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7 de outubro de 2014

Um lugar para os dias

Uma longa carta à pessoa amada, já falecida, que é, simultaneamente, um diário, uma revisitação memorialística e um balanço, com micro-ensaios e reflexões, pequenas narrativas de viagem, poesia -- um livro compósito, enfim, que reflecte os interesses da autora. Pintora de formação, foi na escrita que Irene Lucília Andrade encontrou um lugar para os seus dias, embora a aguda capacidade observadora e descritiva não deixe, creio, de ser tributária dessa aprendizagem de base.
As observações de carácter genericamente político (em especial os relativos aos fenómenos internacionais a que vimos assistindo nos últimos anos) são talvez o menos conseguido desta obra, embora traduzam a impotência do cidadão comum diante do momentoso de que (ainda) só somos testemunhas, em diferido e por vezes em directo; e, nesse especto, constitui um exemplo fidedigno do ambiente geral. O melhor, para mim: as evocações do passado, os pais, a infância, e a descoberta do mundo; e também os vários apontamentos, magníficos, sobre arte, em especial a pintura

1 de outubro de 2014

um parágrafo de Irene Lucília Andrade

«O Natal chegava e depois dele a Páscoa. E era nestas épocas que se operavam os abalos. A morte das galinhas e do peru, a morte do porco, eram acidentes monstruosos que lhe alteravam todo o entendimento do mundo. Ela procurava então o esconderijo amigo das suas sombras predilectas e fechava-se à estridência das azáfamas exteriores, porque o pequeno coração só se abria diante do esplendor das flores e das borboletas, o corpo aconchegava-se ao conforto macio dos brinquedos e os únicos ruído consentidos eram apenas os das suas fantasias.»

Um Lugar para os Dias, Lisboa, Chiado Editora, 2013, p. 105.