6 de abril de 2021

o início de O SEMINARISTA


 «Sou conhecido como o Especialista, contratado para serviços específicos.»

Rubem Fonseca, O Seminarista (2009), Porto, Sextante editora, 2010, p. 5

4 de março de 2021

O SEMINARISTA

"Eles me pegaram porque dei mole.

Foi assim: eu me preparava para sair de casa para dar uma volta, ver se achava uma pista do Sangue de Boi e, quando peguei a Glock, Kirsten peerguntou:

«Você vai levar essa coisa? Precisa?»

«Está bem», eu disse colocando a pistola de volta no armário de cuecas.

Eu havia acabado de sair do sebo da rua da Quitanda, onde comprara uma edição de poemas de Edna St. Vicent Millay, e caminhava lendo, embevecido, pela Primeiro de Março, quando subitamente colocaram um capuz na minha cabeça e mãos fortes e hábeis me jogaram na mala de um carro. Os caras deviam ser muito audaciosos para fazer uma coisa dessas numa rua de movimento durante o dia. Tudo durou alguns segundos. Senti o carro andando em alta velocidade. Quando parou, me tiraram da mala, mas mantiveram o capuz cobrindo a minha cabeça.

«Anda, dá o serviço», uma voz disse.

«Que serviço?»

«O que foi que o cara cheio de joias te contou?»

«Que cara?»

«O cara que você matou.»

«Quando foi isso?»

«Três meses atrás. Um sujeito cheio de anéis, pulseiras, até brincos.»

«Ah... sei. Ele não me contou nada. Dei um tiro na cabeça dele, um só, como sempre faço, quer dizer, fazia, eu abandonei o métier. Não sei de nada. No dia seguinte nem li os jornais, exatamente para não saber nada sobre o freguês. Esse é o meu modus operandi.»

  


Romance surpreendente, delirante, hilariante, recheado de axiomas e expressões em latim clássico. Leitura ideal para enfrentar estes tempos deprimentes. Até traz a receita do 'Bacalhau à Gomes de Sá' com todos os pormenores, e uma descrição da Batalha de Alcácer Quibir.
A discutir amanhã, dia 5, no Clube de leitura do Museu Ferreira de Castro (via teams) 


as personagens de «O Príncipe»: Leão X


retrato por Rafael

 

10 de fevereiro de 2021

8 de fevereiro de 2021

SAADI, antítese de MAQUIAVEL

 Depois de O Príncipe, de Maquiavel, que livro me vem parar defronte? Fábulas Orientais, do poeta e prosador persa, distinguido pela qualidade de escrita, suporte de uma profundidade de pensamento social e moral, Saadi de Xiraz (1210 - 1292) (?).

De Maquiavel sabemos todos um pouco, e, agora que acabámos de ler a sua obra mais famosa, é aconselhável tomarmos cuidado para não nos tornarmos admiradores de «heróis» que seguiram os seus ditames, entre os quais se colocou em bicos de pés, Napoleão Bonaparte, ao comentar, com sobranceria, quem era suposto ser  o mestre.

A equilibrar o pensamento, surge então Saadi (emparceirando com Rumi e Hafez no céu da literatura persa), de quem deixo dois excertos: «Quando todos os seres humanos são úteis uns aos outros, que homem se atreverá a existir inútil para a sua pátria e para o Mundo?». «Toda esta gente vai a casa do meu amigo em razão do seu cargo importante; eu porém hei de ir lá, quando ele deixar de o ter, e estou bem certo que então me hei de achar sozinho [com ele]».

E, realçando a antítese, cito o tradutor da versão portuguesa das Fábulas Orientais: «Pelo que, na lição bem modesta destas Fábulas, poderá encontrar o Príncipe altíssimas máximas na arte de governar, o Ministro de Estado excelentes exemplos propostos a sua imitação, e todo o homem em geral doutrinas de moral pura que, postas por ele em prática, aumentarão a sua sensibilidade e melhorarão indubitavelmente o seu coração». (Francisco Freire de Carvalho, que foi Professor de História e de Antiguidades na Universidade de Coimbra).


Finalmente: um dos exemplos que Maquiavel invoca recorrentemente, César Borgia, filho do celebérrimo papa Alexandre VI, acabou sepultado à porta de uma igreja, em Viana (Logronho), «para ser pisado pelo povo». O mausoléu elevado ao bom conselheiro que foi Saadi, mantém-se como símbolo de homenagem à grandeza interior do homem, em contraste com o poder terreno, sempre transitório.

as personagens de «O Príncipe»: Carlos VIII de França

Escola francesa do séc. XVI

 

27 de janeiro de 2021

as aberturas de CONTOS DA SÉTIMA ESFERA, de Mário de Carvalho (1981)

                                               

«Agade e Nimur». «Havia em Agade uma porta imemorial e no frontão tinha escrito: "Porta em frente da qual se não colhe o trigo."»

«Do deus memória e notícia». «Quando os povos do Oriente vieram em levadas sucessivas e plantaram tendas multicores nos vales e planaltos por onde sopravam os ventos, os magistrados de Ghard tiveram de declarar a guerra para recuperar a rota das caravanas.»

«A simetria». «O rei Jeherdal era gordo, enfermiço, mas tinha reputação de sagaz e prudente.»

«O bólide». «Só quando muito recentemente foi deposto por uma insurreição o ditador Raymond Arenas, da República Central Americana de San Pelayo, se soube ao certo, por documentos encontrados no palácio saqueado, o que realmente aconteceu ao navio britânico Caliban, enigmaticamente desaparecido em 12 de Julho de 1960 ao largo da Costa Rica.»

«O desafio». «Perto da mesquita grande do Cairo havia um velho que se acocorava no chão, sobre o turbante estendido, e recitava as Suratas  do Corão perante uma pequena multidão em círculo, que lhe retribuía com algumas moedas ou alguns géneros.»

«Almocreves, publicanos, ricos-homens e ciganos». «Acautelados das tropas de Massena que, batidas por Beresford, demandavam caminhos de Castela, atravancando as estradas de carros, gente e canhões, num pandemónio de tropa solta e perdida em que ninguém tinha mão, os dois almocreves saíram de Alcácer noite alta, por carreteiras de poucos sabidas e desviadas da tropelia francesa.»

«Do problema que o capitão Passanha houve de resolver quando, em circunstâncias atribuladas, comandava o Maria Eduarda no estreito de Malaca do bom despacho que lhe deu com a colaboração de todos / ou / O enigma da estátua mutilada encontrada nos fundos de Shandenoor». «Há meses, o navio oceanográfico Scania, pesquisando espécies marinhas entre Samatra e Ceilão, não longe dos baixios a que chamam Shandenoor, trouxe à tona um estranho achado, decerto há muito afundado nas profundas geladas daquelas paragens.»

«Definitiva história do Professor Pfiglzz e seu estranho companheiro». «Quando eu era muito novo, fui comissário de bordo num grande cargueiro misto, o Fernão Ferro, que fazia a demorada carreira entre Leixões, Hadleh e Carvangel, com escala por vários portos secundários.»

«Que todos ficassem bem…» «Nos meus últimos dias de férias no arquipélago de Shandenoor vieram procurar-me dois sujeitos escuros, muito magros, bisonhos, que se diziam enviados pelo rei de Carvangel.»

«As três notícias do Diabo». «À espera de transbordo, um amigo meu atardou-se numa tasca fedorenta de San Pelayo, bebendo tequilla e jogando ao Modelo

«O caminho de Cherokee Pass». «Ao fim de dois meses de buscas infrutíferas nas planícies de Oklahoma, um jovem pesquisador chamado Barton regressava desiludido, esfomeado, coberto de vermina, arrenegando dos velhos mapas comprados a batoteiros ociosos no bar fétido de Cherokee Pass.»

«O contrato». «Quis-me desenfastiar a procurar emprego em Londres.»

«A pele do judeu». «Intrigado por um dito melancólico de Aberramão III, que em quarenta anos de reinado tinha contado catorze dias de paz, o universitário Rui Telmo meteu-se a pesquisar a vida dos Árabes na Península.»

«A transmutação». «No final do batuque, o jovem cuanhama, muito bebido de cerveja de palma, vergou o arco e disparou uma flecha para as alturas.»

«Desdobramento». «Ele atribuía aquele grande cansaço e quebranto nos plenilúnios a um acontecimento da sua infância distante.»

«A espada japonesa». «O frade Góis, o mais antigo manuseador de manuscritos do convento, um dia recebeu uma espada japonesa, afiada e comprida.»

«A autora». «A advogada Helena Telo teve de ficar em Lisboa, no início de Agosto, por causa de uma petição complicada que a lei mandava interpor em férias.»

«O circuito». «Foi com dificuldade que aluguei um quarto em Coimbra, perto da Couraça dos Apóstolos.»

«A passagem». «Um amigo meu, amigo antigo a quem não é preciso ver muitas vezes, telefonou-me um dia destes, para termos uma conversa muito séria.»

«Coleccionadores». «Isto de coleccionar antiguidades vai e volta.»

«O sonho». «Tenho tido imenso tempo para pensar em tudo isto, olhos fixados nestes azulejos pardos, ainda mais sujos da luz vinda da janela, , depois de ter feito um percurso de impurezas que não deixa iluminar forte seja o que for.»

«O fim». «Como combinado, André e Burka passaram nessa tarde pela loja onde se empregara a filha.»

«O emprego». «Os três, na cidade de ..., estavam sentados e, do muito calor, abanavam-se com folhas de jornal, enquanto esperavam.»

Mário de Carvalho (1944), Contos da Sétima Esfera [1981], Lisboa, edições Rolim, s.d.


26 de janeiro de 2021

20 de janeiro de 2021

LEITURAS PARA A VIDA...

"Muitas pessoas enaltecem a perestroika... Todos tinham esperança em qualquer coisa. Eu não tenho nenhum motivo para gostar de Gorbatchov. Lembro-me das conversas na sala dos médicos: «Acaba-se o socialismo, e o que vai haver depois dele?» «Acaba-se o mau socialismo, e haverá bom socialismo.» Tínhamos esperança... líamos os jornais... Em breve o meu marido perdeu o emprego, o instituto foi encerrado. Um mar de desempregados, todos com formação superior. Apareceram os quiosques, depois os supermercados, onde havia de tudo, como nos contos, e não havia com que comprar. Eu entrava e saía. Comprava duas maçãs e uma laranja, quando as crianças estavam doentes. Como resignar-se a uma coisa destas? Como aceitar que agora passe a ser assim? Estava na bicha para a caixa. E à minha frente um homem com um carrinho, onde havia ananases, bananas... Uma ofensa ao amor-próprio. As pessoas estão hoje todas cansadas disso. Deus nos livre de nascer na URSS e viver na Rússia (Silêncio) Nenhum dos meus sonhos se cumpriu na vida." 

(Depoimento da mãe de uma jovem vítima do atentado de 6-2-2004 no metro de Moscovo)



Livro constituído por testemunhos de pungente e às vezes atroz conteúdo, de pessoas reais de diversas idades, nacionalidades e origens sociais, em que se retrata, com um misto de crueza e grande beleza (literária) o que foi a vida no tempo da URSS e no período que se seguiu à sua desagregação (neste caso com realce para a pobreza, desigualdades, injustiças, insegurança, corrupção, etc.).É também aflorado o grande problema do (re)nascer de ódios de índole religiosa, nacionalista e étnica, por vezes no seio das próprias famílias, com a desagregação do estado soviético. Um extenso e belo documentário! A não perder!

FF

18 de janeiro de 2021

o início de HISTÓRIA DE UMA GAIVOTA E DO GATO QUE A ENSINOU A VOAR

 


«-- Banco de arenques a bombordo! -- anunciou a gaivota de vigia, e o bando do Farol da Areia Vermelha recebeu a notícia com grasnidos de alívio.»
Luis Sepúlveda, História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar [1996], tradução de Pedro Tamen, Porto Editora, Porto, 2020.

30 de dezembro de 2020

capismo


 Primeira edição portuguesa de O Mistério da Grande Pirâmide,
tomo I -- O Papiro de Máneton, Lisboa, Verbo, 1969
(estreia na revista Tintin belga, em 1950)

22 de dezembro de 2020

ALGARVE (Sophia de Mello Breyner Andresen)

 1

A luz mais que pura

Sobre a terra seca


2

Eu quero o canto o ar a anémona a medusa

O recorte das pedras sobre o mar


3

Um homem sobe o monte desenhando

A tarde transparente das aranhas


4

A luz mais que pura

Quebra a sua lança


Livro Sexto (1962), 9.ª ed. , Porto, Assírio & Alvim, 2014, p.25,