Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em
frente.
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.
Que pena que tenho dele! Ele era um
camponês
Que andava preso em liberdade pela
cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas coisas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por
onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos
campos…
Por isso ele tinha aquela grande
tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no
campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros…
ALBERTO CAEIRO, poema III de “O
Guardador de Rebanhos”, 1911-1912
