17 de julho de 2012

Ray Bradbury inspira novo código de Internet

 "O código 404, que serve para indicar aos utilizadores de Internet que uma página não se encontra disponível, ou que não é possível encontrar, é provavelmente o mais conhecido da rede. Mas, após o falecimento do autor de Fahrenhein 451, um novo código foi criado em sua homenagem: o 451, que servirá para assinalar páginas de Internet cujo conteúdo não pode ser acedido devido a censura governamental."
in Blogtailors - o blogue da edição

11 de julho de 2012

AS ROSAS, Sophia de Mello Breyner Andresen

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.

Um Ramo de Rosas -- Colhidas por José da Cruz Santos na Poesia Portuguesa e Estrangeira, Porto, Modo de Ler, 2010, p. 52

(lido na sessão de 6 de Julho de 2012)

7 de julho de 2012

Carlos Daniel apresenta novo livro


O nosso colega de tertúlia Carlos Daniel vai apresentar o seu novo livro na FNAC DO COLOMBO, no dia 15 de Julho - domingo, pelas 18 horas.

Chama-se " A MORTE DO REI DE ESPANHA" e conta a história de um jovem que vê o seu pai injustamente condenado pelos horrosos crimes de Cádis, ocorridos na década de 80, e que elege o rei de Espanha como alvo da sua vingança.

Fala também do tempo e dos acasos, da paixão e das ilusões de que somos capazes e sobre as quais edificamos a nossa vida.

25 de junho de 2012

George Orwell, 109

George Orwell (pseudónimo de Eric Arthur Blair, nasceu em Motihari, Bihar (Índia),
a 25 de Junho de 1903

24 de junho de 2012

Pedro Oom, 86

Pedro Oom nasceu em Santarém, a 24 de Junho de 1926

18 de junho de 2012

TRINDADE COELHO

Por certas razões tenho lido nos últimos dias algumas passagens de In Illo Tempore. Então aqui fica esta espécie de ex-voto que celebra os milagres de Stª Sebenta, no palavrório latino Beataque Maria Sebentacea. Pode encontrar-se a páginas 178 da sétima edição da Portugália Editora.
Um pouco mais à frente, vem o epitáfio a inscrever na sepultura do litógrafo Manuel das Barbas, grande divulgador da ciência dos lentes:
Aqui jaz Manuel; descansa!
Trabalhou muito, e bebeu…
Litografava as sebentas,
Mas foi feliz: – nunca as leu.

Trindade Coelho, 151

Trindade Coelho nasceu em Mogadouro, a 18 de Junho de 1861

14 de junho de 2012

ERGO UMA ROSA..., José Saramago

Ergo uma rosa, e tudo se ilumina
Como a lua não faz nem o sol pode:
Cobra de luz ardente e enroscada
Ou vento de cabelos que sacode.

Ergo uma rosa, e grito a quantas aves
O céu pontuam de ninhos e de cantos,
Bato no chão a ordem que decide
A união dos demos e dos santos.

Ergo uma rosa, um corpo e um destino
Contra o frio da noite que se atreve,
E da seiva da rosa e do meu sangue
Construo perenidade em vida breve.

Ergo uma rosa, e deixo, e abandono
Quanto me dói de mágoas e assombros.
Ergo uma rosa, sim, e ouço a vida
Neste cantar das aves nos meus ombros.

Um Ramo de Rosas -- Colhidas por José da Cruz Santos na Poesia Portuguesa e Estrangeira, Porto, Modo de Ler, 2010.

(lido na sessão de 1 de Junho de 2012)

13 de junho de 2012

9 de junho de 2012

8 de junho de 2012

SALMO, Paul Celan

Ninguém nos moldará de novo em terra e barro,
ninguém animará pela palavra o nosso pó.
Ninguém.

Louvado sejas, Ninguém.
Por amor de ti queremos
florir.
Em direcção a ti.

Um Nada
fomos, somos continuaremos
a ser, florescendo:
a rosa do Nada, a
de Ninguém.

Com
o estilete claro-de-alma,
o estame ermo-de-céu,
a corola vermelha
da purpúrea palavra que cantámos
sobre, oh sobre
o espinho.

(tradução de Yvette Centeno e João Barrento)

Um Ramo de Rosas -- Colhido por José da Cruz Santos na Poesia Portuguesa e Estrangeira, Porto, Modo de Ler, 2010, p. 40.

(lido na sessão de 1 de Junho de 2012)

5 de junho de 2012

ROSA SEM ESPINHOS, Almeida Garrett

Para todos tens carinhos,
A ninguém mostras rigor!
Que rosa és tu sem espinhos?
Ai, que não te entendo, flor!

Se a borboleta vaidosa
A desdém te vai beijar,
O mais que lhe fazes, rosa,
É sorrir e corar.

E quando a sonsa da abelha,
Tão modesta em seu zumbir,
Te diz: -- Ó rosa vermelha,
Bem me podes acudir:

Deixa do cálice divino
Uma gota só libar...
Deixa, é néctar peregrino,
Mel que eu não sei fabricar...

Tu de lástima rendida,
De maldita compaixão,
Tu à súplica atrevida
Sabes tu dizer que não?

Tanta lástima e carinhos,
Tanto dó, nenhum rigor!
És rosa e não tens espinhos!
Ai, que não te entendo, flor.

Almeida Garrett

in Um Ramo de Rosas -- Colhidas por José da Cruz Santos na Poesia Portuguesa e Estrangeira, Porto, Modo de Ler, 2010, p. 18.

(lido na sessão de 4 de Maio de 2012)



4 de junho de 2012

Nótula sobre O RISO DE DEUS, de António Alçada Baptista



Nota breve, por que o livro não justifica mais.
De António Alçada Baptista (AAB) lera o ternurento Tia Suzana, Meu Amor (1989) e a breve evocação da infância Uma Vida Melhor (1984), de que guardo, em especial do segundo, uma boa memória de leitura. Este Riso de Deus, enquanto obra literária é trágico; como tese, patético.
AAB não tem oficina. O estilo é paupérrimo, croniquetas marie claire,  de resto, muito praticado pelo autor; a estrutura do romance é um desastre, um pastelão que provoca um longo bocejo; os diálogos são aborrecidos solilóquios. Passamos a metade do livro e perguntamo-nos por que raio estamos a perder tempo com ele.
Depois, umas banalidades perigosamente próximas do tom auto-ajuda e umas angústias muito marcadas pelo peso da religião que, para quem como eu é ateu se tornam risíveis e/ou irritantes, embora as compreenda, criado que fui em ambiente de catolicismo formal. É um livro de um agnóstico com remorsos ou, pior ainda: a autojustificação (auto-desculpabilização) de um crente.
No meio deste bocejo, algumas partes conseguidas (a carta a Rosa, por exemplo) e umas quantas ideias interessantes: o elogio da inutilidade, contraposta à fúria competitiva emanada da ideologia utilitária das sociedades mercantis modernas; as memórias da infância (ponto forte do autor) e dum tempo provinciano já morto; o enaltecimento do género feminino, com sensibilidade e/ou intuição assinaláveis e consequente  rejeição do estereótipo marialva, bem presente na nossa cultura; uma necessidade de transcendência que não se fica pela Igreja, mas que vai mais além, ao simbólico e ao metafísico. São estas ideias que valem o livro -- nada que não se possa encontrar em grande literatura.

24 de maio de 2012

Ferreira de Castro, 114

Ferreira de Castro nasceu em Ossela, Oliveira de Azeméis, a 24 de Maio de 1898.

23 de maio de 2012

Eduardo Lourenço, 89

Eduardo Lourenço nasceu em São Pedro do Rio Seco, Almeida, em 23 de Maio de 1923.

21 de maio de 2012

ROSAS SEM ESPINHOS, Afonso Lopes Vieira

Esta rosinha de Assis,
sem espinhos, que eu de lá trouxe,
murcha, luminosa e doce,
no seu leve aroma diz:
-- Uma vez tentado foi

o Santo pla carne inquieta;
eis que o desejo lhe dói
numa agonia secreta.


E com a sede dos beijos
e dos ardentes carinhos,
arroja o corpo em desejos
às rosas cheias de espinhos!


Mas nós, quando então o temos
no abraço deste rosal,
os espinhos recolhemos
para lhe não fazer mal.

in Um Ramo de Rosas -- Colhidas por José da Cruz Santos na Poesia Portuguesa e Estrangeira, Porto, Mode de Ler, 2010, p. 13.

(lido na sessão de 3 de Abril de 2012)

20 de maio de 2012

1 de maio de 2012

Maria Bonita, companheira de Lampião, referido em "Capitães da Areia" pela personagem Volta Seca

Maria Bonita, rainha do cangaço, companheira de Virgulino Ferreira da Silva (Lampião) e exemplo de beleza feminina para a época: "baixinha, de pernas grossas roliças, seios pequenos, cabelos finos e olhos claros". Enfim, uma mocinha nada de se deitar fora. E muito amiga dos animais.

30 de abril de 2012

Lampião, o herói do Volta Seca, capitão da areia

Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião, figura mítica do cangaço nordestino, ídolo do Volta Seca, nos Capitães da Areia, de Jorge Amado.
(imagem daqui)

26 de abril de 2012

SETEMBRO, José Tolentino Mendonça

...quanto mais envelheço, mais pueril é a luz
                                                 mas essa vai comigo.

Nesses dias distantes eu vagueava pelas matas
enchia a espingarda de chumbo e disparava
contra o silêncio das árvores altas
só para assistir ao espectáculo dos pássaros em debandada
experimentava uma exaltação -- de que tenho hoje pudor
perante imagens que partem:
fragmentos rápidos, passagens, segredos que se apagam
nesses dias distantes nem suspeitava
a vida pode ser interminável

o que deixaste abandonado regressa aprende-se depois
quando, por exemplo, a esquecida infância se parece
com certos cães deixados de propósito a muitos quilómetros
que ladram não se percebe como
à porta da velha casa

in Aproximações a Eugénio de Andrade, coordenação de José da Cruz Santos, 2.ªedição, Edições Asa, Porto, 2001, p. 40.
(lido na sessão de13 de Abril de 2012) 

23 de abril de 2012

patine

A senhora não imagina, ou por outra, penso que a senhora pode imaginar como é pequena a distância entre o que acontece e o que não acontece. Entre matar alguém e não matar. Todos podemos, alguma vez, matar alguém. Basta só mais um pequeno passo, um pequeno gesto e acontece, sabe?

Teolinda Gersão, «Segurança», Histórias de Ver e Andar, 3.ª edição, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2005, p. 37.

18 de abril de 2012

Antero, 170

Antero de Quental nasceu em Ponta Delgada, a 18 de Abril de 1842

17 de abril de 2012

BALANÇA DE PALAVRAS, A. M. Pires Cabral

As palavras têm um tranquilo
peso oculto,
rebelde ao dicionário.

Por isso são palavras,
não vocábulos apenas.

Fossem todas as palavras
pesadas em balança como a sua,
Eugénio,
tumultuosa balança de palavras.
 
in Aproximações a Eugénio de Andrade, coordenação de José da Cruz Santos, 2.ªedição, Edições Asa, Porto, 2001, p. 13.
 
(lido na sessão de13 de Abril de 2012) 

16 de abril de 2012

Caeiro

Alberto Caeiro terá nascido em Lisboa, a 16 de Abril de 1889.
imagem: Caeiro visto por Almada Negreiros

30 de março de 2012

...então é isso

O que é o ridículo? Renunciar voluntariamente à nossa liberdade: esta é a definição do ridículo.

Philip Roth, O Animal Moribundo, tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, 2.ª edição, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2006, p. 90.

26 de março de 2012

Historiografia cruel

Sofrendo de um ataque de diarreia, D. Pedro fez uma paragem não prevista junto de uma ribeira chamada Ipiranga. Aí, enquanto abotoava as calças, recebeu um mensageiro que vinha de S. Paulo com correio urgente.

Patrick Wilcken, Império à Deriva, tradução de António Costa, 9.ª edição, Porto, Civilização Editora, 2007, p. 283.

Pedro Américo, Independência ou Morte (1888)
Museu Paulista USP

19 de março de 2012

Philip Roth, 79

Philip Roth nasceu em Newark, a 19 de Março de 1933.
(caricatura: David Levine)

8 de março de 2012

um poema de Gastão Cruz

Revimos a grosseira superfície do
amor
Ninguém pudera corrompê-la tanto
por actos e palavras Estivemos
novamente deitados na aspereza
do seu leito
Um ramo na mão tinhas e quiseste
medi-lo com os lábios e metê-lo

no centro doloroso do teu corpo
Eu via as tuas mãos que procuravam
inseri-lo e guardavam
nas linhas ávidas o seu limite grosso
Interrompeste o
sono magoado do meu corpo
e comigo
dormiste sobre as manchas depois

in Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 69.

(lido na sessão de 2 de Março)

4 de março de 2012

Eugénio de Castro, 143

Eugénio de Castro nasceu em Coimbra, a 4 de Março de 1869.

3 de março de 2012

Grito Libertário

Aos homens que dominam, que governam,
Aos homens que espezinham, martirizam,
Àqueles que não trabalham, parasitam,
Àqueles que condenam, sacrificam,

Aos homens que traindo, ludibriam,
Aos homens que guerreiam, exterminam,
Àqueles que desrespeitam, escravizam,
E àqueles que torturam e aniquilam,

A todos gritarei, de queixo em riste,
Olhando co'a grandeza de um sol-tarde:
- Mesmo, posto a grilhões, 'inda sou livre,

Porque o que eu penso, nas prisões não cabe!
O corpo?! Esse sim, tu destruíste...
Mas EU sempre vivi em liberdade!


Lido na sessão de 2 de março de 2012, no dia em que nos deleitámos com o pensamento libertário de Ferreira de Castro. O poema é datado de 7 fev 1980 e é assinado por Z.A.(M.S.)

29 de fevereiro de 2012

Abd el-Krim e a História

A propósito da sangrenta Guerra do Rife, que opôs os insurrectos marroquinos, liderados por Abd El-Krim, contra os exércitos espanhol e francês, escreveu Ferreira de Castro, n'A Batalha:
«[...] a figura de Abd-el-Krim- chega a atingir um sentido epopeico e só não merece as páginas da História porque a História desde há muito está desonrada, porque a História é indigna dele.» (14 de Setembro de 1925).
Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2004, p.67.

Para Ferreira de Castro, a desonra da História -- ou da historiografia, melhor diríamos -- tem que ver com a noção, consagrada na década seguinte pela revista Annales, de Marc Bloch e Lucien Febvre, que o registo do passado nunca poderia limitar-se à inventariação das dinastias, das batalhas, das grandes figuras, meras conjunturas das estruturas económica, social e das mentalidades de que aquelas emanavam. E é essa concepção da História que presidirá ao projecto gorado da «Biografia do Século XX» -- de que só se salvará o póstumo O Intervalo (incluído n'Os Fragmentos) ou n'As Maravilhas Artísticas do Mundo, apresentada como «A prodigiosa aventura do Homem através da Arte».

Abd El-Krim
(também aqui)

28 de fevereiro de 2012

Carlos Malheiro Dias, o romancista, melhor que Carlos Malheiro Dias, o panfletário

Malheiro Dias foi, durante alguns anos, um escritor muito apreciável, que pôde fazer, à margem da sua obra política, uma obra literária de grande brilho.
«A [sic] paixão de Maria do Céu», se não é um dos melhores romances da literatura portuguesa dos últimos anos, é, pelo menos, um dos mais interessantes. [...]
Ultimamente, porém, Malheiro Dias [...] deu-se ao necrófilo prazer de acariciar múmias, de afagar espectros -- e tornou-se, com Antero de Figueiredo, em paladino de D. Sebastião e de outras sombras pretéritas. [...]
[...] Malheiro Dias exorta a mocidade luso-brasileira a trilhar os negros caminhos do reaccionarismo; exorta-a a adorar a Deus, a pátria e seus heróis de antanho, é dizer, a adorar a escravidão e os escravizadores.*

* Carlos Malheiro Dias, Exortação à Mocidade, Lisboa, 1924.
(A Batalha, 9 de Março de 1925)

Ferreira de Castro, Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2004, p. 30. 

(caricatura por Arnaldo Ressano)
(também aqui)

Gama, o pirata

Dizer que Vasco da Gama foi um arrojado pirata, é ofender os patriotas, mas é restabelecer a verdade. E a ter que escolher entre os patriotas que formam uma casta transitória de obcecados, e a verdade, que é eterna, nós optamos pela última.

(A Batalha, 2 de Fevereiro de 1925)
Ferreira de Castro, Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2004, p. 18.

(também aqui)

Charles Maurras

Charles Maurras, um maître à penser de Salazar, é escolhido por pares como o sucessor de Anatole France, «príncipe dos escritores»:

«Eu reconheço, fora de todas as divergências de ideias, que o famigerado reaccionário de "L'Action Française» é um espírito culto e um crítico, por vezes, muito penetrante. Mas daí a considerá-lo como o príncipe das letras francesas... Não, isso é querer afrontar o próprio ridículo. É afrontar a memória de Anatole, que usou aquele título -- é afrontar os escritores que futuramente o virão a usar, merecidamente.»
A Batalha, 19 de Janeiro de 1925

Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2004, p. 14.

(também aqui)

27 de fevereiro de 2012

aproximava-se o 1.º Centenário de Camilo Castelo Branco

O que se tem feito com Camilo! O cadáver deste homem tem dado para alimentar legiões de medíocres, que nunca teriam nome, nem editor, nem leitores, se não se acolhessem à sombra trágica do romancista. (A Batalha, 22 de Dezembro de 1924)

Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2004, p. 6.

(também aqui)

O barão de Wrangel

Ferreira de Castro sobre o barão Piotr de Wrangel, um dos mais emblemáticos generais do Exército Branco, derrotado na guerra civil russa pelo Exército Vermelho, de Trotsky, n'A Batalha de 15 de Dezembro de 1924:

«Esse palhaço disfarçado de Marte, não deixa extinguir seu ódio ao novo regime russo, não pelo regime em si, mas porque supõe ver nele a encarnação da Liberdade.» 

Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, introdução e notas de Luís Garcia e Silva, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2004, p. 4.
(também aqui)

25 de fevereiro de 2012

Ruy Belo, 79

Ruy Belo nasceu há 79 anos, em Rio Maior
(25 de Fevereiro de 1933)

Cesário, 157

Cesário Verde nasceu em Lisboa, a 25 de Fevereiro de 1855.

24 de fevereiro de 2012

David Mourão-Ferreira 85

David Mourão-Ferreira nasceu a 24 de Fevereiro de 1927, em Lisboa.

22 de fevereiro de 2012

ao encontro de Deus

--Ah! -- disse ela --, mesmo perdida, vejo como tudo é perfumado e maravilhoso. Mesmo sem saber se jamais chegarei, apetece-me rir e cantar em honra da beleza das coisas. Mesmo neste caminho que eu não sei onde leva, as árvores são verdes e frescas como se as alimentasse uma certeza profunda. Mesmo aqui a luz pois leve nos nossos rostos como se nos reconhecesse. Estou cheia de medo e estou alegre.

«A Viagem», Contos Exemplares, 3.ª edição, Portugália Editora, Lisboa, 1970, p. 102.

15 de fevereiro de 2012

JACQUES SADOUL (1881-1956)

“Não faltavam os cantares da estepe e as danças cossacas. Jacques Sadoul, o antigo oficial da missão militar francesa que ficara na Rússia em 1917, sustentava que essas tradições  folclóricas tinham constituído uma contribuição decisiva para a vitória da guerra civil.”
Gérard  Rosenthal, Trotsky, Venda Nova, Livraria Bertrand, 1976, pp. 16 e 17.
“Sadoul vem de regressar a França, vem de transpor as fronteiras que o separavam daquele regime que ele abandonara, que ele desdenhara, para ir colocar a sua espada ao serviço dum outro regime, julgado mais belo. Para mim, que conheço a inutilidade dos exércitos, que os considero perniciosos, indignos da nossa época, o gesto do capitão Sadoul, quando há anos demandou a Rússia, mereceu a simpatia do meu espírito. A  ter de se empunhar uma espada, que ela sirva para fazer triunfar algo que possua signos inéditos, algo que constitua uma nova aspiração; embora esta venha a fenecer em breve, como aconteceu na Rússia.”
Ferreira de Castro, “Sadoul e Wrangel”, Ecos da Semana, Lisboa, Cadernos d’ A Batalha, 2004, p. 3.

SEGREDO, Maria Teresa Horta

Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar

Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 64.

(lido na sessão de 3 de Fevereiro de 2012)

13 de fevereiro de 2012

PRESÍDIO, David Mourão-Ferreira

Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?

E o ventre, inconsistente como lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo...

É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!

Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 50.

(lido na sessão de 3 de Fevereiro de 2012)

9 de fevereiro de 2012

traços dum lapuz

Ao tecer o êxito futuro, a sua expressão tornara-se sombria: os olhos castanhos, pequeninos e movediços em outros azares, paravam agora em fundo querer; as faces secas desciam, sem contracções, sobre o negro e longo bigode, de lábios delgados, dentes sujos de tabaco, aquietava-se também em cima do queixo agudo, rude, plebeu. Assim imobilizado, era tosca cariátide de sobreiro aquele corpo meão mas rijo, de linhas enérgicas, sem adiposidades, todas elas atestando pertinácia no trabalho e saúde campesina, saúde dos que se levantam quando se apagam as últimas estrelas e se deitam quando as primeiras se acendem.

Ferreira de Castro, Emigrantes [1928], 24.ª edição, Lisboa, Guimarães Editores, 1988, p. 23.

também aqui

8 de fevereiro de 2012

Ela canta, pobre ceifeira, Fernando Pessoa

Ela canta, pobre ceifeira
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anónima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.
Ouvi-la alegra e entristece,

Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões p'ra cantar que a vida.
Ah! canta, canta sem razão!
O que em mim sente 'stá pensando.

Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!
Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!

Ó campo! Ó canção! A ciência
Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

Fernando Pessoa, Cancioneiro
 
(Poema não lido na sessão de 03 de Fevereiro.)

29 de janeiro de 2012

porque gosto tanto do Manuel da Fonseca

porque esta atmosfera, para além do real, impregna a sua escrita:

Na madrugada escura, o homem ergueu o peito e soprou no búzio o último aviso. O som atravessou a vila e ganhou eco na encosta do castelo, estalando como um ai. Cães responderam com uivos, de focinho curvo para o céu, e um galo, atónito ante tanto mistério, gritou pelo Sol.

«Sete-estrelo», Aldeia Nova (1942), 7.ª edição, Lisboa, Editorial Caminho, 1984, p. 63. 

26 de janeiro de 2012

mais uma epígrafe, esta de Nietzsche

"Quando se ama o abismo, é preciso ter asas."

Biografia (sonetos)  de JOSÉ RÉGIO

uma epígrafe de Almeida Garrett

Mas são flores que nascem na serra
Onde todo o seu mundo se encerra,
Porque aí tem -- o seu bem -- seus amores.

                               A Adélia, apud Bernal-Francês.




n'Os Meus Amores, de Trindade Coelho

22 de janeiro de 2012

uma epígrafe de Fernando Pessoa

Cumpriu-se o mar e o império se desfez.
Senhor, Falta cumprir-se Portugal.

Mensagem


n'O Labirinto da Saudade, de Eduardo Lourenço.

Alice Ruiz

Alice Ruiz nasceu a 22 de Janeiro de 1946, em Curitiba.
(foto Vilma Slomp, daqui)

19 de janeiro de 2012

Pedro da Fonseca - um escritor desconhecido - homenagem


Professor, por necessidade e vocação, sacerdote, por amor à mãe e singular missão, escritor, por entranhado afeto à pátria / língua portuguesa e necessidade pungente de clamar revoltas, angústias, ideias, solidão e medos, Pedro Inês da Fonseca, aos 93 anos, deixou que lhe entregassem o corpo, à terra, na manhã fria de 27 de Novembro de 2011.

Homem simples, solitário, humilde, mas sensível e conhecedor da vida e da alma humanas, além de artífice, rigoroso, da língua que falamos, foi capaz de nos legar uma obra literária, em 28 volumes, impressos a custas suas (Europress), e mais 42, já publicados e em vias de publicação, em blog criado para o efeito: (http://pedrofonseca1918.blogspot.com). Nas gavetas e estantes, segundo confidência, estará quase outro tanto que o tempo e a saúde lhe não permitiram rever (com visão monocular debilitada pelos anos e esforço, é pena que muitas gralhas de digitação lhe perturbem, muitas vezes, a escrita).

Filhos, assim lhes chamava, com desilusão de não ter tido outros.

Rigoroso na forma, seguidor dos clássicos, insurgiu-se contra os desmandos do linguajar e escrever; três dos seus livros foram batizados “Venha Aprender Português Comigo”.

Conservador, nalgumas questões do mundo e da vida (religião e vocação genuína, educação cívica, morigeração de costumes, homossexualidade…) não hesitou em assumir posições de fronteira, contra o celibato imposto (por antinatural, causador de males sociais e morais, não determinado por Jesus), a educação forçada e não construída na razão (sem respeito pela liberdade de cada ser), a vocação induzida, seja para a vida religiosa, seja para qualquer mister (manancial de infelicidade sem termo)…

Com amor arreigado, à pátria, zurziu os seus vendilhões, de ontem e de hoje.

De uma religiosidade profunda, os seus escritos estão impregnados dos mais puros conceitos, influenciados por algum ecumenismo quando, em África, conviveu, de perto, com várias confissões cristãs.

Sem olvidar o romance (ou novela, como preferia chamar), a sua obra tem como pilares as Memórias (diários d’aquém e d’além mar) e a didática, em vários espaços da vida e do saber, sob o título Consulta da Tarde.

Ao sofrer, na pele, os horrores e humilhações, como refugiado, no sul de Angola e Namíbia, aquando da descolonização, deixou-nos linhas talhadas a sangue, retratos palpitantes de uma época da nossa história, com os erros e virtudes dos mesmos homens que a foram decidindo.

O que fica por dizer, contrariando o meu impulso de antigo aluno e de amigo de há muitos anos! Manda porém o bom senso que me detenha.

Mas, na hora em que o seu coração deixou de bater, impunha-se-me o dever, sentido, deste preito singelo.

JMS

Homenagem prestada na sessão de 6 de janeiro de 2012

16 de janeiro de 2012

POEMA CONFIADO À MEMÓRIA DE NORA MITRANI, Alexandre O'Neill

Se eu pudesse dizer-te: -- Senta aqui
nos meus joelhos, deixa-me alisar-te,
ó amável bichinho, o pêlo fino;
depois, a contra-pêlo, provocar-te!
Se eu pudesse juntar no mesmo fio
(infinito colar!) cada arrepio
que aos viajeiros comprazidos dedos
fizesse descobrir novos enredos!
Se eu pudesse fechar-te nesta mão,
tecedeira fiel de tantas linhas,
de tanto enredo imaginário, vão,
e incitar alguém: -- Vê se adivinhas...
     Então um fértil jogo amor seria.
     Não este descerrar a mão vazia!

Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 48.

Lido na sessão de 6 de Janeiro de 2012

15 de janeiro de 2012

flores em la mar

«[...] o velho sempre pensava no mar como feminino, como algo que entrega ou recusa favores supremos, e, se tresvariava ou fazia maldades era porque, não podia deixar de as fazer. A lua influi no mar como nas mulheres, pensava ele.»

Ernest Hemingway, O Velho e o Mar, tradução de Jorge de Sena, Lisboa, Livros do Brasil, s.d., pp. 30-31.

11 de janeiro de 2012

Oswald de Andrade, 122

Oswald de Andrade nasceu em São Paulo, a 11 de Janeiro de 1890.

10 de janeiro de 2012

POEMA, Mário Cesariny

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto    tão perto    tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco.

Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 46.

Lido na sessão de 6 de Janeiro

9 de janeiro de 2012

Erro de português, Oswald de Andrade

Totem, Patricia Ariel
Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português.

(Lido na sessão de 7 de Janeiro.)

Drumundana, Alice Ruiz


Krzysztof Izdebski

e agora maria?

o amor acabou
a filha casou
o filho mudou
teu homem foi pra vida
que tudo cria
a fantasia
que você sonhou
apagou
à luz do dia

e agora maria?
vai com as outras
vai viver
com a hipocondria

[Navalhanaliga, 1980.]

(Lido na sessão de 7 de Janeiro.)

4 de janeiro de 2012

jovem e medrosa?

Faustina, a Jovem e Marco Aurélio, como Vénus e Marte
(e como não os (d)escreveu Gonçalo M. Tavares)

1 de janeiro de 2012

Afonso Duarte, 128

Afonso Duarte nasceu a 1 de Janeiro de 1884, na Ereira, Montemor-o-Velho.