25 de abril de 2024

LIBERDADE !

 LIBERDADE



Do espaço que libertámos um dia

Surgiu límpido o teu nome liberto

Era um pássaro a destruir a noite

Era uma voz a perfurar o silêncio

Era um grito a romper o muro

Um punho fechado em rosa aberta


Habitar o Tempo, Vieira de Freitas, 1975

24 de abril de 2024

José Afonso, «Chamaram-me cigano»


Chamaram-me um dia cigano e maltês
Menino, não és boa rés abri uma covaNa terra mais funda fiz delaA minha sepultura entrei numa grutaMatei um tritão mas tiveO diabo na mão havia um comboioJá pronto a largar e viO diabo a tentar pedi-lhe um cruzadoFiquei logo ali num leitoDe penas dormi puseram-me a ferrosSoltaram o cão mas tive o diabo na mãoVoltei da charola de cilha e arnêsAmigo, vem cá outra vezSubi uma escada ganhei dinheiramaSenhor D fulano Marquês perdi na roletaGanhei ao gamão mas tiveO diabo na mão ao dar uma voltaCaí no lancil e veioO diabo a ganir nadavam piranhasNa lagoa escura tamanhasQue nunca tal vi limpei a viseiraPeguei no arpão mas tiveO diabo na mão


23 de abril de 2024

#25 poemas passados para português - #22


A mim o que me mata,

querido efebo, digo-te:

desejo sem prazer,

versos sem graça ou ritmo

e ceias só com chatos.


Arquíloco (, Jónia, Séc. VII a. C.)

in Jorge de Sena, Poesia de 26 Séculos (1972)

JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - XII

 

O AMOR E A MORTE - MONÓLOGO A DOIS


Sábia talvez inconsciente,

Doseando, com volúpia, uma ancestral sofreguidão,

Ali onde o desejo mais me dói, mais exigente,

Me acaricia a tua mão.

 

De olhos fechados me abandono, ouvindo

Meu coração pulsar, meu sangue discorrer,

E, sob a tua mão, na asa do sonho, eis-me subindo

Àquele auge em que todo, em alma e corpo, vou morrer…

 

--- Filho do Homem, 1961


21 de abril de 2024

Pelo Tejo vai-se para o mundo (03)

 BAPTISMO

Cada anoitecer volto a ler as tuas cartas
que nunca me escreveste e guardo nas gavetas
transparentes para os ladrões não as encontrarem
- como observar o ar no ar, a luz na luz?
No interior do passado há muitos passados,
muitas memórias a ramificarem como
pequenos capilares do tempo. Lembrança
também é tudo aquilo que nunca chegámos
a viver, a ver e a dizer um ao outro,
tudo o que ficou levemente colado
ao coração, qual pestana prestes a voar.
Não é por estarem mortas antes de nascerem
que as almas já não são almas. Nem as palavras
palavras. Faltou-lhes apenas a água fria
do baptismo e alguém que acreditasse nelas.



Gemma Gorga (1968) em Resistir Ao Tempo - antologia de poesia catalã (edição bilingue)
Organização e tradução do catalão: Àlex Tarradellas, Rita Custódio e Sion Serra Lopes
Assírio & Alvim
1ª edição, Junho de 2021
Página 585

19 de abril de 2024

JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - XI

 

O AMOR E A MORTE – POEMA

 

Crispou-se a minha mão sobre o teu sexo.

Fecharam-se-me os olhos sem querer…

De que abismos voava até ao fundo?

E a minha mão sondava

E triturava

Aquele mundo

Tão pequenino e tão complexo:

O teu mistério de mulher.

 

--- Filho do Homem, 1961


17 de abril de 2024

POEMAS IMORTAIS - UMA SELECÇÃO POSSÍVEL. XXIV

 

O PALÁCIO DA VENTURA


Sonho que sou um cavaleiro andante.

Por desertos, por sóis, por noite escura,

Paladino do amor, busco anelante,

O palácio encantado da Ventura.


Mas já desmaio, exausto e vacilante,

Quebrada a espada já, rota a armadura...

E eis que súbito o avisto, fulgurante

Na sua pompa e aérea formosura!


Com grandes golpes, bato à porta e brado:

Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...

Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!


Abrem-se as portas d'ouro com fragor...

Mas dentro encontro só, cheio de dor,

Silêncio e escuridão - e nada mais!


Antero de Quental, Sonetos



101 poemas portugueses - #35


QUASE


Um pouco mais de sol -- eu era brasa.

Um pouco mais de azul -- eu era além.

Para atingir, faltou-me um golpe de asa...

Se ao menos eu permanecesse aquém...

 

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído

Num baixo mar enganador de espuma;

E o grande sonho despertado em bruma,

O grande sonho -- ó dor! -- quase vivido...

 

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,

Quase o princípio e o fim -- quase a expansão...

Mas na minh'alma tudo se derrama...

Entanto nada foi só ilusão!

 

De tudo houve um começo... e tudo errou...

-- Ai a dor de ser-quase, dor sem fim... --

Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,

Asa que se elançou mas não voou...

 

Momentos de alma que desbaratei...

Templo aonde nunca pus um altar...

Rios que perdi sem os levar ao mar...

Ânsias que foram mas que não fixei...

 

Se me vagueio, encontro só indícios...

Ogivas para o sol -- vejo-as cerradas;

E mãos de herói, sem fé, acobardadas,

Puseram grades sobre os precipícios...

 

Num ímpeto difuso de quebranto,

Tudo encetei e nada possuí...

Hoje, de mim, só resta o desencanto

Das coisas que beijei mas não vivi...

 

...............................................................

...............................................................

 

Um pouco mais de sol -- e fora brasa,

Um pouco mais de azul -- e fora além.

Para atingir, faltou-me um golpe de asa...

Se ao menos eu permanecesse aquém...


Mário de Sá-Carneiro (Lisboa, 1890 - Paris, 1916),

Dispersão (1914)

14 de abril de 2024

101 poemas portugueses - #34


Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite,
Cada um a vida das linhas das vigias iluminadas
E cada um sabendo do outro só que há vida lá dentro e mais nada.
Navios que se afastam ponteados de luz na treva,
Cada um indeciso diminuindo para cada lado do negro
Tudo mais é a noite calada e o frio que sobe do mar.

Fernando Pessoa (Lisboa, 1888-1935),
Álvaro de Campos -- Livro de Versos
(edição de Teresa Rita Lopes)

10 de abril de 2024

25 poemas passados para português - #21


TRABALHAR CANSA


Atravessar uma rua para fugir de casa

só um rapaz é que o faz, mas este homem que vagueia

todo o dia pelas ruas já não é um rapaz

e não está a fugir de casa.

                                             Há tardes

no verão em que até as praças ficam vazias, estendidas

sob o sol que está prestes a pôr-se, e este homem, vindo

por uma alameda de inúteis plantas, pára.

Vale a pena estar sozinho, para se estar cada vez mais sozinho?

Vaguear por elas apenas, as praças e as ruas

estão vazias. É preciso travar uma mulher

e falar com ela e convencê-la a viver a dois.

Ou então fica-se a falar sozinho. Daí que por vezes

haja o bêbedo nocturno que mete conversa,

e conta os projectos de uma vida inteira.


Não é certamente aguardando na praça deserta

que se encontra alguém, mas quem vagueia pelas ruas

detém-se por vezes. Se fossem dois,

mesmo a andar pela rua, a casa seria

onde está aquela mulher, e valeria a pena.

Volta a praça a ficar deserta à noite,

e este homem, que passa, não vê as casas

entre as luzes inúteis, já não ergue os olhos:

sente apenas a calçada, que outros homens fizeram

com mão endurecidas, como são as suas.

Não é justo ficar na praça deserta.

Andará com certeza pela rua a mulher

que, rogada, daria com gosto um jeito na casa.


Cesare Pavese (Santo Stefano Belbo, Piemonte, 1908 - Turim, 1950),

Trabalhar Cansa (1936)

Versão de Vasco Gato, Lisboa, 1978) 


 original

8 de abril de 2024

101 poemas portugueses - #33


AMOR-METEORO


Encontrei-a no cais, ao embarcar,
E, após um curto olhar retribuído,
Tão preso me senti, tão seduzido,
Que até como isto foi nem sei contar.

Só sei que agradeceu o meu olhar
Com outro mais gentil e enternecido,
E que fiquei em terra possuído
De um ódio torvo e estranho contra o mar.

Não mais em minha face inconsolável
Demorará seus olhos de veludo!
Não mais aquele instante inolvidável!

Um protesto de amor ardente e mudo,
Um sorriso, uma dor incomportável,
Um triste volver de olhos... e foi tudo.


Ed. Bramão de Almeida (1887-?), 
Maré Alta (1934)

5 de abril de 2024

o início de O MEU TIO DE NANTES

«Os ossos vão em caixinhas para Lisboa, para o Porto, para Coimbra.» Carlos Daniel, O Meu Tio de Nantes, Fundão e Amadora, Jornal do Fundão / Canto Redondo, 2023, p. 9.

4 de abril de 2024

25 poemas passados para português - #20


FIM DO MUNDO


Salvo sem pressa um

cristal de rocha, uma

medalha; salvo um verso

e uma pluma no ar;

um cheiro a pão,

uma janela sobre o nada

aberta de par em par.


Ángel Crespo (Alcolea de Calatrava, 1926 - Barcelona, 1995)

30 Poemas (1984)

versão de Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão, 1923 - Porto, 2005)

3 de abril de 2024

 O MEU TIO DE NANTES


"Nós íamos a pé para os aterros do rio e demorávamos mais de uma hora a chegar lá, troc, troc, por aquelas veredas abaixo e ele no seu cestinho de vime à cabeça da tia Teresa que já teria para aí uns dezoito ou dezanove anos (... ...) Depois pousava-o numa sombra, ou embrulhadinho em cobertores, no pino do inverno,  e quando ele chorava muito ela dizia-me assim: «Ó Gilda toma lá conta dele que tu és ainda muito pequenina para andares aqui com as perninhas dentro desta água tão fria o dia inteiro.» E às vezes era eu que ficava com ele ao colo. Eu acho que ele chorava de fome, coitadinho, e eu abanava-o, abanava-o até a tia Teresa ter outra vez um bocadinho de leite para ele mamar porque ela tinha muito pouco leite. Ó filho, quando hoje me lembro disto tudo até me parece que aquilo não pode ter acontecido: irmos três garotas, no pino do frio e do calor, para o Cabeço do Pião com uma merendita para o dia inteiro e a tia Teresa com aquela cestinha de vime à cabeça, com o Floriano lá dentro, que veio a casar com uma Palmira de Moncorvo e eram primos da Fernanda do Lúcio que trabalhava na Câmara do Barreiro e que o marido a deixou. E passávamos o dia inteiro a arear, a arear dentro do rio... e aquele menino à cabeça para trás e para diante.

Ai filho(...)"

(Pg. 79-80)


Este belíssimo livro, que se lê com gula e deleite, é assinado por Carlos Daniel. Contudo, podemos afirmar que a verdadeira autora é a Senhora sua Mãe, Dona Gilda, que em grande parte lho 'ditou', através de longos telefonemas ou em conversas dispersas ao longo da vida. A Carlos Daniel coube a meritória tarefa de, com talento e arte, converter os monólogos telefónicos e os pitorescos relatos da anciã em belíssimas peças de prosa.  

Um abraço de parabéns, Carlos Daniel. Antevejo uma sessão animada e enriquecedora, na qual, com muita pena minha, não poderei estar presente. 

F. Faria



1 de abril de 2024

101 POEMAS PORTUGUESES - #31


SONETO DA VISITAÇÃO


Vinde, adorai! Criados e parentes!
Tenho o presépio em nossa casa armado.
Vinde adorar o meu menino amado,
Honrá-lo com carinhos, com presentes!

Muito quietinho, nas roupinhas quentes,
O infante dorme, dorme aconchegado.
É lindo, pois não é? o meu morgado?
Que tu, Senhor, em graça mo aviventes!

E, de joelhos, com um ar de boda,
Adora e pasma-se a assistência toda,
Como diante dum festivo altar.

Que perfeição! Que enlevo de criança!
-- E pedem num louvor que não descansa
Que Deus nos dê saúde p'ra o criar.

António Sardinha (Monforte, 1887 - Elvas, 1925)
A Epopeia da Planície (1915) /
/ Líricas Portuguesas - 2.ºªSérie
(edição de Cabral do Nascimento)

29 de março de 2024

101 POEMAS PORTUGUESES - #30


CANÇÃO DO NU

Lindo
Mármore precioso que na alcova
Surpreendi dormindo!
E lindo
À luz dum fósforo, acendido a medo,
Despertou sorrindo.
E, lindo,
Dos olhos as meninas me saltaram
Para o nu que se estava descobrindo.

Linda!
Ficou-se ao desgasalho adormecida,
Ai vida,
Como ainda não vi coisa tão linda.

Linda,
Braços abertos em desnudo amplexo,
Seu corpo era uma púbere mendiga,
E ele é que estava pedindo,
Lindo,
O meu sexo.


Afonso Duarte (Ereira, Montemor-o-Velho, 1884 - Coimbra, 1958),
Rapsódia do Sol-Nado seguido de Ritual do Amor (1916)

28 de março de 2024

"FORMULAÇÕES POÉTICAS", apócrifo da série em curso neste blogue


«(…) toda a poesia consiste fundamentalmente no desgosto que o homem tem sempre pelo que ainda é e nos seus braços estendidos para o que quer ser; consiste fundamentalmente na tal reconstrução sobre si próprio, no seu desejo eterno de ser mais, que é como quem diz: melhor.»

– Dissertação de licenciatura de MÁRIO DIONÍSIO, “Introdução à leitura da ‘Ode Marítima’", apresentada em 1938 à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. 

O candidato foi reprovado no exame.  


26 de março de 2024

101 poemas portugueses - #29


VIDA VITORIOSA


Foi uma vida vitoriosa, é certo,

A vida que vivi nesta jornada,

-- Não da vitória que se vê de perto,

E que se alcança, apenas desejada.

 

Não do triunfo que sorri, incerto,

E logo é fumo, e é pó, e é cinza, e é nada,

-- Mas doutra glória que ao meu peito aperto,

E só eu vejo, pura e recatada.

 

Porque em silêncio conquistei, lutando,

-- Quantas vezes perdido e miserando,

Quantas vezes vencendo a própria dor --

 

Esta alegria de passar na vida

Sendo uma força, que jamais duvida,

E uma voz clara, como a Voz do Amor!


João de Barros (Figueira da Foz, 1881 - Lisboa, 1960),

Vida Vitoriosa (1919)

24 de março de 2024

o início de O TEMPLO DOURADO

«Desde a mais tenra infância, o meu pai falou-me do Templo Dourado.» 
Yukio Mishima, O Templo Dourado [1956], trad. Paulo Faria, Porto, Livros do Brasil, 2020, p. 11.

23 de março de 2024

101 poemas portugueses - #28


A DOR DAS PEDRAS 


Ó pedras a sofrer, em ânsias, nas calçadas,
Ninguém vos sabe amar, ninguém de vós tem dó,
Ninguém sabe entender, ó pedras desgraçadas,
Que há lágrimas também dentro do vosso pó!

Passam, por sobre vós, tanta dor e alegria,
Olhos em que há prazer, olhos em que há tormento,
E ninguém vos consola e queima-vos o dia
E, quase sempre a rir, insulta-vos o vento!

E ninguém sabe ver que pode o infinito
Duma dor existir numa pedra do chão;
Que pode acontecer que um palmo de granito
Sofra, por vezes, mais que um grande coração.

E vós continuais sofrendo a vossa cruz,
E eu vejo-vos lançar um clarão para os Céus,
Como um grande protesto: ó pedras, essa luz
O que é que vai dizer ao ouvido de Deus?

Eu sei que vós falais a Deus dessa maneira:
Vossa palavra é luz, só Deus pode entendê-la:
Há dentro em vós, talvez, uma via-láctea inteira,
Porque, em sentindo dor, sai de vós uma estrela...

Ó pedras, esperai, que talvez um vulcão
Vos lance para o Céu, num abalo violento,
E lá pode falar o vosso coração
E alguém compreender o vosso sofrimento!

João Lúcio (Olhão, 1880-1918),
Descendo (1901) / 
Cabral do Nascimento, Líricas Portuguesas - 2ª. Série

21 de março de 2024

 POEMAS IMORTAIS - UMA SELECÇÃO POSSÍVEL, XXIII


A VIDA

A vida é o dia de hoje,

a vida é ai que mal soa,

a vida é sombra que foge, 

a vida é nuvem que voa,

a vida é sonho tão leve

que se desfaz como a neve

e como o fumo se esvai:

a vida dura um momento,

mais leve que o pensamento,

a vida leva-a o vento,

a vida é folha que cai.


A vida é flor na corrente,

a vida é sopro suave,

a vida é estrela cadente,

voa mais leve que a ave:

nuvem que o vento nos ares,

onda que o vento nos mares

uma após outra lançou,

a vida - pena caída

 da asa de ave ferida - 

de vale em vale impelida,

a vida o vento a levou.


JOÃO DE DEUS

20 de março de 2024

#25 poemas passados para português - #19.


COM O TEMPO A SABEDORIA


Embora muitas sejam as folhas, a raiz é só uma;

Ao longo dos enganadores dias da mocidade,

Oscilaram ao sol minhas folhas, minhas flores;

Agora posso murchar no coração da verdade.

original aqui


W. B. Yeats (Dublin, 1865 - Menton, 1939)

versão de José Agostinho Baptista (Funchal, 1948)

18 de março de 2024

101 poemas portugueses - #27


Porque as mães sempre amaram tudo quanto
Chora de baixo, ou pede algum perdão,
Quer seja a flor, que sofre em qualquer canto,
Seja a raiz, às cegas pelo chão.

E mortas -- não lhes morre ao pé um pranto,
Que elas não sequem com a sua mão,
-- Mesmo quietinhas, inda afagam tanto,
Mesmo geladas, que calor não dão!

Basta que à tarde, pequenino e estreito,
Um fio d'água passe por seu peito,
Logo julgam, de novo, os peitos cheios;

De modo que não há por todo o solo,
Miséria, que não durma no seu colo,
Desgraça, que não mame no seu seio!

Nunes Claro (Lisboa, 1878 - Sintra, 1949)
A Cinza das Horas (1928)

16 de março de 2024

101 poemas portugueses - #26


RELÍQUIA


Era de minha mãe: é um pobre chale
Que tem p'ra mim uma carícia de asa.
Vou-lhe pedir ainda que me fale
Da que ele agasalhou em nossa casa.

Na sua trama já puída e lassa
Deixo os meus dedos p'ra senti-la ainda;
E Ela vem, é ela que me abraça,
Fala de coisas que a saudade alinda.

É a minha mãe, mais perto, mais pertinho,
Que eu sinto quando toco o velho chale
Que guarda um não sei quê do seu carinho.

E quando a vida mais me dói, no escuro,
Sinto ao tocá-lo como alguém que embale
E beije a minha sede de amor puro.


António Patrício (Porto, 1878 - Macau, 1930),
in Cabral do Nascimento, Líricas Portuguesas - 2.ª Série

13 de março de 2024

25 poemas passados para português - #18


OS ARAUTOS NEGROS


Há pancadas tão fortes na vida... Eu sei lá!

Pancadas como do ódio de Deus; como se sob elas
a ressaca de todo o sofrimento
estagnasse na alma... Eu sei lá!
 
Poucas; mas acontecem... Abrem leivas escuras
no rosto mais duro e no dorso mais forte.
Serão talvez os potros de átilas selvagens;
ou os arautos negros que nos envia a Morte.
 
São as profundas quedas dos Cristos da nossa alma,
de uma fé adorável que o Destino blasfema.
Tais pancadas sangrentas são as crepitações
de um pão que na porta do forno se nos queima.
 
E o homem... Pobre... Pobre! Volta os olhos, como
quando sobre o seu ombro uma palmada o vem chamar;
volta seus olhos loucos, e todo o já vivido
como um charco de culpa estagna em seu olhar.
 
Há pancadas na vida tão fortes... Eu sei lá!


César Vallejo (Santiago de Chuco, Peru, 1892 - Paris, 1938),
Antologia Poética, versão de José Bento.

10 de março de 2024

101 poemas portugueses - #25


ROSAS SEM ESPINHOS


Esta rosinha de Assis,
sem espinhos, que eu de lá trouxe,
murcha, luminosa e doce,
no seu leve aroma diz:
-- Uma vez tentado foi

o Santo pla carne inquieta;
eis que o desejo lhe dói
numa agonia secreta.


E com a sede dos beijos
e dos ardentes carinhos,
arroja o corpo em desejos
às rosas cheias de espinhos!


Mas nós, quando então o temos
no abraço deste rosal,
os espinhos recolhemos
para lhe não fazer mal.


Afonso Lopes Vieira (Leiria, 1878 - Lisboa, 1946)
Um Ramos de Rosas - Colhidas por José da Cruz Santos na Poesia Portuguesa e Estrangeira

7 de março de 2024

25 poemas passados para português - #17.


MULHER


Não saíste, Mulher, inteiramente,

Das mãos de Deus! A sede e a formosura

Dos homens completam a figura

Divina que tu és, -- eternamente.

 

O amor do homem, na ansiedade ardente,

Vestiu de glória a mocidade pura

Da tua vida. Para ti procura

Um canto o Poeta, infatigàvelmente.

 

Sem descanso, o pintor, numa ansiedade,

Às tuas formas dá actividade,

Para adornar teu corpo alvo e risonho.

 

Jardins, o mar e a terra abrem o seio,

Dão-te oiro, flores, pérolas, enleio...

 

-- És metade Mulher, metade Sonho!

 

Rabindranath Tagore, (Jorasanko Takurban, Calcutá, 1861-1941)

 Poesias de Tagore (O Músico e o Poeta)

versão de Augusto Casimiro (São Gonçalo, Amarante, 1889 - Lisboa, 1967)

6 de março de 2024

o início de CINCO DIAS, CINCO NOITES

 

«Com 19 anos incompletos, André viu-se forçado a emigrar.»

Manuel Tiago, Cinco Dias, Cinco Noites [1975], Lisboa, Editorial «Avante!», 1994, p. 9.

4 de março de 2024

15 formulações poéticas - #14. José Tolentino Mendonça

 «[...] creio que é o silêncio que escreve o poema. As palavras estão lá para o testemunhar. Porque o poema não é a evidência, mas a interrogação, a sugestão, a lacuna, a fenda, a porta entreaberta, a possibilidade de viagem para cá e para lá dele.»

3 de março de 2024

101 poemas portugueses - #24.


CANÇÃO DUMA SOMBRA 


Ah, se não fosse a névoa da manhã
E a velhinha, para ouvir a voz das cousas,
                    Eu não era o que sou.

Se não fosse esta fonte, que chorava,
E como nós cantava e que secou...
E este sol que eu comungo de joelhos,
                     Eu não era o que sou.

Ah, se não fosse este luar, que chama
Os espectros à vida e se inflitrou,
Como fluido mágico, em meu ser,
                    Eu não era o que sou.

Ah, se não fosse o vento, que embalou
Meu coração e as nuvens, nos seus braços,
                    Eu não era o que sou.

Sem esta terra funda e fundo rio,
Que ergue as asas e sobe, em claro voo;
Sem estes ermos montes e arvoredos,
                    Eu não era o que sou.


Teixeira de Pascoais (Amarante, 1877 - Gatão, 1952),

As Sombras (1907) / Antologia Poética

(ed. por Ilídio Sardoeira)

28 de fevereiro de 2024

25 poemas passados para português - #16.


Procuramos por toda a parte

o que está para lá das coisas,

e o que encontramos

são apenas coisas.


Novalis (Wiederstedt, Saxónia, 1772 - Weissenfels,idem, 1801)

versão de João Barrento (Alter do Chão, 1940)

26 de fevereiro de 2024

23 de fevereiro de 2024

101 poemas portugueses - #23.


VENDO A MORTE


Em todo o lado vejo a morte! E, assim, ao ver
Que a vida já vem morta cruelmente
Logo ao surgir, começo a compreender
Como a vida se vive inùtilmente...

Debalde (como um náufrago que sente,
Vendo a morte, mais fúria de viver)
Estendo os olhos mais àvidamente
E as mãos p'ra a vida... e ponho-me a morrer.

A morte! sempre a morte! em tudo a vejo,
Tudo ma lembra! E invade-me o desejo
De viver toda a vida que perdi...

E não me assusta a morte! Só me assusta
Ter tido tanta fé na vida injusta
...E não saber sequer p'ra que a vivi!


Manuel Laranjeira (Mozelos, Santa Maria da Feira, 1877 - Espinho, 1912)

Comigo (1912) / Líricas Portuguesas. 2.ª Série

(ed. de Cabral do Nascimento)

22 de fevereiro de 2024

3 POEMAS DE ARTUR JORGE (13-2-1946 / 22-2-2024)


*

 

Boca

margem côncava

ângulo de amoras ruivas

esconderijo de águas marinhas

ou de pérolas (abrigadas)

 

manhã de caça

forrada a lâminas

 

de cedros

 

*

 

Se ao menos uma vez o poeta ordenasse

que as aves se despissem

que as aves não gritassem

que as aves a tão alto chegar não chegassem

ou porque tão alto chegarem

outra ordem as parasse

ou um raio ou uma pedra

ou o sino de uma igreja

ou talvez uma palavra

o que calhando bastasse

 

*

 

Os mares são brancos em Marraquexe

de cal

 

ao longe

uma outra cor

de linho

a claridade dos trajes

as casas rasas de lágrimas

 

a rara circunstância das águas

do deserto



25 poemas passados para português - #15.


COMEÇO POR INVOCAR WALT WHITMAN


É por acção de amor ao meu país

que te reclamo, ó necessário irmão,

velho Whitman da cinzenta mão,


para que, com o teu apoio extraordinário,

verso a verso, matemos de raiz

Nixon, o presidente sanguinário.


Sobre a terra não há homem feliz,

ninguém trabalha bem no planeta

se em Washington respira o seu nariz.


Pedindo ao velho bardo que me invista,

os meus deveres assumo de poeta

armado do soneto terrorista,


porque devo ditar sem pena alguma

a sentença até agora nunca vista

de fuzilar um criminoso ingente


que apesar das suas viagens para a lua

já matou na terra tanta gente,

que até foge o papel  e a pena se alevanta


ao escrever o nome do maldito,

do genocida, o da Casa Branca.


Pablo Neruda (Parral, Chile, 1904 - Santiago, 1973),  

Incitamento ao Nixonicídio e Louvor da Revolução Chilena (1973)

versão de Alexandre O'Neill (Lisboa, 1924-1986)

original aqui 

19 de fevereiro de 2024

15 formulações poéticas #12. - Jean-Luc Nancy

 «A poesia é, por essência, mais do que e algo de diferente da própria poesia. Ou antes: a própria poesia pode encontrar-se onde não existe propriamente poesia. Ela pode mesmo ser o contrário ou a rejeição da poesia, e de toda a poesia»

18 de fevereiro de 2024

101 poemas portugueses - #22.


CANTIGA PARA OS TRABALHADORES DOS CAMPOS


Sou cavador, cavo a terra

Donde nasce a flor e o grão.

Dou aos outros a fartura

E em casa não tenho pão.

 

Hoje planto árvor's e vinha,

Lavro a terra, rego a horta,

E amanhã, em sendo velho,

Pedirei de porta em porta.

 

O sol a todos aquece,

Não nega a luz a ninguém,

Ama os bons e ama os maus

E assim foi Jesus também.

 

A árvore, quanto mais fruto,

Mais baixa os ramos p'ra o chão.

O homem, quanto mais rico,

Mais ergue a sua ambição.

 

A vida do pobre é isto:

-- Trabalhar enquanto moço,

E em velho andar às esmolas

Como o cão que busca um osso.

 

Morre um rico, dobram sinos!

Morre um pobre, não há dobres!

Que Deus é esse dos padres

Que não faz caso dos pobres?

 

Se pão não tenho, e os meus filhos

Me pedem pão a chorar,

Dou-lhes beijos, coitadinhos!

Que mais não lhes posso dar...

 

Sinto no mundo um rumor

Que anuncia um dia novo,

Andam profetas na terra

Abrindo os braços ao povo!

 

O sol nasceu cor de sangue

E a lua da mesma cor.

Gritam as bocas: Mais pão!

E os corações: Mais amor!

 

Bernardo de Passos, (São Brás de Alportel, 1876-1930) 

Refúgio (póst., 1938) / Líricas Portuguesas. 2.ª Série

 (edição de Cabral do Nascimento)

15 de fevereiro de 2024

"FERREIRA DE CASTRO - UMA BIOGRAFIA"

 

Apresentação do 1º volume da biografia de FERREIRA DE CASTRO, autoria de RICARDO ANTÓNIO ALVES: Sábado, dia 17, às 16 horas na BIBLIOTECA MUNICIPAL FERREIRA DE CASTRO, OLIVEIRA DE AZEMÉIS.

14 de fevereiro de 2024

25 poemas passados para português - #14.


QUERERIA ESCREVER POEMAS


Quereria escrever poemas   à noite

E não posso.

Tenho de traduzir os textos

De promoção a

Um creme de beleza.


Vejo pessoas   rapazes

Que não são aqueles

Que desejaria ver.

Os outros   não os conheço.


Converso com raparigas   na cantina

E dizemos coisas 

Idiotas

Que não merecem ser ditas.

Tenho medo de habituar-me

E seguir assim   até à morte.

Alba de Céspedes (Roma, 1911 - Paris, 1997),
Les Filles de Mai (1968)
versão: Ricardo António Alves (Lisboa, 1964)



JE VOUDRAIS ÉCRIRES DES POÈMES

Je voudrais écrire des poèmes,
le soir,
et je ne peux pas.
Il me faut traduire les textes
publicitaires
d'une crème de beauté.

Je vois des gens, des gars,
qui ne sont pas ceux
que je voudrais voir.
Les autres,
je ne le connais pas.

Je cause avec des filles,
à la cantine,
et nous disons des choses
idiotes,
qui ne valent pas la peine
d'être dites.

J'ai peur de m'habituer
et d'aller de l'avant comme ça,
jusqu'à la mort.

12 de fevereiro de 2024

15 formulações poéticas - #11. Fiama Hasse Pais Brandão

 «Não posso ver, hoje, a fome crescente e a chacina entre nações sem comoção. E a emoção pelos seres, pelos outros, pela natureza, pelo Cosmos, gera o poema.»

10 de fevereiro de 2024

JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - X

 


LEGENDA

 

Não me peças esmola, que sou pobre,

         E avaro do meu pouco,

                 Se mo pedem!

Não me tragas esmola, que sou rico,

          Se penso na miséria

          Que poderias dar-me!

          Dar-te-ei, sem que mo peças.

          Dá-me, sem que eu o saiba.

Expulsei os mendigos do meu Reino!

          Cá, só amor gratuito.

 

--- A Chaga do Lado, 1954



9 de fevereiro de 2024

101 poemas portugueses - #21


VILANCETE


Como quereis que me ria,
Corpo de ouro, se vos digo
Que trago a morte comigo?

Vir um dia a apodrecer,
Se é destino de quem vive,
Outro destino não tive
Desde a hora de nascer:
Como não hei-de sofrer,
Corpo de ouro, se vos digo
Que trago a morte comigo?

Na dor de todo o momento
Meus dias tristes se vão,
E só tenho a podridão
Em paga do sofrimento:
Sombra de contentamento,
Como a terei se vos digo
Que trago a morte comigo?



Júlio Dantas (Lagos, 1876 - Lisboa, 1962) 
Nada (1896) / Líricas Portuguesas, 2.ª Série
(edição de Cabral do Nascimento)

7 de fevereiro de 2024

25 poemas passados para português - #13,


INFÂNCIA ENTRE DISCÓRDIAS


Lá fora pendiam, látegos terríveis, os ramos dum freixo

E se de noite levantava o vento, a árvore chicote

Gemia e vergastava o vento como em navio

O sinistro cordame geme horrível na borrasca.


Em casa bradavam duas vozes: esguio chicote

Silvando fúria de fêmea desvairada e o medonho ruído

Da vergasta do macho que açoitava, rugia e sufocava enfim

A outra voz ao som do freixo num silêncio de sangue.



D. H. Lawrence (Notthingham, 1885 - Vence, 1930)

versão de João Almeida Flor, in D. H. Lawrence, Gencianas Bávaras e Outros Poemas (1983)

original aqui

5 de fevereiro de 2024

15 formulações poéticas - #10 - Ruy Belo

«A poesia é um acto de insubordinação a todos os níveis, desde o nível da linguagem como instrumento de comunicação, até ao nível do conformismo, da conivência com a ordem, qualquer ordem estabelecida.»

4 de fevereiro de 2024

101 poemas portugueses - #20.


MEU PAI


Os meus primeiros passos animaste,

Os meus primeiros erros corrigiste;

E o amor do trabalho que me incutiste

Com a própria lição que me legaste.

 

A ser honesto e digno me ensinaste,

E por igual também me transmitiste

O gosto pelo estudo, e o prazer triste

Do cultivo das musas, que ensaiaste...

 

Meu adorado Pai, quando me atrevo

A pensar no que sou, e no que devo

Ao teu conselho, auxílio e educação,

 

Que santo orgulho eu sinto em continuar-te!

Pois todo o meu engenho e a minha arte

Obras tuas, meu Pai, apenas são!


Delfim Guimarães (Porto, 1872 - Amadora, 1933), 

Alma Portuguesa (1916)

31 de janeiro de 2024

JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - IX

 

NOSSA SENHORA

 

Tenho ao cimo da escada, de maneira

Que logo, entrando, os olhos me dão nela,

Uma Nossa Senhora de madeira

Arrancada a um Calvário de capela.

 

Põe as mãos com fervor e angústia. O manto

Cobre-lhe a testa, os ombros, cai composto;

E uma expressão de febre e espanto

Quase lhe afeia o fino rosto.

 

Mãe das Dores, seus olhos enevoados

Olham, chorosos, fixos, muito além…

E eu, ao passar, detenho os passos apressados,

Peço-lhe: – «A sua bênção, Mãe!»

 

Sim, fazemo-nos boa companhia,

E não me assusta a sua dor: quase me apraz.

O Filho dessa Mãe nunca mais morre. Aleluia!

Só isto bastaria a me dar paz.

 

– «Porque choras, Mulher?» – docemente a repreendo.

Mas à minh´alma, então, chega de longe a sua voz

Que eu bem entendo:

– «Não é por Ele…»

                                   – «Eu sei! teus filhos somos nós.»

 

--- Mas Deus É Grande, 1945



25 poemas passados para português - #12.


Todos sabem que eu nunca murmurei uma oração

Todos sabem que nunca tentei dissimular os meus defeitos.

Ignoro se existe uma Justiça e uma Misericórdia...

Entretanto, tenho confiança, porque sempre fui sincero.


Omar Khayyam (Nisahpur, Irão, c. 1048-c. 1131)

Rubaiyat - Odes ao Vinho

versão de Fernando Castro

30 de janeiro de 2024

Pelo Tejo vai-se para o mundo (02)

 UMA ESPÉCIE DE PERDA

Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma
cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados,
gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissemos. Fizemos.
E estendemos sempre a mão.

Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por
Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma
cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis, 
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada.

(-o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um apontamento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.

De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.

Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor
mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.

Não te perdi a ti,
perdi o mundo.


Ingeborg Bachmann em O Tempo Aprazado: poemas (1953-1967)
Tradução de João Barrento e Judite Berkemeier
Assírio & Alvim, 1992

29 de janeiro de 2024

15 formulações poéticas - #9 - Harold Bloom

«Não se pode ensinar alguém a amar a grande poesia quando esse alguém chega até nós sem esse amor. Como é que se pode ensinar a solidão?»

26 de janeiro de 2024

101 poemas portugueses - #19.


SONETO


Pára-me de repente o pensamento
Como que de repente refreado,
Na doida correria em que levado
Ia em busca da paz do esquecimento.
Pára surpreso, escutando, atento,
Como pára um cavalo alucinado
Ante um abismo súbito rasgado:
Pára e fica e demora-se um momento.
Pára e fica; na doida correria
Pára à beira do abismo e se demora:
E mergulha na noite escura e fria
Um olhar d'aço que essa noite explora;
Mas a espora da dor seu flanco estria
E ele galga e prossegue sob a espora.

Ângelo de Lima (Porto, 1872 - Lisboa, 1921),
in Cabral do nascimento, Líricas Portuguesas - 2.ª Série (1946)

24 de janeiro de 2024

25 poemas passados para português - #11.


ADOLESCÊNCIA


Na varanda, um instante

ficámos os dois sós.

Desde aquela manhã

tão doce, éramos noivos.

 

-- Sonolenta, a paisagem

dormia em vagos tons

sob o céu gris e rosa

do poente de outono --.

 

Disse que ia beijá-la;

baixou, serena, os olhos

e ofereceu-me as faces

como perdendo um tesouro.

 

-- Caíam folhas mortas

no jardim silencioso,

e no ar errava ainda

um olor de girassóis --.

 

Não se atrevia a olhar-me;

disse eu que éramos noivos,

... e as lágrimas rolaram-lhe

dos olhos melancólicos.


Juan Ramón Jimenez  (Moguer, Huelva, 1881 - San Juan, Porto Rico, 1956),

Rimas (1902)

versão de José Bento (Pardilhó, Estarreja, 1932 - Venteira, Amadora, 2019)

original aqui