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8 de dezembro de 2023

POEMAS IMORTAIS - UMA SELECÇÃO POSSÍVEL. XIII

 

Camões, grande Camões, quão semelhante

Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!

Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,

Arrostar coo sacrílego gigante;


Como tu, junto ao Ganges sussurrante,

Da penúria cruel no horror me vejo;

Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,

Também carpindo estou, saudoso amante.


Ludíbrio, como tu, da sorte dura

Meu fim demando ao Céu, pela certeza

De que só terei paz na sepultura.


Modelo meu tu és... Mas, oh tristeza!...

Se te imito nos transes da Ventura,

Não te imito nos dons da Natureza.


BOCAGE

24 de novembro de 2023

101 poemas portugueses - #9

 

SONETO


Sobre estas duras, cavernosas fragas,

Que o marinho furor vai carcomendo,

Me estão negras paixões n'alma fervendo,

Como fervem no pego as crespas vagas.


Razão feroz, o coração me indagas,

De meus erros a sombra esclarecendo,

E vás nele (ai de mim!) palpando e vendo

De agudas ânsias venenosas chagas.


Cego a meus males, surdo a teu reclamo

Mil objectos de horror co a ideia eu corro,

Solto gemidos, lágrimas derramo.


Razão, de que me serve o teu socorro?

Mandas-me não amar; eu ardo, eu amo:

Dizes-me que sossegue: eu peno, eu morro.


Manuel Maria Barbosa du Bocage (Setúbal, 1765 - Lisboa, 1805)

in José Régio (Vila do Conde, 1901-1969), As Mais Belas Líricas Portuguesas (s.d.)