1 de julho de 2021

ENCHARCAR-SE DE ORVALHO...

 "O primeiro alvor da madrugada na janela do escritório, um começo de luz apenas, ainda por fixar no contorno do mundo. Como a mulher se tivesse recusado a deixá-lo entrar no quarto, passara ali a noite, encolhido no meiple de couro, com a samarra pelas pernas. Não conseguira adormecer, mas alcançara do excesso das palavras e do álcool um pouco de repouso. No entanto, doía-lhe a cabeça. A boca seca, amarga. Levantar-se e abrir a janela. Uma golada de água, a pureza fria da madrugada. A cinza da luz amontoava-se nas vidraças, mas não era possível prever se o dia chegaria ou não. Quando começava a clarear um pouco mais, a lufada de sombra varria a cinza da janela. Um desejo irreprimível de cheirar os campos molhados. Beber água, passar os dedos na casca rugosa dum pinheiro, encharcar-se de orvalho. Atravessou a casa adormecida, abriu a porta com cuidado e saiu."


(Carlos de Oliveira nasceu em 10 de Agosto de 1921 e faleceu em 1 de Julho de 1981, faz hoje 40 anos)

20 de junho de 2021

Apresentação de RUA DA AMARGURA

Convido todos os visitantes deste blogue para a apresentação pública do meu livro RUA DA AMARGURA (episódios de uma comarca de província), evento cujos detalhes constam do "convite" anexo.

O evento será realizado numa sala muito ampla e arejada, assim se observando as recomendações da DGS para a prevenção da Covid19.

Desde já agradeço o interesse e a informação sobre a eventual presença.

Fernando Faria




15 de junho de 2021

o início de O RINOCERONTE DO REI




«Algum tempo após La Spezia, vendo ao longe os contornos da costa brasileira aproximando-se da nau, Océm recordou-se do rinoceronte.» Sérgio Luís de Carvalho, O Rinoceronte do rei, Lisboa, Clube do Autor, 2019, p. 9.

8 de junho de 2021

MANUEL MATOS NUNES, POETA

 


Manuel Matos Nunes (MMN) revelou-se como poeta. De sua autoria vieram a lume os Cadernos do Verão (Abril , 2021), sob a chancela da  On y va. Os seus textos deixaram assim o mundo virtual da sua formação como objecto na imaginação do autor. De facto, constituem-se como  obra pela sua coerência e na medida em que poemas e referências se interligam e se tornam indispensáveis.  
Constituem-na 3 secções antecedidas de uma epígrafe que serve de linha de leitura e que é uma écfrasis nocional. A primeira é designada por Delírios Ecfrásticos e o poeta explora a linguagem ecfrástica em várias situações pois procede à representação verbal de uma representação visual. Usa com frequência a referencialidade genérica na medida em que são observadas outras características para além da representação pura, como, por exemplo a personalidade, Fui Narciso nos auto-retratos , pintor/de mineiros e camponeses(...), Van Gogh na noite estrelada sobre o Ródano (pg 37). Poema deslocada para outra secção por decisão do autor.

        Quanto à segunda secção Figurações do Incomum ela revela uma das causas da Poesia: a representação do incompreensível, do imaterial e do absurdo em todos os poemas e que são de certo modo uma das linhas de conduta do livro, e perante a admiração geral das instituições,/abandonou tudo, partindo não se sabe para onde/em demanda de um peixe fóssil, o coelacanto. (KZ,funcionário das Finanças) pg.27. 

Quanto à terceira secção que nomeia a obra o autor partilha uma série de emoções e experiências vividas em várias geografias e situações sendo de assinalar a oscilação da forma , de ritmos e cor que fazem deste um livro de imagens. Gostei particularmente de A agressiva razão do vazio, pela amargura: saber que já não se senta ninguém/no sofá da sala, onde os livros/se acomodam hoje. pg. 60. Livro de poesia promissor no qual MMN revela a sua Cultura que nos tem transmitido ao longo dos anos e a sua imensa febre de conhecimento em busca de perfeição.             

                        

4 de junho de 2021

BOMBAIM. (A desumanidade...)

"Ao amanhecer de um dia no fim de Julho, Sunil encontrou um apanhador de lixo caído na lama no cruzamento onde a rua de terra de Annawadi se encontrava com a grande estrada do aeroporto. Sunil conhecia mal o velho; ele trabalhava muito e dormia à porta do mercado de peixe de Marol, a cerca de 800 metros dali. A perna do homem estava esmagada e ensanguentada e ele pedia ajuda aos transeuntes. Sunil deduziu que ele fora atropelado por um carro. Alguns motoristas não se preocupavam muito em desviar-se dos apanhadores de lixo que esquadrinhavam as bermas das estradas.

Sunil teve demasiado medo de ir à esquadra da polícia pedir uma ambulância, especialmente depois do que se dizia que acontecera a Abdul. Em vez disso, correu para o campo de batalha dos contentores de lixo da Estrada da Carga, na esperança de que um adulto tivesse coragem de ir à esquadra. Milhares de pessoas passavam por ali todas as manhãs.

Duas horas depois, quando Rahul saiu de Annawadi para ir para a escola, o ferido pedia água.

(... ... )

Quando Zehrunisa passou por ali uma hora depois, o apanhador de lixo gritava com dores. Ela achou que a perna dele tinha um aspecto horrível, mas ia levar comida e medicamentos ao marido, que também estava com um aspecto horrível do outro lado da cidade, na prisão de Arthur Road.

(... ...)

Quando Rahul e o irmão voltaram da escola no princípio da tarde, o apanhador de lixo ferido estava deitado, quieto, a gemer baixinho. Às 14h30, um homem do Shiv Sena fez um telefonema para um amigo na esquadra da polícia de Sahar sobre um cadáver que estava a perturbar as crianças pequenas. Às 16 horas, os guardas chamaram outros apanhadores de lixo para carregarem o corpo para dentro de uma carrinha da polícia, par não apanharem as doenças que toda a gente sabia que os apanhadores de lixo tinham."


(sem dúvida, um dos livros mais inquietantes que já li.)

   

21 de maio de 2021

o início de LOTTE EM WEIMAR

«O mordomo do hotel "Elephant" em Weimar, Mager, um homem culto, teve, num dia quase ainda de Verão, já Setembro de 1816 ia adiantado, uma vivência emocionante e gostosamente perturbadora.» Thomas Mann, Lotte em Weimar -- O Regresso da Bem-Amada [1940], trad. Teresa Seruya, 2.ª ed., Lisboa, Nova Vega, 2017 

7 de maio de 2021

o imortal rinoceronte de D. Manuel I

desenhado e gravado por Dürer, em 1515, estampas espalhadas por esse mundo fora, como
nos diz Sérgio Luís de Carvalho, em ORinoceronte do Rei (2019)

 

6 de abril de 2021

o início de O SEMINARISTA


 «Sou conhecido como o Especialista, contratado para serviços específicos.»

Rubem Fonseca, O Seminarista (2009), Porto, Sextante editora, 2010, p. 5

4 de março de 2021

O SEMINARISTA

"Eles me pegaram porque dei mole.

Foi assim: eu me preparava para sair de casa para dar uma volta, ver se achava uma pista do Sangue de Boi e, quando peguei a Glock, Kirsten peerguntou:

«Você vai levar essa coisa? Precisa?»

«Está bem», eu disse colocando a pistola de volta no armário de cuecas.

Eu havia acabado de sair do sebo da rua da Quitanda, onde comprara uma edição de poemas de Edna St. Vicent Millay, e caminhava lendo, embevecido, pela Primeiro de Março, quando subitamente colocaram um capuz na minha cabeça e mãos fortes e hábeis me jogaram na mala de um carro. Os caras deviam ser muito audaciosos para fazer uma coisa dessas numa rua de movimento durante o dia. Tudo durou alguns segundos. Senti o carro andando em alta velocidade. Quando parou, me tiraram da mala, mas mantiveram o capuz cobrindo a minha cabeça.

«Anda, dá o serviço», uma voz disse.

«Que serviço?»

«O que foi que o cara cheio de joias te contou?»

«Que cara?»

«O cara que você matou.»

«Quando foi isso?»

«Três meses atrás. Um sujeito cheio de anéis, pulseiras, até brincos.»

«Ah... sei. Ele não me contou nada. Dei um tiro na cabeça dele, um só, como sempre faço, quer dizer, fazia, eu abandonei o métier. Não sei de nada. No dia seguinte nem li os jornais, exatamente para não saber nada sobre o freguês. Esse é o meu modus operandi.»

  


Romance surpreendente, delirante, hilariante, recheado de axiomas e expressões em latim clássico. Leitura ideal para enfrentar estes tempos deprimentes. Até traz a receita do 'Bacalhau à Gomes de Sá' com todos os pormenores, e uma descrição da Batalha de Alcácer Quibir.
A discutir amanhã, dia 5, no Clube de leitura do Museu Ferreira de Castro (via teams) 


as personagens de «O Príncipe»: Leão X


retrato por Rafael

 

8 de fevereiro de 2021

SAADI, antítese de MAQUIAVEL

 Depois de O Príncipe, de Maquiavel, que livro me vem parar defronte? Fábulas Orientais, do poeta e prosador persa, distinguido pela qualidade de escrita, suporte de uma profundidade de pensamento social e moral, Saadi de Xiraz (1210 - 1292) (?).

De Maquiavel sabemos todos um pouco, e, agora que acabámos de ler a sua obra mais famosa, é aconselhável tomarmos cuidado para não nos tornarmos admiradores de «heróis» que seguiram os seus ditames, entre os quais se colocou em bicos de pés, Napoleão Bonaparte, ao comentar, com sobranceria, quem era suposto ser  o mestre.

A equilibrar o pensamento, surge então Saadi (emparceirando com Rumi e Hafez no céu da literatura persa), de quem deixo dois excertos: «Quando todos os seres humanos são úteis uns aos outros, que homem se atreverá a existir inútil para a sua pátria e para o Mundo?». «Toda esta gente vai a casa do meu amigo em razão do seu cargo importante; eu porém hei de ir lá, quando ele deixar de o ter, e estou bem certo que então me hei de achar sozinho [com ele]».

E, realçando a antítese, cito o tradutor da versão portuguesa das Fábulas Orientais: «Pelo que, na lição bem modesta destas Fábulas, poderá encontrar o Príncipe altíssimas máximas na arte de governar, o Ministro de Estado excelentes exemplos propostos a sua imitação, e todo o homem em geral doutrinas de moral pura que, postas por ele em prática, aumentarão a sua sensibilidade e melhorarão indubitavelmente o seu coração». (Francisco Freire de Carvalho, que foi Professor de História e de Antiguidades na Universidade de Coimbra).


Finalmente: um dos exemplos que Maquiavel invoca recorrentemente, César Borgia, filho do celebérrimo papa Alexandre VI, acabou sepultado à porta de uma igreja, em Viana (Logronho), «para ser pisado pelo povo». O mausoléu elevado ao bom conselheiro que foi Saadi, mantém-se como símbolo de homenagem à grandeza interior do homem, em contraste com o poder terreno, sempre transitório.

as personagens de «O Príncipe»: Carlos VIII de França

Escola francesa do séc. XVI