Maria Judite de Carvalho, Flores ao Telefone (1968), Obras Completas III, Coimbra, Minotauro, 2024.
A Curva dos Livros
Blog do Clube de Leitura do Museu Ferreira de Castro
28 de maio de 2026
as aberturas de FLORES AO TELEFONE
18 de maio de 2026
o início de AS VELAS ARDEM ATÉ AO FIM
15 de maio de 2026
"Museus a unir um mundo dividido"
O nosso confrade Daniel Estudante Protásio será o convidado para a celebração da Noite dos Museus em Sintra, no próximo sábado, 16 de Maio, às 21,30, em que dissertará sobre «O Visconde de Santarém, Ferreira de Castro e a Portugalidade: percursos de vida e sensibilidades literárias».
10 de maio de 2026
101 poemas portugueses #74
CARTA A MARIANA
Só existes no prenúncio do teu nome
e na pulsão
crescente
da mãe
que há muito
te deseja
e quer
vir a ajuntar
à corola acetinada das boninas
a energia genética da espiga
e ao sabor agridoce da amora silvestre
o nome de um pai
que se reveja por igual no vosso olhar
gira as valências de um metal nobre
o bouquet subtil de vinho generoso
o timbre inebriante de uma voz
mariana
olhos verdes ou azuis
quais os meus
do colo da tua mãe
dá-lhe beijos
muitos beijos
por ti e por mim também
(se tu me chegares a ler
se tu vieres a nascer)
de longe acenar-te-ei
no papel vestibular
do pai que te acontecer
Rui Ferreira Bastos, Penela da Beira, Penedono, 1928 - ),
Voz(es) (2003)
9 de maio de 2026
o início de MAU TEMPO NO CANAL
20 de abril de 2026
"Imagens literárias das Beiras" - Conversas sobre Ferreira de Castro

7 de abril de 2026
as aberturas de CONTOS BÁRBAROS
João de Araújo Correia, Contos Bárbaros [1939], 8.ª ed., Lisboa, Âncora Editora, 2023.
31 de março de 2026
as aberturas de PALAVRAS NÓMADAS
Dora Nunes Gago, Palavras Nómadas, Vila Nova de Famalicão, Húmus, 2023.
.../...
24 de março de 2026
16 de março de 2026
101 poemas portugueses #70
ÍNTIMO NATAL
Nunca um Natal me aturdira
com tão grande maravilha
Ó perspectiva de vida
que à vida me sobreviva
Um neto ou neta respira
no ventre de minha filha
16 de fevereiro de 2026
o início de A LETRA ESCARLATE
8 de fevereiro de 2026
nota sobre O BANQUEIRO ANARQUISTA, de Fernando Pessoa
I
Conto publicado na Contemporânea n.º 1 (1922) – revista para gente civilizada e para civilizar gente
Literariamente é uma novela de raciocínio em que se trabalha a destreza argumentativa; politicamente é uma blague, uma vez que o banqueiro não é efectivamente anarquista, embora queira convencer o interlocutor de que o é.
Posicionamento político de Fernando Pessoa: uma direita não alinhada, embebida de um nacionalismo místico, mas também mítico, contrastando com a decadência do país, que vem do século anterior.
Era um admirador contido do fascismo de Mussolini – também ele evocador de um passado mítico, brutal, vigoroso e tecnicamente progressivo (Marinetti, um fascista) – e detestava Salazar pelo que este representava de passadismo, ruralismo, seminarismo…
E detestava ainda mais todas as ideias democráticas, revolucionárias e de esquerda, socialistas, anarquistas ou bolchevistas.
Talvez seja por isso que ele caracteriza os “falsos” anarquistas como “esses parvos dos sindicatos e das bombas” (p. 23)
II
Senão, vejamos:
a glorificação ultra individualista do salvar-se a si próprio deixando de ser dominado pelo dinheiro, possuindo-o – nunca seria libertação, uma vez que se escravizou a esse desígnio: ter dinheiro para não ser dominado por ele e, naturalmente, todo esse capital acumulado na banca e nos negócios, se preciso de uma forma desleal, como confessa o banqueiro (p. 54), são incompatíveis com a ética e a moral anarquistas – até porque tal só seria conseguido, mais do que pelo engano, pela exploração dos outros.
Pessoa era suficientemente informado, embora pudesse detestar o anarquismo, de que nem este é incompatível com a actividade bancária ou comercial – previstas por Proudhon pelas mutualidades e pelas cooperativas. Mas isso já lhe estragaria o argumentário.
Outra fraqueza conceptual deste conto ou novela de raciocínio, reveladora aliás do preconceito do autor é a caracterização do anarquismo como algo que se concentra «nos tipos dos sindicatos e das bombas» (p. 22). Esta é uma expressão parcelar, incompleta e distorcida, no fundo a visão do vulgo burguês, pouco condizente, de resto, com as pretensões de uma revista de elite ou para as elites.
Sim, há um anarquismo individualista ou ultra-individualista, que põe o Eu em primeiro lugar, não caindo na imoralidade cínica do banqueiro pessoano que para se livrar a si escraviza forçosamente os outros, com a pobre desculpa que essa tirania já existiria, e que portanto ele limitou-se a utiliza-la, garantindo assim o anarquismo de um, o seu próprio.
Em segundo lugar, “os tipos das bombas” são uma corrente ultraminoritária do movimento anarquista, que provocou muitos estragos à própria ideia, entre finais do século XIX e o princípio do XX, execrada pela larguíssima maioria das correntes e equiparadas a puro banditismo e marginalidade. Foi o que ficou no imaginário.
Também a ideia de que o anarquismo é uma corrente que provém do lúmpen social e proletário faz sorrir, se pensarmos nos nomes de algumas das suas maiores figuras: um conde Tolstói, um príncipe Kropótkin, um Malatesta, filho de um latifundiário pertencente a uma das grandes famílias nobres italianas desde a Idade Média. E só falo em aristocratas, podia falar doutros casos como o geógrafo Reclus, filho de um pastor protestante ou do nosso Neno Vasco, ou seja Gregório Nazianzeno Moreira de Queirós e Vasconcelos, jurista e revolucionário, filho de um abastado comerciante do Norte. Não foi Francisco de Assis, esse anarquista avant la lettre, um jovem rico que se despojou dos seus bens?
III
A construção é/parece perfeita; os pressupostos estão errados; logo, a conclusão é falsa.
24 de janeiro de 2026
101 poemas portugueses - #75
ARDE UM FULGOR EXTINTO
Não me pesaria tanto
a caminhada se, em lugar do dia,
no seu extremo achasse a noite.
Exacta e concisa é a claridade.
Não mente à luz o que a noite
ilude. Terrível destino
o de quem é nocturno à luz solar.
Não vos ponha em cuidado,
porém, este meu penar:
são palavras e não sangram.
19 de janeiro de 2026
Um poema de Carlos Poças Falcão
16 de janeiro de 2026
o início de O BANQUEIRO ANARQUISTA
10 de janeiro de 2026
101 poemas portugueses - #73
Ferido de inocência desde sempre
Boston
Novembro 90
Alberto de Lacerda (Ilha de Moçambique, 1928 - Londres, 2007),
Átrio (1997)
27 de dezembro de 2025
NÃO CRIEI MUSGO
(Retrato de uma Aldeia Transmontana), de John Gibbons, é livro que adquiri há quase ano e meio, na sequência de uma série de artigos sob o tema de como os estrangeiros têm visto Portugal ao longo dos tempos, e que só agora tive oportunidade de ler; e que pena ter sido apenas agora.
O autor, por encomenda específica de editor, compromete-se a escrever sobre Portugal.
Com pouco dinheiro no bolso, levanta-se a questão para onde ir e alojar-se. Português conhecido, em Inglaterra, diz-lhe que tem uma casita de família na aldeia de Coleja. Não fazendo ideia onde aquilo fica, aceita, e vê-se chegar, após peripécias esperadas ou imprevistas, a um lugarejo, no concelho de Carrazeda de Ansiães, onde ninguém fala inglês; tudo seria simples... se ele falasse português... mas não.
Estamos em 1939. Salazar governa. Como vai um homem destes, nestas circunstâncias, descrever a aldeia e seus moradores?, como é a experiência de ir à feira a Carrazeda, aproveitando para regularizar papelada?, ir à missa, porque é católico, a três horas de caminhada?, ir conhecer a mítica (na visão dele) Miranda do Douro?, que nos diz sobre o Porto?, e como vê o país regido pelo Dr. Salazar?
Deliciei-me com a leitura e parece-me que com razão, quando, no final do livro, dei com apontamentos do Abade de Baçal, sobre a obra e seu autor; uma entrevista no Diário de Notícias, em março de 1940... e quando verifico que lhe foi atribuído o Prémio Camões.
Curiosos?
Sei até de quem interrompeu a leitura a meio, para recomeçar de início, tomando notas para uma viagem cultural.
Estamos sempre a tempo de descobrir e aprender.
5 de dezembro de 2025
31 de outubro de 2025
NOVAS CARTAS PORTUGUESAS, a alegria da literatura
A meio da releitura, pensava como a literatura nos pode preencher.
Novas Cartas Portuguesas não é apenas um dos grandes livros do século passado, obrigatório numa lista muito curta; atrevo-me a escrever que se trata de um dos grandes livros da nossa história literária, em forma e fundo.
Apesar de não estar tipificado quanto ao género literário -- pois que tudo esta obra encerra -- não me repugna nada arrumá-lo (gosto de arrumações) ou inscrevê-lo como romance. Estarei certo, errado, certo e errado?
Livro feminista -- na mais nobre acepção do termo, que outra não deveria haver --, percebemos que 1972 é passado. Mas quão passado é?
Dois pontos para debate, no próximo dia 7.
16 de outubro de 2025
101 poemas portugueses - #72
QUOTIDIANO
As mulheres afadigam-se
a estender a migalha de sargaço
que a nortada trouxe à beirada.
Mesmo à mão, sem graveta.
Interrompo o meu cerzir de escrita
e abarco-as num golpe de olhar.
Longe, num rosal de espumas,
cruzam-se duas traineirinhas:
uma entra, em direcção à Póvoa,
outra sai, rumo ao largo.
Luísa Dacosta (Vila Real, 1927 - Matosinhos, 2015),
A Maresia e o Sargaço dos Dias (2011)
15 de outubro de 2025
O(s) Egipto(s) de Eça de Queirós e Ferreira de Castro
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3 de outubro de 2025
RELEITURAS EM FÉRIAS 3
Detesto o abuso ilimitado e sem vergonha da expressão «é único», para impingir banalidades numa sociedade que (quase) conseguiu exaurir o significado das palavras, mas encontro-me numa situação em que me questiono como hei de classificar o livro de António Lobato, LIBERDADE OU EVASÃO.
É que é mesmo único: e particularmente para mim.
Reli-o pela terceira vez - o que é já sintomático - e decidi propô-lo para leitura no nosso Clube, agora que foi feita mais uma edição.
Esperam que lhes descreva o conteúdo? Não vou fazê-lo. O desafio da leitura perderia com isso.
Deixo apenas alumas notas pessoais.
Por via de danças palacianas do sec.XVI, que a esposa dirigia, conheci o António e tornámo-nos amigos: próximos.
Quando ele foi libertado, era eu enfermeiro militar em Neurocirurgia e Neuropsiquiatria, e acolhi militares que tinham vindo da Operação Mar Verde, o que me levou a tomar conhecimento de factos de alto secretismo, ao tempo.
Por acaso da História, um conterrâneo amigo esteve envolvido no ato de abertura do portão que colocou o António Lobato numa liberdade... condicionada. Omito o nome por respeito à privacidade.
Conheciam-se, e quando comuniquei ao ZP que o Major Lobato tinha morrido, respondeu apenas com uma expressão perturbadíssima: «já sabia». Não me revelou como.
Desafio feito, encerro assim as minha pequenas crónicas de Releituras.
2 de outubro de 2025
25 de setembro de 2025
RELEITURAS EM FÉRIAS 2
Visitar (ou re-revisitar) Burgos sem esquadrinhar a sua catedral, por fora e por dentro, sempre na expetativa de descobrir mais um pormenor que escapara, é como ir à Capela Sistina... e esquecer-se de levantar os olhos para o teto.
E os que têm gosto por História não se livram da compulsão de tentar dar sentido a tudo e encher de informação os principais relevos, recantos e dimensões.
É este modo de sentir que me reconduziu a mão para o livro do escritor e professor de História Medieval, José Luís Corral, O NÚMERO DE DEUS, que nos envolve nos tempos em que a catedral começa a elevar-se aos céus, até atingir toda a sua beleza grandiosa, numa competição sadia com as de Chartres, Leon, Paris... e menos sadia entre alguns homens.
Interessante pela história, atraente pelo romance, ganhei por ter relido com gosto, além do que recordei e aprendi.
Fica a partilha e o desafio.
14 de setembro de 2025
RELEITURAS EM FÉRIAS 1
Tempo mais livre que o habitual e estante menos disponível à vista, levaram-me a reler obras que tinham permanecido no arquivo da memória.História pura e pormenorizada, abrangendo os anos de 1947 e 48, ajuda a entender toda a evolução da relação entre o novo estado de Israel e todos os seus vizinhos, imediatos ou próximos.
E talvez, desesperadamente, a concluir que, se algo humano, e consequentemente transitório, é eterno, será o conflito a que assistimos.
E, sob a névoa do tempo e do esquecimento, quem são os responsáveis reais, que se mantêm alheados, como se não tivessem sido eles a acender a faísca do desastre e do ódio.
Não me alongo; recomendo vivamente a quem o tema interesse.
7 de setembro de 2025
o início de O PRÍNCIPE COM ORELHAS DE BURRO
3 de agosto de 2025
as aberturas de OS MEUS AMORES
Trindade Coelho, Os Meus Amores [1891], Mem Martins, Publicações Europa-América, s.d.
30 de julho de 2025
101 poemas portugueses - #71
ARRÁBIDA
22 de julho de 2025
101 poemas portugueses - #69
O ÚLTIMO ADEUS DUM COMBATENTE
Naquela tarde em que eu parti e tu ficaste
sentimos, fundo, os dois a mágoa da saudade.
Por ver-te as lágrimas sangrarem de verdade
sofri na alma um amargor quando choraste.
Ao despedir-me eu trouxe a dor que tu levaste!
Nem só o teu amor me traz a felicidade.
Quando parti foi por amar a Humanidade
Sim! foi por isso que parti e tu ficaste!
Mas se pensares que eu não parti e a mim te deste
será a dor e a tristeza de perder-me
unicamente um pesadelo que tiveste.
Mas se jamais do teu amor posso esquecer-me
e se fui eu aquele a quem tu mais quiseste
que eu conserve em ti a esperança de rever-me!
Vasco Cabral (Farim, Guiné-Bissau, 1926 - Bissau, 2005) ,
in Sophia de Mello Breyner Andresen, Primeiro Livro de Poesia (1991)
18 de julho de 2025
as aberturas de BICHOS
Miguel Torga, Bichos (1940), 19.ª ed, Coimbra, 1995

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