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8 de maio de 2014

da 1.ª Sessão das Quartas

Ontem leu-se variado e bem. Como estávamos no Museu Ferreira de Castro, foi a ele que coube inaugurar esta nova sessão das quartas: seguiram-se Pepetela, João Ricardo Pedro, Miguel Real, Franz Kafka, Eça de Queirós, Maria do Rosário Pedreira, Bertolt Brecht, Adelino Caldeira, e até dois folhetos: um sobre a morte de Alves Redol, em 1969, e a lista dos candidatos da CDE  no distrito de Lisboa, para o simulacro de eleições havido no mesmo ano, creio, com candidatos que dariam (e alguns ainda dão) que falar...  
Aqui ficam algumas linhas das minhas escolhas:

Ferreira de Castro, «Delfim Guimarães» (a propósito da morte do seu editor): "[...] Tenho conhecido muita gente. Uns, mascarados, às esquinas da vida; outros, colocados ao sol, espírito aberto à compreensão, que tudo justifica e tudo absolve, à solidariedade humana, ao amor pelos que sofrem e até por aqueles que parecem não sofrer... [...]". In Memoriam de Delfim Guimarães (1934)

Eça de Queirós, em carta a Jaime Batalha Reis, defendendo-se de não ter participado o seu casamento: "[...] Mil trovões! Estás tu certo disso? O quê! Eu não te disse que ia casar, -- falando de pé, com um gesto largo, lá na casa de Langham St.?... / Bem diz o Santo Antero, como ja o ensinara o Buda divino! Tudo é nada: só há aparencias: o universo é uma grande ilusão: a única realidade é o não-ser! [...]". Cartas Inéditas de Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, Batalha Reis e Outros (edição de Beatriz Berrini, 1987).

Sarah Adamopoulos, «A Marylin»: "[...] Todos os dias ela ia morrer. Acontecia-lhe em qualquer lugar. Podia ser no supermercado junto às arcas dos ultracongelados. Convencia-se de que ia ter um colapso cardíaco ou uma hemorragia cerebral e imaginava-se a cair e a ficar com a cabeça colada às embalagens dos panadinhos Capitão Iglo. [...]".  A Vida Alcatifada (1997)

Bertolt Brecht, «Desfile do povo alemão»: "Decorridos cinco anos nos disseram / que aquele que a si próprio se intitula / enviado de Deus já aprontou / sua guerra, os armamentos; / [...]".  O Terror e a Miséria no Terceiro Reich (1938 - tradução de Fiama Hasse Pais Brandão).

O olho de vidro

Uma coisa parecia certa: no dia vinte e cinco de abril de mil novecentos e setenta e quatro, faltaria ainda um bom bocado para as sete da manhã, Celestino apertou a cartucheira à cintura, enfiou a

Browning a tiracolo, verificou o tabaco e as mortalhas, esqueceu-se do relógio pendurado num prego que também segurava um calendário e saiu porta fora. O céu começava a clarear. Ou talvez nem sequer tivesse começado a clarear. Por cima das sopas de café com leite, Celestino emborcara, sem esforço, dois tragos de bagaço. O primeiro, para a azia. O segundo, para os pensamentos cismáticos, que ele, como, aliás, todos os traços fisionómicos sugeriam, era homem dado a prolongadas melancolias.
Por volta das onze horas da manhã, nenhum vento de mudança fora ainda sentido por aqueles que viviam da cruel aritmética dos alqueires, dos cinchos, das safras, das luas, das maleitas, das malinas, das geadas. Nos campos, homens e mulas rasgavam a terra em irrepreensíveis geometrias, enquanto, na penumbra dos currais, embaladas por ladainhas que os próprios lábios iam tecendo, as mulheres atestavam as gamelas dos porcos, das cabras, dos filhos. E, se alguém tivesse o desplante de interromper os seus laboriosos afazeres para lhes comunicar que, naquele preciso momento, o Presidente do Conselho de Ministros de Portugal se encontrava encurralado num quartel de Lisboa, cercado por soldados que exigiam a sua rendição, o mais certo seria obter como resposta um olhar de absoluta indiferença.
É que naquela pequena aldeia com nome de mamífero, encalacrada num sopé da Serra da Gardunha, voltada para sul sem consciência de que estava voltada para sul, a única exceção àquele total alheamento acerca dos destinos da pátria, como se a pátria fosse um lugar longínquo, era a casa do doutor Augusto Mendes, onde, numa espécie de gabinete de crise, se encontravam reunidas as suas mais ilustres personalidades: Adolfo, Bocalinda, Larau, padre Alberto, Fangaias e, claro está, o anfitrião, o doutor Augusto Mendes.
[...]
Excerto do primeiro capítulo de O Teu Rosto Será o Último, João Ricardo Pedro, Leia (BIS).
(Sessão de 7 de Maio de 2014)