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12 de maio de 2020

CORTE NA ALDEIA

Eu sei: um livro é um livro e, nada melhor que juntar à leitura, o toque, o revirar, o espreitar capas e badanas, o descobrir referências antes do texto, o cheiro, o aspeto de velho ou jovem...
E quando já não há?! Abdico de ler, ou aplico o rifão "do mal o menos"?
Prefiro a muleta à imobilização.
É por isso que, se quer matar o apetite que o confrade Manuel Nunes nos abriu sobre a Corte na Aldeia, e já não encontra a escrita do Francisco Rodrigues Lobo, impressa no papel, lhe deixo o seguinte caminho;

https://bibliotronicaportuguesa.pt/livronicos-na-internet/
Depois é só buscar o autor, por ordem alfabética, e ele lá estará para lhe oferecer:
Divirta-se.
J. A. Marcos Serra

5 de maio de 2020

DIA MUNDIAL DA LÍNGUA PORTUGUESA

Elogio da língua portuguesa

Francisco Rodrigues Lobo, Corte na aldeia. Lisboa: Edições Vercial, 2010

DIÁLOGO I


E verdadeiramente que não tenho a nossa língua por
grosseira, nem por bons os argumentos com que alguns
querem provar que é essa; antes é branda para deleitar,
grave para engrandecer, eficaz para mover, doce para
pronunciar, breve para resolver e acomodada às matérias
mais importantes da prática e escritura. Para falar é
engraçada com um todo senhoril, para cantar é suave com
um certo sentimento que favorece a música; para pregar é
substanciosa, com uma gravidade que autoriza as razões e
as sentenças; para cartas nem tem infinita cópia que dane,
nem brevidade estéril que a limite; para histórias nem é tão
florida que se derrame, nem tão seca que busque o favor
das alheias. A pronunciação não obriga a ferir o céu da
boca com aspereza, nem a arrancar as palavras com
veemência do gargalo. Escreve-se da maneira que se lê, e
assim se fala. Tem de todas as línguas o melhor: a
pronunciação da Latina, a origem da Grega, a familiaridade
da Castelhana, a brandura da Francesa, a elegância da
Italiana. Tem mais adágios e sentenças que todas as
vulgares, em fé de sua antiguidade. E se à língua Hebreia,
pela honestidade das palavras, chamaram santa, certo que não sei eu outra que tanto fuja de palavras claras em matéria descomposta quanto a nossa. E, para que diga tudo, só um mal tem: e é que, pelo pouco que lhe querem seus naturais, a trazem mais remendada que capa de pedinte.

Francisco Rodrigues Lobo, Corte na Aldeia (1619)