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5 de junho de 2025

101 poemas portugueses - #66


Quando aqueles que chegavam
olhavam os que partiam
os que partiam choravam
os que ficavam sorriam

Mário Cesariny (Lisboa, 1923-2006)
Manual de Prestidigitação (1956)

31 de outubro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (24)

 

Ó tocadora de arpa, se eu beijasse

Teu corpo sem beijar a tua poma

E beijando-o unisse pela soma

Aos quatro sexos meus e te enterrasse

 

Tão fundo o meu caralho que gravasse

Em soberba medalha de cristão

Ajoelhando amigos e irmão

Quando, processional, o entregasse

 

À forma que submete e que extasia,

À forma inteira, igual da luz do dia,

E tu por baixo, árdua, entre os varais.

 

Caverna em estalactites, minha sina.

Não poder eu descê-la, descer mais

Que vê-la e que perdê-la na retina!

 

MÁRIO CESARINY, O Virgem Negra, Fernando Pessoa explicado às criancinhas naturais & estrangeiras por M.C.V. Who Knows Enough About It (1988)

 


23 de janeiro de 2015

Em Todas as Ruas te Encontro, Mário Cesariny

Kai Ziehl
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo...
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco


 in "Pena Capital" 

10 de janeiro de 2012

POEMA, Mário Cesariny

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto    tão perto    tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco.

Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 46.

Lido na sessão de 6 de Janeiro

10 de outubro de 2011

Eros de Passagem, (org.) Eugénio de Andrade

A colectânea de poesia erótica contemporânea Eros de Passagem é a segunda edição revista da colectânea Variações de um corpo. Nessa primeira edição, de 1987, cada um dos poemas seleccionados dava corpo a um desenho do escultor José Rodrigues. Em 1997, Eugénio de Andrade, responsável pela selecção, decidiu alterar os critérios de selecção, deixando os poemas, por exemplo, de acompanhar ilustrações, e, deste modo, dar conta de alterações entretanto ocorridas na produção poética nacional, nomeadamente no modo como esta dá corpo o erotismo.
A obra reúne poemas de 58 autores, em que o erotismo que se apresenta como forma de expressão física do sentimento amoroso, registando o corpo e as suas pulsões.


Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco

Mário Cesariny