30 de abril de 2012

Lampião, o herói do Volta Seca, capitão da areia

Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião, figura mítica do cangaço nordestino, ídolo do Volta Seca, nos Capitães da Areia, de Jorge Amado.
(imagem daqui)

26 de abril de 2012

SETEMBRO, José Tolentino Mendonça

...quanto mais envelheço, mais pueril é a luz
                                                 mas essa vai comigo.

Nesses dias distantes eu vagueava pelas matas
enchia a espingarda de chumbo e disparava
contra o silêncio das árvores altas
só para assistir ao espectáculo dos pássaros em debandada
experimentava uma exaltação -- de que tenho hoje pudor
perante imagens que partem:
fragmentos rápidos, passagens, segredos que se apagam
nesses dias distantes nem suspeitava
a vida pode ser interminável

o que deixaste abandonado regressa aprende-se depois
quando, por exemplo, a esquecida infância se parece
com certos cães deixados de propósito a muitos quilómetros
que ladram não se percebe como
à porta da velha casa

in Aproximações a Eugénio de Andrade, coordenação de José da Cruz Santos, 2.ªedição, Edições Asa, Porto, 2001, p. 40.
(lido na sessão de13 de Abril de 2012) 

23 de abril de 2012

patine

A senhora não imagina, ou por outra, penso que a senhora pode imaginar como é pequena a distância entre o que acontece e o que não acontece. Entre matar alguém e não matar. Todos podemos, alguma vez, matar alguém. Basta só mais um pequeno passo, um pequeno gesto e acontece, sabe?

Teolinda Gersão, «Segurança», Histórias de Ver e Andar, 3.ª edição, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2005, p. 37.

18 de abril de 2012

Antero, 170

Antero de Quental nasceu em Ponta Delgada, a 18 de Abril de 1842

17 de abril de 2012

BALANÇA DE PALAVRAS, A. M. Pires Cabral

As palavras têm um tranquilo
peso oculto,
rebelde ao dicionário.

Por isso são palavras,
não vocábulos apenas.

Fossem todas as palavras
pesadas em balança como a sua,
Eugénio,
tumultuosa balança de palavras.
 
in Aproximações a Eugénio de Andrade, coordenação de José da Cruz Santos, 2.ªedição, Edições Asa, Porto, 2001, p. 13.
 
(lido na sessão de13 de Abril de 2012) 

16 de abril de 2012

Caeiro

Alberto Caeiro terá nascido em Lisboa, a 16 de Abril de 1889.
imagem: Caeiro visto por Almada Negreiros

30 de março de 2012

...então é isso

O que é o ridículo? Renunciar voluntariamente à nossa liberdade: esta é a definição do ridículo.

Philip Roth, O Animal Moribundo, tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, 2.ª edição, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2006, p. 90.

26 de março de 2012

Historiografia cruel

Sofrendo de um ataque de diarreia, D. Pedro fez uma paragem não prevista junto de uma ribeira chamada Ipiranga. Aí, enquanto abotoava as calças, recebeu um mensageiro que vinha de S. Paulo com correio urgente.

Patrick Wilcken, Império à Deriva, tradução de António Costa, 9.ª edição, Porto, Civilização Editora, 2007, p. 283.

Pedro Américo, Independência ou Morte (1888)
Museu Paulista USP

19 de março de 2012

Philip Roth, 79

Philip Roth nasceu em Newark, a 19 de Março de 1933.
(caricatura: David Levine)

8 de março de 2012

um poema de Gastão Cruz

Revimos a grosseira superfície do
amor
Ninguém pudera corrompê-la tanto
por actos e palavras Estivemos
novamente deitados na aspereza
do seu leito
Um ramo na mão tinhas e quiseste
medi-lo com os lábios e metê-lo

no centro doloroso do teu corpo
Eu via as tuas mãos que procuravam
inseri-lo e guardavam
nas linhas ávidas o seu limite grosso
Interrompeste o
sono magoado do meu corpo
e comigo
dormiste sobre as manchas depois

in Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 69.

(lido na sessão de 2 de Março)

4 de março de 2012

3 de março de 2012

Grito Libertário

Aos homens que dominam, que governam,
Aos homens que espezinham, martirizam,
Àqueles que não trabalham, parasitam,
Àqueles que condenam, sacrificam,

Aos homens que traindo, ludibriam,
Aos homens que guerreiam, exterminam,
Àqueles que desrespeitam, escravizam,
E àqueles que torturam e aniquilam,

A todos gritarei, de queixo em riste,
Olhando co'a grandeza de um sol-tarde:
- Mesmo, posto a grilhões, 'inda sou livre,

Porque o que eu penso, nas prisões não cabe!
O corpo?! Esse sim, tu destruíste...
Mas EU sempre vivi em liberdade!


Lido na sessão de 2 de março de 2012, no dia em que nos deleitámos com o pensamento libertário de Ferreira de Castro. O poema é datado de 7 fev 1980 e é assinado por Z.A.(M.S.)

29 de fevereiro de 2012

Abd el-Krim e a História

A propósito da sangrenta Guerra do Rife, que opôs os insurrectos marroquinos, liderados por Abd El-Krim, contra os exércitos espanhol e francês, escreveu Ferreira de Castro, n'A Batalha:
«[...] a figura de Abd-el-Krim- chega a atingir um sentido epopeico e só não merece as páginas da História porque a História desde há muito está desonrada, porque a História é indigna dele.» (14 de Setembro de 1925).
Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2004, p.67.

Para Ferreira de Castro, a desonra da História -- ou da historiografia, melhor diríamos -- tem que ver com a noção, consagrada na década seguinte pela revista Annales, de Marc Bloch e Lucien Febvre, que o registo do passado nunca poderia limitar-se à inventariação das dinastias, das batalhas, das grandes figuras, meras conjunturas das estruturas económica, social e das mentalidades de que aquelas emanavam. E é essa concepção da História que presidirá ao projecto gorado da «Biografia do Século XX» -- de que só se salvará o póstumo O Intervalo (incluído n'Os Fragmentos) ou n'As Maravilhas Artísticas do Mundo, apresentada como «A prodigiosa aventura do Homem através da Arte».

Abd El-Krim
(também aqui)

28 de fevereiro de 2012

Carlos Malheiro Dias, o romancista, melhor que Carlos Malheiro Dias, o panfletário

Malheiro Dias foi, durante alguns anos, um escritor muito apreciável, que pôde fazer, à margem da sua obra política, uma obra literária de grande brilho.
«A [sic] paixão de Maria do Céu», se não é um dos melhores romances da literatura portuguesa dos últimos anos, é, pelo menos, um dos mais interessantes. [...]
Ultimamente, porém, Malheiro Dias [...] deu-se ao necrófilo prazer de acariciar múmias, de afagar espectros -- e tornou-se, com Antero de Figueiredo, em paladino de D. Sebastião e de outras sombras pretéritas. [...]
[...] Malheiro Dias exorta a mocidade luso-brasileira a trilhar os negros caminhos do reaccionarismo; exorta-a a adorar a Deus, a pátria e seus heróis de antanho, é dizer, a adorar a escravidão e os escravizadores.*

* Carlos Malheiro Dias, Exortação à Mocidade, Lisboa, 1924.
(A Batalha, 9 de Março de 1925)

Ferreira de Castro, Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2004, p. 30. 

(caricatura por Arnaldo Ressano)
(também aqui)

Gama, o pirata

Dizer que Vasco da Gama foi um arrojado pirata, é ofender os patriotas, mas é restabelecer a verdade. E a ter que escolher entre os patriotas que formam uma casta transitória de obcecados, e a verdade, que é eterna, nós optamos pela última.

(A Batalha, 2 de Fevereiro de 1925)
Ferreira de Castro, Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2004, p. 18.

(também aqui)

Charles Maurras

Charles Maurras, um maître à penser de Salazar, é escolhido por pares como o sucessor de Anatole France, «príncipe dos escritores»:

«Eu reconheço, fora de todas as divergências de ideias, que o famigerado reaccionário de "L'Action Française» é um espírito culto e um crítico, por vezes, muito penetrante. Mas daí a considerá-lo como o príncipe das letras francesas... Não, isso é querer afrontar o próprio ridículo. É afrontar a memória de Anatole, que usou aquele título -- é afrontar os escritores que futuramente o virão a usar, merecidamente.»
A Batalha, 19 de Janeiro de 1925

Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2004, p. 14.

(também aqui)

27 de fevereiro de 2012

aproximava-se o 1.º Centenário de Camilo Castelo Branco

O que se tem feito com Camilo! O cadáver deste homem tem dado para alimentar legiões de medíocres, que nunca teriam nome, nem editor, nem leitores, se não se acolhessem à sombra trágica do romancista. (A Batalha, 22 de Dezembro de 1924)

Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2004, p. 6.

(também aqui)

O barão de Wrangel

Ferreira de Castro sobre o barão Piotr de Wrangel, um dos mais emblemáticos generais do Exército Branco, derrotado na guerra civil russa pelo Exército Vermelho, de Trotsky, n'A Batalha de 15 de Dezembro de 1924:

«Esse palhaço disfarçado de Marte, não deixa extinguir seu ódio ao novo regime russo, não pelo regime em si, mas porque supõe ver nele a encarnação da Liberdade.» 

Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, introdução e notas de Luís Garcia e Silva, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2004, p. 4.
(também aqui)

25 de fevereiro de 2012

Ruy Belo, 79

Ruy Belo nasceu há 79 anos, em Rio Maior
(25 de Fevereiro de 1933)

Cesário, 157

Cesário Verde nasceu em Lisboa, a 25 de Fevereiro de 1855.

24 de fevereiro de 2012

22 de fevereiro de 2012

ao encontro de Deus

--Ah! -- disse ela --, mesmo perdida, vejo como tudo é perfumado e maravilhoso. Mesmo sem saber se jamais chegarei, apetece-me rir e cantar em honra da beleza das coisas. Mesmo neste caminho que eu não sei onde leva, as árvores são verdes e frescas como se as alimentasse uma certeza profunda. Mesmo aqui a luz pois leve nos nossos rostos como se nos reconhecesse. Estou cheia de medo e estou alegre.

«A Viagem», Contos Exemplares, 3.ª edição, Portugália Editora, Lisboa, 1970, p. 102.

15 de fevereiro de 2012

JACQUES SADOUL (1881-1956)

“Não faltavam os cantares da estepe e as danças cossacas. Jacques Sadoul, o antigo oficial da missão militar francesa que ficara na Rússia em 1917, sustentava que essas tradições  folclóricas tinham constituído uma contribuição decisiva para a vitória da guerra civil.”
Gérard  Rosenthal, Trotsky, Venda Nova, Livraria Bertrand, 1976, pp. 16 e 17.
“Sadoul vem de regressar a França, vem de transpor as fronteiras que o separavam daquele regime que ele abandonara, que ele desdenhara, para ir colocar a sua espada ao serviço dum outro regime, julgado mais belo. Para mim, que conheço a inutilidade dos exércitos, que os considero perniciosos, indignos da nossa época, o gesto do capitão Sadoul, quando há anos demandou a Rússia, mereceu a simpatia do meu espírito. A  ter de se empunhar uma espada, que ela sirva para fazer triunfar algo que possua signos inéditos, algo que constitua uma nova aspiração; embora esta venha a fenecer em breve, como aconteceu na Rússia.”
Ferreira de Castro, “Sadoul e Wrangel”, Ecos da Semana, Lisboa, Cadernos d’ A Batalha, 2004, p. 3.

SEGREDO, Maria Teresa Horta

Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar

Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 64.

(lido na sessão de 3 de Fevereiro de 2012)

13 de fevereiro de 2012

PRESÍDIO, David Mourão-Ferreira

Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?

E o ventre, inconsistente como lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo...

É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!

Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 50.

(lido na sessão de 3 de Fevereiro de 2012)

9 de fevereiro de 2012

traços dum lapuz

Ao tecer o êxito futuro, a sua expressão tornara-se sombria: os olhos castanhos, pequeninos e movediços em outros azares, paravam agora em fundo querer; as faces secas desciam, sem contracções, sobre o negro e longo bigode, de lábios delgados, dentes sujos de tabaco, aquietava-se também em cima do queixo agudo, rude, plebeu. Assim imobilizado, era tosca cariátide de sobreiro aquele corpo meão mas rijo, de linhas enérgicas, sem adiposidades, todas elas atestando pertinácia no trabalho e saúde campesina, saúde dos que se levantam quando se apagam as últimas estrelas e se deitam quando as primeiras se acendem.

Ferreira de Castro, Emigrantes [1928], 24.ª edição, Lisboa, Guimarães Editores, 1988, p. 23.

também aqui

8 de fevereiro de 2012

Ela canta, pobre ceifeira, Fernando Pessoa

Ela canta, pobre ceifeira
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anónima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.
Ouvi-la alegra e entristece,

Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões p'ra cantar que a vida.
Ah! canta, canta sem razão!
O que em mim sente 'stá pensando.

Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!
Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!

Ó campo! Ó canção! A ciência
Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

Fernando Pessoa, Cancioneiro
 
(Poema não lido na sessão de 03 de Fevereiro.)

29 de janeiro de 2012

porque gosto tanto do Manuel da Fonseca

porque esta atmosfera, para além do real, impregna a sua escrita:

Na madrugada escura, o homem ergueu o peito e soprou no búzio o último aviso. O som atravessou a vila e ganhou eco na encosta do castelo, estalando como um ai. Cães responderam com uivos, de focinho curvo para o céu, e um galo, atónito ante tanto mistério, gritou pelo Sol.

«Sete-estrelo», Aldeia Nova (1942), 7.ª edição, Lisboa, Editorial Caminho, 1984, p. 63. 

26 de janeiro de 2012

mais uma epígrafe, esta de Nietzsche

"Quando se ama o abismo, é preciso ter asas."

Biografia (sonetos)  de JOSÉ RÉGIO

uma epígrafe de Almeida Garrett

Mas são flores que nascem na serra
Onde todo o seu mundo se encerra,
Porque aí tem -- o seu bem -- seus amores.

                               A Adélia, apud Bernal-Francês.




n'Os Meus Amores, de Trindade Coelho