu invejam a mãe da Goreti
Depois que lhe morreu o homem no mar
Recebe agora dinheiro
Como nunca antes
E não atura borracheiras.
Mas eu cá ficava triste
Se o meu pai morresse

Da Ilha que Somos, coordenação e prefácio de A. J. Vieira de Freitas, Funchal, Câmara Municipal, 1977, pp. 29-33.

(lido na sessão de 1 de Julho de 2011)

13 de outubro de 2011

sem ilusões

Aquilo que para Rothschild é uma insignificância, é para mim uma grande riqueza, e quanto a vantagens e ganhos, por toda a parte, e não apenas na roleta, os homens não fazem mais que tirar ou ganhar alguma coisa uns aos outros.

Fiódor Dostoievski, O Jogador, tradução de António Pescada, Lisboa, Biblioteca de Editores Independentes, 2007, p. 20.
(desenho: David Levine) 

12 de outubro de 2011

e assim começa O ANIMAL MORIBUNDO

Conheci-a há oito anos. Era minha aluna. Já não ensino a tempo inteiro; rigorosamente falando, já não ensino literatura, ponto final -- há anos que tenho apenas uma aula, um grande seminário sénior sobre escrita crítica chamado Crítica Prática. Atraio uma boa quantidade de estudantes femininas. Por duas razões. Porque é uma matéria com uma atraente combinação de fascínio intelectual e porque elas me ouviram no NRP a fazer crítica de livros ou me viram no Thirteen a falar de cultura. 

Philip Roth, O Animal Moribundo, tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, 2.ª edição, Publicações Dom Quixote, 2006, p. 11.

a nossa equipa

Philip Roth

11 de outubro de 2011

de Ernest Hemingway para Ursula Hemingway

AMAR, Ana Paula Rosa Soares

É ter sede e querer beber
É estar fraco e com força
É ter tudo e querer sempre mais
É sentir fogo e não arder
É chaga aberta sem doer
É ganhar sem conta
É sem conta perder
É dar ao frio o maior calor
É fingir sempre que não é amor
É estar longe e estar perto
É ver água no mais seco deserto
É julgar o incerto sempre certo
É estar cego sem querer ver
É ser tudo e nada ser
É, enfim, estar morto e não querer viver.

Da Ilha que Somos, coordenação e prefácio de A. J. Vieira de Freitas, Funchal, Câmara Municipal, 1977.

(lido numa sesão de 2011)

10 de outubro de 2011

Eros de Passagem, (org.) Eugénio de Andrade

A colectânea de poesia erótica contemporânea Eros de Passagem é a segunda edição revista da colectânea Variações de um corpo. Nessa primeira edição, de 1987, cada um dos poemas seleccionados dava corpo a um desenho do escultor José Rodrigues. Em 1997, Eugénio de Andrade, responsável pela selecção, decidiu alterar os critérios de selecção, deixando os poemas, por exemplo, de acompanhar ilustrações, e, deste modo, dar conta de alterações entretanto ocorridas na produção poética nacional, nomeadamente no modo como esta dá corpo o erotismo.
A obra reúne poemas de 58 autores, em que o erotismo que se apresenta como forma de expressão física do sentimento amoroso, registando o corpo e as suas pulsões.


Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco

Mário Cesariny

9 de outubro de 2011

D. João VI, um olhar distanciado

Emotivo -- chorava frequentemente durante o seu atribulado reinado --, não era um génio, mas também não era o idiota que aparece retratado na propaganda antimonárquica. Passava grande parte do dia a ler papéis oficiais e em reunião com os ministros para acabar envolvido em posições impossíveis, destinado a presidir a quase uma década de embustes diplomáticos antes de as tropas francesas por fim atravessarem as fronteiras indefesas de Portugal. Minado pela indecisão, conduziu de certa forma o país pelo labirinto político de 1807-1808, um dos mais complexos períodos na história nacional e imperial portuguesa, sobrevivendo como monarca enquanto que os seus congéneres europeus eram destronados e humilhados por Napoleão.

Patrick Wilcken, Império à Deriva, tradução de António Costa, 9ª edição, Porto, Civilização Editora, 2007, p. 77. 

A Religiosa


Uma prosa elegante e uma tradução que a serve bem.  
Um livro programático, pretendendo combater a organização social estribada no poder paternal e o enclausuramento religioso, fautor de vício e desvio de personalidade.
Uma apologia da liberdade.
Um romance póstumo, escrito na Rússia de Catarina II.
Uma capa da Europa-América no seu pior, pelo oportunismo boçal e pela falta de gosto -- não desfazendo do objecto da fotografia, e não me estou a referir à cruz.
 

6 de outubro de 2011

5 de outubro de 2011

retrato(s) romântico(s)

Diderot sobre o seu retrato, pintado por Louis-Michel van Loo: «Meus filhos: previno-vos de que não sou eu. Tinha num dia cem fisionomias diversas, segundo aquilo que me preocupava. Estava sereno, triste, sonhador, terno, violento, apaixonado, entusiasta; mas nunca fui tal como me vedes ali. Tinha uma grande testa, olhos muito vivos, traços bastante acentuados, a cabeça no género de um antigo orador, uma bonomia que tocava pela estupidez, pela rusticidade dos antigos tempos. [...] Tenho uma máscara que engana o artista; seja porque ela tem muitas coisas confundidas, seja porque as impressões da minha alma se sucedem muito rapidamente e se pintam no meu rosto, os olhos do pintor não me encontram igual dum momento para o outro e a sua tarefa se torna torna-se mais difícil do que ele supunha.»

In Jaime Brasil, Diderot e a Sua Época, Lisboa, Editorial Inquérito, 1940, pp. 28-29.

4 de outubro de 2011

FRÉMITO LITERAL, António Duarte Camacho de Brito Figueirôa

frémito literal ou palavra tressuada
a morder as gengivas deputadas

um olhar crepe rés ao barro
a terra entumescida o sexo venal
o gesto afásico nos contornos flácidos
da várzea informe

palavra desconhecida inventada
o estrépito adstrito
vagalhão real
a pedra revolta
palavra desenhada para ser esquecida

recordação migratória em que te embalas
nas profundezas da madrugada
sublime o entendimento
em que arrastas o foco
do regozijo baço:
é um tempo quebrado ao longo
das portas que já não abrigam o movimento
enquanto a dor se refresca num largo voo

frémito literal ou palavra tressuada
a morder as gengivas deputadas

um sangue que acaricia ao ritmo
dum olhar que passa
o grito duma terra indecisa
a força da memória derrotada pelo lamento
nu e húmido

na fronte o vil metal
na boca o pão sem sal: frémito

Da Ilha que Somos, coordenação e prefácio de A. J. Vieira de Freitas, Funchal, Câmara Municipal, 1977, p. 17.
(lido numa sessão de 2011)

3 de outubro de 2011

"Satana, vade retro, apage, Satana"

Aquilo que começou como uma joyeuse mystification, deu um grande romance que vai proporcionar uma próxima sessão muita animada.
De forma chã e clara, um insigne membro do clube de leitura chamou-lhe um embuste bem esgalhado. Em português é que nos entendemos!
Anseio por ouvir as opiniões dos nossos leitores, mormente a do prezado amigo que sugeriu a obra.

30 de setembro de 2011

A RELIGIOSA, segundo Jaime Brasil

     «O romance graças ao qual o nome de Diderot sobrevive como romancista é, sem dúvida, "A Religiosa". Romance realista, romance de costumes e de crítica social, foi escrito para condenar a tirania do pátrio poder e, ao mesmo tempo, a vida anti-natural dos conventos. [...]
     O romance é ousado por alvejar duas intituições que, então, mais ainda do que hoje, os preconceitos pretendem que sejam inatacáveis. Ousado ainda nas refrências às paixões lésbicas existentes nos conventos, sem contudo descer ao género licencioso, que alguns críticos pudibundos pretendem ver nele. [...]
     [...] "A Religiosa" é uma obra rica de diálogos, de frases curtas, de vivacidade, de pitoresco, demonstrando, mais do que qualquer outra,a riqueza e elegância do estilo de Diderot.»

Jaime Brasil, Diderot e a Sua Época, Lisboa, Editorial Inquérito, 1940, pp. 84-85.

o escritor e a oficina

«[...] além da tarefa de fazer o resumo das diversas escolas filosóficas e de tratar dos sinónimos, tinha escolhido para si todas as descrições das artes e ofícios. Como queria dar à obra um carácter eminentemente prático e expor a matéria com conhecimento de causa, ia às oficinas ver como se praticavam os diversos mesteres, como funcionavam as máquinas, como se chamavam e para que serviam os diversos utensílios. Não se contentava com ver e ouvir, pedia que lhe ensinassem o funcionamento, e ele próprio, graças a uma inteligência prodigiosa, executava, ante a surpresa dos artífices, os diversos trabalhos que depois descrevia. Assim aprendeu a tecer, a trabalhar no vidro, a imprimir, a burilar metais, etc., com tanta perfeição como os mais experimentados operários. Não esqueceu os mestres que lhe ensinaram essas artes, pois os nomes daqueles que lhe deram informações úteis nesse campo figuram na Enciclopédia -- coisa até então nunca vista -- ao lado dos de filósofos, artistas, homens de ciência.»

Jaime Brasil, Diderot e a Sua Época, Lisboa, Editorial Inquérito, 1940, pp. 72-73.

22 de setembro de 2011

Natureza e Homem em Ferreira de Castro

«Natureza e Homem em Ferreira de Castro: Imagens de uma relação», conferência pela nossa colega Ana Cristina Carvalho, sexta-feira, 23 de Setembro, pelas 18 horas, no Museu Ferreira de Castro. Apareçam!

imagem: Alex Gozblau

elogio do libertino

A moral que prègava era a sua moral, «sem obrigações nem sanções», moral voluntária e natural, sem conformismos convencionais. A sua vida de boémio foi apenas a dum libertino, na acepção que o termo tinha antigamente, isto é, de amante da liberdade, liberdade de acção e de expressão. 

Jaime Brasil, Diderot e a Sua Época, Lisboa, Editorial Inquérito, 1940, p.27.

da alquimia enciclopedista

Ao contrário dos medíocres, que só recebem do ambiente onde vivem o que há nele de estratificado, homens como Diderot sabem seleccionar o que é raro e colher no ar o pólen doirado do que parece insignificante, para o transformar em frutos opulentos.

Jaime Brasil, Diderot e a Sua Época, Lisboa, Editorial Inquérito, 1940, p. 25. 

21 de setembro de 2011

outro poema da Marquesa de Alorna

Como está sereno o Céu,
como sobe mansamente
a lua resplandecente,
e esclarece este jardim!

Os ventos adormeceram;
das frescas águas do rio
interrompe o murmúrio
de longe o som de um clarim.

Acordam minhas ideias,
que abrangem a Natureza,
e esta nocturna beleza
vem meu estro incendiar.

Mas se à lira lanço a mão,
apagadas esperanças
me apontam cruéis lembranças,
e choro em vez de cantar.

Poetas do Século XVIII, selecção, prefácio e notas de M. Rodrigues Lapa, 3.ª edição, Lisboa, Seara Nova, 1967.

(lido numa sessão de 2011)

Diderot, em traços largos

«Este homem portentoso, que soube ser iconoclasta e tolerante, era modesto e generoso como ninguém, mas como poucos orgulhoso dos seus méritos e ávido de riquezas para as distribuir. Visto a distância toma as proporções dum super-homem.  Era, porém, apenas um homem, com todas as misérias e toda a grandeza da condição humana. Sofreu muitas privações e angústias; andou mal vestido e passou fome; habitou em mansardas miseráveis; sujeitou-se a intoleráveis caprichos femininos e teve de molhar a sua pena nas tintas da adulação para retribuir a generosidade duma cabeça coroada, que lhe minorou com dinheiro algumas dificuldades materiais. Como todos os homens, aspirou à liberdade e sofreu a servidão.»

Jaime Brasil, Diderot e a Sua Época, "Nota do Autor", Lisboa, Editorial Inquérito, 1940, p. 9.

19 de setembro de 2011

um biógrafo português de Diderot

Antes de me lançar ao próximo livro, apeteceu-me reler a sucinta biografia Diderot e a Sua Época, de Jaime Brasil, publicada nos magníficos «Cadernos Culturais» da Editorial Inquérito, em Fevereiro de 1940.
Brasil foi um cultor do género biográfico, como poucos entre nós (Mário Domingues e Agostinho da Silva serão os casos mais salientes). Senhor de um grande estilo, jornalístico, na melhor acepção da palavra, dedicou-se a esquadrinhar as vidas de Ferreira de Castro (de quem foi grande amigo), Diderot, Victor Hugo, Zola, Rodin, Leonardo (esta recentemente reeditada), Velázquéz, Balzac... -- para além de outros géneros literários: da polémica à reportagem, da divulgação científica à bibliografia, sem esquecer as traduções ou a epistolografia, em que foi exímio.
Durante esta semana, colocarei uns pòzinhos deste estudo biográfico, que, diga-se, foi escrito em Paris, cidade em que se exilou até à ocupação alemã, que ainda viveu.

18 de setembro de 2011

olhar de frente

«O Bispo olhou-o. Era um homem igual a muitos outros. Lembrava a gente de Varzim. Tinha lama nos trapos e a escrita da fome na cara. Nas mãos havia um gesto de paciência. Um gesto muito antigo de paciência. E de repente pareceu ao velho Bispo que todo o abandono do mundo, todo o sofrimento, toda a solidão, o olhavam de frente no rosto daquele homem. Coisa difícil de olhar de frente.»

Sophia de Mello Breyner Andresen, «O jantar do Bispo», Contos Exemplares, Lisboa, Portugália Editora, s. d., p. 67.

A exemplaridade destes contos de Sophia, publicados em 1962 e prefaciados por D. António Ferreira Gomes, o bispo do Porto então no exílio.
Exemplaridade porque escritos sob a pureza de uma mensagem cristã, ao arrepio da Igreja oficial, comandada pelo cardeal Cerejeira, conivente com um país onde imperava a pobreza e o medo; Igreja que, cúmplice de um estado policial, se atraiçoava a si própria. Por isso, aqueles que não suportaram a mentira e olharam de frente, tiveram os destinos que são conhecidos. 

15 de setembro de 2011

e assim começa PLATERO E EU

Platero é pequeno, peludo, suave; tão macio, que dir-se-ia todo de algodão, que não tem ossos. Só os espelhos de azeviche dos seus olhos são duros como dois escaravelhos de cristal negro.

Juan Ramón Jiménez, Platero e Eu, tradução de José Bento, Lisboa, Livros do Brasil, s. d., p. 9.

13 de setembro de 2011

um poema da Marquesa de Alorna

Sozinha no bosque
com meus pensamentos,
calei as saudades,
fiz trégua a tormentos.

Olhei para a lua,
que as sombras rasgava,
nas trémulas águas
seus raios soltava.

Naquela torrente
que vai despedida
encontro, assustada,
a imagem da vida.

Do peito, em que as dores
já iam cessar,
revoa a tristeza,
e torno a penar.

Poetas do Século XVIII, selecção, prefácio e nytas de M. Rodrigues Lapa, 3.ª edição, Lisboa, Seara Nova, 1967, pp. 103-104.

(lido numa sessão de 2011)

a nossa equipa


Leonor de Almeida Portugal, 4.ª Marquesa de Alorna, por Pitschmann


9 de setembro de 2011

e assim escreveu Ferreira de Castro

Certamente existirá cópia (ou o original) no Museu. Vem na revista "a cidade", de Portalegre, número especial de Outubro de 1984, cujo exemplar me foi dado por um ilustre portalegrense. O autor de "Emigrantes" escrevia a Câmara Reys sobre um "MANIFESTO DOS INTELECTUAIS PORTUGUESES AO SEU PAIZ", manifesto que viria a ser assinado por 58 personalidades.

8 de setembro de 2011

e assim começa EMIGRANTES

Preta e branca, preta e branca, o preto mui luzidio e muito níveo o branco, a pega, de cauda trémula, inquieta, saracoteava entre carumas e urgueiras, esconde aqui, surge ali, e por fim erguia voo até a copa alta do pinheiro, levando no bico ramo seco ou graveto.


Ferreira de Castro, Emigrantes, 24.ª edição, Lisboa, Guimarães Editores, 1988, p. 19.



7 de setembro de 2011

e assim começa UMA VIDA PELA METADE

Willie Chandran perguntou um dia ao pai:
-- Porque me chamaram Somerset? Os miúdos na escola descobriram e andam a gozar-me.
O pai disse meio tristonho:
-- Pusemos-te o nome de um grande escritor inglês. Deves ter visto livros dele aí pela casa.
-- Mas não os li. Gostavas assim tanto dele?
-- Não sei bem. Ouve e logo verás.

V. S. Naipaul, Uma Vida pela Metade, tradução de Maria João Delgado, 4.ª edição, Lisboa Publicações Dom Quixote, 2002, p. 11.

5 de setembro de 2011

um soneto de João Xavier de Matos

Que assim sai a manhã, serena e bela!
Como vem no horizonte o sol raiando!
Já se vão os outeiros divisando,
já no céu se não vê nenhuma estrela.

Como se ouve na rústica janela
do pátrio ninho o rouxinol cantando!
Já lá vai para o monte o gado andando,
já começa o barqueiro a içar a vela.

A pastora acolá, por ver o amante,
com o cântaro vai à fonte fria;
cá vem saindo alegre o caminhante:

Só eu não vejo o rosto da alegria:
que enquanto de outro sol morar distante,
não há-de para mim nascer o dia.

Poetas do Século XVIII, selecção, prefácio e notas de Rodrigues Lapa, 3.ª edição, Lisboa, Seara Nova, 1967, pp. 85-86.


(lido numa sessão de 2011)

30 de agosto de 2011

Kant em Luanda

Conta-se que Immanuel Kant (1724-1804), o filósofo do imperativo categórico («Age de modo a que a máxima da tua acção possa ser considerada como o princípio de uma lei universal.»), era um homem  de regularíssimos hábitos. Na pequena cidade natal de Königsberg, seguia sempre o mesmo percurso, às mesmas horas; de tal forma que os conterrâneos regulavam o tempo pelas caminhadas do autor da Crítica da Razão Pura, todos os dias, todos os anos.
Assim está o centenário Arcénio de Carpo, de A Conjura, cujos hábitos inalteráveis determinavam o horário de uma parte do comércio e dos serviços de Luanda: «Assim, de manhãzinha, mal o viam assomar ao topo da Rua Direita, os lojistas conheciam que era chegada a hora de estender os panos nos varais [...]. E quando, Sol alto, o velho, saindo da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, atravessava o Largo da Alfândega para entrar na tasca do Martins, meio mundo largava mão do que estivesse a fazer e ia almoçar sossegadamente [...]. Depois, Arcénio saía da tasca e ia sozinho passear [...] e o povo sabia que eram exactamente cinco horas da tarde. O velho regressava arrastado pelos primeiros ventos e era então que os lojistas fechavam as portas e os amanuenses trocavam os escritórios pelos pelos bancos das tabernas ou as bermas sujas dos passeios públicos.»

José Eduardo Agualusa, A Conjura, Alfragide, Leya, 2008, p. 114.

a nossa equipa

José Eduardo Agualusa

28 de agosto de 2011

A NOITE DESCE, Florbela Espanca

Como pálpebras roxas que tombassem
Sobre uns olhos castanhos, carinhosos,
A noite desce... Ah! doces mãos piedosas
Que os meus olhos tristíssimos fechassem!

Assim mãos de bondade me embalassem!
Assim me adormecessem, caridosas,
E em braçadas de lírios e mimosas,
No crepúsculo que desce me enterrassem!

A noite em sombra e fumo se desfaz...
Perfume de baunilha ou de lilás,
A noite põe-me embriagada, louca!

E a noite vai descendo, muda e calma...
Meu doce Amor, tu beijas a minh'alma
Beijando nesta hora a minha boca!



Poesia da Noite, selecção e prefácio de Urbano Tavares Rodrigues, Lisboa, Neo-Farmacêutica, 1970, p. 49


(lido numa sessão de 2011)

a nossa equipa

Florbela Espanca

24 de agosto de 2011

E nós? (quando a propósito de Júlio Dinis se fala em Garrett e Herculano...)

O Jerónimo Caninguili de A Conjura anda a ler à Judite As Pupilas do Senhor Reitor, do Júlio Dinis. E nós, quando agendaremos um dos quatro romances deste grande escritor de oitocentos?
Se a memória não me falha, é o único romancista do século XIX que resiste, ao lado de Camilo e Eça. Garrett é essencialmente as Viagens (o que não é pouco, tratando-se de um livro fundador e charneira); o Herculano, pelo menos o do Eurico, requer alguma profundidade no conhecimento da Alta Idade Média peninsular, para que não seja lido pela rama, o que o afasta do leitor comum. O bom do Júlio Dinis, esse -- como muito Camilo e todo o Eça -- mantém  actualidade e interesse.

P.S. Claro que me refiro a Garret e a Herculano enquanto romancistas. Garrett persiste também no teatro (e como!) e na poesia; Herculano é apenas o maior historiador português de sempre. Para além disso, as suas figuras históricas, como soldados na guerra civil entre liberais e absolutistas e as funções públicas que desempenharam dá-lhes, também neste campo, um lugar na História de Portugal. Enfim, dois homens superiores, que foram amigos, apesar dos temperamentos completamente opostos (Garrett, um dândi guloso dos prazeres da vida; Herculano, um homem rígido e austero. Um foi feito visconde, o outro recusou o título).

22 de agosto de 2011

Alfredo Troni



No dia anterior o afável Marimont havia surpreendido a clientela habitual com um exemplar do Diário da Manhã, que todas as semanas recebia de Lisboa, trazendo na segunda página um folhetim intitulado «Nga Muturi -- Cenas de Luanda». Assinava-a Alfredo Trony. [..] porque com todos Trony havia privado de perto e de todos tinha recolhido informações e confidências, qualquer deles se sentia um pouco autor da obra, querendo ver em cada frase uma sua contribuição, em cada palavra o eco da própria voz.
Alfredo Trony recebia os abraços e felicitações quase envergonhado, torcendo nervoso o farto bigode de vassoura:
-- Ora vamos -- repetia já enfastiado --, é apenas um ensaiozito; e ao meus amigos o devo.

José Eduardo Agualusa, A Conjura, Alfragide, Leya, 2008, p. 33.



imagens daqui e daqui

o calor do trópico

Abro A Conjura numa tarde de Guincho, encoberta, pouco ventosa, calor q.b., praia atlântica, em suma.
Reconheço um certo calor de trópico no contar do Agualusa, uma alegria que encontrei também na literatura brasileira (Jorge Amado above all), alegria até no meio dos escombros, algo raramente vislumbrado na literatura portuguesa, mais pesada, mais europeia.

21 de agosto de 2011

"A CONJURA"

Josephine era bonita: os olhos largos e macios, a quindumba cheirosa, o alto corpo ondulante como palmeira embalada pelas brisas. Josephine gostava dos homens e da forma como os homens gostavam dela. Gostava do pai Pedro e do miúdo Severino. E aos dois servia feliz e exuberante.

Mulher de quissanguela, ela? Mulher apenas. Senhora de quem a fizera escrava. Senhora de todos os corações onde poisassem os seus olhos quentes. E ofuscantes. Como o Sol.


José Eduardo Agualusa, A Conjura, Alfragide, Leya,SA, 2008, p. 36

19 de agosto de 2011

uma epígrafe de Camões

Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas,
Me parecem belas
Como os meus amores

Endechas a Bárbara Escrava

(escolhida por Trindade Coelho para Os Meus Amores)

17 de agosto de 2011

e assim começa FOSTE TU QUE ME ESCREVESTE DE SINTRA?

Ralph Galbraith abanava-se lentamente com um belíssimo chapéu creme, com fita de couro, peça de luxo do seu novíssimo padrão colonial.

Carlos Daniel, Foste Tu que Me Escreveste de Sintra?, Sintra, Editora Vral, 2005, p. 13.

16 de agosto de 2011

PELAS LANDES, À NOITE, Eugénio de Castro

Pelas landes e pelas dunas
Andam os magros como pregos,
Os lobos magros como pregos,
Pelas landes e pelas dunas.

Olhos de fósforo, esfaimados,
Numa pavorosa alcateia,
Andam, andam buscando ceia,
Olhos de fósforo, esfaimados.

Nas landes grandes, junto às dunas,
Um menino perdido anda,
Anda perdido, a chorar anda,
Nas landes, junto às brunas dunas.

Senhor Deus de Misericórdia,
Protegei o róseo menino,
Protegei o róseo menino,
Senhor Deus de Misericórdia.

Porque nas landes e nas dunas
Andam os magros como pregos,
Os lobos magros como pregos,
Nas grandes landes e nas dunas.



Poesia da Noite, selecção e prefácio de Urbano Tavares Rodrigues, Lisboa, Neo-Farmacêutica, 1970, p. 37.


(lido numa sessão de 2011)

a nossa equipa

Eugénio de Castro

15 de agosto de 2011

e assim começa O VELHO E O MAR

Era um velho que pescava sòzinho num esquife da Corrente do Golfo, e saíra havia já por oitenta e quatro dias sem apanhar um peixe. Nos primeiros quarenta dias um rapaz fora com ele. Mas, após quarenta dias sem um peixe, os pais do rapaz disseram a este que o velho estava definitivamente e declaradamente salao, o que é a pior forma de azar, e o rapaz fora por ordem deles para outro barco que na primeira semana logo apanhou três belos peixes. Fazia tristeza ao rapaz ver todos os dias o velho voltar com o esquife vazio e sempre descia a ajudá-lo a trazer as linhas arrumadas ou o croque e o arpão e a vela enrolada no mastro. A vela estava remendada com quatro sacos de farinha e, assim ferrada, parecia o estandarte da perpétua derrota.

Ernest Hemingway, O Velho e o Mar, tradução de Jorge de Sena, Lisboa, Livros do Brasil, s. d., pp. 7-8.