2 de abril de 2013

BIOGRAFIA DO SÉCULO XX

“Os socialistas, que haviam lançado a greve de Badajoz, tornaram-se pele de bombo constantemente surrada. Não escaparam sequer os que tinham assento nas Cortes, nem mesmo a mais bela de todas as deputadas, porque tempos antes palmilhara as pobres terras estremenhas, a pregar essas modestas reformas que constituíam o breviário do seu partido. Ansiosas de a castigarem, damas aristocráticas e da alta burguesia, formando copioso grupo, dirigiram-se ao Parlamento. E ao seu presidente solicitaram que a formosa palradora fosse despida das imunidades que usufruía e levada imediatamente à fronteira, pois embora nada e criada em Espanha, trazia glóbulos rubros germânicos no sangue provadamente venenoso.”
(FERREIRA DE CASTRO, O Intervalo, cap. VI.)
Margarita Nelken  (Madrid, 1896 - México, 1968), feminista e deputada socialista das Cortes Constituintes republicanas a quem Ferreira de Castro, provavelmente, se refere.

1 de abril de 2013

O SONHO SEM DESTINO, Natércia Freire

Se os caminhos são breves
e os dias tão compridos,
e as tuas mãos mais leves
que a espuma dos vestidos;

se é de ti que me ondeia
uma brisa subtil...
E a vaga diz: -- Sereia!
E o sonho diz: -- Abril!

Se cresces e dominas
os campos que acalento,
e inundas as colinas
de fontes que eu invento;

se tens na luz dos olhos
o misterioso apelo
das cidades de fogo,
das cidades de gelo;

se podes bem guardar
na tua mão fechada
o meu altivo Tudo
e o meu imenso Nada;

se cabe nos meus braços
a bruma que tu és,
e em algas e sargaços
te abraço nas marés;

se, puro, na presença
da nossa grande Casa,
pões na voz de horizonte
um lume de asa e brasa.

Não sei porque te sonho
na sombra matinal,
e ao meu lado te vejo,
real e irreal.

Sabeis -- adaga fria,
que ao meu peito cintilas --
onde se oculta o dia
das aragens tranquilas?

Se tudo sabes, mata
com dedos de oiro fino,
ou com gume de prata,
o sonho sem destino!

in Ana Hatherly, Caminhos da Moderna Poesia Portuguesa, Lisboa, Direcção-Geral do Ensino Primário, 1960, pp. 73-74.
(lido na sessão de 1 de Março)

31 de março de 2013

BIOGRAFIA DO SÉCULO XX - A Espanha rebelde

E há quem fale de "leveza", a propósito de FC:
"De novo custodiados, voltámos a marchar. Na esquina do «ayuntamento», na do edifício dos telefones, em todas as outras negrejavam metralhadoras. E aqui e acolá, nas paredes, alguém que nelas se fora amparando deixara os contornos das suas mãos impressos a sangue, como assinaturas num processo ainda não concluído".  (O Intervalo, cap. V)

29 de março de 2013

e assim começa A VELOCIDADE DA LUZ

Agora levo uma vida falsa, uma vida apócrifa, clandestina e invisível embora mais verdadeira do que se fosse real, mas eu era ainda eu quando conhecia Rodney Falk.

Javier Cercas, A Velocidade da Luz, trad. Helena Pitta, Porto, Edições Asa, 2006.

24 de março de 2013

NO CENTRO DA TEMPESTADE

Ferreira de Castro, desenho de Roberto Nobre, 1925 (do "Guia da Exposição" do Museu Ferreira de Castro)
 
Um romance "diferente" do escritor de Ossela em discussão na COMUNIDADE DE LEITORES DE S. DOMINGOS DE RANA --- quinta-feira, 28 de Março, 21 horas.

 
Descêra, apressadamente, as escadas. «Era verdade, ela saía todas as segundas, quartas e sextas-feiras… Dizia que ia visitar a mãe… Em algumas semanas, até saía mais vezes, com o pretexto de fazer compras ou de ver as amigas… Muitas tardes, quando êle voltava do Banco, ainda ela não havia regressado a casa. «Fui ao Centro, comprar o bacalhau alto de que tu gostas» – dizia-lhe. E êle, tão tolo, a acreditar naquilo! (…)» [FERREIRA DE CASTRO, A Tempestade, Lisboa, Guimarães Editores, 1940, p. 129].
 


22 de março de 2013

DE UM NOVO CONTINENTE, António Quadros

As árvores são sombras das raízes
E os homens são sombras de outras raízes
Mais fundas. Assim, dentro de mim,
Uma sombra cobre todas as luzes e todos os sons
Velando a minha alegria intacta e longínqua
E prometendo o paraíso perdido mas não esquecido.
Imagino o meu céu nos meus limites
E o céu dos outros ainda nos meus limites.
As minhas mãos atravessam o universo misterioso
E tocam as ignotas fontes da poesia e da vida.
O meu olhar, porém, fica comigo e chora
Esse amor de lágrimas e tristezas
Onde, como solitária ilha de coral,
A minha existência espera o nascimento de um novo continente.
Caminhos da Moderna Poesia Portuguesa, edição de Ana Hatherly, Lisboa, Direcção-Geral do Ensino Primário, 1960, p. 72.

(lido na sessão de 1 de Março de 2013)

21 de março de 2013

16 de março de 2013

como um espelho

Há muita gente que bota logo maldade, e as mulheres, coitadas, são como um espelho: qualquer bafo parece que as suja...

Trindade Coelho, «Manuel Maçores», Os Meus Amores (1891), Mem Martins, Publicações Europa-América, 3.ª ed., s.d., p. 204.

8 de março de 2013

5 de março de 2013

Edição Incendiária

www.austincreativedepartment.com/

ORLANDO, dois ou três tweets

* Com livros assim, com tanta ponta por onde se pegar, e sem tempo nem engenho para o fazer, cinjo-me a dois ou três tweets a propósito de Orlando -- Uma Biografia, de Virginia Woolf, que debatemos na última sessão do Clube de Leitura do Museu Ferreira de Castro.
* O modernismo da obra, rejeitando as evidências realistas (o romance vitoriano é ironicamente caracterizado);
* Um humor refinadamente impiedoso, um wit muito Grupo de Bloomsbury (ou do imaginário que dele persiste);
* As implicações psicanalíticas do dualismo sexual da personagem central, o Orlando / a Orlando -- cuja dualidade, aliás, parece cingir-se apenas aos órgãos reprodutores;
* A rarefacção do tempo da narrativa, um longo período que vai da época isabelina ao próprio dia em que o livro saiu do prelo, 11 de Outubro de 1928.
* O génio literário de Virginia Woolf, em que a vida ("o que é a Vida?", pergunta-se em várias ocasiões) é literatura; a escrita como apaziguamento de pulsões interiores e conhecimento de si; o estilo precioso, filigranado, rigorosamente medido: «Devemos moldar as nossas palavras até que sejam o mais fino invólucro dos nossos pensamentos.» (p. 123).
* Génio literário que a tradução de Ana Luísa Faria me parece servir exemplarmente, a ponto de ficarmos com a vontade de ir a correr buscar o texto original.

25 de fevereiro de 2013

Amin Maalouf, 64

Amin Maalouf nasceu em Beirute, a 25 de Fevereiro de 1949.

24 de fevereiro de 2013

uma epígrafe de Joaquim de Carvalho

As nações com a responsabilidade histórica da gente portuguesa, não podem imobilizar-se estaticamente, nem devem iludir-se infantilmente; têm que desentranhar sucessivamente da massa das suas tradições e aspirações um ideal coerente com a conjuntura histórica, que exprima e defina o seu estar mudável em concordância com o seu ser permanente. (Compleição do Patriotismo Português, 1953).

in Eduardo Lourenço, O Labirinto da Saudade -- Psicanálise Mítica do Destino Português (1978), Lisboa, Círculo de leitores, 1988.

18 de fevereiro de 2013

torna-se o amador na cousa amada...

     Tu estás a matar-me, peixe, pensou o velho. Mas tens todo o direito. Nunca vi uma coisa maior, ou mais bela, ou mais serena, ou mais nobre do que tu, meu irmão. Vem e mata-me. Não quero saber qual de nós mata.

Ernest Hemingway, O Velho e o Mar, trad. Jorge de Sena, Lisboa, Livros do Brasil, s.d., p. 102.

11 de fevereiro de 2013

a grande literatura de Dinis Machado

Grande literatura é isto:  domínio da palavra a benefício da narrativa, espessa, sumarenta, cheia de coisas a dizer e de indícios doutras que ficam por enunciar. Estórias e estorietas, há muito quem conte, alguns até reputados de bons escritores; mas O que Diz Molero (1977) é a história, narrada de forma múltipla, dum escritor de obra escassa, sete títulos, três dos quais sob o pseudónimo Dennis McShade.
Li-o por volta de 1983, e voltei agora a ele, no Clube de Leitura do Museu Ferreira de Castro. Por esse então, final da adolescência, apesar de muitas referências me escaparem -- que não as da BD (Dinis Machado terá sido o único escritor português a ter aposto numa obra literária os nomes de Zig e Puce...) ou as dos Westerns de John Ford; é um livro cheio de cinema (até na prosa) e quadradinhos --, havia também uma memória que me era familiar: o imaginário lisboeta das décadas de 1930-1940, que me foi transmitido pelo meu pai, da mesma geração do autor: as figuras populares, suas alcunhas e seus maneirismos; a Guerra Civil de Espanha e a II Guerra Mundial, o modo como eram ansiosamente seguidas e as próprias implicações sociais e políticas desses dois cataclismos entre nós; o cinema de Hollywood e os filmes em 31 partes do Flash Gordon; os comics americanos, Dick Tracy e Mandrake, os combates de boxe... Referências pulp e eruditas, de Camilo Pessanha a Jorge Luis Borges, fluindo naturalmente, porque reflexo da vida e da vivência.  Não sei se algum vez um livro me deu tanto prazer a reler.
A verdade é que em que O que Diz Molero a prosa é rigorosamente vigiada e calibrada, tão fundamental quanto o inventário da infância se presta  a todas as derrapagens do sentimentalismo : não há lamechice, mas ternura, um humor terno e nunca boçal.
Nota aos jovens leitores: tem até vampiros... -- não daqueles de ecrã, que ocupam os escaparates dos híperes, mas o tenebroso "Vampiro Humano", tenebroso para o rapaz (o protagonista do romance, ou um dos protagonostas) e para os seus amigos de correrias e partida pelo Bairro.

7 de fevereiro de 2013

"A MORTE DO REI DE ESPANHA", de Carlos Daniel

Tínhamos falado – eu e o Carlos Daniel – em se fazer uma crítica ao seu livro nas páginas do blogue. Acertámos que após essa crítica o autor faria um comentário.
O resultado é o que aqui fica.  

INSCIÊNCIA E AMBIGUIDADE NO NARRADOR DE A MORTE DO REI DE ESPANHA
 
Depois de Foste tu que me escreveste de Sintra? (2005), Carlos Daniel publicou em Julho do ano passado um segundo romance com o título A Morte do Rei de Espanha. Vamos tentar uma leitura deste seu trabalho a partir da compreensão da figura do narrador, instância do romance  que intervém em três peças fundamentais do seu paratexto: a que é designada por “Narrador – apresentação” (p. 7), a transcrição da decisão do 3º Juízo da Vara Criminal de Cádis (pp. 381-387) e o posfácio (pp. 388-390).
O narrador, que não deve ser confundido com o autor empírico, é a instância em que recai a lógica da construção romanesca.  Normalmente, o leitor pode desconfiar de tudo, menos de que a história por ele contada possa não ser a história “verdadeira”. Omnisciente ou nem tanto, o narrador  é, normalmente, uma personagem de rectas intenções, confiável tanto quanto pode ser, o que não significa que não trate com simpatia diferenciada cada uma das personagens que coloca em cena. Zé Fernandes, narrador intradiegético de A Cidade e as Serras, deverá ter-nos contado a história tal como ela “aconteceu”, embora se perceba o favorecimento da sua pessoa e se saiba da admiração que nutre por Jacinto, protagonista do romance, por ele referido como “o meu Príncipe”.  O narrador de Madame Bovary parece equidistante de Charles  e  Emma, salientando a mediocridade do primeiro e a conduta imoral da segunda, mas sente-se que é impiedoso no tratamento que dispensa aos amantes da heroína e a alguns comparsas  como, por exemplo, o farmacêutico Homais.
Se o leitor aceita com naturalidade a bondade do narrador (a inversa seria razão suficiente para nem sequer pegar no livro) é porque acredita que ele é a chave de entrada nos mistérios da história que deseja conhecer.
Como diz Roland Barthes, o narrador é um “ser de papel”, uma invenção do autor, mas um ser que sabe coisas que as outras personagens não sabem e que, em princípio, está interessado em contá-las. Assim, parece invulgar que o narrador de A Morte do Rei de Espanha se disponha a perturbar a confiança do leitor através de uma declaração prévia sobre a verdade do seu relato. Leia-se o que nos diz: “Não me quero desculpar por, de vez em quando, ter revelado alguma parcialidade e um pouco de precipitação na descrição dos acontecimentos”. Para  acrescentar no parágrafo seguinte: “Mas posso garantir-vos que relatei as verdades essenciais ou, pelo menos, a interpretação que fiz delas” (p.7). Não sendo uma narrativa referencial, o romance não pode ser submetido a uma prova de verdade, pelo que aquilo que o narrador conta – e só ele sabe o que deve contar – é lei. O romance é ficção (veja-se a epígrafe retirada de Histórias Falsas de Gonçalo M. Tavares) e as tentativas de o apresentar como “história verdadeira” são próprias de períodos histórico-literários em que o género ainda não tinha conquistado a dignidade que o Romantismo e o Realismo viriam a conceder-lhe. No actual estádio dos gostos literários, os leitores amam a ficção, sendo esta entendida como condição básica da literariedade duma obra.
A disposição do narrador de A Morte do Rei de Espanha tem, porém, uma lógica interna. Carlos Daniel move as suas personagens num quadro de ambiguidade  de que participa a instância narrativa. Porque, afinal, este consciencioso narrador que diz relatar as “verdades essenciais” conta uma história que se verifica não conhecer por completo. Vejamos então que história é essa.
Pedro Olivares, cabeça de um grupo económico andaluz, é acusado de um triplo homicídio e acaba por ser condenado em juízo. Seu filho, Juan Muriel, na altura ainda criança, não acredita que o pai seja o autor desses crimes e por tal razão toma a decisão de matar o rei de Espanha, primeira figura do estado que ele vê como primeiro responsável da injustiça cometida. Note-se que esta ideia, aparentemente bizarra, é verosímil. Pela exposição obsessiva da sua imagem – nos ministérios, gabinetes da polícia e salas de tribunal –, um chefe de estado como o rei de Espanha pode muito bem ser visto pelo cidadão comum (e também por uma criança) como a figura tutelar de todos os erros e injustiças cometidos pela administração pública. São os inconvenientes da personalização do poder, do uso e abuso da imagem do rei como símbolo desse mesmo poder.
Entrado na idade adulta, Juan Muriel vai urdindo sucessivos planos para liquidar o monarca. Só que o filho do poderoso Pedro Olivares, entretanto licenciado em Direito e preparado para assumir o controle dos negócios da família, reencontra Sara Marques, a sua namorada da adolescência, e algo de novo começa e nascer em si. Juan Muriel terá percebido, talvez ao princípio de forma não muito consciente, que a vida dum rei ou o poder dum grupo económico poderão valer um ou mais crimes, mas não valerão certamente a emoção dum grande amor. Ou, se quisermos seguir outra pista, que o afecto pode e deve dirigir-se a uma pessoa digna de o receber, não se deixando ficar pelo melancólico despir e vestir do “manequim lindíssimo”, mas imóvel, com que ornamenta a sala de sua casa (capítulo 10, p. 185).
No final do romance, Juan Muriel tem o rei sob a mira da sua arma, poderia ter consumado o atentado, mas não o faz. Sara Marques, curiosamente agente de informação dos serviços secretos espanhóis, está do outro lado da rua por onde o rei passa numa visita oficial em Lisboa. Nem ela o impediu, nem ele avançou para o atentado. A vingança não se consuma, talvez por não ser compatível com o amor.
Voltando ao narrador, note-se que a narrativa encerra, conforme data que consta do livro, em 17 de Novembro de 2003, enquanto a decisão judicial que iliba Pedro Olivares do crime de triplo homicídio (repetição do julgamento face a novas provas surgidas, a segunda peça a que nos referimos) é de 26 de Abril de 2007. Vem a saber-se por essa peça que foi a sua mulher, Maria Mercedes Olivares, a mandante dos crimes depois atribuídos ao marido. Pedro Olivares seria amante de uma das vítimas, Isabella Perrugini, pelo que a matança, perpetrada com a ajuda de apaniguados, teria, além de outros motivos, razões passionais. 
Não sendo omnisciente  como poderia o narrador  intradiegético de A Morte do Rei de Espanha antecipar tão decisiva reviravolta judicial? Note-se que, embora inominado, ele é, com toda a probabilidade, um dos dois amigos do protagonista referidos no romance pelos nomes de Tiago e Clemente. Com a narrativa fechada, o recurso do narrador é anexar-lhe a cópia da nova decisão do tribunal e lançar-se num posfácio em que pretende justificar o desconhecimento dos factos. Referindo-se à mistificação organizada pela mulher de Pedro Olivares, diz: “Durante muito tempo todos fomos enganados pela sua actuação maquiavélica e uma boa parte das especulações que se seguiram, e às quais eu dei voz, revelaram-se infundadas”(p. 388). Mas não se fica por aqui o seu mea culpa. Ele mesmo declara ter participado numa mistificação: o encobrimento do verdadeiro estado mental de Pedro Olivares depois do atentado de que foi vítima na prisão. Assim se confessa: “ Não é verdade que Pedro Olivares tenha ficado diminuído, física ou mentalmente, após o atentado na prisão. A estratégia desenhada por ele, que o dava inutilizado para qualquer acto de gestão, tinha como único objectivo garantir a sua segurança. (…) Dada a proximidade deste relato com os factos ocorridos, e estando prevista a publicação deste livro muito antes de Pedro Olivares ter cumprido a sua pena, não hesitei em participar nesta mistificação, por me parecer uma boa garantia para a sua sobrevivência” (pp. 388-389).
Enfim, um narrador pouco confiável, metido num papel que o aproxima das restantes personagens do romance. Errou e mistificou, tendo assumido os seus desvios, da mesma forma que Juan Muriel parece ter admitido o erro da sua vingança e a Justiça de Cádis reconheceu e remediou a falha da instrução criminal do processo.
E isto leva-nos a considerar que, em rigor, as três peças paratextuais (assim lhes chamámos) em que o narrador intervém (duas por declaração própria e a outra por simples transcrição da decisão judicial), não funcionarão como paratexto, mas como parte integrante do texto romanesco. O autor manipula o narrador de forma a que se dê ao leitor o suspense duma história que, no final, por uma peça jurídica e algumas declarações, se revela razoavelmente diferente daquilo que o texto principal deixa entrever.
Não situaríamos este expediente narrativo nos domínios da originalidade, pois cremos que na arte do romance já tudo foi feito ou experimentado e nada surgirá que seja verdadeiramente novo. Mas lá que é curioso, é. E inusitado: um narrador insciente e ambíguo mas que, pelo menos, tem a humildade de reconhecer as suas limitações e tentar emendar os erros que cometeu. Este é um aspecto interessante do romance de Carlos Daniel, um texto articulado com outros textos a que não falta imaginação e arte de contar.
Manuel Nunes

Passado um ano sobre a conclusão deste livro a crítica do Manuel Nunes despertou-me para ele.
Vem de novo a propósito esta ideia recorrente, que muitas vezes me assalta, de que somos feitos de duas metades: aquela que nós percepcionamos e a outra, talvez mais importante, que reside naquilo que os outros vêem em nós.
Falta ainda uma "terceira metade", que refiro no livro, e que é o valor intangível das coisas.
Quando alguém mete uma mão tão competente naquilo que escrevemos (que somos?), ficamos libertos de explicações, ganhamos liberdade. Mas ao mesmo tempo sentimo-nos obrigados a olharmo-nos com mais profundidade.
Penso que o meu narrador, inconstante e imperfeito, sou eu.
Nunca quero sobrevalorizar importância de escrever um livro como se isso fosse uma grande coisa, uma tarefa maior e mais nobre do que as vidas que nos rodeiam e que contêm uma grandeza e uma miséria que nunca conseguiremos reproduzir. E se nos conseguirmos aproximarmos delas isso corresponderá sempre a um mérito e a um talento relativos, cuja verdadeira "propriedade" pertence aos donos dessas vidas, aquilo que eles "são", aquilo que fizeram de nós.
Apropriamo-nos despudoradamente de outras vidas, de outras histórias e fazemos delas uma coisa nossa:
... "e já será um privilégio se alguém se reconhecer nelas e disser "é isso que eu sou" , ainda que se não reconheça naquilo que acabou de ler"...
Como diz o Manuel já tudo foi testado e inventado. É por isso que privilegio o plano das emoções e das convicções nunca o da verdade, e da segurança que é sempre uma presunção.
Essa é a história do meu "honesto" narrador.

1- Este livro tem três pontas: o enfrentar das paixões, a procura do carácter e a prepotência(?) do acaso.
Sobre as paixões é preciso não fugir delas com o pretexto de "não sofrer". É bom usá-las, gastá-las, vivê-las para podermos sair delas mais estóicos e mais felizes. Elas não são a razão de viver mas são uma boa razão para viver. "Amar é preciso, viver não é preciso". Perseguirei sempre as paixões nos meus livros.

2- O carácter é outra ponta. Ele não corresponde a coisas formais e tangíveis como a verdade e a honestidade. É antes um acerto com os condicionalismos da nossa existência, com a definição da nossa posição no mundo, com a busca de um equilíbrio que sejamos capazes de afirmar e defender.
Contém a permeabilidade à aprendizagem, à busca de sabedoria, à consonância com o instinto, ao assumir do erro, ao confronto com as nossas forças e fraquezas.
Pedro Olivares procurava esse carácter.

3- A nossa vida constrói-se nas entrelinhas do acaso.
O nosso intelecto é uma brincadeira de crianças.
As imagens que acumulamos arrastam-nos para a ideia de alma.
Estamos no dia 1 da humanidade e temos à nossa frente um puzzle para adultos. E já descobrimos que lhe faltam peças.
Trocar um Deus ausente por um acaso omnipresente, trágico e divertido, pode ser bom negócio.

Carlos Daniel



31 de janeiro de 2013

OS SAPATOS DE HERMES

Sandro Boticcelli, Alegoria da Primavera,1482, Galeria Uffizi, Florença
 
Hoje, lendo o relatório de Molero, comentado por Austin perante o espanto de Mister DeLuxe (ainda não tinha intervindo no processo o lápis regulador de John Computer do Departamento de Correcções e Acertos), lembrei-me dos sapatos voadores de Hermes, exemplarmente retratados na Alegoria da Primavera de Sandro Botticelli. Sapatos incomparáveis que o Maior Vendedor de Sapatos do Mundo, referido por Molero, não ousou citar.  Falou dos sapatos que andaram “nos pés de Proust à procura do tempo perdido”, dos que afagaram os pés de Gene Kelly em plena execução da Serenata à Chuva, dos sapatos calçados pelas bailarinas do Bolshoi, pelos evadidos das penitenciárias, pelos que costumam andar nas nuvens com as suas solas aéreas e os seus "atacadores de bruma". Dos sapatos de Hermes, nada. Não há vendedores perfeitos!


27 de janeiro de 2013

é um ponto de vista

A gente só tem uma vida, e portanto só tem uma história. Quando se precisa de contá-la é porque ela tem um erro em qualquer parte. Se estivesse certa, a gente só a vivia, e nem dela falava. Quando a gente a conta, é porque está errada. Quanto mais errada, mais falamos dela. O que é absurdo, claro, porque não se pode emendá-la.

Teolinda Gersão, «Uma orelha«, Histórias de Ver e Andar, 3.ª ed., Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2002, pp. 88-89.

12 de janeiro de 2013

ciência demasiado humana

A história é feita de argumento e contra-argumento. Ou impomos as nossas ideias ou alguém no-las impõe.

Philip Roth, O Animal Moribundo, 2.ª ed.,trad. Fernanda Pinto Rodrigues, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2006, p.96.

7 de janeiro de 2013

Dois ou três lugares-comuns a pretexto duma obra maior

     Gostaria de escrever aprofundadamente sobre este livro de Primo Levi, mas não me é possível. Não posso, por outro lado, deixar de me referir a uma das melhores obras que vieram a debate no Clube de Leitura do Museu Ferreira de Castro.
     Assim, com toda a disposição mas pouco tempo, direi a primeira banalidade: a ficção realista é sempre ultrapassada pela realidade, trate-se de um ambiente concentracionário na floresta amazónica (A Selva, de Ferreira de Castro), uma migração colectiva na América da Grande Depressão (As Vinhas da Ira, de John Steinbeck) ou uma exploração mineira em França (Germinal, de Émile Zola).
Se Isto É um Homem, de 1947, é um relato verídico de um sobrevivente, escrito ao longo de mais de um ano, tão intensamente vivo como profundamente meditado. E, por isso, o horror pôde ser descrito com objectividade, a benefício da narrativa, que não se deixa seduzir pela magnitude do tema (a vivência do próprio autor no infame campo de Auschwitz, até à libertação pelas tropas soviéticas, em Janeiro de 1944), conduzindo a narrativa porventura com uma grandiloquência que só a prejudicaria. Como Levi é um grande escritor, serve o texto com absoluta mestria, num estilo contido e recurso frequente a frases curtas, remates de períodos que nos deixam k.o.
Se Isto É um Homem: a condição simultaneamente trágica e patética do bicho-homem que conhecemos de nós próprios, mas que aqui outrém -- o autor -- revela. E, embora revelando-se, apenas o faz parcialmente, pois o autor/narrador fala de um eu que só em determinados e ocasionais momentos o é, porque do que se trata é a confirmação à outrance, e pelos meios conhecidos, do desiderato dos alemães nesta perseguição insana: a de retirar os judeus da humanidade -- não apenas exterminando-os, mas, naqueles que não eram desde logo executados, esvaziando-os dessa mesma humanidade, como que para comprovar teorias rácicas tão dementes quanto extraordinariamente estúpidas (um racista biológico, quando não for um doido varrido, será sempre um cretino, ignorante e por vezes perigoso).
    

à margem, mas a propósito

Outro lugar-comum, que por o ser não é menos verdadeiro, é o da natureza excepcionalmente maligna do feixe de ideias imbecil e mal cozinhado que foi o nacional socialismo, pior do que o estalinismo, na medida em que este, entre outras coisas, pintava o despotismo com as cores do humanismo (como embuste, talvez nada lhe leve a palma); o nazismo, pelo contrário, não ocultou a sua natureza degeneradamente maligna: a da suposta e absurda existência de uma raça superior, doutras inferiores, e até de uma categoria que estava -- nas cabeças deformadas dos --, abaixo da humanidade e que havia que exterminar, não sem  antes ser sugada, metodicamente, pelo trabalho até à exaustão, com rigor e cultura germânicos.
    

5 de janeiro de 2013

SE ISTO É UM HOMEM, Primo Levi

Vós que viveis tranquilos
Nas vossas casas aquecidas
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos:
   Considerai se isto é um homem
   Quem trabalha na lama
   Quem não conhece paz
   Quem luta por meio pão
   Quem morre por um sim ou por um não.
   Considerai se isto é uma mulher,
   Sem cabelos e sem nome
   Sem mais força para recordar
   Vazios os olhos e frio o regaço
   Como uma rã no Inverno.
Meditai que isto aconteceu:
Recomendo-vos estas palavras.
Esculpi-as no vosso coração
Estando em casa andando pela rua,
Ao deitar-vos e ao levantar-vos;
Repeti-as aos vossos filhos.
   Ou então que desmorone a vossa casa,
   Que a doença vos entreve,
   Que os vossos filhos vos virem a cara.

Poema de Primo Levi em epígrafe no seu livro homónimo. Tradução de Simonetta Cabrita Neto.
Lido na sessão de 4 de Janeiro de 2013.

4 de janeiro de 2013

um poema de Ruy Cinatti

Quem pode impedir a Primavera
Se as árvores se vão cobrir de flores
E o homem se sentiu sorrir à Vida?

Quem pode impedir a surda guerra
Que vai nos campos deslocando as pedras
-- Mudas comparsas no ritmo das estações --
E da terra inerte ergueu milhares de lanças

Que a tremer avançam, cintilantes, para o limite
Em que a luz aquosa se derrama
Como um ar infinito onde o arado
Abre caminhos misteriosos à seiva inquieta?

Quem pode impedir a Primavera
Se estamos em Maio e uma ternura
Nos faz abrir a porta aos viandantes
E o amor se abriga em cada um dos nossos gestos?

Quem?...
Se os sonhos maus do Inverno dão lugar à Primavera?

Caminhos da Moderna Poesia Portuguesa, edição de Ana Hatherly, Lisboa, Direcção-Geral do Ensino Primário, 1960, p. 70-71.

lido na sessão de 7 de Dezembro

29 de dezembro de 2012

coisas que esquecemos

D. João foi um dos poucos monarcas europeus que reinou sem interrupção ao longo da era napoleónica -- "o único que me pregou a partida", nas palavras do próprio Napoleão, escritas no exílio em Santa Helena.

Patrick Wilcken, Império à Deriva, trad. António Costa, 9.ª ed. Porto, Civilização Editora, 2007, p. 288.

23 de dezembro de 2012

o inesquecível Búzio

«O Búzio chegava de dia, rodeado de luz e de vento e, dois passos à sua frente, vinha o seu cão, que era velho, esbranquiçado e sujo, com o pêlo grosso, encaracolado e comprido e o focinho preto.» 

Sophia de Mello Breyner Andresen, «Homero», Contos Exemplares, 3.ª edição, Porto, Portugália Editora, 1970, p. 143.

(imagem)

19 de dezembro de 2012

ALEXANDRE O'NEILL, 88

Alexandre O'Neill nasceu em Lisboa, a 19 de Dezembro de 1924.

A MEIO DO CAMINHO, Alberto de Lacerda

Fico entre o céu e a terra,
Choro só para dentro.
Sou como a árvore nua
que ao alto os ramos indica:
ergue as asas, mas não voa,
tem raízes, mas não desce.

Caminhos da Moderna Poesia Portuguesa, edição de Ana Hatherly, Lisboa, Direcção-Geral do Ensino Primário, 1960, p. 49.

lido na sessão de 7 de Dezembro

12 de dezembro de 2012

ainda só...

Ainda só vou na página 13, e já é um dos livros da minha vida.

8 de dezembro de 2012

JANTAR DE NATAL

Depois de um Saramago polémico, e já com o pensamento nas leituras de 2013, o ágape apaziguador. As imagens possíveis:




7 de dezembro de 2012

PAINEL, José Régio

Era uma noite de luar medonho
(Lembro-me disto como dum sonho)
Alevantou-se um Homem a meu lado,
Todo nu, e desfigurado.

Mal me atrevendo a olhá-lo, eu quase só adivinhava
Seu corpo devastado que sangrava...
E uma lembrança, longe, longe, longe, havia em mim
De já o ter amado, ou outro assim.

Seu rosto, que, decerto, era sereno e puro,
Resplandecia, como um mármore, no escuro;
E as suas lágrimas, rolando devagar,
Deixavam rastros que faziam luar...

Eu prosseguia, todo trémulo e confuso,
Cheio de amor e de terror por esse intruso.
À minha mão direita, ele avançava aèreamente,
Com seu ar espectral e transcendente...

Os seus pés nem pousavam no caminho;
E então, eu destaei a soluçar baixinho,
Porque notara que em seu rosto exangue
As suas lágrimas corriam misturadas com seu sangue.

Oh, onde a vira eu, essa figura peregrina
Feita de terra humana e de ascensão divina?
Sim, onde a vira eu, que, só de o perguntar,
Me arrepiava, com vertigens de ajoelhar?

Mas, de repente, como um sobressalto,
E como a angústia de quem rola muito de alto,
Alguma coisa em mim passou, que pressentia,
E que se arrepelava, e que tremia...

E que em meu ombro esquerdo alguém se debruçava,
Alguém que ria um riso que espantava,
Um riso tenebroso, e cheio de atracção,
Com fogo dentro como a boca dum vulcão!

E, sem o ver, eu vi-o, todo inteiro,
Essoutro novo e inseparável companheiro:
Um que também conheço, nem sei donde nem de quando,
Por mais que me torture procurando...

E tinha pés de cabra, e tinha chifres, tinha pelos,
E tinha olhos sulfúricos, esfíngicos e belos...
A baba do seu riso escorregava-lhe da boca,
E em todo ele ardia uma lascívia louca!

À minha mão direita, absorto, aéreo, hirto,
Coroado de abrolhos e de mirto,
O Outro continuava a chorar lágrimas caladas,
Com as mãos lassas como rosas desfloradas...

Entre os dois, eu sentia-me pequeno e miserando,
Vibrando todo, tumultuando e soluçando,
Com olhos meigos, lábios torpes -- indeciso
Entre um inferno e um paraíso!

Um riso doido e cínico, sem regra,
Subia em mim como uma onda negra,
E, estrelados de lágrimas, meus olhos inocentes
Ajoelhavam como penitentes...

Entratanto, os dois vultos desmedidos
Ias crescendo entre os meus risos e gemidos,
Crescendo sempre, sempre e tanto, que, depois,
Eu ficava esmagado entre eles dois.

A noite em que isto foi, não sei... sei lá?... (Seria
Essa em que minha mãe, com tanta angústia, me paria...)
Sei que o luar era medonho, era amarelo,
E que tudo isto parece um pesadelo!

Caminhos da Moderna Poesia Portuguesa, edição de Ana Hatherly, Lisboa, Direcção-Geral do Ensino Primário, 1960, pp. 42-46.

(lido na sessão de 2 de Novembro de 2012)