11 de outubro de 2018

Tentando saltar o muro...


"A voz das cigarras enlouqueceria qualquer um, eram elas as donas da ilha e faziam questão de demonstrar o seu poder. Tantas as linguagens que Omid conhecia e aí estava uma a que nunca prestara atenção, a dos habitantes sub-reptícios do terreno. As línguas à sua volta já começavam a ser familiares. Na Turquia convivera com todos, contando as horas uma a uma, no pavor de ser preso. Como todos, negociara a travessia, esperara noites e noites, acachapado entre as sombras escusas de uma margem errada. Como todos, trocara moedas por pedaços de pão e tâmaras, também por documentos. Até as entoações, os sotaques, começava a distinguir, nos farrapos de conversas, nos modos usados para acalmar as crianças que puxavam insistentemente as saias das mães, fartas de atravessar caminhos que as picavam, fartas de acreditar que o sonho mau estava a passar e que a boa sorte as surpreenderia mesmo mesmo ao virar da esquina, ao virar do barco"

'Um Muro no Meio do Caminho' - Julieta Monginho, pag. 165

(Adivinha-se uma sessão animada...)

9 de outubro de 2018

UM MURO NO MEIO DO CAMINHO, livro do mês

EUGÈNE DELACROIX, O Massacre de Chios (1824), Museu do Louvre, Paris

Obra de arte citada no livro de JULIETA MONGINHO. Assunto: o massacre de 20000 gregos pelo invasor turco durante a Guerra de Independência da Grécia.
«Quem é hoje o invasor?
Não certamente os que fogem, mas os que impõem a fuga. Se alguém invadiu a Europa não foram os aflitos, mas os que instalaram o terror.» [p. 105]

8 de outubro de 2018

superstições

«TEMPLÁRIO - A pior superstição é achar que a nossa é a mais aceitável...» G. H. Lessing, Nathan o Sábio [1783], trad. Yvette Centeno, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2016, p. 184.

3 de outubro de 2018

Ferreira de Castro evocado no 53.º Festival de Música de Sintra


Dirigido por Gabriela Canavilhas, o Festival de Música de Sintra, na sua 53ª edição está a decorrer sob o signo da montanha mágica.
Ferreira de Castro, cujo 120.º aniversário do nascimento se comemora este ano, será evocado no próximo sábado, 6 de Outubro, pelas 17 horas, na Igreja da Ulgueira  através da leitura de textos por Luís Caetano, num concerto do Allis Ubbo Ensemble, com peças para quarteto de cordas datadas de 1898, compostas por vários compositores russos, como Borodin, Glazunov e Rimsky-Korsakov, entre outros. 

2 de outubro de 2018

aprender com Victor Hugo

«O que acarretará ser avô? Como pai não foi lá grande coisa, apesar de dar o seu melhor. Como avô, provavelmente, também ficará abaixo da média. Faltam-lhe as virtudes dos velhos: serenidade, bondade, paciência. Mas talvez essas virtudes ainda venham a surgir, tal como outras desapareceram: a virtude da paixão, por exemplo. Tem de ler novamente Victor Hugo, o poeta dos avós. Poderá aprender alguma coisa.»  J. M. Coetzee, Desgraça,  [1999], trad. José Remelhe, Lisboa, Biblioteca Sábado, Lisboa, 2008, pp. 194-195.

27 de setembro de 2018

o início de ILHÉU DE CONTENDA

«A igreja estava apinhada de gente.» Teixeira de Sousa, Ilhéu de Contenda (1978), Mem Martins, Publicações Europa-América, s.d., p. 13.

25 de setembro de 2018

raio X

«Quem lhe dera perder a visão de raio X que em tempos tanto invejou! Se ao menos fosse como o Super-Homem, que na presença de Lois Lane se tornava um ser normal!» Carlos Querido, «Real bodies«, Insanus, Lisboa, Abysmo, 2017, p. 68 

21 de setembro de 2018

o início de OS DESPOJOS DO DIA

«Parece cada vez mais provável que empreenderei, realmente, a excursão que há alguns dias anda a preocupar a minha imaginação.» Kazuo Ishiguro, Os Despojos do Dia [1989] , trad. Fernanda Pinto Rodrigues, Lisboa, Gradiva, 1991, p. 7.

12 de setembro de 2018

"o barómetro dos acontecimentos"

«O dr. Teófilo era, obviamente, o fiel da balança, o barómetro dos acontecimentos: "Nem germanófilo nem anglófilo; português de bem ao serviço do interesse nacional", esclarecia, instalado na terra de ninguém.» Álvaro Guerra , Café República[1982], 3.ª ed., Lisboa, O Jornal, 1984, p. 28.

10 de setembro de 2018

vidas paralelas

«Os romances são vidas segundas, vidas paralelas às nossas.» Orhan Pamuk, O Romancista Ingénuo e o Sentimental [2010], trad. Álvaro Manuel Machado, Lisboa, Editorial Presença, 2012, p. 11.

8 de setembro de 2018

LINHAS ENTRE NÓS em segunda edição


Três anos passados sobre o lançamento de LINHAS ENTRE NÓS, do confrade J. A. Marcos Serra, e há muito esgotada a parte da edição destinada ao público, decidiu-se o autor por uma reedição, revista e aditada, desta vez em formato digital, assumida pela Bibliotrónica Portuguesa, plataforma no âmbito da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que criou nova capa, em conformidade com os seus critérios editoriais, e adaptou a paginação à leitura em suporte digital.
Convida-se, pois, o leitor, a descarregar, ler ou imprimir livremente, desde que sem fins comerciais, e mesmo a enviar a “ligação” a amigos que gostem de ler nos novos suportes. Aqui fica:
Se tiver interesse em conhecer melhor a Bibliotrónica e a forma como apresentam os livros que reeditam, editam e disponibilizam, ficará surpreendido com o tamanho e riqueza da preciosidade que colocam ao seu dispor.
Deixo a apresentação da reedição:

Novo artigo em Bibliotrónica Portuguesa

A Bibliotrónica Portuguesa acaba de acolher, na secção de Reedições, mais um livro que ainda não se encontra em domínio público. Linhas Entre Nós, de J. A. Marcos Serra, é uma coletânea de contos e poemas, a que o autor acrescentou um capítulo sobre toponímia e um glossário de regionalismos (Manteigas, Serra da Estrela).
Além do interesse narrativo, poético e linguístico deste livro, o domínio da língua portuguesa que o autor demonstra recomenda especialmente esta leitura a todos os que gostem de passar as férias (e não só) em boa companhia.
Dizia-se...
(não sei se com verdade se inventado)
... que tinha vindo de fora, e era de famílias ricas. Teria andado numa guerra onde viu mil barbaridades horrendas, e onde cometeu crueldades escusadas, de que se arrependeu com honestidade e dor.
(Olha que sei bem o que são umas coisas e outras, pelo que vi e fiz durante a Grande Guerra, em Angola... ainda hoje me dói cá dentro... mas vamos à história.)
A verdade é que, quando a paz chegou, ele nunca mais a conseguiu encontrar e viver com ela, e achou que devia penitenciar-se, durante o resto da sua vida, pelos males que tinha feito.
Foi então que veio para aí.
Escolheu um lugar em plena serra, no sítio onde se ergue a capela vetusta de São Lourenço.

4 de setembro de 2018

REGRESSO ÀS... SESSÕES DA CURVA!


"- Aos meus sobrinhos? Àqueles ingratos? Nem um fio de cabelo meu lhes hei-de deixar. As minhas coisas vão todas para a igreja da minha freguesia. 
- Ribeira Filipe também? - indagou Felisberto, trémulo de emoção. 
Nha Noca não respondeu prontamente. Olhou demoradamente para Felisberto, assoou-se ao trapo roto e depois falou: 
- Até o dia de eu fazer o meu testamento, tenho muito que consultar este travesseiro - sorriu-se maternalmente para Felisberto, feito réu à espera da sentença. 
Despediu-se precipitadamente da parente idosa com um beijo na testa, desejando-lhe melhoras, melhoras, melhoras, correu à cozinha onde apalpou as nádegas à Guida sabinha, prosseguiu na correria até à escada de saída, que desceu como um «bidão» rolando na calçada do Bocarrão, aos trambolhões por aí abaixo. Quando se apanhou na rua, continuou com a mesma aceleração a caminho de casa, cantando em surdina esta modinha improvisada:

Ribêra Filipi é di mé, é di mé, é di mé mi só. "

Romance-saga, muito bem urdido, retrato fidelíssimo (pelo que conheço) da realidade cabo-verdiana no tempo colonial, em que o racismo, sempre latente, se apresenta, na maior parte das vezes, diluído numa especial forma de paternalismo apoiado na supremacia da raça branca sobre a negra e a mestiça e em que o envolvimento sexual é aceite desde que não frutifique numa "ninhada de netinhos de ventas largas e cabelo cuscuz" (pg. 302)



 


26 de julho de 2018

capas


a edição da Livros do Brasil, ilustrada por Bernardo marques,
de Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez

24 de julho de 2018

"o rigor e o prazer da palavra"

«Escrevo esta História ao rés da fala. Sem dalmática, questiono. Não sigo o cânone. Persigo o rigor e o prazer da palavra.» António Borges Coelho, Donde Viemos -- História de Portugal I [2010], 2.ª ed., Lisboa, Editorial Caminho, 2015, p. 11.

20 de julho de 2018

a vigília da razão

«Vendo-a adormecida, neutra, Cecília pareceu-lhe menos odiosa. Dir-se-ia que a sua vida era protegida pela sua própria incapacidade de defender-se.» Ferreira de Castro, A Tempestade [1940], 16.ªed., Lisboa, Cavalo de Ferro, 2017, p. 11. 

11 de julho de 2018

meu lindo Agosto

«Este é o país que nasce e morre em Agosto, ao ritmo das visitas dos emigrantes.» Ricardo J. Rodrigues, Malditos -- Histórias de Homens e de Lobos, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2014, p. 37.