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13 de junho de 2026

101 POEMAS PORTUGUESES - #75


MADAME BUTTERFLY, VELHA


Engano: não, não me matei,
suguei
a vida que outros deram.

Gueixa nasci e aqui estou de gueixa,
borboleta que fui, borboleta que sou,
mosca, ah, sim, mosca,
mas de manteiga.

E envelheço porque não morri.
Envelheço? Não pode envelhecer
quem sempre foi assim.
Dizem-me velha? Olhem-me as pinturas:
todos os dias chegam barcos,
barcos, marinheiros,
todos os dias chegam.

Pedro Tamen (Lisboa, 1934 - Setúbal, 2021),
Analogia e Dedos (2006)

7 de novembro de 2023

TEM DIAS III

 

Vozes para além do rio. São água
também, correm até à foz
do meu ouvido. E refluem agora,
líquidas, da foz do meu olvido.
Além do rio, vozes e acenos. Gritos
tão leves, sobre os anos voando.
A minha mão, a minha mão também
esgueira um gesto curto enquanto
a outra escreve. Desenha 
no papel seco a ponte, as pontes, todos
os corredores das vozes donde chego
à relva desta margem.


PEDRO TAMEN, Memória Indescritível, gótica, Lisboa,2000

18 de janeiro de 2021

o início de HISTÓRIA DE UMA GAIVOTA E DO GATO QUE A ENSINOU A VOAR

 


«-- Banco de arenques a bombordo! -- anunciou a gaivota de vigia, e o bando do Farol da Areia Vermelha recebeu a notícia com grasnidos de alívio.»
Luis Sepúlveda, História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar [1996], tradução de Pedro Tamen, Porto Editora, Porto, 2020.

16 de novembro de 2014

40 ANOS DE MOVIMENTO



O número 1 da revista literária Movimento (cadernos de poesia & crítica) foi lançado na cidade do Funchal em Novembro de 1973. A direcção e coordenação deste número único esteve a cargo do  poeta A J Vieira de Freitas, o verdadeiro impulsionador desta publicação. Natural da Madeira, Vieira de Freitas, era   um dos raros modernos residentes  no espaço insular. Queria fazer desta revista, um espaço para a divulgação da autêntica poesia e simultaneamente despertar nos leitores o  gosto pela  leitura e crítica poéticas inexistente a nível local.

 Houvera no início dos anos 70 o colóquio “Ao encontro da poesia”, na Escola Industrial e Comercial do Funchal. Nele participaram a poetisa Irene Lucília Mendes de Andrade, os poetas A J Vieira de Freitas e José António Gonçalves e o jornalista Tolentino de Nóbrega. Aqui foi  debatida a interminável (?!) questão entre antigos e modernos. Questionou-se essencialmente o versilibrismo, que não era aceite por todos;  Pelo seu simbolismo estes dois acontecimentos culturais vão entusiasmar a geração a que pertenço nascida na década de 50 e projectá-la depois.         

De autêntica poesia se trata. A revista Movimento contem  na variedade das suas vozes mui particulares, o fermento do discurso social na literatura que é nexo relacional e emocional nos textos ora apresentados. Participaram, com poemas rigorosamente originais 4 poetas continentais e 4 poetas madeirenses, que coloco por ordem de publicação : Eugénio de Andrade, António Ramos Rosa, Pedro Tamen, José Bento, A J Vieira de Freitas, José Agostinho Baptista, José António Gonçalves,e, Gualdino Rodrigues. 

A  revista Movimento  está de certo modo inspirada nos ideais da Árvore,    e nos poetas de 50 mas não rigorosamente. Observamos textos situados entre o simbolismo e filamentos do surrealismo, quase. Mergulha, outrossim    nas questões da consciência social , da existência, e da condição humana. Pelas suas preocupações sociais e estéticas e partilha de meios literários e éticos é exemplar para as novas gerações de poetas.