13 de junho de 2015

A propósito de uma efeméride... (13 de Junho de 1888)



Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.

É tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho,
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto maias longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.



9 de junho de 2015

CÍRCULO VICIOSO, Machado de Assis












Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
- Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
que arde no eterno azul, como uma eterna vela !
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

- Pudesse eu copiar o transparente lume,
que, da grega coluna á gótica janela,
contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela !
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

- Misera ! tivesse eu aquela enorme, aquela
claridade imortal, que toda a luz resume !
Mas o sol, inclinando a rutila capela:

- Pesa-me esta brilhante aureola de nume...
Enfara-me esta azul e desmedida umbela...
Porque não nasci eu um simples vaga-lume?

in Evaristo Pontes dos Santos, Antologia Portuguesa e Brasileira, Porto, 1974, p. 84
(lido na sessão de 5 de Junho)

2 de junho de 2015

o início de DOM CASMURRO

«Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu.»

Machado de Assis, Dom Casmurro (1900)

26 de maio de 2015

Ruben A. / Ruben Andresen Leitão, 95


Ruben A. (que assinava os seus trabalhos historiográficos com o nome civil,
Ruben Andresen Leitão, nasceu em Lisboa, em 26 de Maio de 1920

20 de maio de 2015

Sérgio Luís de Carvalho fala sobre O INSTINTO SUPREMO

Sérgio Luís de Carvalho, Prémio Ferreira de Castro de Ficção Narrativa / 1989 
com o romance Anno Domini 1348
«Ler Ferreira de Castro, 40 anos depois»
22 de Maio, sexta-feira, pelas 19 h.
no
Musa - Museu das Artes de Sintra
tel: 219238828


capa da 1.ª edição (1968)
vinheta da capa de Artur Bual


19 de maio de 2015

2 poemas de Hermann Hesse




UM ENXAME DE MOSQUITOS

Miríades em poalha rebrilhante
Se agrupam ávidos e avançam
Em círculos trémulos
Desenfreadamente divertidos
Uma hora e logo sumidos
No delírio se esgotam zubinando
De pura alegria da morte.

Impérios decadentes e arruinados,
Tronos dourados desaparecidos
Na voragem da noite e da lenda, sem deixar traço,
Jamais conheçeram dança tão frenética.


NA NÉVOA

Como é estranho andar no nevoeiro!
Sòzinha a pedra e a planta,
Uma árvore não vê a outra,
Solidão tanta.

Muitos amigos eu tinha
No tempo da vida viva;
Agora que a névoa cai,
De tudo a vista me priva.

Nada sabe quem não sabe
Como a treva nos separa
De tudo e todos, tão doce,
Inescapável, avara.

Como é estranho andar no nevoeiro!
A vida é solitude -- não adianta.
Ninguém conhece um outro.
Solidão tanta.

in Jorge de Sena, Poesia do Século XX, 2.ª ed., Coimbra, Fora do Texto, 1994, pp. 190-192

(lido na sessão de 8 de Maio de 2015) 

16 de maio de 2015

A propósito de Siddhartha

Na caminhada lenta pelo Bhagavad-Gítá...
(versão com versículos em sânscrito, transcrição fonética e tradução em português, comentada por Swami Prabhupáda)
... encontrei a páginas 689:
"Às vezes, o modo de bondade se torna preeminente, derrotando os modos da paixão e da ignorância..."
A explicação do especialista, afirma:
"Embora existam estes três modos da natureza material, se o homem for determinado, poderá ser abençoado com o modo de bondade, e, transcendendo o modo de bondade, poderá situar-se em bondade pura, que se chama o estado vasudeva, um estado em que se pode compreender a ciência de Deus...
Vasudeva recorda-lhes alguém?
Não restam dúvidas que Hermann Hesse sabia mesmo do que escrevia.
Recomendo que não procurem mais sobre o assunto, porque, de certeza, vão encontrar muito mais.

13 de maio de 2015

José Manuel Mendes fala sobre A CURVA DA ESTRADA

«Ler Ferreira de Castro, 40 anos depois»
15 de Maio, sexta-feira, pelas 18 h.
no
Museu Ferreira de Castro
tel: 219238828
capa de Roberto Nobre para a 1.ª edição (1950)

12 de maio de 2015

11 de maio de 2015

Camilo José Cela, 99


Camilo José Cela nasceu em Padfrón, A Corunha,
em 11 de Maio de 1916

3 de maio de 2015

MANOEL DE OLIVEIRA E FERREIRA DE CASTRO


Ver, entre 40:40 e 41:10, as imagens em que aparece o livro "O Instinto Supremo". -- Conforme informação do Prof. Pedro Calheiros, ontem, nos III ENCONTROS FERREIRA DE CASTRO.

23 de abril de 2015

OS PREZADOS CONFRADES DO CLUBE DE LEITURA ESTÃO TODOS CONVIDADOS!



Breve síntese do livro:

"No dia 3 de Maio de 1560, perante uma pequena multidão de fiéis e com a assistência das mais altas figuras da realeza, foi inaugurado na Serra de Sintra, numa cerimónia de comedida solenidade, o convento arrábido de Santa Cruz ou da Cortiça.
Entre a meia-dúzia de futuros ocupantes do novo ermitério, edificado por entre enormes fragas no coração daquele que é conhecido desde a antiguidade como o Monte da Lua, achava-se um jovem poeta, de auspicioso futuro: chamava-se Agostinho Pimenta, fora educado para fidalgo e ficaria na História como frei Agostinho da Cruz.
Alicerçado em (escassos) dados históricos, este romance, para além de propor à imaginação do leitor o que pode ter sido a fundação, inauguração e primeiro ano de vida fradesca no agora arruinado Convento dos Capuchos de Sintra, constitui uma reflexão acerca da pureza do ideal monástico."

Abraço "tertuliano"!

Fernando Faria

22 de abril de 2015

19 de abril de 2015

FERREIRA DE CASTRO E JOSÉ RÉGIO

FERREIRA DE CASTRO sobre “Poemas de Deus e do Diabo” (1925), de José Régio. A edição recente de “Quasi Edições” reproduz a capa original de Júlio: as tentações da alma – mundo, diabo e carne – sob o olho de Deus.
Crítica publicada no nº  301, de 22/4/1926, do magazine “ABC”:
«É um poeta, um autêntico poeta, este José Régio que agora solta o primeiro grito desde o campo, até aqui silente, do seu anonimato»  – diz FERREIRA DE CASTRO. Acrescentando: «José Régio, sem estar abertamente situado sobre os cubos ultraístas, é, contudo, um poeta moderno – um temperamento que procura, inquietamente, as novas formas.»

17 de abril de 2015

FERREIRA DE CASTRO E AS PÁLPEBRAS FEMININAS

“O encanto das pálpebras femininas”, artigo de FERREIRA DE CASTRO publicado no nº 224 da revista ABC, de 30/10/1924, de que era director Rocha Martins:
«São as pálpebras a quarta maravilha da mulher: –  depois das mãos, dos seios e dos lábios, as pálpebras encerram o quarto segredo do encanto feminino.
Eu amo as pálpebras mais do que os olhos: – e estes sem elas seriam apenas dois globos perdidos, errantes, eternamente rolando entre as serranias do rosto.
»
FERREIRA DE CASTRO colaborou vastamente na revista ABC: contos curtos, novelas, crítica de livros e teatro, artigos de opinião e investigação.
Em outro artigo do mesmo ano (nº 230, de 11/12), “As atitudes da mulher que lê “, o escritor volta a referir-se às pálpebras femininas:
«A mim, pessoalmente, mais do que ser lido pelas mulheres, interessa-me ver as mulheres lerem.
Há um estranho encanto nas mulheres que lêem: – e a contemplá-las, em silêncio, eu me quedo longo tempo.
Eu amo ver as pálpebras femininas distenderem-se como duas pétalas, semicerrando-se sobre os olhos – já convergidos para um livro

12 de abril de 2015



APRESENTO-VOS "O NOVIÇO", O MEU NOVO LIVRO!

Um excerto:

"Chegara o Inverno. Precoce. Chuvoso. Sombrio. Havia muito que na serra se apagara o colorido radioso das longas tardes estivais. Da sépia dos melancólicos crepúsculos de Outono quase nem sinais houvera. Em matéria de cores [ou falta delas], o que agora se via era um persistente tom de cinza, feito de brumas e neblinas, que embaciava os penhascos, ocultando-os dias e semanas a fio, como se tivessem sido abandonados ou esquecidos dos deuses. Num lento e silencioso processo de declínio, as folhas dos carvalhos e dos castanheiros da cerca, de verdes haviam-se tornado amarelas, depois vermelhas e finalmente castanho-escuras, acabando por se desprender uma a uma, num nostálgico ritual de despedida. Mortas, apodrecem agora lentamente no chão, em redor dos troncos negros, prontas para o sacrifício da química transformação e do inevitável ao seio da mãe-terra, para um novo ciclo. Com um pouco de sorte, talvez um dia, numa nova e futura Primavera, voltem a ser, outra vez, quem sabe, folhas verdes ou tenras hastes."

(Fernando Faria)

9 de abril de 2015

«Nenhum de nós é um só homem»

...pensa Don Alvaro Soriano (ao lado, de charuto, representado por Bernardo Marques, na capa da 11.ª edição), em pleno e mortificante debate com o filho Enrique e o velho amigo Pepe Martinez -- frase chave de A Curva da Estrada, romance de 1950, ainda hoje tão actual. Hoje e enquanto houver seres humanos, com as suas fraqueza e paixões.

(amanhã será dia de conversar a propósito)

25 de março de 2015

17 de março de 2015

Filomena Marona Beja fala sobre A TEMPESTADE

«Ler Ferreira de Castro, 40 anos depois»
sexta-feira, 20 de Março, 19 h.
Museu Ferreira de Castro, Sintra
dcul.museu.fcastro.@cm-sintra.pt
(tel: 219238828)


capa da 1.ª edição (1940),
por Jorge Barradas


12 de março de 2015

Raul Brandão, 148

Ficheiro:Raul Brandao2.jpg

Raul Brandão nasceu na Foz do Douro, Porto, a 12 de Março de 1867

6 de março de 2015

uma grande frase de ÁGUAS DA PRIMAVERA, de Turguénev



«Pensando bem, não há no mundo nada mais forte -- nem mais impotente -- do que a palavra»
Ivan Turguénev, Aguas da Primavera, tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, Lisboa, Relógio d'Água, 2010, p. 59.

18 de fevereiro de 2015

Filomena Oliveira fala sobre SIM, UMA DÚVIDA BASTA

«Ler Ferreira de Castro, 40 anos depois». No Museu Ferreira de Castro, sexta-feira, 20 de Fevereiro, pelas 19 horas.
tel.: 219238828

retrato de Ferreira de Castro, por
Elena Muriel (1937)

11 de fevereiro de 2015

Miguel Real fala sobre A EXPERIÊNCIA



13 de Fevereiro, 19 horas, no Musa - Museu das Artes de Sintra
tel.: 219238828

capa da 1:ª edição autónoma do romance (2014)
por Susana Villar


6 de fevereiro de 2015

o início de TEORIA DOS LIMITES

«Não não, disse, e continuou a andar, seguindo os homens que levavam o caixão aos ombros, por entre jazigos com inscrições de amor e saudade eternos e campas com flores murchas e ar abandonado, e apertou-lhes ainda mais as mãos, a agradecer o cuidado e a ternura.»

Maria Manuel Viana, Teoria dos Limites, Lisboa, Teodolito, 2014.

3 de fevereiro de 2015

31 de janeiro de 2015

EURICO DE SOUSA, POETA





Nasceu no Funchal em 1933. Foi arquitecto e professor do ensino secundário. Poeta, pertenceu à geração de 50, a de Herberto Helder, com quem conviveu de perto. A sua obra poética está representada em A Festa Sendo em Agosto (1980), com ilustrações da inspiradíssima pintora Alice de Sousa, sua irmã , e Disgrafia Florestal (1995) . Surge, também, em vários livros colectivos: O Natal na Voz dos Poetas Madeirenses (1989); Poet’Arte 90; Olhares Atlânticos/Poesia da Ilha (mostra das artes e letras da Madeira, BN, 1991); e, na antologia Ilha-5,(2008) com um núcleo de poemas denominados As marés como vínculo da memória.   

 Conviveu com a minha geração, no segundo lustre da década de 70. Participou connosco nas Exposições de Poesia Ilustrada, no Teatro de Baltazar Dias, no Funchal. Manteve na década de 80 na RDP-Madeira um programa, importante, para a divulgação e reflexão da poesia moderna integrando nesta as vertentes da poesia insular portuguesa  lendo aos microfones desta estação emissora os seus elucidativos ensaios.  

 Direi, numa opinião muito pessoal, que, a sua poesia faz lembrar algum Helder: a exploração das imagens em movimento, o objecto-poema,  os objectos no espaço e no tempo, a tensão que se estabelece entre criador e leitor onde os seres e as coisas evoluem.  Helder, em carta que lhe escreveu em 1980 disse ser Eurico de Sousa “ um dos pouquíssimos poetas vivos portugueses” na medida em que o poeta refaz imperativamente o mundo. Por sua vez, Frias Martins, em 1984,  considerou-o, de uma discursividade redundante (Poesia em Portugal 1974-1984, Leitura de uma década).

 Aqui, fica em sua homenagem, de A Festa Sendo em Agosto um poema,

A Cor

“Ora se nos é dada a mobilidade das lâmpadas//roçagantes anémonas//entre o casario iluminando-o/rápida luz descendo a terra contornando/os sulcos da alegria cavalgando até ao mar// Protege-te do sol maldito – vês como tudo volta/ao silêncio? Esta visão se sobrepõe ao teu corpo/Seres e coisas se movem vertiginosamente/troca-se os pares dispõem-se as janelas/Rotativo é o céu por sobre as nossas cabeças//ondulam os barcos no porto ondulam//o sangue hibernante”.

Ontem o telefone tocou. A voz da escritora Irene Lucília anunciou-me que o poeta escolheu as nuvens para morada dos seus poemas.