PARTE INCERTA
Já nem sei onde moras, onde fica
a tua porta, nudez corredia a que fui
sentinela, intrusa tão nítida
como as coisas recortadas pelo fogo.
Como deve ser quem espera
do amor uma relíquia magra,
como deve ser quem guarda
ossos, cerrados horizontes,
a elegância ferida.
Póstuma e de boa imprensa, já te
ofereço
o meu cadáver, nó de leite
no azedo da memória, ou os meus seios
que se abrigam dobrados na nudez.
Nunca soube de onde vinha
tanta esperança, um poço
acendendo desde o fundo todo o ar,
e a minha boca tua imunda fera
morta, dividida
ao estertor,
como em noites muito exactas
de calor nas mãos se racha
a madeira de um móvel que estimas.
ANDREIA C. FARIA (1984), Canina (2022)