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13 de novembro de 2024

101 poemas portugueses - #53


PARTIR!,,,


Eu vou-me embora para além do Tejo,
não posso mais ficar!

Já sei de cor os passos de cada dia,
na boca as mesmas palavras
batidas nos meus ouvidos...
-- Ai as desgraças humanas destas paisagens iguais!...
Abro os olhos e não vejo
já não ando, já não oiço...
Não posso mais...
Grita-me a Vida de longe
e eu vou-me embora para além do Tejo.

Passa a ave no céu bebendo azul e diz:    Vem!
O vento envolve-me numa carícia,
envolve-me e murmura: -- Vem!
As ondas estalam nas praias e vão mar fora,
as mãos de espuma a prender-me os sentidos
chamam no fundo dos meus olhos: -- Vem!

-- Camaradas, eu vou, esperai um pouco...
Ai, mas a vida nunca espera por ninguém...
E a noite chega vingadora;
o vento rasga-me o fato,
as ondas molham-me a carne
e a ave pia misticamente no ar;
abro os olhos e não vejo,
já não ando, já não oiço
-- e fico, desgraçado de ficar!...



Manuel da Fonseca (Santiago do Cacém, 1911 - Lisboa, 1993)
Rosa dos Ventos (1940)

13 de novembro de 2021

ALENTEJO(S)

 Livro de estudiosos, para estudiosos, teve de se contentar, no que me diz respeito, com a leitura de um curioso.
Gosto de obras que me ensinem, ou que me alimentem a memória, ou que me revelem informações inesperadas. Aqui, em ALENTEJO(S) - imagens do ambiente natural e humano na literatura de ficção, editado / organizado por Ana Cristina Carvalho e Albertina Raposo, petisquei de tudo.
Mas, quando resolvi realçar alguns pontos que mais me tinham acordado, dei comigo a fazer a lista de quase todos os autores... não podia ser, porque acabaria a fazer um resumo que não estaria à altura do original.
Permiti-me, portanto, algumas referências de cunho mais pessoal, que a leitura me despertou:
- Manuel Ribeiro é autor cuja personalidade e obra me cativa desde os meus longínquos tempos de bibliotecário em Manteigas; vim encontrá-lo aqui e surpreendi-me com o que li;
- assim como José Régio (aqui, pela mão de Manuel Nunes) que, por enviesamento meu, teimo sempre em associar (só) a Vila do Conde (espraiada, entre pinhais...);
- tive possibilidade de conhecer pessoalmente Manuel da Fonseca e de trocar algumas impressões com ele, em tertúlia pós-revolucionária (a maior parte, se não todos os livros dele estão autografados e dormem cá por casa); a sessão alongou-se muitíssimo para lá do tempo previsto, e acabou com ele a levantar-se, clamando, com ar a condizer: «tenham paciência, mas temos de acabar, senão mijo-me todo...»; inesquecível, concordem;
- Florbela Espanca é ela mesma: a maior sonetista da língua portuguesa;
- o último livro que meu pai me recomendou que não perdesse, depois de ele ter lido, é de Fernando Namora; uma boa parte li no hospital, acompanhando os últimos dias dele;
- Bismarck disse que, contrariamente à estupidez, a ignorância tem cura; aqui vim descobrir o papel histórico de Branquinho da Fonseca nas Bibliotecas que alimentaram de prazer das melhores horas da minha vida.
Bem hajas, Cristina; valeu a pena o teu trabalho e saber, a que juntaste fotografias a desenhar a realidade descrita.
Recomendo.

11 de março de 2016

24 de novembro de 2014

notas sobre a sessão de «Nenhum Olhar»

* Um pouco fora de tempo, deixo aqui umas linhas sobre o livro do último mês: 
* Um romance sobre a vivência trágica da vida, escuro por vezes obscuro. Noto um ethos alentejano -- algo que uma das participantes na sessão da passada sexta-feira [a 1.ª de Novembro], por sinal alentejana, baixa-alentejana, diga-se, não subscreveu, embora aceitasse a possibilidade de o Alto Alentejo, em especial o distrito de Portalegre, poder ser diferente quanto à psicologia colectiva. Não sei nem , pelo sangue, tenho como o saber. [Curiosamente, já depois destas linhas escritas, estive com uma nossa confreira, também alentejana do Baixo, que sentiu essa identificação.[

*Um confrade falou num De Profundis bíblico, o que me pareceu muito feliz, não sei se também sugestionado pelos nomes bíblicos das personagens masculinas. Um outro, também com grande acerto, falou num livro sobre o caos humano, o conflito com o que não se quer ver, uma poética da sombra. Um terceiro, falou na narrativa como um longo poema, no que estou de acordo. Foi uma grande sessão!

* Trata-se do seu primeiro romance, e podemos detectar algumas influências, uma reais outras talvez sugestão minha. Quanto às reais, é inegável que o estilo de José Saramago aqui se faz muito sentir. Falou-se de António Lobo Antunes, mas eu não dei por isso. Subjectivamente, ouvi os ecos de algum José Régio, das narrativas alentejanas, e Manuel da Fonseca, alguns contos seus. Referência também a Raul Brandão: já não acompanho.

* Houve quem gostasse, e muito, e quem detestasse; quem lhe apreciasse a estética e quem achasse o texto um emaranhado de divagações e/ou lugares-comuns. Éramos vinte, e a coisa andava pela metade-metade.

24 de novembro de 2012

Sabe-se lá...

«Para mais, Zé Limão era um maltês e sabe-se lá que noite escura é o passado dessa gente!...»

Manuel da Fonseca, Aldeia Nova, 7.ª edição, Lisboa, Editorial Caminho, 1984, p. 82.

27 de outubro de 2012

de certeza que algo se vai passar...

Pendia a cada passo. Na cara enrugada, a boca distendia-se num riso canalha e os olhos, que nunca fitavam ninguém, pareciam guardar uma névoa que alastrava como se constantemente chorassem lágrimas que nunca caíam [...]

Manuel da Fonseca, «Névoa», Aldeia Nova, 7.ª edição, Lisboa, Editorial Caminho, 1984, p. 81.

(imagem)

29 de janeiro de 2012

porque gosto tanto do Manuel da Fonseca

porque esta atmosfera, para além do real, impregna a sua escrita:

Na madrugada escura, o homem ergueu o peito e soprou no búzio o último aviso. O som atravessou a vila e ganhou eco na encosta do castelo, estalando como um ai. Cães responderam com uivos, de focinho curvo para o céu, e um galo, atónito ante tanto mistério, gritou pelo Sol.

«Sete-estrelo», Aldeia Nova (1942), 7.ª edição, Lisboa, Editorial Caminho, 1984, p. 63. 

15 de outubro de 2011

100 anos de Manuel da Fonseca

Manuel da Fonseca, de quem lemos Aldeia Nova,
nasceu há 100 anos, en Santiago do Cacém.