28 de maio de 2026

as aberturas de FLORES AO TELEFONE

6. «Um diário para Saudade». «Creio que em quase todos os colégios de meninas há uma ou duas extremamente bonitas e graciosas, geralmente alunas medíocres, de longos cabelos loiros e olhos azuis (têm quase sempre esse tipo físico), a quem a maioria presta incondicional vassalagem.»

5. «O homem voador e a mulher que não tinha asas». «Corredor de automóveis teria sido uma profissão para ele.»

4. «Os doces braços da noite»: «Estava ali a olhar para os pais e a ouvi-los, e ao mesmo tempo a sentir que algo de si ficara a vaguear, esquecido ou perdido, no escritório do tio Jaime, não viera com ela.»  

3. «O casamento»: «O padre disse:»

2. «A estranha ressonância do nome de Alma». «A mulher rompeu o silêncio e disse: "Queres ouvir, Hermes?"»

1. «Flores ao telefone». «A mulher pegou no auscultador subitamente vivo, ser-objecto preto e luzidio, às vezes repugnante quando vomitava coisas sujas de que ela não gostava, embora as devorasse, esfomeada, pegou-lhe e disse numa voz ausente, demasiado fria, voluntariamente fria, que estava, sim, que era ela, sim.»


Maria Judite de Carvalho, Flores ao Telefone (1968), Obras Completas III, Coimbra, Minotauro, 2024.

18 de maio de 2026

o início de AS VELAS ARDEM ATÉ AO FIM

«De manhã, o general demorou-se muito na cave do lagar.» Sándor Márai, As Velas Ardem até ao Fim [1942], trad. Mária Magdolna Demeter, 38.ª ed,. Alfragide, D. Quixote, s.d., p. 7.

15 de maio de 2026

"Museus a unir um mundo dividido"

O nosso confrade Daniel Estudante Protásio será o convidado para a celebração da Noite dos Museus em Sintra, no próximo sábado, 16 de Maio, às 21,30, em que dissertará sobre «O Visconde de Santarém, Ferreira de Castro e a Portugalidade: percursos de vida e sensibilidades literárias». 


Que aproximações, que pontos de contacto entre um dos pioneiros da historiografia dos Descobrimentos, que na primeira metade do século XIX tomou para si a tarefa de divulgar além-fronteiras o papel de Portugal, fazendo-o no exílio, pois foi um dos derrotados da Guerra Civil, entre liberais e absolutistas; e um romancista do século seguinte, de extracção anarquista, que renovou o romance português no final da década de 1920 e início da seguinte. arejando uma literatura de ficção estagnada e/ou irrelevante desde o fim do século anterior?

10 de maio de 2026

101 poemas portugueses #74

 

CARTA A MARIANA


Só existes no prenúncio do teu nome
e na pulsão
crescente
da mãe
que há muito
te deseja
e quer
vir a ajuntar
à corola acetinada das boninas
a energia genética da espiga
e ao sabor agridoce da amora silvestre
o nome de um pai
que se reveja por igual no vosso olhar
gira as valências de um metal nobre
o bouquet subtil de vinho generoso
o timbre inebriante de uma voz

mariana
olhos verdes ou azuis
quais os meus
do colo da tua mãe
dá-lhe beijos
muitos beijos
por ti e por mim também
(se tu me chegares a ler
se tu vieres a nascer)

de longe acenar-te-ei
no papel vestibular
do pai que te acontecer

Rui Ferreira Bastos, Penela da Beira, Penedono, 1928 - ),

Voz(es) (2003)

9 de maio de 2026

o início de MAU TEMPO NO CANAL

«-- Mas não voltas tão cedo...», Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944), Lisboa, Unibolso, s.d., p. 7.