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28 de abril de 2024

101 poemas portugueses - #36


O BALOIÇO


Na minha quinta, em pequeno,
Tive um inquieto baloiço
Que ainda o vejo sereno
E nele os meus gritos oiço.

Longas horas baloiçava
Meu frágil corpo menino.
E ora subia ou baixava
Num constante desatino.

Nesse baloiço, à distância,
Chama por mim minha infância
E eu chamo p'lo que passou.

E sem haver quem me oiça
O baloiço me baloiça
Entre o que fui e o que sou.



Alfredo Guisado  (Lisboa, 1891-1975) 
A Lenda do Rei Boneco (1920) / Líricas Portuguesas - 2.ª Série
(edição de Cabral do Nascimento)

1 de abril de 2024

101 POEMAS PORTUGUESES - #31


SONETO DA VISITAÇÃO


Vinde, adorai! Criados e parentes!
Tenho o presépio em nossa casa armado.
Vinde adorar o meu menino amado,
Honrá-lo com carinhos, com presentes!

Muito quietinho, nas roupinhas quentes,
O infante dorme, dorme aconchegado.
É lindo, pois não é? o meu morgado?
Que tu, Senhor, em graça mo aviventes!

E, de joelhos, com um ar de boda,
Adora e pasma-se a assistência toda,
Como diante dum festivo altar.

Que perfeição! Que enlevo de criança!
-- E pedem num louvor que não descansa
Que Deus nos dê saúde p'ra o criar.

António Sardinha (Monforte, 1887 - Elvas, 1925)
A Epopeia da Planície (1915) /
/ Líricas Portuguesas - 2.ºªSérie
(edição de Cabral do Nascimento)

23 de março de 2024

101 poemas portugueses - #28


A DOR DAS PEDRAS 


Ó pedras a sofrer, em ânsias, nas calçadas,
Ninguém vos sabe amar, ninguém de vós tem dó,
Ninguém sabe entender, ó pedras desgraçadas,
Que há lágrimas também dentro do vosso pó!

Passam, por sobre vós, tanta dor e alegria,
Olhos em que há prazer, olhos em que há tormento,
E ninguém vos consola e queima-vos o dia
E, quase sempre a rir, insulta-vos o vento!

E ninguém sabe ver que pode o infinito
Duma dor existir numa pedra do chão;
Que pode acontecer que um palmo de granito
Sofra, por vezes, mais que um grande coração.

E vós continuais sofrendo a vossa cruz,
E eu vejo-vos lançar um clarão para os Céus,
Como um grande protesto: ó pedras, essa luz
O que é que vai dizer ao ouvido de Deus?

Eu sei que vós falais a Deus dessa maneira:
Vossa palavra é luz, só Deus pode entendê-la:
Há dentro em vós, talvez, uma via-láctea inteira,
Porque, em sentindo dor, sai de vós uma estrela...

Ó pedras, esperai, que talvez um vulcão
Vos lance para o Céu, num abalo violento,
E lá pode falar o vosso coração
E alguém compreender o vosso sofrimento!

João Lúcio (Olhão, 1880-1918),
Descendo (1901) / 
Cabral do Nascimento, Líricas Portuguesas - 2ª. Série

16 de março de 2024

101 poemas portugueses - #26


RELÍQUIA


Era de minha mãe: é um pobre chale
Que tem p'ra mim uma carícia de asa.
Vou-lhe pedir ainda que me fale
Da que ele agasalhou em nossa casa.

Na sua trama já puída e lassa
Deixo os meus dedos p'ra senti-la ainda;
E Ela vem, é ela que me abraça,
Fala de coisas que a saudade alinda.

É a minha mãe, mais perto, mais pertinho,
Que eu sinto quando toco o velho chale
Que guarda um não sei quê do seu carinho.

E quando a vida mais me dói, no escuro,
Sinto ao tocá-lo como alguém que embale
E beije a minha sede de amor puro.


António Patrício (Porto, 1878 - Macau, 1930),
in Cabral do Nascimento, Líricas Portuguesas - 2.ª Série

23 de fevereiro de 2024

101 poemas portugueses - #23.


VENDO A MORTE


Em todo o lado vejo a morte! E, assim, ao ver
Que a vida já vem morta cruelmente
Logo ao surgir, começo a compreender
Como a vida se vive inùtilmente...

Debalde (como um náufrago que sente,
Vendo a morte, mais fúria de viver)
Estendo os olhos mais àvidamente
E as mãos p'ra a vida... e ponho-me a morrer.

A morte! sempre a morte! em tudo a vejo,
Tudo ma lembra! E invade-me o desejo
De viver toda a vida que perdi...

E não me assusta a morte! Só me assusta
Ter tido tanta fé na vida injusta
...E não saber sequer p'ra que a vivi!


Manuel Laranjeira (Mozelos, Santa Maria da Feira, 1877 - Espinho, 1912)

Comigo (1912) / Líricas Portuguesas. 2.ª Série

(ed. de Cabral do Nascimento)

18 de fevereiro de 2024

101 poemas portugueses - #22.


CANTIGA PARA OS TRABALHADORES DOS CAMPOS


Sou cavador, cavo a terra

Donde nasce a flor e o grão.

Dou aos outros a fartura

E em casa não tenho pão.

 

Hoje planto árvor's e vinha,

Lavro a terra, rego a horta,

E amanhã, em sendo velho,

Pedirei de porta em porta.

 

O sol a todos aquece,

Não nega a luz a ninguém,

Ama os bons e ama os maus

E assim foi Jesus também.

 

A árvore, quanto mais fruto,

Mais baixa os ramos p'ra o chão.

O homem, quanto mais rico,

Mais ergue a sua ambição.

 

A vida do pobre é isto:

-- Trabalhar enquanto moço,

E em velho andar às esmolas

Como o cão que busca um osso.

 

Morre um rico, dobram sinos!

Morre um pobre, não há dobres!

Que Deus é esse dos padres

Que não faz caso dos pobres?

 

Se pão não tenho, e os meus filhos

Me pedem pão a chorar,

Dou-lhes beijos, coitadinhos!

Que mais não lhes posso dar...

 

Sinto no mundo um rumor

Que anuncia um dia novo,

Andam profetas na terra

Abrindo os braços ao povo!

 

O sol nasceu cor de sangue

E a lua da mesma cor.

Gritam as bocas: Mais pão!

E os corações: Mais amor!

 

Bernardo de Passos, (São Brás de Alportel, 1876-1930) 

Refúgio (póst., 1938) / Líricas Portuguesas. 2.ª Série

 (edição de Cabral do Nascimento)

9 de fevereiro de 2024

101 poemas portugueses - #21


VILANCETE


Como quereis que me ria,
Corpo de ouro, se vos digo
Que trago a morte comigo?

Vir um dia a apodrecer,
Se é destino de quem vive,
Outro destino não tive
Desde a hora de nascer:
Como não hei-de sofrer,
Corpo de ouro, se vos digo
Que trago a morte comigo?

Na dor de todo o momento
Meus dias tristes se vão,
E só tenho a podridão
Em paga do sofrimento:
Sombra de contentamento,
Como a terei se vos digo
Que trago a morte comigo?



Júlio Dantas (Lagos, 1876 - Lisboa, 1962) 
Nada (1896) / Líricas Portuguesas, 2.ª Série
(edição de Cabral do Nascimento)

26 de janeiro de 2024

101 poemas portugueses - #19.


SONETO


Pára-me de repente o pensamento
Como que de repente refreado,
Na doida correria em que levado
Ia em busca da paz do esquecimento.
Pára surpreso, escutando, atento,
Como pára um cavalo alucinado
Ante um abismo súbito rasgado:
Pára e fica e demora-se um momento.
Pára e fica; na doida correria
Pára à beira do abismo e se demora:
E mergulha na noite escura e fria
Um olhar d'aço que essa noite explora;
Mas a espora da dor seu flanco estria
E ele galga e prossegue sob a espora.

Ângelo de Lima (Porto, 1872 - Lisboa, 1921),
in Cabral do nascimento, Líricas Portuguesas - 2.ª Série (1946)

30 de dezembro de 2023

101 poemas portugueses - #15


CAIXA DE AMÊNDOAS


Ireis, amêndoas, saber,
Que incomparável ventura
Às vezes há em sofrer.

Na boca vermelha e pura
Onde vos ides perder,
Se vos atrai certa alvura,
Muito deveis padecer.

Desta espantosa tortura
Só vos podeis defender
Duma maneira segura,
Dando-lhe o gozo e a doçura
De vos sentir derreter.


João Saraiva (Porto, 1866-1948), Sol-Posto (1943), 
in Cabral do Nascimento, Líricas Portuguesas - 2.º Série (1946)

25 de dezembro de 2023

TEM DIAS XXIII


 

É este o dia


É este o dia por que espero

Desde tempos sem fim;

E agora que ele chega quando o quero

E o tenho para mim,


Agora penso que já vinha perto

Mas o não via - e tanto 

Que à minha volta havia só deserto,

Um vazio de espanto,


Um mundo intemporal sem rotação nem horas;

E afinal o que há

É que depois de inúmeras demoras

O que não era, está.


Em mim o tinha desde o alvor

Da minha vida, sem saber

Que este esperar com alma, e sonho, e amor,

Já era ser.


CABRAL DO NASCIMENTO