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19 de dezembro de 2023

21 POEMAS DO SÉCULO 21 - XI

 

PARTE INCERTA

 

Já nem sei onde moras, onde fica

a tua porta, nudez corredia a que fui

sentinela, intrusa tão nítida

como as coisas recortadas pelo fogo.

Como deve ser quem espera

do amor uma relíquia magra,

como deve ser quem guarda

ossos, cerrados horizontes,

a elegância ferida.

Póstuma e de boa imprensa, já te ofereço

o meu cadáver, nó de leite

no azedo da memória, ou os meus seios

que se abrigam dobrados na nudez.

Nunca soube de onde vinha

tanta esperança, um poço

acendendo desde o fundo todo o ar,

e a minha boca tua imunda fera

morta, dividida ao estertor,

como em noites muito exactas

de calor nas mãos se racha

a madeira de um móvel que estimas.

 

ANDREIA C. FARIA (1984), Canina (2022)