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17 de novembro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (41)

 

Ao entardecer, debruçado pela janela,

E sabendo de soslaio que há campos em frente.

Leio até me arderem os olhos

O livro de Cesário Verde.

 

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês

Que andava preso em liberdade pela cidade.

Mas o modo como olhava para as casas,

E o modo como reparava nas ruas,

E a maneira como dava pelas coisas,

É o de quem olha para árvores,

E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando

E anda a reparar nas flores que há pelos campos…

 

Por isso ele tinha aquela grande tristeza

Que ele nunca disse bem que tinha,

Mas andava na cidade como quem anda no campo

E triste como esmagar flores em livros

E pôr plantas em jarros…

 

ALBERTO CAEIRO, poema III de “O Guardador de Rebanhos”, 1911-1912


8 de março de 2014

POESIA E PROSA (I)

Enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia
O poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:
Abaixo o mistério da poesia.

ANTÓNIO GEDEÃO, "Abaixo o Mistério da Poesia"

Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente, (...)

ALBERTO CAEIRO, O Guardador de Rebanhos, XXVIII



O GRITO DE DIGNA PARDO ANTE A QUEDA MORTAL DE SEU AMO JUVENAL URBINO* 

Foi às quatro horas e sete minutos da tarde de Domingo
de Pentecostes, pairavam nos ramos altos da mangueira
as línguas flamejantes do divino Paracleto. O calor prenunciava
a chuva, o mar rumorejava dentro de todos os búzios.
O papagaio palrava insídias e uma escada romba preparava-se
para escrever uma página da história da infelicidade.
Nem sequer teve tempo de encomendar a alma: o corpo
desprendeu-se da árvore  como um fruto podre
lançado ao solo em súbita demolição de músculos e ossos,
e nenhum anjo-da-guarda  saiu dos catecismos para  lhe aparar
a queda. O grito da criada, Digna Pardo de seu nome, trespassou
de pânico as cúpulas de ouro da cidade velha, os pássaros
calaram-se, enquanto Deus, indiferente ao destino dos homens,  
sorria de ócio e tédio na sombra roxa da sua eternidade.

* Digna Pardo e Juvenal Urbino são personagens de Gabriel García Márquez em O Amor nos Tempos da Cólera

 Nota: poema (ou prosa?) publicado anteriormente em www.comolhosdeler.blogspot.com

16 de abril de 2012

Caeiro

Alberto Caeiro terá nascido em Lisboa, a 16 de Abril de 1889.
imagem: Caeiro visto por Almada Negreiros