30 de março de 2012

...então é isso

O que é o ridículo? Renunciar voluntariamente à nossa liberdade: esta é a definição do ridículo.

Philip Roth, O Animal Moribundo, tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, 2.ª edição, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2006, p. 90.

26 de março de 2012

Historiografia cruel

Sofrendo de um ataque de diarreia, D. Pedro fez uma paragem não prevista junto de uma ribeira chamada Ipiranga. Aí, enquanto abotoava as calças, recebeu um mensageiro que vinha de S. Paulo com correio urgente.

Patrick Wilcken, Império à Deriva, tradução de António Costa, 9.ª edição, Porto, Civilização Editora, 2007, p. 283.

Pedro Américo, Independência ou Morte (1888)
Museu Paulista USP

19 de março de 2012

Philip Roth, 79

Philip Roth nasceu em Newark, a 19 de Março de 1933.
(caricatura: David Levine)

8 de março de 2012

um poema de Gastão Cruz

Revimos a grosseira superfície do
amor
Ninguém pudera corrompê-la tanto
por actos e palavras Estivemos
novamente deitados na aspereza
do seu leito
Um ramo na mão tinhas e quiseste
medi-lo com os lábios e metê-lo

no centro doloroso do teu corpo
Eu via as tuas mãos que procuravam
inseri-lo e guardavam
nas linhas ávidas o seu limite grosso
Interrompeste o
sono magoado do meu corpo
e comigo
dormiste sobre as manchas depois

in Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 69.

(lido na sessão de 2 de Março)

4 de março de 2012

Eugénio de Castro, 143

Eugénio de Castro nasceu em Coimbra, a 4 de Março de 1869.

3 de março de 2012

Grito Libertário

Aos homens que dominam, que governam,
Aos homens que espezinham, martirizam,
Àqueles que não trabalham, parasitam,
Àqueles que condenam, sacrificam,

Aos homens que traindo, ludibriam,
Aos homens que guerreiam, exterminam,
Àqueles que desrespeitam, escravizam,
E àqueles que torturam e aniquilam,

A todos gritarei, de queixo em riste,
Olhando co'a grandeza de um sol-tarde:
- Mesmo, posto a grilhões, 'inda sou livre,

Porque o que eu penso, nas prisões não cabe!
O corpo?! Esse sim, tu destruíste...
Mas EU sempre vivi em liberdade!


Lido na sessão de 2 de março de 2012, no dia em que nos deleitámos com o pensamento libertário de Ferreira de Castro. O poema é datado de 7 fev 1980 e é assinado por Z.A.(M.S.)

29 de fevereiro de 2012

Abd el-Krim e a História

A propósito da sangrenta Guerra do Rife, que opôs os insurrectos marroquinos, liderados por Abd El-Krim, contra os exércitos espanhol e francês, escreveu Ferreira de Castro, n'A Batalha:
«[...] a figura de Abd-el-Krim- chega a atingir um sentido epopeico e só não merece as páginas da História porque a História desde há muito está desonrada, porque a História é indigna dele.» (14 de Setembro de 1925).
Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2004, p.67.

Para Ferreira de Castro, a desonra da História -- ou da historiografia, melhor diríamos -- tem que ver com a noção, consagrada na década seguinte pela revista Annales, de Marc Bloch e Lucien Febvre, que o registo do passado nunca poderia limitar-se à inventariação das dinastias, das batalhas, das grandes figuras, meras conjunturas das estruturas económica, social e das mentalidades de que aquelas emanavam. E é essa concepção da História que presidirá ao projecto gorado da «Biografia do Século XX» -- de que só se salvará o póstumo O Intervalo (incluído n'Os Fragmentos) ou n'As Maravilhas Artísticas do Mundo, apresentada como «A prodigiosa aventura do Homem através da Arte».

Abd El-Krim
(também aqui)

28 de fevereiro de 2012

Carlos Malheiro Dias, o romancista, melhor que Carlos Malheiro Dias, o panfletário

Malheiro Dias foi, durante alguns anos, um escritor muito apreciável, que pôde fazer, à margem da sua obra política, uma obra literária de grande brilho.
«A [sic] paixão de Maria do Céu», se não é um dos melhores romances da literatura portuguesa dos últimos anos, é, pelo menos, um dos mais interessantes. [...]
Ultimamente, porém, Malheiro Dias [...] deu-se ao necrófilo prazer de acariciar múmias, de afagar espectros -- e tornou-se, com Antero de Figueiredo, em paladino de D. Sebastião e de outras sombras pretéritas. [...]
[...] Malheiro Dias exorta a mocidade luso-brasileira a trilhar os negros caminhos do reaccionarismo; exorta-a a adorar a Deus, a pátria e seus heróis de antanho, é dizer, a adorar a escravidão e os escravizadores.*

* Carlos Malheiro Dias, Exortação à Mocidade, Lisboa, 1924.
(A Batalha, 9 de Março de 1925)

Ferreira de Castro, Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2004, p. 30. 

(caricatura por Arnaldo Ressano)
(também aqui)

Gama, o pirata

Dizer que Vasco da Gama foi um arrojado pirata, é ofender os patriotas, mas é restabelecer a verdade. E a ter que escolher entre os patriotas que formam uma casta transitória de obcecados, e a verdade, que é eterna, nós optamos pela última.

(A Batalha, 2 de Fevereiro de 1925)
Ferreira de Castro, Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2004, p. 18.

(também aqui)

Charles Maurras

Charles Maurras, um maître à penser de Salazar, é escolhido por pares como o sucessor de Anatole France, «príncipe dos escritores»:

«Eu reconheço, fora de todas as divergências de ideias, que o famigerado reaccionário de "L'Action Française» é um espírito culto e um crítico, por vezes, muito penetrante. Mas daí a considerá-lo como o príncipe das letras francesas... Não, isso é querer afrontar o próprio ridículo. É afrontar a memória de Anatole, que usou aquele título -- é afrontar os escritores que futuramente o virão a usar, merecidamente.»
A Batalha, 19 de Janeiro de 1925

Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2004, p. 14.

(também aqui)

27 de fevereiro de 2012

aproximava-se o 1.º Centenário de Camilo Castelo Branco

O que se tem feito com Camilo! O cadáver deste homem tem dado para alimentar legiões de medíocres, que nunca teriam nome, nem editor, nem leitores, se não se acolhessem à sombra trágica do romancista. (A Batalha, 22 de Dezembro de 1924)

Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2004, p. 6.

(também aqui)

O barão de Wrangel

Ferreira de Castro sobre o barão Piotr de Wrangel, um dos mais emblemáticos generais do Exército Branco, derrotado na guerra civil russa pelo Exército Vermelho, de Trotsky, n'A Batalha de 15 de Dezembro de 1924:

«Esse palhaço disfarçado de Marte, não deixa extinguir seu ódio ao novo regime russo, não pelo regime em si, mas porque supõe ver nele a encarnação da Liberdade.» 

Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, introdução e notas de Luís Garcia e Silva, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2004, p. 4.
(também aqui)

25 de fevereiro de 2012

Ruy Belo, 79

Ruy Belo nasceu há 79 anos, em Rio Maior
(25 de Fevereiro de 1933)

Cesário, 157

Cesário Verde nasceu em Lisboa, a 25 de Fevereiro de 1855.

24 de fevereiro de 2012

David Mourão-Ferreira 85

David Mourão-Ferreira nasceu a 24 de Fevereiro de 1927, em Lisboa.

22 de fevereiro de 2012

ao encontro de Deus

--Ah! -- disse ela --, mesmo perdida, vejo como tudo é perfumado e maravilhoso. Mesmo sem saber se jamais chegarei, apetece-me rir e cantar em honra da beleza das coisas. Mesmo neste caminho que eu não sei onde leva, as árvores são verdes e frescas como se as alimentasse uma certeza profunda. Mesmo aqui a luz pois leve nos nossos rostos como se nos reconhecesse. Estou cheia de medo e estou alegre.

«A Viagem», Contos Exemplares, 3.ª edição, Portugália Editora, Lisboa, 1970, p. 102.

15 de fevereiro de 2012

JACQUES SADOUL (1881-1956)

“Não faltavam os cantares da estepe e as danças cossacas. Jacques Sadoul, o antigo oficial da missão militar francesa que ficara na Rússia em 1917, sustentava que essas tradições  folclóricas tinham constituído uma contribuição decisiva para a vitória da guerra civil.”
Gérard  Rosenthal, Trotsky, Venda Nova, Livraria Bertrand, 1976, pp. 16 e 17.
“Sadoul vem de regressar a França, vem de transpor as fronteiras que o separavam daquele regime que ele abandonara, que ele desdenhara, para ir colocar a sua espada ao serviço dum outro regime, julgado mais belo. Para mim, que conheço a inutilidade dos exércitos, que os considero perniciosos, indignos da nossa época, o gesto do capitão Sadoul, quando há anos demandou a Rússia, mereceu a simpatia do meu espírito. A  ter de se empunhar uma espada, que ela sirva para fazer triunfar algo que possua signos inéditos, algo que constitua uma nova aspiração; embora esta venha a fenecer em breve, como aconteceu na Rússia.”
Ferreira de Castro, “Sadoul e Wrangel”, Ecos da Semana, Lisboa, Cadernos d’ A Batalha, 2004, p. 3.

SEGREDO, Maria Teresa Horta

Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar

Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 64.

(lido na sessão de 3 de Fevereiro de 2012)

13 de fevereiro de 2012

PRESÍDIO, David Mourão-Ferreira

Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?

E o ventre, inconsistente como lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo...

É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!

Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 50.

(lido na sessão de 3 de Fevereiro de 2012)

9 de fevereiro de 2012

traços dum lapuz

Ao tecer o êxito futuro, a sua expressão tornara-se sombria: os olhos castanhos, pequeninos e movediços em outros azares, paravam agora em fundo querer; as faces secas desciam, sem contracções, sobre o negro e longo bigode, de lábios delgados, dentes sujos de tabaco, aquietava-se também em cima do queixo agudo, rude, plebeu. Assim imobilizado, era tosca cariátide de sobreiro aquele corpo meão mas rijo, de linhas enérgicas, sem adiposidades, todas elas atestando pertinácia no trabalho e saúde campesina, saúde dos que se levantam quando se apagam as últimas estrelas e se deitam quando as primeiras se acendem.

Ferreira de Castro, Emigrantes [1928], 24.ª edição, Lisboa, Guimarães Editores, 1988, p. 23.

também aqui

8 de fevereiro de 2012

Ela canta, pobre ceifeira, Fernando Pessoa

Ela canta, pobre ceifeira
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anónima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.
Ouvi-la alegra e entristece,

Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões p'ra cantar que a vida.
Ah! canta, canta sem razão!
O que em mim sente 'stá pensando.

Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!
Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!

Ó campo! Ó canção! A ciência
Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

Fernando Pessoa, Cancioneiro
 
(Poema não lido na sessão de 03 de Fevereiro.)

29 de janeiro de 2012

porque gosto tanto do Manuel da Fonseca

porque esta atmosfera, para além do real, impregna a sua escrita:

Na madrugada escura, o homem ergueu o peito e soprou no búzio o último aviso. O som atravessou a vila e ganhou eco na encosta do castelo, estalando como um ai. Cães responderam com uivos, de focinho curvo para o céu, e um galo, atónito ante tanto mistério, gritou pelo Sol.

«Sete-estrelo», Aldeia Nova (1942), 7.ª edição, Lisboa, Editorial Caminho, 1984, p. 63. 

26 de janeiro de 2012

mais uma epígrafe, esta de Nietzsche

"Quando se ama o abismo, é preciso ter asas."

Biografia (sonetos)  de JOSÉ RÉGIO

uma epígrafe de Almeida Garrett

Mas são flores que nascem na serra
Onde todo o seu mundo se encerra,
Porque aí tem -- o seu bem -- seus amores.

                               A Adélia, apud Bernal-Francês.




n'Os Meus Amores, de Trindade Coelho

22 de janeiro de 2012

uma epígrafe de Fernando Pessoa

Cumpriu-se o mar e o império se desfez.
Senhor, Falta cumprir-se Portugal.

Mensagem


n'O Labirinto da Saudade, de Eduardo Lourenço.

Alice Ruiz

Alice Ruiz nasceu a 22 de Janeiro de 1946, em Curitiba.
(foto Vilma Slomp, daqui)

19 de janeiro de 2012

Pedro da Fonseca - um escritor desconhecido - homenagem


Professor, por necessidade e vocação, sacerdote, por amor à mãe e singular missão, escritor, por entranhado afeto à pátria / língua portuguesa e necessidade pungente de clamar revoltas, angústias, ideias, solidão e medos, Pedro Inês da Fonseca, aos 93 anos, deixou que lhe entregassem o corpo, à terra, na manhã fria de 27 de Novembro de 2011.

Homem simples, solitário, humilde, mas sensível e conhecedor da vida e da alma humanas, além de artífice, rigoroso, da língua que falamos, foi capaz de nos legar uma obra literária, em 28 volumes, impressos a custas suas (Europress), e mais 42, já publicados e em vias de publicação, em blog criado para o efeito: (http://pedrofonseca1918.blogspot.com). Nas gavetas e estantes, segundo confidência, estará quase outro tanto que o tempo e a saúde lhe não permitiram rever (com visão monocular debilitada pelos anos e esforço, é pena que muitas gralhas de digitação lhe perturbem, muitas vezes, a escrita).

Filhos, assim lhes chamava, com desilusão de não ter tido outros.

Rigoroso na forma, seguidor dos clássicos, insurgiu-se contra os desmandos do linguajar e escrever; três dos seus livros foram batizados “Venha Aprender Português Comigo”.

Conservador, nalgumas questões do mundo e da vida (religião e vocação genuína, educação cívica, morigeração de costumes, homossexualidade…) não hesitou em assumir posições de fronteira, contra o celibato imposto (por antinatural, causador de males sociais e morais, não determinado por Jesus), a educação forçada e não construída na razão (sem respeito pela liberdade de cada ser), a vocação induzida, seja para a vida religiosa, seja para qualquer mister (manancial de infelicidade sem termo)…

Com amor arreigado, à pátria, zurziu os seus vendilhões, de ontem e de hoje.

De uma religiosidade profunda, os seus escritos estão impregnados dos mais puros conceitos, influenciados por algum ecumenismo quando, em África, conviveu, de perto, com várias confissões cristãs.

Sem olvidar o romance (ou novela, como preferia chamar), a sua obra tem como pilares as Memórias (diários d’aquém e d’além mar) e a didática, em vários espaços da vida e do saber, sob o título Consulta da Tarde.

Ao sofrer, na pele, os horrores e humilhações, como refugiado, no sul de Angola e Namíbia, aquando da descolonização, deixou-nos linhas talhadas a sangue, retratos palpitantes de uma época da nossa história, com os erros e virtudes dos mesmos homens que a foram decidindo.

O que fica por dizer, contrariando o meu impulso de antigo aluno e de amigo de há muitos anos! Manda porém o bom senso que me detenha.

Mas, na hora em que o seu coração deixou de bater, impunha-se-me o dever, sentido, deste preito singelo.

JMS

Homenagem prestada na sessão de 6 de janeiro de 2012

16 de janeiro de 2012

POEMA CONFIADO À MEMÓRIA DE NORA MITRANI, Alexandre O'Neill

Se eu pudesse dizer-te: -- Senta aqui
nos meus joelhos, deixa-me alisar-te,
ó amável bichinho, o pêlo fino;
depois, a contra-pêlo, provocar-te!
Se eu pudesse juntar no mesmo fio
(infinito colar!) cada arrepio
que aos viajeiros comprazidos dedos
fizesse descobrir novos enredos!
Se eu pudesse fechar-te nesta mão,
tecedeira fiel de tantas linhas,
de tanto enredo imaginário, vão,
e incitar alguém: -- Vê se adivinhas...
     Então um fértil jogo amor seria.
     Não este descerrar a mão vazia!

Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 48.

Lido na sessão de 6 de Janeiro de 2012

15 de janeiro de 2012

flores em la mar

«[...] o velho sempre pensava no mar como feminino, como algo que entrega ou recusa favores supremos, e, se tresvariava ou fazia maldades era porque, não podia deixar de as fazer. A lua influi no mar como nas mulheres, pensava ele.»

Ernest Hemingway, O Velho e o Mar, tradução de Jorge de Sena, Lisboa, Livros do Brasil, s.d., pp. 30-31.

11 de janeiro de 2012

Oswald de Andrade, 122

Oswald de Andrade nasceu em São Paulo, a 11 de Janeiro de 1890.

10 de janeiro de 2012

POEMA, Mário Cesariny

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto    tão perto    tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco.

Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 46.

Lido na sessão de 6 de Janeiro

9 de janeiro de 2012

Erro de português, Oswald de Andrade

Totem, Patricia Ariel
Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português.

(Lido na sessão de 7 de Janeiro.)

Drumundana, Alice Ruiz


Krzysztof Izdebski

e agora maria?

o amor acabou
a filha casou
o filho mudou
teu homem foi pra vida
que tudo cria
a fantasia
que você sonhou
apagou
à luz do dia

e agora maria?
vai com as outras
vai viver
com a hipocondria

[Navalhanaliga, 1980.]

(Lido na sessão de 7 de Janeiro.)

4 de janeiro de 2012

jovem e medrosa?

Faustina, a Jovem e Marco Aurélio, como Vénus e Marte
(e como não os (d)escreveu Gonçalo M. Tavares)

1 de janeiro de 2012

Afonso Duarte, 128

Afonso Duarte nasceu a 1 de Janeiro de 1884, na Ereira, Montemor-o-Velho.

31 de dezembro de 2011

para ler em silêncio

Cai a chuva, o vento desmancha as árvores desfolhadas, e dos tempos passados vem uma imagem, a de um homem alto e magro, velho, agora que está mais perto, por um carreiro alagado. Traz um cajado ao ombro, um capote enlameado e antigo, e por ele escorrem todas as águas do céu. À frente caminham os porcos, de cabeça baixa, rasando o chão com o focinho. O homem que assim se aproxima, vago entre as cordas de chuva, é o meu avô.


José Saramago, As Pequenas Memórias, Lisboa, Editorial Caminho, 2006, p. 129.
(imagem)

30 de dezembro de 2011

29 de dezembro de 2011

idealidades

«O dinheiro deve estar tão abaixo de um cavalheiro que quase não vale a pena preocupar-se com ele.»

Fiódor Dostoievski, O Jogador, tradução de António Pescada, Lisboa, Biblioteca de Editores Independentes, 2007, p. 22.

24 de dezembro de 2011

oh!, o bicho em nós...

A grande partida biológica que nos pregam é que nos tornamos íntimos antes de sabermos alguma coisa sobre a outra pessoa. No momento inicial compreendemos tudo.

Philip Roth, O Animal Moribundo, tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, 2.ª edição, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2006, p.22.














imagem daqui

"MISSA DO GALO"

Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite.

Incipit do conto "Missa do Galo", de Machado de Assis - Contos Escolhidos, São Paulo, Editora Martin Claret, 2003, pp. 11-17.

23 de dezembro de 2011

Juan Ramón, 130

Juan Ramón Jiménez nasceu há 130 anos em Moguer, Huelva.

14 de dezembro de 2011

um poema de José Gomes Ferreira

(Finjo que não vejo as mulheres
que passam, mas vejo.)

De súbito, o diabinho que me dançava nos olhos,
mal viu a menina atravessar a rua,
saltou num ímpeto de besouro
e despiu-a toda...

E a Que-Sempre-Tanto-Se-Reacata
ficou nua,
sonambulamente nua,
com um seio de ouro
e outro de prata.

In Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 31.

(lido na sessão de 7 de Dezembro de 2011)

13 de dezembro de 2011

11 de dezembro de 2011

A Corte chega ao Rio de Janeiro

   Rio, 1808  (daqui)
     Os emigrados chegavam a uma sociedade intensamente ritualista --como Lisboa, mas com características africanas. Procissões religiosas, comuns no Portugal do início do século XIX, misturavam-se com outras tradições -- o trovejar dos tambores africanos do batuque, a dança afro-brasileira; a capoeira, uma provocante arte marcial praticada nas comunidades de escravos, incomodativa sem dúvida para  espectadores europeus; bem como os ritmos mais subversivos, como a queima da efígie de Judas, que acabou por ser proibida pelos colonos atemorizados. As ruas eram coloridas, mesmo carnavalescas; mas eram também brutais e ameaçadoras, divididas pelas tensões subjacentes a uma sociedade assente na escravatura. 
     Os exilados passaram as primeiras semanas em estado de choque cultural e emocional. [...]

Patrick Wilcken, Império à Deriva -- A Corte Portuguesa no Rio de Janeiro 1808-1821, tradução de António Costa, 9.ª edição, Porto, Civilização Editora, 2007, p. 111.

9 de dezembro de 2011

SONETO DE AMOR, José Régio

Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma... Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua..., -- unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois... -- abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!

Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 27.

(lido na sessão de 7 de Dezembro de 2011)

8 de dezembro de 2011

Florbela, 107

Florbela Espanca nasceu há 107 anos, em Vila Viçosa.

5 de dezembro de 2011

ROÍ AS UNHAS

Roí as unhas, desvairado,
Quando as balas zuniam e matavam,
Quando atirei à noite escura
E esperei a morte.
Roí as unhas, transtornado,
Quando os amigos rezavam e choravam,
Quando fazia sutura
À ferida… à sorte.

Roí as unhas, como um louco,
Quando senti que era nada,
Atirado à noite escura,
P’ra matar.
Roí as unhas, pouco a pouco,
Sentindo a vida, já parada,
Fugindo da carne nua…
Tudo a acabar!

Roí as unhas, revoltado,
Pensando na mãe, no pai, na terra…
Farrapo ao vento,
A tiritar.
Roí as unhas, destroçado,
Moído de saudades, só, perdido…
Arma de guerra:
Morte a chorar.

Roí as unhas, mordi os dedos,
Transpirei suores gelados
De febres, agonias, incertezas,
Saudade e medo.
Roí as unhas, comi os dedos,
De olhos abertos, arregalados,
Sentindo, na garganta, presa
A corda do degredo…

Roí as unhas, roí meu corpo,
Em ânsias de voltar, de reviver…
Reviver… de reviver:
(Eu era a morte, dada e recebida!...)
Roí as unhas, aniquilei-me;
Fiz-me fera… e espantalho…
Matei e morri:
Regressei, morto…
Eu roí as unhas…
Roí as unhas…

Lido na sessão de 2 de Dezembro de 2011

Da guerra que Portugal travou, em África, de 1960 a 1974, chegou este poema, à minha mão. Do autor, sei que o estado o ferreteou com o número 13443070, quando, a pretexto de servir a pátria, o obrigou ao serviço militar.

4 de dezembro de 2011

Elogio dos clubes de leitura

     As comunidades de leitores têm muitas vantagens para os ditos. Trocas de pontos de vista, de percursos de leitura, de experiências de vida. E obrigam-nos a conhecer livros e/ou autores que improvavelmente leríamos, não por qualquer embirração de partida (ou também por isso...), mas porque um leitor tem sempre as suas prioridades e as suas listas, que normalmente (falo por mim) não são cumpridas.
     Por várias vezes sucedeu-me, aqui no Clube de Leitura do Museu Ferreira de Castro, defrontar-me com autores desconhecidos e que foram, para mim, uma extraordinária revelação, como foi o caso de Javier Cercas -- de que nunca ouvira falar -- e o magnífico A Velocidade da Luz; ou o extraordinário ensaio de Amin Maalouf, Um Mundo sem Regras (aqui, não era o autor o desconhecido, mas o livro) ou A Religiosa, de Diderot, cuja leitura somente se me ofereceria no âmbito de uma pesquisa improvável sobre as adjacências do século XVIII ou questões colaterais.
     De valter hugo mãe só lera poesia, três livros, um dos quais, A Cobrição das Filhas, me deixara uma boa impressão. Já tivera dois outros romances dele debaixo de olho, mas a oportunidade nunca se concretizara. Por outro lado, tenho o defeito ou a qualidade de não ler escritores que estejam na crista da onda, como é o caso. Teria várias razões para dar, mas agora não é o momento. O que me importa registar é que se o vhm surfa a onda, fá-lo com muito mérito. A Máquina de Fazer Espanhóis é um grande livro de um não menor escritor, que tem o que dizer e di-lo com substância, e sabe como o fazer, fazendo-o com mestria.

2 de dezembro de 2011

valter hugo mãe fotografado por Nélio Paulo

Jaime Ramos e Isaltino de Jesus

As personagens Jaime Ramos e Isaltino de Jesus são dois detectives da Polícia Judiciária. Incumbidos por Francisco José Viegas de resolver os mais variados crimes, veêm-se agora na contigência de serem personagens "roubados" por valter hugo mãe. E esta, hein?

Romances Protagonizados por Jaime Ramos e Isaltino de Jesus
  • Crime em Ponta Delgada (1989)
  • Morte no Estádio (1991)
  • Um Crime na Exposição (1998)
  • Um Crime Capital (2001)
  • Longe de Manaus (2005)
  • A Poeira que cai sobre a Terra (2006)
  • O Mar em Casablanca (2009)

valter hugo mãe internaútico

O Esteves sem Metafisica

...
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
...
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
A Tabacaria, Álvaro de Campos, 15-1-1928

24 de novembro de 2011

despojamento

Era uma pequena casa de camponeses. Uma casa nua, onde só estavam escritos os gestos da vida. Havia uma cozinha e dois quartos. Num rebordo da parede de cal estava colocada uma imagem; em frente da imagem ardia uma lamparina de azeite; ao lado, alguém poisara um ramo de flores bentas na Páscoa.

Sophia de Mello Breyner Andresen, «A viagem», Contos Exemplares, Lisboa, Portugália Editora, s.d., pp. 90-91.

22 de novembro de 2011

grande prosa de altíssimo poeta

A filhita do carvoeiro, bonita e suja como uma moeda, brilhantes os olhos negros e rebentando sangue os lábios pretos entre a fuligem, está à porta da choça, sentada numa telha, adormecendo o irmãozinho.

Juan Ramón Jiménez, Platero e Eu, tradução de José Bento, Lisboa, Livros do Brasil, s.d., p. 57.

16 de novembro de 2011

no país da infância

     Estendido onde a sombra lhe parecera mais agradável, Manuel da Bouça seguia o trabalho da ave e recordava o tempo da infância, já distante, em que vasculhava veigas e montes à busca de ninhos, só pelo prazer de os descobrir e disso se vangloriar ante o rapazio do lugarejo. Outrora não teria hesitado e, zape-zape, pinheiro arriba, iria ver em que estado se encontrava o novo berço e voltaria, depois, pelos ovos ou pelas avezitas ainda implumes, as pálpebras cerradas e o biquito glutão semiaberto ante qualquer ruído. Mas, hoje, só se fosse em pinheiro baixo e de gaio ou de rola, que eram bons com arroz.
     Felizes esses tempos em que pastoreava a cabra pelas barrocas, roubava maçãs na quinta do Almeida e seguia, na Primavera, o voo dos pássaros de ramo em ramo!

     Ferreira de Castro, Emigrantes, 24.ª edição, Lisboa, Guimarães Editores, 1988, p. 20.

Saramago, 89

José Saramago nasceu há 89 anos, na Azinhaga, Golegã
(caricatura de Carlín, daqui)

13 de novembro de 2011

fim de festa com panache

Aquele mundo estava a acabar para eles, em África; penso que ninguém ali poria isso em causa não obstante todos os discursos e todo aquele cerimonial; mas estavam todos à vontade, a usufruir do momento, enchendo o velho salão com conversas e risos como quem não se importa, como quem sabe viver com a história. Nunca admirei tanto os portugueses como naquela altura. 

V. S. Naipaul, Uma Vida pela Metade, tradução de Maria João Delgado, 4.ª edição, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2003, p. 174.

8 de novembro de 2011

VOLÚPIA, Florbela Espanca

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frémito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade...
A nuvem que arrastou o vento norte...
-- Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço...
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças...

Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 21.

(lido na sessão de 4 de Novembro de 2011)

7 de novembro de 2011

Saramago despista-se

     Para que não haja dúvidas: sou um admirador de José Saramago, considero-o um grande escritor, um merecido Prémio Nobel. Li seis dos seus romances (Levantado do Chão, Memorial do Convento, O Ana da Morte de Ricardo Reis, Jangada de Pedra, Ensaio Sobre a Lucidez e A Viagem do Elefante), além de As Pequenas Memórias e a peça A Noite. Tenho especial interesse na História do Cerco de Lisboa, O Evangelho Segundo Jesus Cristo e Ensaio Sobre a Cegueira, e também pela peça In Nomine Dei, os três primeiros com anos de espera na minha pilha infinita.
     Começando por referir-me ao que gostei nesta leitura dum livro que não apreciei: o uso rigoroso da palavra; as digressões já não garrettianas mas já muito saramaguianas -- característica própria que nele aprecio; a ironia, o sarcasmo; piscadelas de olho maliciosas ao leitor.
     Tal como não gostei da Jangada de Pedra, um romance desiquilibrado (aliás o próprio escritor admitiu algures o seu falhanço), também este Ensaio Sobre a Lucidez não me satisfez. Saramago a certa altura perdeu a mão, despistou-se, algo que ele também reconhece, lúcido romancista, desta vez no próprio corpo do texto (p. 188).
     A história é conhecida: os eleitores de uma cidade capital, mais de 80%, decidem expressar o seu voto de forma inusitada: depositam na urna o boletim em branco. Em presença estão três força políticas: o partido da direita (no governo), o partido do meio e o partido da esquerda. Os dois primeiro representam o establishment; o último está nele (digamos: pdd=psd[+cds?]; pdm=ps; pde=pcp). A partir daqui, o autor construiu uma trama em que um movimento popular de claras tendências anarquizantes (não esquecer que anarquismo é uma palavra de sentido positivo e nobre, com um laivo de utopia  que nada tem que ver com desordem e vocábulos equivalentes, apesar de se ter generalizado a percepção contrária) afronta dessa forma o poder instituído, que se sente ameaçado e irá ripostar.
     E como riposta, nesta ficção de Saramago, um governo de um sistema demo-liberal? Com a determinação e a violência de uma junta militar chilena, em 1973, ou polaca em 1981. Os freios e contrapesos de um sistema demo-liberal é coisa que não se vislumbra: nem parlamento nem tribunal constitucional, para não falar na imprensa -- a que conta, mancomunada com os interesses do Estado; a que não conta, residual. Existe o governo e o pr, do pdd; o pdm só existe porque o narrador nos afirma que ele existia, mas não passa de uma extensão do primeiro; o pde, o terceiro partido, não está na origem desta sedição eleitoral, mas identifica-se com, e os militantes apoiam-na, que remédio. Não sei se é por ser tão absurda esta parte do romance que o autor nele se perdeu, inflectindo a narrativa numa direcção investigatória e policiária, recorrendo a personagens do Ensaio Sobre a Cegueira, cosidas à trama inicial de uma forma bastante atabalhoada.  Há, portanto, uma incongruência e uma inverosimilhança intrínsecas ao romance que são irreparáveis.
     Sem querer ser injusto, partindo do esquema ideológico do autor, de base totalitária e fundamentalmente antiliberal, a denúncia simplista de uma espécie de ditadura democrática carece de base de sustentação, é inaplicável aos velhos estados democráticos e até aos menos velhos, como o nosso. O próprio sobressalto libertário do povo da cidade fica em suspenso (o que talvez não admire, sendo o anarquismo por alguns qualificado como o mais socialista dos liberalismos ou o mais liberal dos socialismos...). É evidente que quotidianamente assistimos a inúmeros entorses à democracia, que todos os estados democráticos cometem acções que extravasam e violam grosseiramente a legalidade (lembremo-nos dos serviços secretos franceses e do barco da GreenPeace; ou do estado espanhol e os GAL...), e que o poder, regra geral, se exerce antes de tudo para ser conservado. Mas o que é inestimável numa sociedade aberta é, entre outras coisas, a livre circulação da informação; e só ela permite que as populações tomem consciência e resistam aos abusos de poder perpetrados pelos governantes. Como dizia o velho Churchill, não há pior sistema que a democracia, à excepção de todos os outros.
    No fundo, o que quer Saramago com este livro? Denunciar o sistema? Francamente, é pouco.

6 de novembro de 2011

Sophia, 92

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu há 92 anos, no Porto.
(desenho de Árpád Szenes)

3 de novembro de 2011

O REFERENDO

O primeiro-ministro, olhando o ministro do interior e o ministro da defesa, o olhar gelado como naquele dia em que a democracia fora abalada com a votação em branco de mais de oitenta por cento dos eleitores, disse, Então o presidente da câmara vai realizar um referendo, assim se dá mais uma machadada no nosso sistema democrático, Um referendo, qual referendo, perguntou o ministro da defesa, o que comprava submarinos como quem enche o saco das compras de latas de feijão, ao que o ministro do interior respondeu, Um referendo sobre o estado de sítio democrático que foi imposto à capital, então o colega não sabia, Eu não, eu habituei-me a saber das notícias pelos telejornais, mas um referendo, francamente, uma consulta popular, é algo que pode abalar os fundamentos do nosso ordenamento constitucional, é o abrir de uma caixa de Pandora, o fim da nossa querida moeda única e da nossa união nacional, Presidentes da câmara como este, assentiu o ministro do interior, deviam ser imediatamente escorraçados do seio da democracia, interrogados diante do polígrafo, pestíferos que querem dar voz aos brancosos e arruinar os fundamentos da nossa civilização e de todos os estados de sítio democráticos por nós criados para salvação dos povos, amém.

(Texto apócrifo de um ensaio sobre a lucidez)

2 de novembro de 2011

Morte ao Meio-dia, Ruy Belo

No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente tem saúde e assistência cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

O português paga calado cada prestação
Para banhos de sol nem casa se precisa
E cai-nos sobre os ombros quer a arma quer a sisa
e o colégio do ódio é a patriótica organização

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz do dia
pois a areia cresceu e o povo em vão requer
curvado o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer