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18 de novembro de 2023

101 poemas portugueses - #8


Sozinha no bosque
com meus pensamentos,
calei as saudades,
fiz trégua a tormentos.

Olhei para a lua,
que as sombras rasgava,
nas trémulas águas
seus raios soltava.

Naquela torrente
que vai despedida
encontro, assustada,
a imagem da vida.

Do peito, em que as dores
já iam cessar,
revoa a tristeza,
e torno a penar.

Marquesa de Alorna
(Leonor de Almeida Portugal, 
Lisboa, 1750-1839)
in M. Rodrigues Lapa, Poetas do Século XVIII (1967)

11 de novembro de 2023

101 poemas portugueses - #7


Que assim sai a manhã, serena e bela?
Como vem no horizonte o sol raiando!
Já se vão os outeiros divisando,
já no céu se não vê nenhuma estrela.

Como se ouve na rústica janela
do pátrio ninho o rouxinol cantando!
Já lá vai para o monte o gado andando,
já começa o barqueiro a içar a vela.

A pastora acolá, por ver o amante,
com o cântaro vai à fonte fria;
cá vem saindo alegre o caminhante;

Só eu não vejo o rosto da alegria:
que enquanto de outro sol morar distante,
não há-de para mim nascer o dia.

João Xavier de Matos (c. 1730/35 - Vila de Frades, 1789)
in M. Rodrigues Lapa, Poetas do Século XVIII (1967)