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10 de abril de 2024

25 poemas passados para português - #21


TRABALHAR CANSA


Atravessar uma rua para fugir de casa

só um rapaz é que o faz, mas este homem que vagueia

todo o dia pelas ruas já não é um rapaz

e não está a fugir de casa.

                                             Há tardes

no verão em que até as praças ficam vazias, estendidas

sob o sol que está prestes a pôr-se, e este homem, vindo

por uma alameda de inúteis plantas, pára.

Vale a pena estar sozinho, para se estar cada vez mais sozinho?

Vaguear por elas apenas, as praças e as ruas

estão vazias. É preciso travar uma mulher

e falar com ela e convencê-la a viver a dois.

Ou então fica-se a falar sozinho. Daí que por vezes

haja o bêbedo nocturno que mete conversa,

e conta os projectos de uma vida inteira.


Não é certamente aguardando na praça deserta

que se encontra alguém, mas quem vagueia pelas ruas

detém-se por vezes. Se fossem dois,

mesmo a andar pela rua, a casa seria

onde está aquela mulher, e valeria a pena.

Volta a praça a ficar deserta à noite,

e este homem, que passa, não vê as casas

entre as luzes inúteis, já não ergue os olhos:

sente apenas a calçada, que outros homens fizeram

com mão endurecidas, como são as suas.

Não é justo ficar na praça deserta.

Andará com certeza pela rua a mulher

que, rogada, daria com gosto um jeito na casa.


Cesare Pavese (Santo Stefano Belbo, Piemonte, 1908 - Turim, 1950),

Trabalhar Cansa (1936)

Versão de Vasco Gato, Lisboa, 1978) 


 original

5 de janeiro de 2024

TEM DIAS XXVII

 


Regras do esquecimento


Não esqueças sobretudo a armadura

da noite,

a aspereza das estrelas

quando os olhos são recentes

e a gravitação é como um poder

sucinto nas mãos.


Não esqueças sobretudo como os cereais

lavram os campos estafados, destilam

prodígio pelos sulcos da memória,

oferecem-te uma vida maior

em troca do sal

das pálpebras.


Não esqueças sobretudo de olhar devagar.



VASCO GATO, Imo (2003)