Camilo Castelo Branco nasceu na freguesia dos Mártires, Lisboa, em 16 de Março de 1825
16 de março de 2017
13 de março de 2017
23 de fevereiro de 2017
16 de janeiro de 2017
o final de MENDEL DOS LIVROS
«Pois ela, aquela mulher sem estudos ao menos guardara um livro para se recordar melhor dele, mas eu, eu tinha-me esquecido durante anos de Mendel dos livros, precisamente eu que tinha a obrigação de saber que os livros só se criam com o fim de unir as pessoas para além da sua própria existência e, assim, de se defender do inexorável oponente de tudo o que vive: fugacidade e o esquecimento.»
Stefan Zweig, Mendel dos Livros, tradução de Álvaro Gonçalves, Porto, Assírio & Alvim, 2014, p. 87.
10 de janeiro de 2017
TERRA MÃE, de Fernando Faria
Sou da infância como se é de um país -- escreveu o grande Saint-Exupéry, que cito de memória. Um país distante, de que permanecem, nos mais afortunados, as reminiscências da descoberta da vida e do mundo, na presença rediviva dos que nos foram (nos são) queridos.
Este Terra Mãe, que traz o subtítulo Crónicas da Idade Menor, faz-nos participar dessa revelação jubilosa dos primeiros anos, ainda no conforto da segurança (e da disciplina) familiar. É, no conjunto, um relato na primeira pessoa da vida aldeã de lavradores humildes de Maceira, Leiria, saborosíssimos quadros contados com sabedoria, aprumo e instinto literários. E refiro-me expressamente a esse aprumo e a esse instinto, pois trata-se de um livro inicial de alguém que, por profissão, lidou durante anos com a linguagem árida dos códigos do Direito. Nada dessa sintaxe obscura nem dessa semântica labiríntica perpassa por aqui; antes um fio de água pura, uma singeleza que não é simplória ou desprovida de humor. Das pequenas transgressões aos medos infantis, umas e outros tomando proporções gigantescas ao palmo-e-meio que o narrador nos deu a conhecer em pouco mais de centena e meia de páginas; o fascínio diante dos oficiais de vários ofícios, de práticas ancestrais (a aldeia portuguesa da década de 1950 permanece, em muitas situações, num contexto de Antigo Regime [não confundir, por favor, com alusões ao Estado Novo!...]); as evocações impressivas da marginalidade, assumida ou forçada, dos pedintes, dos bêbados, dos deficientes mentais; o gozo das prendas da Natureza, a estesia dum nascer do Sol, o impacte do primeiro avistamento do mar, o universo bem delimitado da floresta, com os seus segredos e zonas de sombra; o convívio com pais, avós e demais família que connosco é partilhado.
Dum ponto de vista mais utilitário, registe-se ainda a fonte que um livro como este é para quem, historiador ou antropólogo, se debruce sobre a vida rural duma aldeia da Estremadura em meados do século XX, facilitado pelo extremo rigor com que são mencionados artefactos, práticas culturais e espécimes animais e vegetais, na sua relação com o homem e no uso que deles se faz, ou fazia.
Crónicas de outro mundo, outro tempo, outro país, escritas por quem, sendo deste mundo, tempo e país logrará, disso estou certo, projectá-los no futuro, já que um livro como este tem um destino marcado, invejável destino: ser periodicamente revisitado ao longo dos tempos, como repositório de património imaterial da comunidade de que se originou.
(também aqui)
6 de janeiro de 2017
ÚLTIMAS PÁGINAS, de Eça de Queirós
Nas «Lendas de Santos» de Eça de Queirós (Últimas Páginas, 1912, edição póstuma organizada por Luís de Magalhães), biografias ficcionadas de santos. «São Cristóvão», aliás o único que o escritor concluiu, é um dos textos queirosianos que prefiro. Numa imprecisa Idade Média francesa, Cristóvão é um ser disforme (um gigante) e simples, cheio de amor para dar; amor forjado no conhecimento da incrível história do Menino-Deus, que por amor virá a morrer na cruz ("Cristóvão", o que tem Cristo em si...). De tal forma Cristóvão é possuído por esse amor ao semelhante, que nunca é abalado pelas inúmeras rasteiras e traições que lhe são infligidas pelos seus irmãos em humanidade; o mesmo amor e coração puro que, não suportando a miséria o leva a chefiar jacqueries... Eça mantinha bem viva a leitura do seu Proudhon. Da narrativa desprende-se um ambiente benfazejo e etéreo, no meio de guerra e de opressão do forte em relação ao fraco (a mesma atmosfera que se evola do magnífico «O Suave Milagre», trazendo-me à memória, por essa mesma atmosfera miraculosa do indizível «O Gigante Egoísta», do Oscar Wilde).
Em Eça sempre adorei a sua paixão pela História e a forma simultaneamente séria e lúdica com que lhe pegava. «Santo Onofre» é um dos padres do deserto, indivíduos que fugiam do mundo para encontrar Deus através da oração e da renúncia, sujeitando-se a todas as solicitações do Demónio, que mais não eram do que alucinações provocadas pela carência física e psicológica de tudo... Talvez o menos conseguido.
«S. Frei Gil», cujo plano da obra chegou até nós, poderia ser uma das grandes narrativas queirosianas, provavelmente abandonada (e isto é um palpite; precisaria de verificar cronologias) pelo felizmente concluído A Cidade e as Serras. Várias vezes me veio à memória a dispersão e a inconsistência do Jacinto de A Cidade e as Serras, ou mesmo de Gonçalo Mendes Ramires. Em todo o caso, ficamos com pena do corte abrupto da narrativa quando o volúvel Gil a caminho de Paris, na companhia do escudeiro Pêro, para estudar Medicina, é desviado do intento por um misterioso cavaleiro...
«S. Frei Gil», cujo plano da obra chegou até nós, poderia ser uma das grandes narrativas queirosianas, provavelmente abandonada (e isto é um palpite; precisaria de verificar cronologias) pelo felizmente concluído A Cidade e as Serras. Várias vezes me veio à memória a dispersão e a inconsistência do Jacinto de A Cidade e as Serras, ou mesmo de Gonçalo Mendes Ramires. Em todo o caso, ficamos com pena do corte abrupto da narrativa quando o volúvel Gil a caminho de Paris, na companhia do escudeiro Pêro, para estudar Medicina, é desviado do intento por um misterioso cavaleiro...
O segundo bloco desta Últimas Páginas, consiste num conjunto de «Artigos Diversos», textos todos de primeira água, em que avulta o também incompleto «O "Francesismo"», um magnífico ensaio de irónica autobiografia cultural.
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25 de dezembro de 2016
4 de dezembro de 2016
o início de LILLIAS FRASER
«Lillias salvou-se da carnificina porque seis horas antes da batalha, viu o pai morto, como realmente ele haveria de morrer mais tarde.
Hélia Correia, Lllias Fraser [2001], Porto, Público-Mil Folhas, 2003.
23 de novembro de 2016
Ferreira de Castro na ETerna Biblioteca
Esta sexta, pelas 9,30 h, estarei no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, a falar sobre Ferreira de Castro, quando se comemoram os cem anos da edição do seu primeiro livro. No sábado, também às 9,30 h farei o Roteiro Castriano de Sintra (inscrições fechadas).
14 de novembro de 2016
TERRA MÃE de Fernando Faria
Acabei a leitura: talvez cedo de mais, por não ter conseguido ir parando.
Se ler pode ser considerado um vício, o que acaba de me acontecer pode servir de exemplo; mas como se diz a um guloso refinado que pare de mastigar, quando se lhe coloca na mesa manjar de requinte?
Comecei a anotar textos para colocar aqui, como citações, mas acabei por selecionar tanta coisa que, concluí, mais vale ler o livro.
Só a lista dos capítulos tem mérito por si própria.
Desisti: não vou transcrever nada, mas não resisto a realçar a Ode de Outono e O Choro do Poço.
Se gosta de prosa que canta e que, apesar da perfeição rigorosa, desperta sensibilidade e nostalgia, e aviva a saudade, com ternura; em que o rigor e o pormenor da observação incentivam a risada solta e a lágrima espremida pelo sentir; onde a honestidade é omnipresente, a alma se adivinha, a vida aparece como sua; então leia: leia, saboreie e reviva, ou imagine apenas.
O título Terra Mãe chegou a ser escolha para aventura pessoal: perfeito para um livro, este, que eu gostaria de ter escrito e assinado.
Felicito-o mais uma vez, Fernando.
Se ler pode ser considerado um vício, o que acaba de me acontecer pode servir de exemplo; mas como se diz a um guloso refinado que pare de mastigar, quando se lhe coloca na mesa manjar de requinte?
Comecei a anotar textos para colocar aqui, como citações, mas acabei por selecionar tanta coisa que, concluí, mais vale ler o livro.
Só a lista dos capítulos tem mérito por si própria.
Desisti: não vou transcrever nada, mas não resisto a realçar a Ode de Outono e O Choro do Poço.
Se gosta de prosa que canta e que, apesar da perfeição rigorosa, desperta sensibilidade e nostalgia, e aviva a saudade, com ternura; em que o rigor e o pormenor da observação incentivam a risada solta e a lágrima espremida pelo sentir; onde a honestidade é omnipresente, a alma se adivinha, a vida aparece como sua; então leia: leia, saboreie e reviva, ou imagine apenas.
O título Terra Mãe chegou a ser escolha para aventura pessoal: perfeito para um livro, este, que eu gostaria de ter escrito e assinado.
Felicito-o mais uma vez, Fernando.
14 de outubro de 2016
Ano Ferreira de Castro
2016 ficará como um ano Ferreira de Castro, centenário da publicação do seu primeiro livro Criminoso por Ambição, uma obra juvenil. Estes quatro cartazes mostram talvez o mais importante do muito que se fez e ainda vai fazer durante este ano,
3 de setembro de 2016
o dia da morte de Ivan Turguénev
| Turguénev por Vasily Pérov |
Ivan Turguénev morreu em Bougival, arredores de Paris,
em 3 de Setembro de 1883
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29 de agosto de 2016
o início de OS MEMORÁVEIS
«O antigo embaixador estava vestido de seda e, por estranho que pareça, o caminho que iria conduzir aos memoráveis teve início no copo de uísque escocês que andava nas suas mãos.»
Lídia Jorge, Os Memoráveis [2014], 4.ª ed., Lisboa, D. Quixote, 2016.
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13 de agosto de 2016
A. M. Pires Cabral, 75
A. M. Pires Cabral nasceu em Chacim, Macedo de Cavaleiros, em 13 de Agosto de 1941
De A. M. Pires Cabral
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2 de agosto de 2016
NOME DE GUERRA (Almada Negreiros)
Um estilo ginasticado, em que se reconhece, sem dificuldade, a escrita de Almada, tanto em prosa como na própria poesia. Esse estilo é mesmo o que salva o livro, hoje, em 2016, pois se o confronto entre o real e o ideal, entre indivíduo e sociedade, entre irreverência e conformismo (ou rebeldia e domesticação) são temas de sempre, o pano de fundo é mais do que circunscrito, como não podia deixar de ser, provavelmente.
Grande livro em 1925, ano em que foi escrito, mas não editado, o que ocorreria só em 1938, pelas mão de João Gaspar Simões -- e por essa altura já não tão grande, uma vez que, entretanto, se publicara o Elói, ou Romance numa Cabeça, do mesmo JGS, o Jogo da Cabra Cega, de José Régio, e Sedução, de José Marmelo e Silva -- embora nenhum deles seja, ou fosse, Almada.
Tomarmos Nome de Guerra, nos dias de agora como obra-prima, será manifesto exagero, o que não significa que tenha deixado de ser um excelente, digamos, romance. A minha obra-prima de Almada, poderá ser, talvez, a Cena do Ódio. Mas a literatura escapa-se-nos, e sempre será mais do que entusiasmos e embirrações particulares. E ainda bem.
29 de junho de 2016
O dia da morte de Ferreira de Castro
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27 de junho de 2016
sobre «As Primeiras Coisas», de Bruno Vieira Amaral
Um universo: o Bairro Amélia, subúrbio da Margem Sul, onde vive ou vegeta, crê ou ludibria, trabalha ou madraça, ri e chora, ama e odeia uma comunidade formada por retornados das Colónias, realojados doutras paragens, pequenos funcionários públicos.
Escrito com enorme mestria, usando de ironia raramente distanciada, é daqueles livros cuja leitura tentamos retardar, por não querermos que termine. A observação de Pedro Mexia na contracapa é certeiríssima: "Bruno Vieira Amaral tem o génio do detalhe." A própria estrutura narrativa foi, para mim, uma coisa inteiramente nova. Do autor fiquei freguês. (da minha página do Goorreads: https://www.goodreads.com/user/show/14856264-ricardo-alves)
Escrito com enorme mestria, usando de ironia raramente distanciada, é daqueles livros cuja leitura tentamos retardar, por não querermos que termine. A observação de Pedro Mexia na contracapa é certeiríssima: "Bruno Vieira Amaral tem o génio do detalhe." A própria estrutura narrativa foi, para mim, uma coisa inteiramente nova. Do autor fiquei freguês. (da minha página do Goorreads: https://www.goodreads.com/user/show/14856264-ricardo-alves)
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21 de junho de 2016
Machado de Assis, 177
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18 de junho de 2016
O dia da morte de Saramago
5 de junho de 2016
O dia da morte de Ray Bradbury
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