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23 de março de 2024

101 poemas portugueses - #28


A DOR DAS PEDRAS 


Ó pedras a sofrer, em ânsias, nas calçadas,
Ninguém vos sabe amar, ninguém de vós tem dó,
Ninguém sabe entender, ó pedras desgraçadas,
Que há lágrimas também dentro do vosso pó!

Passam, por sobre vós, tanta dor e alegria,
Olhos em que há prazer, olhos em que há tormento,
E ninguém vos consola e queima-vos o dia
E, quase sempre a rir, insulta-vos o vento!

E ninguém sabe ver que pode o infinito
Duma dor existir numa pedra do chão;
Que pode acontecer que um palmo de granito
Sofra, por vezes, mais que um grande coração.

E vós continuais sofrendo a vossa cruz,
E eu vejo-vos lançar um clarão para os Céus,
Como um grande protesto: ó pedras, essa luz
O que é que vai dizer ao ouvido de Deus?

Eu sei que vós falais a Deus dessa maneira:
Vossa palavra é luz, só Deus pode entendê-la:
Há dentro em vós, talvez, uma via-láctea inteira,
Porque, em sentindo dor, sai de vós uma estrela...

Ó pedras, esperai, que talvez um vulcão
Vos lance para o Céu, num abalo violento,
E lá pode falar o vosso coração
E alguém compreender o vosso sofrimento!

João Lúcio (Olhão, 1880-1918),
Descendo (1901) / 
Cabral do Nascimento, Líricas Portuguesas - 2ª. Série

13 de dezembro de 2023

TEM DIAS XIX

 


O MEU ALGARVE 

  


Oh meu ardente Algarve impressionista e mole,

Meu lindo preguiçoso adormecido ao sol,

Meu louco sonhador a respirar quimeras,

Ouvindo, no azul, o canto das esferas

-A marcha triunfal dos mundos pelo ar. -

...

Luar do meu Algarve, imaculado e fino,

Luar fluido, de neve, opalas e jasmins,

Romântico luar, transparente e divino,

Que inundas de Quimera as áleas dos jardins.

...

Deslumbrantes manhãs intensas e dramáticas,

Diluvios de rubis e liquidas opalas!

P'lo ar imaculado o vosso oiro palpita,

Como um pólen de luz celeste e fecundante,

Que vem tornar a terra a santa mãe bendita,

Que, sob os astros, gera a vida, a cada instante.

Oh manhãs sobre o mar, vossa frescura trago-a

Dentro do coração e na curva do olhar!

...


JOÃO LÚCIO POUSÂO PEREIRA, in poesia a sul 1,Olhão, 2017