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2 de junho de 2016

sobre «Que Importa a Fúria do Mar», de Ana Margarida de Carvalho (post 500...)

Romance de estreia, não parecendo tal, tal é o domínio da técnica romanesca demonstrado. Piscadelas de olho ao leitor, mais ou menos dissimuladas, um encorpado volume de referências literárias. personagens que ficam na memória -- que mais se pode pedir a um romance? Sem espanto, a atribuição do Grande Prémio de Romance e Novela da APE/2014.

(nota de leitura da minha página do Goodreads)

5 de maio de 2016

QUE IMPORTA A FÚRIA DO MAR

"Maria Silvestre, querida irmã:
Peço desculpa por esta carta que não te escrevo.
A caneta resvala-me dos dedos, escorrega-me a mão sobre o papel e deixo um borrão seguido de um traço sem firmeza, nem rota nem paradeiro. Saberás tu ler nas pregas desta linha incerta? Nesta nódoa de mosca esmagada, que já não voa e, ainda assim, arrasta o seu último fiozinho de vida, à deriva, largando esta desprezível impressão, hesitante e perplexa prova da sua vil existência?
Maria Silvestre, querida irmã, não te escrevo a dizer que já não volto a voar.
Encontro-me rebentado por dentro, todo eu sou chão, pregado a ele, neste colchão pantanoso feito de uma pasta de limos que já não vêm água há tanto tempo que nem atinam na consistência, ora acham que são capim seco, ora se tomam pelas giestas bravias da nossa infância. Às vezes, penso que é ela que me sustém, a água, traz-me a clemência de me manter à superfície. E vogo nesta jangada de limos apodrecidos, sobre as rugas das ondas num mar sem fúria"




(Clube de Leitura do Museu Ferreira de Castro - 6 de Maio de 2016 - 18 horas)