Dora Nunes Gago, Palavras Nómadas, Vila Nova de Famalicão, Húmus, 2023.
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Blog do Clube de Leitura do Museu Ferreira de Castro
Dora Nunes Gago, Palavras Nómadas, Vila Nova de Famalicão, Húmus, 2023.
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Maria Judite de Carvalho, Flores ao Telefone (1968), Obras Completas III, Coimbra, Minotauro, 2024.
À SOMBRA DAS ÁRVORES MILENARES
Passaram muitos anos mas não passou
o momento único irrepetível
o som abafado do estilhaço no corpo
o eco estridente do ricochete no metal
o cheiro da pólvora misturado com sangue e terra
o sabor da morte na última viagem de Portugal.
À sombra das árvores milenares ouvi tambores
ouvi o rugido do leão e o zumbido da bala
ouvi as vozes do mato e o silêncio mineral.
E ouvi um jipe que rolava na picada
um jipe sem sentido
na última viagem de Portugal.
Vi o fulgor das queimadas senti o cheiro do medo
o silvo da cobra cuspideira o deslizar da onça
as pacaças à noite como luzes de cidade
a ferida que não fecha o buraco na femural
no meio da selva escura em um lugar sem nome
na última viagem de Portugal.
Soberbo e frágil tempo
intensa vida à beira morte
amores de verão amores de guerra amores perdidos.
Uma ferida por dentro um tinir de cristal
passaram os anos o ser permanece.
Fiz a última viagem de Portugal.
João de Araújo Correia, Contos Bárbaros [1939], 8.ª ed., Lisboa, Âncora Editora, 2023.
Extractos de um longo texto da nossa colega MARIA JOSÉ ALBARRAN DE CARVALHO. Selecção da minha exclusiva responsabilidade. Nele se vê que como fonte inspiradora não há só a buganvília de Gedeão.
Na esplanada traseira do meu
espaço residencial ergue-se, a meia dúzia de metros, exuberante trepadeira na
sua cor violeta avermelhada, folhagem verde-escuro. Um sol. Arbusto trepador na
origem, hoje árvore de grosso tronco. Uma buganvília! Não perde a folhagem em
lâminas. As flores são tubulares, de abril a setembro. Pouco se podam caules
lenhosos e espinhosos. Um ciclo perene de beleza, todavia nascendo e morrendo.
(…)
Resido num espaço sénior desde os
79 anos – “Viva Vitae” do Panorama Sénior.
(…)
Tive a lucidez de observar a progressiva
decadência: não aguentar ir às compras, carregá-las, cozinhar de pé; incapaz de
me ocupar da limpeza da casa, das roupas, trem de cozinha e afins; ter-me
tornado incompetente para gerir as burocracias e os aborrecimentos da vida,
entre muitas responsabilidades cansativas que a net pode auxiliar a quem a
saiba usar, não a mim. De coluna atingida por maleitas degenerativas e
crónicas, com a vértebra desfeita – onde se instalaram dois quistos – sofrendo
crises de ciática, além de cardíaca grave e diabética, compreendi só me restar
a cabeça em funcionamento pleno
(…)
Um universo tipo felliniano me
rodeia e atrai. Que entes são estes? Antigos profissionais de espírito circulam
de olhar perdido, bebendo um gole de cada copo... Travar diálogos, com que
significância? Um desertor da guerra colonial, graduado, no seu fechado mundo,
outros de carreira tentam comunicar, e conseguem-no em sucessão de gaguejos, ainda
mais dificilmente se movem. Os cuidadores de inesgotável criatividade, serenos
e de fôlego, são oriundos do Brasil e dos PALOP... Aqueles confraternizam,
estimulam a auto estima; estes, abnegadamente delicados, animam-nos.
(…)
Os medíocres, irresponsáveis
predadores estatais, vêm desistindo da longevidade, não protegem os seus mais
velhos e atiram a culpabilidade de más opções, furúnculos da democracia, para
nenhures, ou seja, para os outros, isto é, o RINOCERONTE! Unamo-nos contra essa
imagem do mal, sob a buganvília resplandecente... Oiço aplausos e uma funda, frontal
gargalhada. É a buganvília!
(…)
À sombra da frondosa buganvília,
densamente cerrada, admiro, das janelas traseiras, numa merecida pausa, em
refeições, sempre sorridentes e em desvelada atenção aos residentes, os membros
da maravilhosa e terna plataforma de assistentes – deixo-lhes elevada menção de
excelência, em vénia de franca admiração.
Juntei-me um dia à flor da mocidade
partindo para Angola no Niassa
a defender eu já não sei se a raça
se as roças de café da cristandade
a minha geração tinha a idade
das grandes ilusões sempre fatais
que não chegam aos anos principais
por defeito da própria ingenuidade
a guerra era uma coisa mais a Norte
de onde ela voltaria havendo sorte
à mesma e ancestral tranquilidade
azar de uns quantos se pagaram porte
esses a que atirou a dura morte
diz-se que estão na terra da verdade
IN MEMORIAM
Que a terra lhe seja pesada.
Que lhe apodreça o corpo e os olhos fiquem vivos,
Se lhe soltem os dentes e a fome fique intacta
E a alma, se a tiver, que lha fustigue o vento
E arrase com ela a memória gravada
Na lembrança demente dos que o choram.
Que a mulher que foi dele oiça o vento na noite,
Cheio de ossos e uivos
E garfos aguçados
E que reparta o medo com o primeiro intruso
E o vento se insinue pelas portas fechadas
E rasteje no quarto
E suba pela cama
E lhe entre no olhar como estiletes de aço
Lhe penetre os ouvidos como agulhas de som,
Lhe emaranhe os cabelos como um nó de soluços,
Lhe desfigure o rosto como um ácido em chama.
Que a mulher que foi dele oiça o vento na noite,
Que a mulher que foi dele oiça o vento na cama!
Que o nome que era o seu o persigam os ecos,
O gritem no deserto as gargantas com sede,
O murmurem no escuro os mendigos com frio,
O clamem na cidade as crianças com fome,
O soluce o amante de súbito impotente,
O maldigam no exílio as almas sem descanso
Que o nome que era o seu seja a bandeira negra,
A pálpebra doente,
O vómito de sangue..
Que o gesto que era o seu o imitem as mães
Que se torcem de dor quando abortam nas trevas,
O desenhem a lume os braços amputados,
O perpetue o esgar dos jovens mutilados,
O dance o condenado que morre na fogueira.
Que o gesto que era o seu seja o punhal do louco
A arma do ladrão
A marca do vencido.
Que o sangue que era o seu seja o rictus da tara,
A máscara de sal,
A vingança do pobre.
E que o Exterminador, no seu trono de enxofre,
O faça tilintar os guizos da tortura
Até que o mundo o esqueça
E mais ninguém o chore.
José Carlos Ary dos Santos (Lisboa, 1936-1984),
A Liturgia do Sangue (1963)
se se tocassem, começariam a esguichar lágrimas de fogo, como as roqueiras das festas, e, ao chocarem de flanco, incendiariam a Terra. (...) Por simples prudência, os rozarenses tinham-se arrimado às furnas e aos sítios côncavos e começavam a acreditar que estariam aí protegidos das avalanches lunares.»
[ _________ Protecção melhor que a dos falíveis óculos-de-sol-para-ver-eclipses, alguns sem certificação europeia... ______________ ]
«Assim, puderam em breve verificar que a face negra da Lua se pusera tão baça que o Sol parecia ir devorá-la. O homem com um molho de silvas às costas, no interior dela, tropeçou e caiu de borco com a sua meia calote enviesada, e um cone de luz iluminou-lhe a cabeça, depois as silvas e, por fim, as suas botifarras. Logo a seguir, a Lua voltou à primitiva posição de feto inocente, com a bochecha gorda e pálida dentro de uma esfera de metal.»
[ __________ Já não preciso de ver o eclipse, chega-me esta prosa. Como diria uma voz do relato: «Então isto é que é um eclipse? Muito asno é este nosso mundo, louvar a Deus!» ____________ ]
O pintor e documentarista brasileiro João Evangelista de Souza, radicado no Paraná, executará uma pintura ao vivo, no átrio do Museu Ferreira de Castro, acção inspirada no romance A Selva (1930), no próximo dia 30 de Julho, quinta-feira, a partir das 10,30h.
Artista
atento às questões sociais contemporâneas, esta ação insere-se num projecto
mais vasto, intitulado “Amazônia – Sangue na Floresta”, e constituirá uma
homenagem do artista a Ferreira de Castro e ao seu notável romance.
João
Evangelista de Souza realizou a primeira exposição individual em 2003, em Belo
Horizonte, sob os auspícios dos pintores Carlos Scliar, Carlos Bracher, Inimá de Paula e Siron Franco, tem o seu trabalho disperso por acervos públicos e
privados, entre os quais a prestigiadíssima coleção do embaixador Gilberto
Chateaubriand (1925-2022), detentor do maior acervo privado de pintura
brasileira, cedido em comodato ao Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.
Enquanto
documentarista, João Evangelista de Souza é autor, entre outros, do filme
“Portinari: o menino de Brodósqui” (1997), sobre o grande pintor brasileiro que
ilustrou A Selva, em 1955.
Esgotada, há muito, a 1.ª edição de ENTREMENTES CONVERSAS (DES)CONFINADAS do confrade J. A. Marcos Serra e de Carlos Paiva Neves, acaba de ser disponibilizada, em suporte digital, a 2.ª edição (revista e complementada), livre para leitura, descarga ou impressão, sem fins comerciais.
Se lhe interessam temas como questionamentos filosóficos, religiosos, teorias de reencarnação, espiritualidade e espiritismo (por antítese ao materialismo e consumismo sem freio), parapsicologia, hipnotismo, fenómenos sociais, ambiente e futuro do planeta, humanidade (e as suas dimensões de alma, espírito, mente, emoções, corpo e vida), humanismo e outros, resultantes de uma troca de missivas entre duas historicidades que ousam dialogar sem proselitismo nem totalitarismo nem pretensiosismos, que só a ignorância pode alimentar, disponha livremente para uma leitura calma, que conduz ao imo de cada um.
Se os temas não lhe interessam, pode sempre informar amigos que gostem destes assuntos.
Deixo-lhe a hiperligação da 2.ª edição.
Boas leituras, em paz e bem.
MADAME BUTTERFLY, VELHA
O nosso confrade Daniel Estudante Protásio será o convidado para a celebração da Noite dos Museus em Sintra, no próximo sábado, 16 de Maio, às 21,30, em que dissertará sobre «O Visconde de Santarém, Ferreira de Castro e a Portugalidade: percursos de vida e sensibilidades literárias».
CARTA A MARIANA
Só existes no prenúncio do teu nome
e na pulsão
crescente
da mãe
que há muito
te deseja
e quer
vir a ajuntar
à corola acetinada das boninas
a energia genética da espiga
e ao sabor agridoce da amora silvestre
o nome de um pai
que se reveja por igual no vosso olhar
gira as valências de um metal nobre
o bouquet subtil de vinho generoso
o timbre inebriante de uma voz
mariana
olhos verdes ou azuis
quais os meus
do colo da tua mãe
dá-lhe beijos
muitos beijos
por ti e por mim também
(se tu me chegares a ler
se tu vieres a nascer)
de longe acenar-te-ei
no papel vestibular
do pai que te acontecer
Rui Ferreira Bastos, Penela da Beira, Penedono, 1928 - ),
Voz(es) (2003)

ÍNTIMO NATAL
Nunca um Natal me aturdira
com tão grande maravilha
Ó perspectiva de vida
que à vida me sobreviva
Um neto ou neta respira
no ventre de minha filha
I
Conto publicado na Contemporânea n.º 1 (1922) – revista para gente civilizada e para civilizar gente
Literariamente é uma novela de raciocínio em que se trabalha a destreza argumentativa; politicamente é uma blague, uma vez que o banqueiro não é efectivamente anarquista, embora queira convencer o interlocutor de que o é.
Posicionamento político de Fernando Pessoa: uma direita não alinhada, embebida de um nacionalismo místico, mas também mítico, contrastando com a decadência do país, que vem do século anterior.
Era um admirador contido do fascismo de Mussolini – também ele evocador de um passado mítico, brutal, vigoroso e tecnicamente progressivo (Marinetti, um fascista) – e detestava Salazar pelo que este representava de passadismo, ruralismo, seminarismo…
E detestava ainda mais todas as ideias democráticas, revolucionárias e de esquerda, socialistas, anarquistas ou bolchevistas.
Talvez seja por isso que ele caracteriza os “falsos” anarquistas como “esses parvos dos sindicatos e das bombas” (p. 23)
II
Senão, vejamos:
a glorificação ultra individualista do salvar-se a si próprio deixando de ser dominado pelo dinheiro, possuindo-o – nunca seria libertação, uma vez que se escravizou a esse desígnio: ter dinheiro para não ser dominado por ele e, naturalmente, todo esse capital acumulado na banca e nos negócios, se preciso de uma forma desleal, como confessa o banqueiro (p. 54), são incompatíveis com a ética e a moral anarquistas – até porque tal só seria conseguido, mais do que pelo engano, pela exploração dos outros.
Pessoa era suficientemente informado, embora pudesse detestar o anarquismo, de que nem este é incompatível com a actividade bancária ou comercial – previstas por Proudhon pelas mutualidades e pelas cooperativas. Mas isso já lhe estragaria o argumentário.
Outra fraqueza conceptual deste conto ou novela de raciocínio, reveladora aliás do preconceito do autor é a caracterização do anarquismo como algo que se concentra «nos tipos dos sindicatos e das bombas» (p. 22). Esta é uma expressão parcelar, incompleta e distorcida, no fundo a visão do vulgo burguês, pouco condizente, de resto, com as pretensões de uma revista de elite ou para as elites.
Sim, há um anarquismo individualista ou ultra-individualista, que põe o Eu em primeiro lugar, não caindo na imoralidade cínica do banqueiro pessoano que para se livrar a si escraviza forçosamente os outros, com a pobre desculpa que essa tirania já existiria, e que portanto ele limitou-se a utiliza-la, garantindo assim o anarquismo de um, o seu próprio.
Em segundo lugar, “os tipos das bombas” são uma corrente ultraminoritária do movimento anarquista, que provocou muitos estragos à própria ideia, entre finais do século XIX e o princípio do XX, execrada pela larguíssima maioria das correntes e equiparadas a puro banditismo e marginalidade. Foi o que ficou no imaginário.
Também a ideia de que o anarquismo é uma corrente que provém do lúmpen social e proletário faz sorrir, se pensarmos nos nomes de algumas das suas maiores figuras: um conde Tolstói, um príncipe Kropótkin, um Malatesta, filho de um latifundiário pertencente a uma das grandes famílias nobres italianas desde a Idade Média. E só falo em aristocratas, podia falar doutros casos como o geógrafo Reclus, filho de um pastor protestante ou do nosso Neno Vasco, ou seja Gregório Nazianzeno Moreira de Queirós e Vasconcelos, jurista e revolucionário, filho de um abastado comerciante do Norte. Não foi Francisco de Assis, esse anarquista avant la lettre, um jovem rico que se despojou dos seus bens?
III
A construção é/parece perfeita; os pressupostos estão errados; logo, a conclusão é falsa.
ARDE UM FULGOR EXTINTO
Ferido de inocência desde sempre
Boston
Novembro 90
Alberto de Lacerda (Ilha de Moçambique, 1928 - Londres, 2007),
Átrio (1997)
A meio da releitura, pensava como a literatura nos pode preencher.
Novas Cartas Portuguesas não é apenas um dos grandes livros do século passado, obrigatório numa lista muito curta; atrevo-me a escrever que se trata de um dos grandes livros da nossa história literária, em forma e fundo.
Apesar de não estar tipificado quanto ao género literário -- pois que tudo esta obra encerra -- não me repugna nada arrumá-lo (gosto de arrumações) ou inscrevê-lo como romance. Estarei certo, errado, certo e errado?
Livro feminista -- na mais nobre acepção do termo, que outra não deveria haver --, percebemos que 1972 é passado. Mas quão passado é?
Dois pontos para debate, no próximo dia 7.
QUOTIDIANO
As mulheres afadigam-se
a estender a migalha de sargaço
que a nortada trouxe à beirada.
Mesmo à mão, sem graveta.
Interrompo o meu cerzir de escrita
e abarco-as num golpe de olhar.
Longe, num rosal de espumas,
cruzam-se duas traineirinhas:
uma entra, em direcção à Póvoa,
outra sai, rumo ao largo.
Luísa Dacosta (Vila Real, 1927 - Matosinhos, 2015),
A Maresia e o Sargaço dos Dias (2011)
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