9 de janeiro de 2012

Drumundana, Alice Ruiz


Krzysztof Izdebski

e agora maria?

o amor acabou
a filha casou
o filho mudou
teu homem foi pra vida
que tudo cria
a fantasia
que você sonhou
apagou
à luz do dia

e agora maria?
vai com as outras
vai viver
com a hipocondria

[Navalhanaliga, 1980.]

(Lido na sessão de 7 de Janeiro.)

4 de janeiro de 2012

jovem e medrosa?

Faustina, a Jovem e Marco Aurélio, como Vénus e Marte
(e como não os (d)escreveu Gonçalo M. Tavares)

1 de janeiro de 2012

Afonso Duarte, 128

Afonso Duarte nasceu a 1 de Janeiro de 1884, na Ereira, Montemor-o-Velho.

31 de dezembro de 2011

para ler em silêncio

Cai a chuva, o vento desmancha as árvores desfolhadas, e dos tempos passados vem uma imagem, a de um homem alto e magro, velho, agora que está mais perto, por um carreiro alagado. Traz um cajado ao ombro, um capote enlameado e antigo, e por ele escorrem todas as águas do céu. À frente caminham os porcos, de cabeça baixa, rasando o chão com o focinho. O homem que assim se aproxima, vago entre as cordas de chuva, é o meu avô.


José Saramago, As Pequenas Memórias, Lisboa, Editorial Caminho, 2006, p. 129.
(imagem)

30 de dezembro de 2011

29 de dezembro de 2011

idealidades

«O dinheiro deve estar tão abaixo de um cavalheiro que quase não vale a pena preocupar-se com ele.»

Fiódor Dostoievski, O Jogador, tradução de António Pescada, Lisboa, Biblioteca de Editores Independentes, 2007, p. 22.

24 de dezembro de 2011

oh!, o bicho em nós...

A grande partida biológica que nos pregam é que nos tornamos íntimos antes de sabermos alguma coisa sobre a outra pessoa. No momento inicial compreendemos tudo.

Philip Roth, O Animal Moribundo, tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, 2.ª edição, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2006, p.22.














imagem daqui

"MISSA DO GALO"

Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite.

Incipit do conto "Missa do Galo", de Machado de Assis - Contos Escolhidos, São Paulo, Editora Martin Claret, 2003, pp. 11-17.

23 de dezembro de 2011

14 de dezembro de 2011

um poema de José Gomes Ferreira

(Finjo que não vejo as mulheres
que passam, mas vejo.)

De súbito, o diabinho que me dançava nos olhos,
mal viu a menina atravessar a rua,
saltou num ímpeto de besouro
e despiu-a toda...

E a Que-Sempre-Tanto-Se-Reacata
ficou nua,
sonambulamente nua,
com um seio de ouro
e outro de prata.

In Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 31.

(lido na sessão de 7 de Dezembro de 2011)

13 de dezembro de 2011

11 de dezembro de 2011

A Corte chega ao Rio de Janeiro

   Rio, 1808  (daqui)
     Os emigrados chegavam a uma sociedade intensamente ritualista --como Lisboa, mas com características africanas. Procissões religiosas, comuns no Portugal do início do século XIX, misturavam-se com outras tradições -- o trovejar dos tambores africanos do batuque, a dança afro-brasileira; a capoeira, uma provocante arte marcial praticada nas comunidades de escravos, incomodativa sem dúvida para  espectadores europeus; bem como os ritmos mais subversivos, como a queima da efígie de Judas, que acabou por ser proibida pelos colonos atemorizados. As ruas eram coloridas, mesmo carnavalescas; mas eram também brutais e ameaçadoras, divididas pelas tensões subjacentes a uma sociedade assente na escravatura. 
     Os exilados passaram as primeiras semanas em estado de choque cultural e emocional. [...]

Patrick Wilcken, Império à Deriva -- A Corte Portuguesa no Rio de Janeiro 1808-1821, tradução de António Costa, 9.ª edição, Porto, Civilização Editora, 2007, p. 111.

9 de dezembro de 2011

SONETO DE AMOR, José Régio

Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma... Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua..., -- unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois... -- abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!

Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 27.

(lido na sessão de 7 de Dezembro de 2011)

8 de dezembro de 2011

5 de dezembro de 2011

ROÍ AS UNHAS

Roí as unhas, desvairado,
Quando as balas zuniam e matavam,
Quando atirei à noite escura
E esperei a morte.
Roí as unhas, transtornado,
Quando os amigos rezavam e choravam,
Quando fazia sutura
À ferida… à sorte.

Roí as unhas, como um louco,
Quando senti que era nada,
Atirado à noite escura,
P’ra matar.
Roí as unhas, pouco a pouco,
Sentindo a vida, já parada,
Fugindo da carne nua…
Tudo a acabar!

Roí as unhas, revoltado,
Pensando na mãe, no pai, na terra…
Farrapo ao vento,
A tiritar.
Roí as unhas, destroçado,
Moído de saudades, só, perdido…
Arma de guerra:
Morte a chorar.

Roí as unhas, mordi os dedos,
Transpirei suores gelados
De febres, agonias, incertezas,
Saudade e medo.
Roí as unhas, comi os dedos,
De olhos abertos, arregalados,
Sentindo, na garganta, presa
A corda do degredo…

Roí as unhas, roí meu corpo,
Em ânsias de voltar, de reviver…
Reviver… de reviver:
(Eu era a morte, dada e recebida!...)
Roí as unhas, aniquilei-me;
Fiz-me fera… e espantalho…
Matei e morri:
Regressei, morto…
Eu roí as unhas…
Roí as unhas…

Lido na sessão de 2 de Dezembro de 2011

Da guerra que Portugal travou, em África, de 1960 a 1974, chegou este poema, à minha mão. Do autor, sei que o estado o ferreteou com o número 13443070, quando, a pretexto de servir a pátria, o obrigou ao serviço militar.

4 de dezembro de 2011

Elogio dos clubes de leitura

     As comunidades de leitores têm muitas vantagens para os ditos. Trocas de pontos de vista, de percursos de leitura, de experiências de vida. E obrigam-nos a conhecer livros e/ou autores que improvavelmente leríamos, não por qualquer embirração de partida (ou também por isso...), mas porque um leitor tem sempre as suas prioridades e as suas listas, que normalmente (falo por mim) não são cumpridas.
     Por várias vezes sucedeu-me, aqui no Clube de Leitura do Museu Ferreira de Castro, defrontar-me com autores desconhecidos e que foram, para mim, uma extraordinária revelação, como foi o caso de Javier Cercas -- de que nunca ouvira falar -- e o magnífico A Velocidade da Luz; ou o extraordinário ensaio de Amin Maalouf, Um Mundo sem Regras (aqui, não era o autor o desconhecido, mas o livro) ou A Religiosa, de Diderot, cuja leitura somente se me ofereceria no âmbito de uma pesquisa improvável sobre as adjacências do século XVIII ou questões colaterais.
     De valter hugo mãe só lera poesia, três livros, um dos quais, A Cobrição das Filhas, me deixara uma boa impressão. Já tivera dois outros romances dele debaixo de olho, mas a oportunidade nunca se concretizara. Por outro lado, tenho o defeito ou a qualidade de não ler escritores que estejam na crista da onda, como é o caso. Teria várias razões para dar, mas agora não é o momento. O que me importa registar é que se o vhm surfa a onda, fá-lo com muito mérito. A Máquina de Fazer Espanhóis é um grande livro de um não menor escritor, que tem o que dizer e di-lo com substância, e sabe como o fazer, fazendo-o com mestria.

2 de dezembro de 2011

valter hugo mãe fotografado por Nélio Paulo

Jaime Ramos e Isaltino de Jesus

As personagens Jaime Ramos e Isaltino de Jesus são dois detectives da Polícia Judiciária. Incumbidos por Francisco José Viegas de resolver os mais variados crimes, veêm-se agora na contigência de serem personagens "roubados" por valter hugo mãe. E esta, hein?

Romances Protagonizados por Jaime Ramos e Isaltino de Jesus
  • Crime em Ponta Delgada (1989)
  • Morte no Estádio (1991)
  • Um Crime na Exposição (1998)
  • Um Crime Capital (2001)
  • Longe de Manaus (2005)
  • A Poeira que cai sobre a Terra (2006)
  • O Mar em Casablanca (2009)

valter hugo mãe internaútico

O Esteves sem Metafisica

...
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
...
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
A Tabacaria, Álvaro de Campos, 15-1-1928

24 de novembro de 2011

despojamento

Era uma pequena casa de camponeses. Uma casa nua, onde só estavam escritos os gestos da vida. Havia uma cozinha e dois quartos. Num rebordo da parede de cal estava colocada uma imagem; em frente da imagem ardia uma lamparina de azeite; ao lado, alguém poisara um ramo de flores bentas na Páscoa.

Sophia de Mello Breyner Andresen, «A viagem», Contos Exemplares, Lisboa, Portugália Editora, s.d., pp. 90-91.

22 de novembro de 2011

grande prosa de altíssimo poeta

A filhita do carvoeiro, bonita e suja como uma moeda, brilhantes os olhos negros e rebentando sangue os lábios pretos entre a fuligem, está à porta da choça, sentada numa telha, adormecendo o irmãozinho.

Juan Ramón Jimenez, Platero e Eu, tradução de José Bento, Lisboa, Livros do Brasil, s.d., p. 57.

16 de novembro de 2011

no país da infância

     Estendido onde a sombra lhe parecera mais agradável, Manuel da Bouça seguia o trabalho da ave e recordava o tempo da infância, já distante, em que vasculhava veigas e montes à busca de ninhos, só pelo prazer de os descobrir e disso se vangloriar ante o rapazio do lugarejo. Outrora não teria hesitado e, zape-zape, pinheiro arriba, iria ver em que estado se encontrava o novo berço e voltaria, depois, pelos ovos ou pelas avezitas ainda implumes, as pálpebras cerradas e o biquito glutão semiaberto ante qualquer ruído. Mas, hoje, só se fosse em pinheiro baixo e de gaio ou de rola, que eram bons com arroz.
     Felizes esses tempos em que pastoreava a cabra pelas barrocas, roubava maçãs na quinta do Almeida e seguia, na Primavera, o voo dos pássaros de ramo em ramo!

     Ferreira de Castro, Emigrantes, 24.ª edição, Lisboa, Guimarães Editores, 1988, p. 20.

Saramago, 89

José Saramago nasceu há 89 anos, na Azinhaga, Golegã
(caricatura de Carlín, daqui)

13 de novembro de 2011

fim de festa com panache

Aquele mundo estava a acabar para eles, em África; penso que ninguém ali poria isso em causa não obstante todos os discursos e todo aquele cerimonial; mas estavam todos à vontade, a usufruir do momento, enchendo o velho salão com conversas e risos como quem não se importa, como quem sabe viver com a história. Nunca admirei tanto os portugueses como naquela altura. 

V. S. Naipaul, Uma Vida pela Metade, tradução de Maria João Delgado, 4.ª edição, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2003, p. 174.

8 de novembro de 2011

VOLÚPIA, Florbela Espanca

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frémito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade...
A nuvem que arrastou o vento norte...
-- Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço...
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças...

Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 21.

(lido na sessão de 4 de Novembro de 2011)

7 de novembro de 2011

Saramago despista-se

     Para que não haja dúvidas: sou um admirador de José Saramago, considero-o um grande escritor, um merecido Prémio Nobel. Li seis dos seus romances (Levantado do Chão, Memorial do Convento, O Ana da Morte de Ricardo Reis, Jangada de Pedra, Ensaio Sobre a Lucidez e A Viagem do Elefante), além de As Pequenas Memórias e a peça A Noite. Tenho especial interesse na História do Cerco de Lisboa, O Evangelho Segundo Jesus Cristo e Ensaio Sobre a Cegueira, e também pela peça In Nomine Dei, os três primeiros com anos de espera na minha pilha infinita.
     Começando por referir-me ao que gostei nesta leitura dum livro que não apreciei: o uso rigoroso da palavra; as digressões já não garrettianas mas já muito saramaguianas -- característica própria que nele aprecio; a ironia, o sarcasmo; piscadelas de olho maliciosas ao leitor.
     Tal como não gostei da Jangada de Pedra, um romance desiquilibrado (aliás o próprio escritor admitiu algures o seu falhanço), também este Ensaio Sobre a Lucidez não me satisfez. Saramago a certa altura perdeu a mão, despistou-se, algo que ele também reconhece, lúcido romancista, desta vez no próprio corpo do texto (p. 188).
     A história é conhecida: os eleitores de uma cidade capital, mais de 80%, decidem expressar o seu voto de forma inusitada: depositam na urna o boletim em branco. Em presença estão três força políticas: o partido da direita (no governo), o partido do meio e o partido da esquerda. Os dois primeiro representam o establishment; o último está nele (digamos: pdd=psd[+cds?]; pdm=ps; pde=pcp). A partir daqui, o autor construiu uma trama em que um movimento popular de claras tendências anarquizantes (não esquecer que anarquismo é uma palavra de sentido positivo e nobre, com um laivo de utopia  que nada tem que ver com desordem e vocábulos equivalentes, apesar de se ter generalizado a percepção contrária) afronta dessa forma o poder instituído, que se sente ameaçado e irá ripostar.
     E como riposta, nesta ficção de Saramago, um governo de um sistema demo-liberal? Com a determinação e a violência de uma junta militar chilena, em 1973, ou polaca em 1981. Os freios e contrapesos de um sistema demo-liberal é coisa que não se vislumbra: nem parlamento nem tribunal constitucional, para não falar na imprensa -- a que conta, mancomunada com os interesses do Estado; a que não conta, residual. Existe o governo e o pr, do pdd; o pdm só existe porque o narrador nos afirma que ele existia, mas não passa de uma extensão do primeiro; o pde, o terceiro partido, não está na origem desta sedição eleitoral, mas identifica-se com, e os militantes apoiam-na, que remédio. Não sei se é por ser tão absurda esta parte do romance que o autor nele se perdeu, inflectindo a narrativa numa direcção investigatória e policiária, recorrendo a personagens do Ensaio Sobre a Cegueira, cosidas à trama inicial de uma forma bastante atabalhoada.  Há, portanto, uma incongruência e uma inverosimilhança intrínsecas ao romance que são irreparáveis.
     Sem querer ser injusto, partindo do esquema ideológico do autor, de base totalitária e fundamentalmente antiliberal, a denúncia simplista de uma espécie de ditadura democrática carece de base de sustentação, é inaplicável aos velhos estados democráticos e até aos menos velhos, como o nosso. O próprio sobressalto libertário do povo da cidade fica em suspenso (o que talvez não admire, sendo o anarquismo por alguns qualificado como o mais socialista dos liberalismos ou o mais liberal dos socialismos...). É evidente que quotidianamente assistimos a inúmeros entorses à democracia, que todos os estados democráticos cometem acções que extravasam e violam grosseiramente a legalidade (lembremo-nos dos serviços secretos franceses e do barco da GreenPeace; ou do estado espanhol e os GAL...), e que o poder, regra geral, se exerce antes de tudo para ser conservado. Mas o que é inestimável numa sociedade aberta é, entre outras coisas, a livre circulação da informação; e só ela permite que as populações tomem consciência e resistam aos abusos de poder perpetrados pelos governantes. Como dizia o velho Churchill, não há pior sistema que a democracia, à excepção de todos os outros.
    No fundo, o que quer Saramago com este livro? Denunciar o sistema? Francamente, é pouco.

6 de novembro de 2011

Sophia, 92

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu há 92 anos, no Porto.
(desenho de Árpád Szenes)

3 de novembro de 2011

O REFERENDO

O primeiro-ministro, olhando o ministro do interior e o ministro da defesa, o olhar gelado como naquele dia em que a democracia fora abalada com a votação em branco de mais de oitenta por cento dos eleitores, disse, Então o presidente da câmara vai realizar um referendo, assim se dá mais uma machadada no nosso sistema democrático, Um referendo, qual referendo, perguntou o ministro da defesa, o que comprava submarinos como quem enche o saco das compras de latas de feijão, ao que o ministro do interior respondeu, Um referendo sobre o estado de sítio democrático que foi imposto à capital, então o colega não sabia, Eu não, eu habituei-me a saber das notícias pelos telejornais, mas um referendo, francamente, uma consulta popular, é algo que pode abalar os fundamentos do nosso ordenamento constitucional, é o abrir de uma caixa de Pandora, o fim da nossa querida moeda única e da nossa união nacional, Presidentes da câmara como este, assentiu o ministro do interior, deviam ser imediatamente escorraçados do seio da democracia, interrogados diante do polígrafo, pestíferos que querem dar voz aos brancosos e arruinar os fundamentos da nossa civilização e de todos os estados de sítio democráticos por nós criados para salvação dos povos, amém.

(Texto apócrifo de um ensaio sobre a lucidez)

2 de novembro de 2011

Morte ao Meio-dia, Ruy Belo

No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente tem saúde e assistência cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

O português paga calado cada prestação
Para banhos de sol nem casa se precisa
E cai-nos sobre os ombros quer a arma quer a sisa
e o colégio do ódio é a patriótica organização

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz do dia
pois a areia cresceu e o povo em vão requer
curvado o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer