João de Araújo Correia, Contos Bárbaros [1939], 8.ª ed., Lisboa, Âncora Editora, 2023.
A Curva dos Livros
Blog do Clube de Leitura do Museu Ferreira de Castro
2 de outubro de 2026
as aberturas de CONTOS BÁRBAROS
24 de setembro de 2026
A BUGANVÍLIA
Extractos de um longo texto da nossa colega MARIA JOSÉ ALBARRAN DE CARVALHO. Selecção da minha exclusiva responsabilidade. Nele se vê que como fonte inspiradora não há só a buganvília de Gedeão.
Na esplanada traseira do meu
espaço residencial ergue-se, a meia dúzia de metros, exuberante trepadeira na
sua cor violeta avermelhada, folhagem verde-escuro. Um sol. Arbusto trepador na
origem, hoje árvore de grosso tronco. Uma buganvília! Não perde a folhagem em
lâminas. As flores são tubulares, de abril a setembro. Pouco se podam caules
lenhosos e espinhosos. Um ciclo perene de beleza, todavia nascendo e morrendo.
(…)
Resido num espaço sénior desde os
79 anos – “Viva Vitae” do Panorama Sénior.
(…)
Tive a lucidez de observar a progressiva
decadência: não aguentar ir às compras, carregá-las, cozinhar de pé; incapaz de
me ocupar da limpeza da casa, das roupas, trem de cozinha e afins; ter-me
tornado incompetente para gerir as burocracias e os aborrecimentos da vida,
entre muitas responsabilidades cansativas que a net pode auxiliar a quem a
saiba usar, não a mim. De coluna atingida por maleitas degenerativas e
crónicas, com a vértebra desfeita – onde se instalaram dois quistos – sofrendo
crises de ciática, além de cardíaca grave e diabética, compreendi só me restar
a cabeça em funcionamento pleno
(…)
Um universo tipo felliniano me
rodeia e atrai. Que entes são estes? Antigos profissionais de espírito circulam
de olhar perdido, bebendo um gole de cada copo... Travar diálogos, com que
significância? Um desertor da guerra colonial, graduado, no seu fechado mundo,
outros de carreira tentam comunicar, e conseguem-no em sucessão de gaguejos, ainda
mais dificilmente se movem. Os cuidadores de inesgotável criatividade, serenos
e de fôlego, são oriundos do Brasil e dos PALOP... Aqueles confraternizam,
estimulam a auto estima; estes, abnegadamente delicados, animam-nos.
(…)
Os medíocres, irresponsáveis
predadores estatais, vêm desistindo da longevidade, não protegem os seus mais
velhos e atiram a culpabilidade de más opções, furúnculos da democracia, para
nenhures, ou seja, para os outros, isto é, o RINOCERONTE! Unamo-nos contra essa
imagem do mal, sob a buganvília resplandecente... Oiço aplausos e uma funda, frontal
gargalhada. É a buganvília!
(…)
À sombra da frondosa buganvília,
densamente cerrada, admiro, das janelas traseiras, numa merecida pausa, em
refeições, sempre sorridentes e em desvelada atenção aos residentes, os membros
da maravilhosa e terna plataforma de assistentes – deixo-lhes elevada menção de
excelência, em vénia de franca admiração.
23 de setembro de 2026
101 poemas portugueses - #78
Juntei-me um dia à flor da mocidade
partindo para Angola no Niassa
a defender eu já não sei se a raça
se as roças de café da cristandade
a minha geração tinha a idade
das grandes ilusões sempre fatais
que não chegam aos anos principais
por defeito da própria ingenuidade
a guerra era uma coisa mais a Norte
de onde ela voltaria havendo sorte
à mesma e ancestral tranquilidade
azar de uns quantos se pagaram porte
esses a que atirou a dura morte
diz-se que estão na terra da verdade
28-IV-94
2 de setembro de 2026
101 poemas portugueses - #77
IN MEMORIAM
Que a terra lhe seja pesada.
Que lhe apodreça o corpo e os olhos fiquem vivos,
Se lhe soltem os dentes e a fome fique intacta
E a alma, se a tiver, que lha fustigue o vento
E arrase com ela a memória gravada
Na lembrança demente dos que o choram.
Que a mulher que foi dele oiça o vento na noite,
Cheio de ossos e uivos
E garfos aguçados
E que reparta o medo com o primeiro intruso
E o vento se insinue pelas portas fechadas
E rasteje no quarto
E suba pela cama
E lhe entre no olhar como estiletes de aço
Lhe penetre os ouvidos como agulhas de som,
Lhe emaranhe os cabelos como um nó de soluços,
Lhe desfigure o rosto como um ácido em chama.
Que a mulher que foi dele oiça o vento na noite,
Que a mulher que foi dele oiça o vento na cama!
Que o nome que era o seu o persigam os ecos,
O gritem no deserto as gargantas com sede,
O murmurem no escuro os mendigos com frio,
O clamem na cidade as crianças com fome,
O soluce o amante de súbito impotente,
O maldigam no exílio as almas sem descanso
Que o nome que era o seu seja a bandeira negra,
A pálpebra doente,
O vómito de sangue..
Que o gesto que era o seu o imitem as mães
Que se torcem de dor quando abortam nas trevas,
O desenhem a lume os braços amputados,
O perpetue o esgar dos jovens mutilados,
O dance o condenado que morre na fogueira.
Que o gesto que era o seu seja o punhal do louco
A arma do ladrão
A marca do vencido.
Que o sangue que era o seu seja o rictus da tara,
A máscara de sal,
A vingança do pobre.
E que o Exterminador, no seu trono de enxofre,
O faça tilintar os guizos da tortura
Até que o mundo o esqueça
E mais ninguém o chore.
José Carlos Ary dos Santos (Lisboa, 1936-1984),
A Liturgia do Sangue (1963)
12 de agosto de 2026
« (...) QUANDO O SOL RODOU NA DIRECÇÃO DO ASTRO SEM LUZ E SE PRODUZIU O ECLIPSE. AQUELES DOIS CORPOS AMARELOS,
se se tocassem, começariam a esguichar lágrimas de fogo, como as roqueiras das festas, e, ao chocarem de flanco, incendiariam a Terra. (...) Por simples prudência, os rozarenses tinham-se arrimado às furnas e aos sítios côncavos e começavam a acreditar que estariam aí protegidos das avalanches lunares.»
[ _________ Protecção melhor que a dos falíveis óculos-de-sol-para-ver-eclipses, alguns sem certificação europeia... ______________ ]
«Assim, puderam em breve verificar que a face negra da Lua se pusera tão baça que o Sol parecia ir devorá-la. O homem com um molho de silvas às costas, no interior dela, tropeçou e caiu de borco com a sua meia calote enviesada, e um cone de luz iluminou-lhe a cabeça, depois as silvas e, por fim, as suas botifarras. Logo a seguir, a Lua voltou à primitiva posição de feto inocente, com a bochecha gorda e pálida dentro de uma esfera de metal.»
[ __________ Já não preciso de ver o eclipse, chega-me esta prosa. Como diria uma voz do relato: «Então isto é que é um eclipse? Muito asno é este nosso mundo, louvar a Deus!» ____________ ]
3 de agosto de 2026
as aberturas de PALAVRAS NÓMADAS
Dora Nunes Gago, Palavras Nómadas, Vila Nova de Famalicão, Húmus, 2023.
.../...
29 de julho de 2026
Pintar A SELVA
O pintor e documentarista brasileiro João Evangelista de Souza, radicado no Paraná, executará uma pintura ao vivo, no átrio do Museu Ferreira de Castro, acção inspirada no romance A Selva (1930), no próximo dia 30 de Julho, quinta-feira, a partir das 10,30h.
Artista
atento às questões sociais contemporâneas, esta ação insere-se num projecto
mais vasto, intitulado “Amazônia – Sangue na Floresta”, e constituirá uma
homenagem do artista a Ferreira de Castro e ao seu notável romance.
João
Evangelista de Souza realizou a primeira exposição individual em 2003, em Belo
Horizonte, sob os auspícios dos pintores Carlos Scliar, Carlos Bracher, Inimá de Paula e Siron Franco, tem o seu trabalho disperso por acervos públicos e
privados, entre os quais a prestigiadíssima coleção do embaixador Gilberto
Chateaubriand (1925-2022), detentor do maior acervo privado de pintura
brasileira, cedido em comodato ao Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.
Enquanto
documentarista, João Evangelista de Souza é autor, entre outros, do filme
“Portinari: o menino de Brodósqui” (1997), sobre o grande pintor brasileiro que
ilustrou A Selva, em 1955.
1 de julho de 2026
as aberturas de FLORES AO TELEFONE
Maria Judite de Carvalho, Flores ao Telefone (1968), Obras Completas III, Coimbra, Minotauro, 2024.
29 de junho de 2026
101 poemas portugueses - #76
19 de junho de 2026
ENTREMENTES CONVERSAS (DES)CONFINADAS - 2.ª edição
Esgotada, há muito, a 1.ª edição de ENTREMENTES CONVERSAS (DES)CONFINADAS do confrade J. A. Marcos Serra e de Carlos Paiva Neves, acaba de ser disponibilizada, em suporte digital, a 2.ª edição (revista e complementada), livre para leitura, descarga ou impressão, sem fins comerciais.
Se lhe interessam temas como questionamentos filosóficos, religiosos, teorias de reencarnação, espiritualidade e espiritismo (por antítese ao materialismo e consumismo sem freio), parapsicologia, hipnotismo, fenómenos sociais, ambiente e futuro do planeta, humanidade (e as suas dimensões de alma, espírito, mente, emoções, corpo e vida), humanismo e outros, resultantes de uma troca de missivas entre duas historicidades que ousam dialogar sem proselitismo nem totalitarismo nem pretensiosismos, que só a ignorância pode alimentar, disponha livremente para uma leitura calma, que conduz ao imo de cada um.
Se os temas não lhe interessam, pode sempre informar amigos que gostem destes assuntos.
Deixo-lhe a hiperligação da 2.ª edição.
Boas leituras, em paz e bem.
13 de junho de 2026
101 POEMAS PORTUGUESES - #75
MADAME BUTTERFLY, VELHA
Engano: não, não me matei,
borboleta que fui, borboleta que sou,
mosca, ah, sim, mosca,
mas de manteiga.
E envelheço porque não morri.
Envelheço? Não pode envelhecer
quem sempre foi assim.
Dizem-me velha? Olhem-me as pinturas:
todos os dias chegam barcos,
barcos, marinheiros,
todos os dias chegam.
18 de maio de 2026
o início de AS VELAS ARDEM ATÉ AO FIM
15 de maio de 2026
"Museus a unir um mundo dividido"
O nosso confrade Daniel Estudante Protásio será o convidado para a celebração da Noite dos Museus em Sintra, no próximo sábado, 16 de Maio, às 21,30, em que dissertará sobre «O Visconde de Santarém, Ferreira de Castro e a Portugalidade: percursos de vida e sensibilidades literárias».
10 de maio de 2026
101 poemas portugueses #74
CARTA A MARIANA
Só existes no prenúncio do teu nome
e na pulsão
crescente
da mãe
que há muito
te deseja
e quer
vir a ajuntar
à corola acetinada das boninas
a energia genética da espiga
e ao sabor agridoce da amora silvestre
o nome de um pai
que se reveja por igual no vosso olhar
gira as valências de um metal nobre
o bouquet subtil de vinho generoso
o timbre inebriante de uma voz
mariana
olhos verdes ou azuis
quais os meus
do colo da tua mãe
dá-lhe beijos
muitos beijos
por ti e por mim também
(se tu me chegares a ler
se tu vieres a nascer)
de longe acenar-te-ei
no papel vestibular
do pai que te acontecer
Rui Ferreira Bastos, Penela da Beira, Penedono, 1928 - ),
Voz(es) (2003)
9 de maio de 2026
o início de MAU TEMPO NO CANAL
20 de abril de 2026
"Imagens literárias das Beiras" - Conversas sobre Ferreira de Castro

24 de março de 2026
16 de março de 2026
101 poemas portugueses #70
ÍNTIMO NATAL
Nunca um Natal me aturdira
com tão grande maravilha
Ó perspectiva de vida
que à vida me sobreviva
Um neto ou neta respira
no ventre de minha filha
16 de fevereiro de 2026
o início de A LETRA ESCARLATE
8 de fevereiro de 2026
nota sobre O BANQUEIRO ANARQUISTA, de Fernando Pessoa
I
Conto publicado na Contemporânea n.º 1 (1922) – revista para gente civilizada e para civilizar gente
Literariamente é uma novela de raciocínio em que se trabalha a destreza argumentativa; politicamente é uma blague, uma vez que o banqueiro não é efectivamente anarquista, embora queira convencer o interlocutor de que o é.
Posicionamento político de Fernando Pessoa: uma direita não alinhada, embebida de um nacionalismo místico, mas também mítico, contrastando com a decadência do país, que vem do século anterior.
Era um admirador contido do fascismo de Mussolini – também ele evocador de um passado mítico, brutal, vigoroso e tecnicamente progressivo (Marinetti, um fascista) – e detestava Salazar pelo que este representava de passadismo, ruralismo, seminarismo…
E detestava ainda mais todas as ideias democráticas, revolucionárias e de esquerda, socialistas, anarquistas ou bolchevistas.
Talvez seja por isso que ele caracteriza os “falsos” anarquistas como “esses parvos dos sindicatos e das bombas” (p. 23)
II
Senão, vejamos:
a glorificação ultra individualista do salvar-se a si próprio deixando de ser dominado pelo dinheiro, possuindo-o – nunca seria libertação, uma vez que se escravizou a esse desígnio: ter dinheiro para não ser dominado por ele e, naturalmente, todo esse capital acumulado na banca e nos negócios, se preciso de uma forma desleal, como confessa o banqueiro (p. 54), são incompatíveis com a ética e a moral anarquistas – até porque tal só seria conseguido, mais do que pelo engano, pela exploração dos outros.
Pessoa era suficientemente informado, embora pudesse detestar o anarquismo, de que nem este é incompatível com a actividade bancária ou comercial – previstas por Proudhon pelas mutualidades e pelas cooperativas. Mas isso já lhe estragaria o argumentário.
Outra fraqueza conceptual deste conto ou novela de raciocínio, reveladora aliás do preconceito do autor é a caracterização do anarquismo como algo que se concentra «nos tipos dos sindicatos e das bombas» (p. 22). Esta é uma expressão parcelar, incompleta e distorcida, no fundo a visão do vulgo burguês, pouco condizente, de resto, com as pretensões de uma revista de elite ou para as elites.
Sim, há um anarquismo individualista ou ultra-individualista, que põe o Eu em primeiro lugar, não caindo na imoralidade cínica do banqueiro pessoano que para se livrar a si escraviza forçosamente os outros, com a pobre desculpa que essa tirania já existiria, e que portanto ele limitou-se a utiliza-la, garantindo assim o anarquismo de um, o seu próprio.
Em segundo lugar, “os tipos das bombas” são uma corrente ultraminoritária do movimento anarquista, que provocou muitos estragos à própria ideia, entre finais do século XIX e o princípio do XX, execrada pela larguíssima maioria das correntes e equiparadas a puro banditismo e marginalidade. Foi o que ficou no imaginário.
Também a ideia de que o anarquismo é uma corrente que provém do lúmpen social e proletário faz sorrir, se pensarmos nos nomes de algumas das suas maiores figuras: um conde Tolstói, um príncipe Kropótkin, um Malatesta, filho de um latifundiário pertencente a uma das grandes famílias nobres italianas desde a Idade Média. E só falo em aristocratas, podia falar doutros casos como o geógrafo Reclus, filho de um pastor protestante ou do nosso Neno Vasco, ou seja Gregório Nazianzeno Moreira de Queirós e Vasconcelos, jurista e revolucionário, filho de um abastado comerciante do Norte. Não foi Francisco de Assis, esse anarquista avant la lettre, um jovem rico que se despojou dos seus bens?
III
A construção é/parece perfeita; os pressupostos estão errados; logo, a conclusão é falsa.
24 de janeiro de 2026
101 poemas portugueses - #75
ARDE UM FULGOR EXTINTO
Não me pesaria tanto
a caminhada se, em lugar do dia,
no seu extremo achasse a noite.
Exacta e concisa é a claridade.
Não mente à luz o que a noite
ilude. Terrível destino
o de quem é nocturno à luz solar.
Não vos ponha em cuidado,
porém, este meu penar:
são palavras e não sangram.
19 de janeiro de 2026
Um poema de Carlos Poças Falcão
16 de janeiro de 2026
o início de O BANQUEIRO ANARQUISTA
10 de janeiro de 2026
101 poemas portugueses - #73
Ferido de inocência desde sempre
Boston
Novembro 90
Alberto de Lacerda (Ilha de Moçambique, 1928 - Londres, 2007),
Átrio (1997)
27 de dezembro de 2025
NÃO CRIEI MUSGO
(Retrato de uma Aldeia Transmontana), de John Gibbons, é livro que adquiri há quase ano e meio, na sequência de uma série de artigos sob o tema de como os estrangeiros têm visto Portugal ao longo dos tempos, e que só agora tive oportunidade de ler; e que pena ter sido apenas agora.
O autor, por encomenda específica de editor, compromete-se a escrever sobre Portugal.
Com pouco dinheiro no bolso, levanta-se a questão para onde ir e alojar-se. Português conhecido, em Inglaterra, diz-lhe que tem uma casita de família na aldeia de Coleja. Não fazendo ideia onde aquilo fica, aceita, e vê-se chegar, após peripécias esperadas ou imprevistas, a um lugarejo, no concelho de Carrazeda de Ansiães, onde ninguém fala inglês; tudo seria simples... se ele falasse português... mas não.
Estamos em 1939. Salazar governa. Como vai um homem destes, nestas circunstâncias, descrever a aldeia e seus moradores?, como é a experiência de ir à feira a Carrazeda, aproveitando para regularizar papelada?, ir à missa, porque é católico, a três horas de caminhada?, ir conhecer a mítica (na visão dele) Miranda do Douro?, que nos diz sobre o Porto?, e como vê o país regido pelo Dr. Salazar?
Deliciei-me com a leitura e parece-me que com razão, quando, no final do livro, dei com apontamentos do Abade de Baçal, sobre a obra e seu autor; uma entrevista no Diário de Notícias, em março de 1940... e quando verifico que lhe foi atribuído o Prémio Camões.
Curiosos?
Sei até de quem interrompeu a leitura a meio, para recomeçar de início, tomando notas para uma viagem cultural.
Estamos sempre a tempo de descobrir e aprender.
5 de dezembro de 2025
31 de outubro de 2025
NOVAS CARTAS PORTUGUESAS, a alegria da literatura
A meio da releitura, pensava como a literatura nos pode preencher.
Novas Cartas Portuguesas não é apenas um dos grandes livros do século passado, obrigatório numa lista muito curta; atrevo-me a escrever que se trata de um dos grandes livros da nossa história literária, em forma e fundo.
Apesar de não estar tipificado quanto ao género literário -- pois que tudo esta obra encerra -- não me repugna nada arrumá-lo (gosto de arrumações) ou inscrevê-lo como romance. Estarei certo, errado, certo e errado?
Livro feminista -- na mais nobre acepção do termo, que outra não deveria haver --, percebemos que 1972 é passado. Mas quão passado é?
Dois pontos para debate, no próximo dia 7.
16 de outubro de 2025
101 poemas portugueses - #72
QUOTIDIANO
As mulheres afadigam-se
a estender a migalha de sargaço
que a nortada trouxe à beirada.
Mesmo à mão, sem graveta.
Interrompo o meu cerzir de escrita
e abarco-as num golpe de olhar.
Longe, num rosal de espumas,
cruzam-se duas traineirinhas:
uma entra, em direcção à Póvoa,
outra sai, rumo ao largo.
Luísa Dacosta (Vila Real, 1927 - Matosinhos, 2015),
A Maresia e o Sargaço dos Dias (2011)
15 de outubro de 2025
O(s) Egipto(s) de Eça de Queirós e Ferreira de Castro
.jpg)
3 de outubro de 2025
RELEITURAS EM FÉRIAS 3
Detesto o abuso ilimitado e sem vergonha da expressão «é único», para impingir banalidades numa sociedade que (quase) conseguiu exaurir o significado das palavras, mas encontro-me numa situação em que me questiono como hei de classificar o livro de António Lobato, LIBERDADE OU EVASÃO.
É que é mesmo único: e particularmente para mim.
Reli-o pela terceira vez - o que é já sintomático - e decidi propô-lo para leitura no nosso Clube, agora que foi feita mais uma edição.
Esperam que lhes descreva o conteúdo? Não vou fazê-lo. O desafio da leitura perderia com isso.
Deixo apenas alumas notas pessoais.
Por via de danças palacianas do sec.XVI, que a esposa dirigia, conheci o António e tornámo-nos amigos: próximos.
Quando ele foi libertado, era eu enfermeiro militar em Neurocirurgia e Neuropsiquiatria, e acolhi militares que tinham vindo da Operação Mar Verde, o que me levou a tomar conhecimento de factos de alto secretismo, ao tempo.
Por acaso da História, um conterrâneo amigo esteve envolvido no ato de abertura do portão que colocou o António Lobato numa liberdade... condicionada. Omito o nome por respeito à privacidade.
Conheciam-se, e quando comuniquei ao ZP que o Major Lobato tinha morrido, respondeu apenas com uma expressão perturbadíssima: «já sabia». Não me revelou como.
Desafio feito, encerro assim as minha pequenas crónicas de Releituras.







.jpg)







.jpg)
