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16 de agosto de 2024

LIRA MAIOR (1)

 

RAPARIGA DAS TRANÇAS

 

Rapariga

bonita

bem sei o que esperas

e as esperanças

que pões

nos laços das tranças

 

Bem sei porque ris

sem se ver porquê

nem para quem nem para quê

Bem sei porque enfuna

a tua saia transparente

e porque se solta

a música e o mar

do balouçar

das tuas tranças

 

Andando danças

andando danças

andando danças

 

E pensar rapariga nas ciladas

que te estão há tanto tempo preparadas

na vida sem vida

que te hão-de querer

 

Não és tu quem faz contas

por trás da janela

nem tu que te julgas

um livro de cheques

(ainda não

ainda não)

 

Ah as saias pesadas para a terra

e os braços

sem vigor

Ah o rosto cortado de cansaços

Ah o enjoo dessa palavra amor

Ah o sono logo em cima do jantar

e a bicha do carvão a bicha do carvão

a bicha do carvão

 

Rapariga

bonita

de fita encarnada

hão-de algemar-te

os lábios

os seios

a música e o mar

de braços atados

 

Oh rapariga

de fita amarela

dá-te ao minuto

o sol é bom

salta a janela

que nunca mais este minuto voltará

 

Rapariga bonita

que andando danças

rapariga bonita

bonita bonita

de laços nas tranças

 

MÁRIO DIONÍSIO – As Solicitações e Emboscadas (1945)


28 de março de 2024

"FORMULAÇÕES POÉTICAS", apócrifo da série em curso neste blogue


«(…) toda a poesia consiste fundamentalmente no desgosto que o homem tem sempre pelo que ainda é e nos seus braços estendidos para o que quer ser; consiste fundamentalmente na tal reconstrução sobre si próprio, no seu desejo eterno de ser mais, que é como quem diz: melhor.»

– Dissertação de licenciatura de MÁRIO DIONÍSIO, “Introdução à leitura da ‘Ode Marítima’", apresentada em 1938 à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. 

O candidato foi reprovado no exame.  


7 de janeiro de 2024

XXVIII

 


Uma criança descalça

de imensos olhos tristes

vem pela rua molhada

com miúdos passos mudos


pela rua molhada

traz um fumo na manga

e nos braços vazios braçadas

de votos de paz



MÁRIO DIONÍSIO, O riso dissonante (1950)

28 de outubro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (21)

 

21.

 

como uma pedra no silêncio

como um chicote na moleza

o pensamento preciso sem cerimónia

dá um passo

 

o ponteiro do relógio com ferrugem

embota as hélices frementes

mas na cilada dos divãs crescente

o pastor de macaco pensa que

não basta cruzar os braços

 

não basta cruzar os braços

esperar a lua entre nuvens

enquanto a paisagem se derrama

não basta pensar um dia

 

roldanas prontas nos guindastes

rolam pesados cabos de aço

 

é preciso criar os dias

é preciso criar o sentido dos dias

 

MÁRIO DIONÍSIO, O Riso Dissonante (1950)


21 de setembro de 2021

FERREIRA DE CASTRO E ROBERTO NOBRE EM "PASSAGEIRO CLANDESTINO"

Do primeiro volume de Passageiro Clandestino, diário de Mário Dionísio este ano publicado com um volume de notas de Eduarda Dionísio, retiro o seguinte apontamento relacionado com a sua saída/expulsão do Partido Comunista:

«6.9.56
Manhã e parte da tarde em Sintra com M. L. e a E. Enquanto a Maria vai mostrar o Palácio à Eduarda, longa conversa no café com o F. de C. Percebo a insistência com que ele me dizia há tempos que aparecesse, para conversarmos. Queria saber directamente «do meu caso». É com natural satisfação que o ouço dizer-me a indignação com que repudiou certas apreciações e falsas narrações que alguns «amigos» meus lhe haviam feito a meu respeito. A velha campanha que já não me surpreende nem indigna. Velha, e ao que parece, já tristemente histórica... Nem o F. de C. nem o R. N. - que passou ontem à tarde cá em casa e que, de certo modo, a puxar a conversa - podem compreender nada disto até ao fundo e em toda a sua vastidão. Faltam-lhes pormenores, a experiência real de certas pessoas, que julgam conhecer pelo seu convívio acidental de café. Falta-lhes, além de tudo, um ângulo de visão que, abrangendo por dentro os meus objectivos e os, supostamente iguais, das pessoas de que falam, lhes permita ajuizar em pormenor. Mas há neles qualquer coisa que os não deixa enganarem-se. Sensibilidade? Vontade de justiça? Confiança no homem?»

16 de julho de 2020

EPHEMERIDES

16 DE JULHO DE 1916 (104 ANOS)

MÁRIO DIONÍSIO






"Da estação via-se a praia e o mar. A água vinha de longe, muito azul e muito lisa, e aproximava-se, cada vez menos azul e menos lisa, até espadanar em pequenos cachões que morriam na areia."

(de O Dia Cinzento e Outros Contos)

28 de outubro de 2014

6 de maio de 2014

um romance canónico

Barranco de Cegos (1961) conta o fim de um tempo, entre o Ultimato inglês (1890) e o pós-5 de Outubro de 1910, e revela-nos uma família de grandes lavradores ribatejanos, cujo chefe é uma personagem inesquecível: Diogo Relvas, homem excessivo, cruel e reaccionário, fiel a uma tradição agrária que vê na terra as virtudes ancestrais duma nação, e no desenvolvimento industrial a condenação da pátria, motivada pela cupidez e pela ambição de poder de uma elite cega -- cegos conduzindo cegos, uns e outros na iminência de caírem num barranco, de onde dificilmente se sairá. Relvas carrega consigo o peso dos antepassados, regendo-se por uma ética abstracta, inflexível quanto ao essencial -- a manutenção do poder: simbólico, através dos cerimoniais do mando, e de facto,  pela posse efectiva do agro; inflexível no essencial, moderadamente maleável quanto a questões mais prosaicas. As restantes personagens, em especial os filhos, órfãos de mãe, débeis, volúveis -- um deles esmagado pelo peso excessivo do progenitor --, as duas filhas, Milai e Maria do Pilar, fortes e marcadas, complexas no lidar com o patriarca, dão profundidade ao romance. Outras personagens secundárias, em especial as populares, são também fundamentais; mas esta é uma história de senhores, homens senhores doutros homens.
No prefácio que escreveu em 1964, Mário Dionísio, que não era de elogio fácil e se afastara já do PCP, na sequência do Relatório Krushchov, não hesita em classificar o livro como "um dos grandes romances de toda a nossa história literária".
Barranco de Cegos é, com efeito, literatura da boa, da que conta, da que interessa, da que constrói identidade, da que dá substrato à comunidade de que emana -- e também da que experimenta, da que burila, da que arrisca. Para além de todas as classificações que cada vez fazem menos sentido, a não ser numa abordagem historiográfica, trata-se de neo-realismo, e do melhor -- isto é: não evidenciando a vulgata que simplifica e sectariza, é suficientemente amplo para ser subscrito por todos quanto comungam de preocupações afins, sem que com isso o autor traia (e se traia) o escopo ideológico que lhe subjaz. O final do romance, magistral, traz-nos uma atmosfera que dir-se-ia paralela à do realismo mágico, que o recém-falecido Gabriel García Márquez consagraria anos mais tarde.
Redol é, sempre foi -- mesmo no inaugural Gaibéus (1939) -- um romancista de raça, um criador de mundos, de atmosferas, de personagens de carne e osso. Barranco de Cegos evidencia-o de tal forma que -- para desgosto de alguns cadáveres -- se inscreve duradouramente no nosso cânone literário.

Em tempo: informou-me António Redol que Mário Dionísio saiu do PCP em 1951, antes, portanto, da divulgação do célebre Relatório (algo que eu cria ter lido na Autobiografia do próprio Dionísio,  mas, pelos vistos fui atraiçoado pela minha memória -- o que, infelizmente, é frequente). Substituí também o adectivo "incipiente", relativo a Gaibéus, pelo neutro "inaugural", menos equívoco quanto ao meu ponto de vista.