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31 de dezembro de 2023

POEMAS IMORTAIS - UMA SELECÇÃO POSSÍVEL.XIX

 

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

muda-se o ser, muda-se a confiança;

todo o mundo é composto de mudança,

tomando sempre novas qualidades.


Continuamente vemos novidades,

diferentes em tudo da esp'rança;

do mal ficam as mágoas na lembrança,

e do bem, se algum houve, as saudades.


O tempo cobre o chão de verde manto,

que já coberto foi de neve fria,

e em mim converte em choro o doce canto.


E, afora este mudar-se cada dia,

outra mudança faz de mor espanto:

que não se muda já como soía.


CAMÕES

14 de novembro de 2023

POEMAS IMORTAIS - UMA SELECÇÃO POSSÍVEL. VII

 

CANTIGA


Descalça vai para a fonte

Leonor pela verdura;

vai formosa, e não segura.


Leva na cabeça o pote,

O testo nas mãos de prata,

Cinta de fina escarlata,

Sainho de chamalote;

Traz a vasquinha de cote,

Mais branca que a neve pura;

Vai formosa, e não segura.


Descobre a touca a garganta,

Cabelos de ouro o trançado,

Fita de cor de encarnado.

Tão linda que o mundo espanta;

Chove nela graça tanta

Que dá graça à formosura;

Vai formosa e não segura.


LUÍS DE CAMÕES

1 de novembro de 2023

101 poemas portugueses - #5


ESPARSA

sua ao desconcerto do mundo

Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos
E para mais me espantar
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado
Fui mau mas fui castigado.
Assim que, só para mim,
Anda o mundo concertado.

Luís de Camões, Poesia Lírica
ed. Isabel Pascoal (2002)

10 de novembro de 2013

CULTURA ITALIANA: PIRANDELLO E OS CONFLITOS DO EU





                                           CULTURA ITALIANA: PIRANDELLO E OS CONFLITOS DO EU 


O Clube de Leitura de Sintra debateu em de Maio a obra e a representação literária de Pirandello (1867-1936). As linhas de força deste verista são: a solidão, o absurdo da existência, o mistério da personalidade. Lembrei nesta ocasião a proximidade ‘familiar’ desta poética a três outras: Giacomo Leopardi (1798-1837), Antero e Pessoa. Os conflitos do Eu e da Existência têm caracter dominante e percursos únicos e vários nas Obras destes escritores.

A profundidade destas interrogações seja num discurso pessoal seja num percurso ontológico vai diferenciar as três poéticas embora com referentes simbólicos comuns: a Dor física e a sua libertação pela morte como a propõe Leopardi ou o Antero no Ciclo do Elogio da Morte.; por outro lado a solidão, as máscaras, a multiplicação do Eu, a despersonalização, os percursos do Não-Ser até ao Ser único e absoluto, aproximam-nos de Pessoa e do próprio Pirandello.

Dá-se o caso de eu amar a cultura italiana. Dá-se a circunstância de eu ter participado no evento: ‘ E naufragar me é doce neste mar: Leopardi na Madeira’ que assinalou o bicentenário do nascimento deste importantíssimo poeta italiano. Nessa ocasião, isto é, em 1999, depois da leitura dos Canti escrevi para Pádua e disse que o nosso Camões possui terríveis afinidades com o poeta de Recanati. Disse: ‘de facto, o nosso épico, que muito bebe nos académicos de Florença, reflete na Canção IX, da minha especial predileção, e nos sonetos, problemáticas semelhantes ao caso do poeta italiano’.

Observei a feliz coincidência das relações de cultura entre os dois povos. Subtis mas perenes, impercetíveis mas resistentes e plásticas como as qualidades das suas respetivas línguas. Fossem essas relações diplomáticas ou comerciais de antiquíssimo registo desde a remota Génova e da poderosa Veneza de Quinhentos; fossem literárias ou artísticas com a deslocação de pintores e suas escolas, de arquitetos e de escultores; fossem musicais e até científicas: a organização dos nossos gabinetes de História Natural, o recorte dos nossos jardins botânicos desde o renascentista ao barroco.

São lentos mas de sábia lentidão os processos criativos na teia que reúne os povos. Contudo, o universo das palavras, o ser das palavras domina as poéticas neste fascínio em busca do cerne da poesia; incessante desvendar do outro para a compreensão de nós-mesmos. Agora, na busca da essencialidade também num refazer de linguagens plásticas que ultrapassam a própria razão e vai mais longe que Descartes: para existirmos não basta nos pensarmos. Parafraseando a essencialidade de Clarice Lispector direi que existimos quando nos vemos ao espelho. Se nos movemos  na busca do outro, deslocando os eixos culturais do mundo, atualizando Quinhentos, é por que já desanuviamos a nossa aura. E nos confirmamos como europeus.                                 

3 de outubro de 2013

outro soneto de Camões

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!

in José Régio, Poesia de Ontem e de Hoje para o Nosso Povo Ler, Lisboa, Campanha Nacional de Educação de Adultos, 1956, pp. 16-17.

(lido na sessão de 7 de Setembro)

19 de agosto de 2011

uma epígrafe de Camões

Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas,
Me parecem belas
Como os meus amores

Endechas a Bárbara Escrava

(escolhida por Trindade Coelho para Os Meus Amores)

14 de julho de 2011

um soneto de Camões*

Doce sonho, suave e soberano
        Se por mais longo tempo me durara!
        Ah! quem de sonho tal nunca acordara,
        Pois havia de ver tal desengano!
Ah! deleitoso bem! ah! doce engano!
        Se por mais largo espaço me enganara!
        Se então a vida mísera acabara,
        De alegria e prazer morrera ufano,
Ditoso, não estando em mim, pois tive
        Dormindo, o que acordado ter quisera.
        Olhai com que me paga meu destino!
Enfim, fora de mim ditoso estive.
        Em mentiras ter dita, razão era,
        Pois sempre nas verdades fui mofino.

Urbano Tavares Rodrigues (introdução e selecção), Poesia da Noite, Lisboa, Neo-Farmacêutica, 1970, p. 15.


* Lido na sessão de 4 de Fevereiro de 2011.

a nossa equipa

Luís de Camões. Retrato coevo por Fernão Gomes