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21 de março de 2024

 POEMAS IMORTAIS - UMA SELECÇÃO POSSÍVEL, XXIII


A VIDA

A vida é o dia de hoje,

a vida é ai que mal soa,

a vida é sombra que foge, 

a vida é nuvem que voa,

a vida é sonho tão leve

que se desfaz como a neve

e como o fumo se esvai:

a vida dura um momento,

mais leve que o pensamento,

a vida leva-a o vento,

a vida é folha que cai.


A vida é flor na corrente,

a vida é sopro suave,

a vida é estrela cadente,

voa mais leve que a ave:

nuvem que o vento nos ares,

onda que o vento nos mares

uma após outra lançou,

a vida - pena caída

 da asa de ave ferida - 

de vale em vale impelida,

a vida o vento a levou.


JOÃO DE DEUS

1 de dezembro de 2023

101 poemas portugueses - #11


BOAS NOITES


Estava uma lavadeira
A lavar numa ribeira
Quando chega um caçador:

-- Boas tardes, lavadeira!

-- Boas tardes, caçador!

-- Sumiu-se-me a perdigueira
Ali naquela ladeira;
Não me fazeis o favor
De me dizer se a brejeira
Passou aqui a ribeira?

-- Olhai que, dessa maneira,
Até um dia, senhor,
Perdereis a caladeira,
Que ainda é perda maior.

-- Que me importa, lavadeira!
Aqui na minha algibeira
Trago dobrado valor...
Assim eu fora senhor
De levar a vida inteira
Só a ver o meu amor
Lavar roupa na ribeira!

-- Talvez que fosse melhor...
Ver coser a costureira!
Vir de ladeira em ladeira
Apanhar esta canseira,
E tudo só por amor
De ver uma lavadeira
Lavar roupa na ribeira...
É escusado, senhor!

-- Boas noites,... lavadeira!

-- Boas noites, caçador!...


João de Deus (São Bartolomeu de Messines, 1830 - Lisboa, 1896),
Campo de Flores (1893)