Dora Nunes Gago, Palavras Nómadas, Vila Nova de Famalicão, Húmus, 2023.
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Blog do Clube de Leitura do Museu Ferreira de Castro
Dora Nunes Gago, Palavras Nómadas, Vila Nova de Famalicão, Húmus, 2023.
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Maria Judite de Carvalho, Flores ao Telefone (1968), Obras Completas III, Coimbra, Minotauro, 2024.
João de Araújo Correia, Contos Bárbaros [1939], 8.ª ed., Lisboa, Âncora Editora, 2023.
I
Conto publicado na Contemporânea n.º 1 (1922) – revista para gente civilizada e para civilizar gente
Literariamente é uma novela de raciocínio em que se trabalha a destreza argumentativa; politicamente é uma blague, uma vez que o banqueiro não é efectivamente anarquista, embora queira convencer o interlocutor de que o é.
Posicionamento político de Fernando Pessoa: uma direita não alinhada, embebida de um nacionalismo místico, mas também mítico, contrastando com a decadência do país, que vem do século anterior.
Era um admirador contido do fascismo de Mussolini – também ele evocador de um passado mítico, brutal, vigoroso e tecnicamente progressivo (Marinetti, um fascista) – e detestava Salazar pelo que este representava de passadismo, ruralismo, seminarismo…
E detestava ainda mais todas as ideias democráticas, revolucionárias e de esquerda, socialistas, anarquistas ou bolchevistas.
Talvez seja por isso que ele caracteriza os “falsos” anarquistas como “esses parvos dos sindicatos e das bombas” (p. 23)
II
Senão, vejamos:
a glorificação ultra individualista do salvar-se a si próprio deixando de ser dominado pelo dinheiro, possuindo-o – nunca seria libertação, uma vez que se escravizou a esse desígnio: ter dinheiro para não ser dominado por ele e, naturalmente, todo esse capital acumulado na banca e nos negócios, se preciso de uma forma desleal, como confessa o banqueiro (p. 54), são incompatíveis com a ética e a moral anarquistas – até porque tal só seria conseguido, mais do que pelo engano, pela exploração dos outros.
Pessoa era suficientemente informado, embora pudesse detestar o anarquismo, de que nem este é incompatível com a actividade bancária ou comercial – previstas por Proudhon pelas mutualidades e pelas cooperativas. Mas isso já lhe estragaria o argumentário.
Outra fraqueza conceptual deste conto ou novela de raciocínio, reveladora aliás do preconceito do autor é a caracterização do anarquismo como algo que se concentra «nos tipos dos sindicatos e das bombas» (p. 22). Esta é uma expressão parcelar, incompleta e distorcida, no fundo a visão do vulgo burguês, pouco condizente, de resto, com as pretensões de uma revista de elite ou para as elites.
Sim, há um anarquismo individualista ou ultra-individualista, que põe o Eu em primeiro lugar, não caindo na imoralidade cínica do banqueiro pessoano que para se livrar a si escraviza forçosamente os outros, com a pobre desculpa que essa tirania já existiria, e que portanto ele limitou-se a utiliza-la, garantindo assim o anarquismo de um, o seu próprio.
Em segundo lugar, “os tipos das bombas” são uma corrente ultraminoritária do movimento anarquista, que provocou muitos estragos à própria ideia, entre finais do século XIX e o princípio do XX, execrada pela larguíssima maioria das correntes e equiparadas a puro banditismo e marginalidade. Foi o que ficou no imaginário.
Também a ideia de que o anarquismo é uma corrente que provém do lúmpen social e proletário faz sorrir, se pensarmos nos nomes de algumas das suas maiores figuras: um conde Tolstói, um príncipe Kropótkin, um Malatesta, filho de um latifundiário pertencente a uma das grandes famílias nobres italianas desde a Idade Média. E só falo em aristocratas, podia falar doutros casos como o geógrafo Reclus, filho de um pastor protestante ou do nosso Neno Vasco, ou seja Gregório Nazianzeno Moreira de Queirós e Vasconcelos, jurista e revolucionário, filho de um abastado comerciante do Norte. Não foi Francisco de Assis, esse anarquista avant la lettre, um jovem rico que se despojou dos seus bens?
III
A construção é/parece perfeita; os pressupostos estão errados; logo, a conclusão é falsa.
ARDE UM FULGOR EXTINTO
Ferido de inocência desde sempre
Boston
Novembro 90
Alberto de Lacerda (Ilha de Moçambique, 1928 - Londres, 2007),
Átrio (1997)
A meio da releitura, pensava como a literatura nos pode preencher.
Novas Cartas Portuguesas não é apenas um dos grandes livros do século passado, obrigatório numa lista muito curta; atrevo-me a escrever que se trata de um dos grandes livros da nossa história literária, em forma e fundo.
Apesar de não estar tipificado quanto ao género literário -- pois que tudo esta obra encerra -- não me repugna nada arrumá-lo (gosto de arrumações) ou inscrevê-lo como romance. Estarei certo, errado, certo e errado?
Livro feminista -- na mais nobre acepção do termo, que outra não deveria haver --, percebemos que 1972 é passado. Mas quão passado é?
Dois pontos para debate, no próximo dia 7.
QUOTIDIANO
As mulheres afadigam-se
a estender a migalha de sargaço
que a nortada trouxe à beirada.
Mesmo à mão, sem graveta.
Interrompo o meu cerzir de escrita
e abarco-as num golpe de olhar.
Longe, num rosal de espumas,
cruzam-se duas traineirinhas:
uma entra, em direcção à Póvoa,
outra sai, rumo ao largo.
Luísa Dacosta (Vila Real, 1927 - Matosinhos, 2015),
A Maresia e o Sargaço dos Dias (2011)
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Tempo mais livre que o habitual e estante menos disponível à vista, levaram-me a reler obras que tinham permanecido no arquivo da memória.Trindade Coelho, Os Meus Amores [1891], Mem Martins, Publicações Europa-América, s.d.
ARRÁBIDA
O ÚLTIMO ADEUS DUM COMBATENTE
Naquela tarde em que eu parti e tu ficaste
sentimos, fundo, os dois a mágoa da saudade.
Por ver-te as lágrimas sangrarem de verdade
sofri na alma um amargor quando choraste.
Ao despedir-me eu trouxe a dor que tu levaste!
Nem só o teu amor me traz a felicidade.
Quando parti foi por amar a Humanidade
Sim! foi por isso que parti e tu ficaste!
Mas se pensares que eu não parti e a mim te deste
será a dor e a tristeza de perder-me
unicamente um pesadelo que tiveste.
Mas se jamais do teu amor posso esquecer-me
e se fui eu aquele a quem tu mais quiseste
que eu conserve em ti a esperança de rever-me!
Vasco Cabral (Farim, Guiné-Bissau, 1926 - Bissau, 2005) ,
in Sophia de Mello Breyner Andresen, Primeiro Livro de Poesia (1991)
Miguel Torga, Bichos (1940), 19.ª ed, Coimbra, 1995
VÓS QUE OCUPAIS A NOSSA TERRA
É preciso não perder
de vista as crianças que brincam:
a cobra preta passeia fardada
à porta das nossas casas.
Derrubam as árvores fruta-pão
para que passemos fome
e vigiam as estradas
receando a fuga do cacau.
A tragédia já a conhecemos:
a cubata incendiada,
o telhado de andala flamejando
e o cheiro do fumo misturando-se
ao cheiro do andu
e ao cheiro da morte.
Nós nos conhecemos e sabemos,
tomamos chá do gabão,
arrancamos a casca do cajueiro.
E vós, apenas desbotadas
máscaras do homem,
apenas esvaziados fantasmas do homem?
Vós que ocupais a nossa terra?
Maria Manuela Margarido (Roça Olímpia, Ilha do Príncipe, 1925 - Lisboa, 2007)
Poetas de S. Tomé e Príncipe (1963) /in Manuel Ferreira, No Reino de Caliban II (1976)
NOSSO É O MAR
Nosso é o mar. Nosso e renosso.
Pla dor, pla teimosia, pela esperança.
Nosso até onde a vista o não alcança.
Nosso até onde é nosso o que for nosso.
Mas depois de o ter ganho abandonámos
alma e corpo à fadiga de o ter ganho.
Bartolomeu, não olhes. Não despertes
do sono que te dorme há cinco séculos.
Já o gume das quilhas não fecunda
teu ventre feminino, Mar aberto.
Falsa energia a nossa! Desflorado
teu sexo, Mar, aos corvos o cedemos.
Voluptuosa e saudável, tua carne
é convite e oferta como dantes.
Nós, mortos! Nós, sem força! Nós, sem fogo,
de uma saudade mole possuídos!
Sebastião da Gama Vila Nogueira de Azeitão, 1924 - Lisboa, 1952)
Pelo Sonho É que Vamos (póst., 1953)
Quando aqueles que chegavam
olhavam os que partiam
os que partiam choravam
os que ficavam sorriam
PRIMAVERA DE BALAS
Agarro
Na minha última humilhação
E sem ir embora da minha terra
Emigro para o Norte de Moçambique
Com uma primavera de balas ao ombro.
E lá
No Norte almoço raízes
Bebo restos de chuva onde bebem os bichos
No descanso em vez da minha primavera de balas
Pego no cabo da minha primavera de milhos
E faço machamba ou se for preciso
Rastejar sobre os cotovelos
E os joelhos
Rastejo.
Depois
Escondido em posição no meio do mato
Com a minha primavera de balas apontada
Faço desabrochar no dólman do sr. Capitão
As mais vermelhas flores florindo
O duro preço da nossa bela
Liberdade reconquistada
Aos tiros!
José Craveirinha (Lourenço Marques / Maputo, 1922 - Joanesburgo, 2003)
in Manuel Ferreira, No Reino de Caliban III