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26 de março de 2024

101 poemas portugueses - #29


VIDA VITORIOSA


Foi uma vida vitoriosa, é certo,

A vida que vivi nesta jornada,

-- Não da vitória que se vê de perto,

E que se alcança, apenas desejada.

 

Não do triunfo que sorri, incerto,

E logo é fumo, e é pó, e é cinza, e é nada,

-- Mas doutra glória que ao meu peito aperto,

E só eu vejo, pura e recatada.

 

Porque em silêncio conquistei, lutando,

-- Quantas vezes perdido e miserando,

Quantas vezes vencendo a própria dor --

 

Esta alegria de passar na vida

Sendo uma força, que jamais duvida,

E uma voz clara, como a Voz do Amor!


João de Barros (Figueira da Foz, 1881 - Lisboa, 1960),

Vida Vitoriosa (1919)

11 de dezembro de 2023

15 formulações poéticas - #2. João de Barros

 «[...] «não há poeta, que o seja de nascença e de índole, que não proteste -- clara ou veladamente -- contra o presente, contra o imediato existente, quer se debruce sobre o passado, quer se volte para o futuro.»

24 de março de 2020

"100 CARTAS A FERREIRA DE CASTRO" - JOÃO DE BARROS


Carta interessante que dá para perceber o grau de amizade e confiança existente entre os correspondentes. Também de algum vínculo familiar, pois, segundo vi nas notas, João de Barros era padrinho da filha de Ferreira de Castro.
Do autor tive em tempos, e já não sei onde está, a sua adaptação em prosa da Odisseia de Homero. A partir daí, as minhas referências ficaram pela monumental História da Literatura Portuguesa, de António José Saraiva e Óscar Lopes, em cuja 6º Época, Capítulo XII se pode ler: «A imaginária helénica torna-se particularmente insistente em João de Barros (1881-1960), que, além das suas campanhas de pedagogia e de aproximação luso-brasileira, se distingue por uma afirmativa confiança no progresso, na razão, nas reservas de energia imanentes ao homem terreno e ao povo».
Assim, limito-me a dois apontamentos de ordem pessoal. Primeiro, o facto de partilhar com João de Barros o gosto pela praia de Santa Cruz, de onde é expedida a missiva de 15 de Agosto de 49 – de «MAR-LINDO, restaurante e salão de chá, alimentação esmerada, appartements e quartos com água quente e fria».  Há pouco tempo, numa das minhas passagens pela praia, fotografei o monumento que o homenageia:
«POETA DO QUE NÃO MORRE,
AVENTUREIRO DOS CIMOS,
NAVEGADOR ENTRE ABISMOS,
DESCANSA, REPOUSA EM PAZ…
TEU SULCO NÃO SE DESFAZ
NUM FRÁGIL FLUIR DE ESPUMAS…»
O segundo apontamento é sugerido pelo pintor Machado da Luz, citado na nota biográfica, que penso ser pai do meu companheiro de “armas” em Nampula (ele no Q.G. e eu no Serviço de Intendência) Manuel Machado da Luz, arquitecto e crítico de cinema, falecido precocemente em 1997. O Manel era um homem de uma cultura e bonomia extraordinárias. Belas noites de copos e conversas no bar Bagdad de Nampula… No regresso a Lisboa (1972), tínhamos combinado um jantar no Gambrinus com mais dois elementos do grupo, e foi a única vez que entrei no emblemático local. Já depois de 1974, encontrei-o várias vezes num restaurante da Rua Rodrigo da Fonseca, pois trabalhava como arquitecto no Gabinete da Área de Sines que ficava ali mesmo ao pé. Por fim fomos ficando distanciados, cada um pelo seu caminho, e nem sequer soube da sua morte.
Desculpem-me estes apontamentos pessoais que se esgueiram um bocado da matéria do livro, mas julgo que numa sessão de leitores, mesmo virtual, também há lugar para eles.

11 de julho de 2014

A PRIMEIRA BISNETA, João de Barros

 
 
Para o futuro neto da Teresa e do
Marcelo. Na noite de Natal de 1956.

Tal o menino Jesus
os meninos nascem nus...
Mas Aquele não tem frio,
vem lá do céu direitinho,
e no céu tudo é quentinho.
Os outros, quanto arrepio
no seu corpinho macio!
Então a Avó, com afã,
para evitar-lhe percalços,
por causa dos pés descalços,
corre a buscar sapatinhos
de boa lã
(boa lã da Covilhã)
que os pèzinhos aconchega...
Nenhum inverno lhes chega!
-- Oferta de puro amor
que é sempre o melhor calor.



João de Barros, Eterno Mar -- Último Versos, edição da família do Autor, 1967
(lido na sessão de 9.VII.2014)