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10 de janeiro de 2024

25 poemas passados para português - #9.


ON HIS BLINDNESS


Ao cabo dos anos o que me rodeia

é uma obstinada neblina luminosa

que reduz a coisas a uma coisa

sem forma nem cor. Quase uma ideia.

A vasta noite elementar e o dia

cheio de gente são essa neblina

de luz incerta e fiel que não declina

e que se oculta na madrugada. Quereria

ver uma cara uma vez. Ignoro

a inexplorada enciclopédia, o prazer

de livros que é dado à minha mão reconhecer,

as altas aves e as luas de oiro.

Aos outros cabe-lhes o universo;

a mim, penumbra, o hábito do verso.


Jorge Luis Borges (Buenos Aires, 1899 - Genebra, 1896),

Os Conjurados (1985)

versão de Maria da Piedade Ferreira e Salvato Teles de Meneses

(original aqui)

6 de outubro de 2023

pressupostos de uma antologia de poesia portuguesa (sécs. XII-XXI), pessoal, "solitária" e exclusiva

 Alguns de nós, confrades do Clube de Leitura do Museu Ferreira de Castro, ao retomarmos um velho hábito de trazer um poema para ler no final de cada sessão, desafiámo-nos a construir cada um uma antologia poética, prática que no meu caso é um vício antigo.

O desafio já foi aceite, com pundonor, pelo nossa confrade Manuel Matos Nunes, também ele poeta, arremessando já 3-poemas-3 às cabeças dos leitores, de uma antologia em construção intitulada Poesia em Língua Portuguesa, século XX, que não pudera começar melhor.

Para quem como eu já leu milhares de poemas e tem outros tantos para ler, uma antologia minimamente criteriosa pode ser uma lida insana e até impossível -- a não ser que ela se assuma como "antologia pessoal, 'solitária' e exclusiva".

Embora nenhum autor se repita, trata-se de uma antologia de poemas e não de poetas, o que significará que haverá grandes vates, tantos!, que não marcarão aqui presença, e outros que aqui estarão, ao lado de nomes menos conhecidos, muitos deles de segunda linha, alguns menores, até. O que me interessou foi fazer uma lista de poemas que me emocionam e não compor um ramalhete by the book, com todos os nomes grados que nunca poderiam faltar. Disso já há para aí muito. Como afirmou algures Jorge Luis Borges, um verso sublime pode sair da mão de um poeta menor, e mesmo um grande poema, acrescentaria eu.

Como sondagem representativa da poesia portuguesa, a minha antologia valerá zero, ou quase; como testemunho de uma preferência estética e de uma sensibilidade, valerá cem, ou perto disso.

A antologia é solitária, porque não quis ser influenciado na escolha, não porque me desgoste debater com quem tem as mesmas, ou outras, afinidades.. Será até possível que um mesmo poema apareça em diferentes antologias que aqui se farão, nada mais natural e previsível.

É também exclusiva, porque gratamente exclui. Repetindo-me: haverá ausências que seriam inadmissíveis numa antologia representativa da poesia portuguesa e presenças que só num exercício destes têm cabimento. Não vou, com pena, incluir poetas brasileiros. Uma antologia de 50 ou 100 poemas de outros tantos poetas já é suficientemente insensato, para ainda afunilar mais. Um dia, quem sabe? Talvez precedida de outra, apenas de autores do país que para ali criámos, onde, aliás, tenho raízes. Mas vou incluir autores africanos que a certa altura da vida deixaram de ser portugueses para abraçarem a sua nova nacionalidade. Faço-o, não por qualquer sentimento de paternalismo colonial serôdio, bem pelo contrário!; antes como forma de orgulho e reconhecimento àqueles que lutaram e poetaram a sua liberdade, conseguindo com isso também a nossa, fará 50 anos, em 2024.

Para terminar: espero que gostem e que não gostem também; que leiam e, se vos apetecer, comentem. Amanhã sairá o primeiro, é medieval, e o poeta talvez nem fosse português.

Ricardo António Alves

11 de fevereiro de 2013

a grande literatura de Dinis Machado

Grande literatura é isto:  domínio da palavra a benefício da narrativa, espessa, sumarenta, cheia de coisas a dizer e de indícios doutras que ficam por enunciar. Estórias e estorietas, há muito quem conte, alguns até reputados de bons escritores; mas O que Diz Molero (1977) é a história, narrada de forma múltipla, dum escritor de obra escassa, sete títulos, três dos quais sob o pseudónimo Dennis McShade.
Li-o por volta de 1983, e voltei agora a ele, no Clube de Leitura do Museu Ferreira de Castro. Por esse então, final da adolescência, apesar de muitas referências me escaparem -- que não as da BD (Dinis Machado terá sido o único escritor português a ter aposto numa obra literária os nomes de Zig e Puce...) ou as dos Westerns de John Ford; é um livro cheio de cinema (até na prosa) e quadradinhos --, havia também uma memória que me era familiar: o imaginário lisboeta das décadas de 1930-1940, que me foi transmitido pelo meu pai, da mesma geração do autor: as figuras populares, suas alcunhas e seus maneirismos; a Guerra Civil de Espanha e a II Guerra Mundial, o modo como eram ansiosamente seguidas e as próprias implicações sociais e políticas desses dois cataclismos entre nós; o cinema de Hollywood e os filmes em 31 partes do Flash Gordon; os comics americanos, Dick Tracy e Mandrake, os combates de boxe... Referências pulp e eruditas, de Camilo Pessanha a Jorge Luis Borges, fluindo naturalmente, porque reflexo da vida e da vivência.  Não sei se algum vez um livro me deu tanto prazer a reler.
A verdade é que em que O que Diz Molero a prosa é rigorosamente vigiada e calibrada, tão fundamental quanto o inventário da infância se presta  a todas as derrapagens do sentimentalismo : não há lamechice, mas ternura, um humor terno e nunca boçal.
Nota aos jovens leitores: tem até vampiros... -- não daqueles de ecrã, que ocupam os escaparates dos híperes, mas o tenebroso "Vampiro Humano", tenebroso para o rapaz (o protagonista do romance, ou um dos protagonostas) e para os seus amigos de correrias e partida pelo Bairro.