5 de novembro de 2012

Afonso Costa (poeta?) e Manuel Ferreira da Silva


De Afonso Costa, exilado em Paris, se falou na última sessão do Clube de Leitura.
A propósito, alguém citou, de cor uma quadra do político que tinha (e a família tem, ainda hoje), uma casa (Villa Alzira), e um barracão volumoso (ainda conhecido, na zona, por "Garagem do Afonso Costa") em zona arejada da Serra da Estrela, nas Penhas Douradas, alcandorados sobre a vila de Manteigas.
Escreveu ele, a amigo, em Portugal:
Suivez moi, dans mon village
Et je vous direz coisas meigas,
La ville, la bas, c'est fromage...
Fromage, non; c'est Manteigas.

Sobre o mesmo local encantador, escreveu, mais tarde, um manteiguense ilustre, Manuel Ferreira da Silva:
Quem, um dia, quiser ver o rosto a Deus,
Iluminado à luz que eterna, brilha,
Suba à montanha, até tocar os céus,
E cisme um pouco em tanta maravilha!

Para que se não percam...

3 de novembro de 2012

MARIO QUINTANA

Casa de Cultura Mario Quintana, Porto Alegre-RGS, 15-10-2012
O PROFETA
Para os homens, que eram cegos,
Tu querias, Profeta, dizer a Verdade
E os olhos dos homens iluminaram-se de êxtase:
As tuas palavras estavam cobertas, ajaezadas, escorrentes  
                                                                                          [de poesia
Como esses cadáveres floridos de algas e espumas que as
                                          [dragas  levantam do fundo do abismo…
Tu quiseste dizer Verdade e disseste a Beleza!
E choraste.
Mas os anjos sorriam-te…
Porque a Beleza é a forma angélica da Verdade.
 
 
MARIO QUINTANA, Apontamentos de História Sobrenatural,
lido na sessão de 2 de Novembro.


2 de novembro de 2012

PORQUE, Sophia de Mello Breyner Andresen

Porque os outros se mascaram mas tu não.
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se comprem e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


Caminhos da Moderna Poesia Portuguesa, edição de Ana Hatherly, Lisboa, Direcção-Geral do Ensino Primário, 1961, p. 96.

(lido na sessão de 12 de Outubro de 2012)

27 de outubro de 2012

de certeza que algo se vai passar...

Pendia a cada passo. Na cara enrugada, a boca distendia-se num riso canalha e os olhos, que nunca fitavam ninguém, pareciam guardar uma névoa que alastrava como se constantemente chorassem lágrimas que nunca caíam [...]

Manuel da Fonseca, «Névoa», Aldeia Nova, 7.ª edição, Lisboa, Editorial Caminho, 1984, p. 81.

(imagem)

26 de outubro de 2012

LIBERDADE, Sophia de Mello Beyner Andresen

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

in Ana Hatherly, Caminhos da Moderna Poesia Portuguesa, Lisboa, Direcção-Geral do Ensino Primário, 1960, p. 41.

(lido na sessão de  de 12 de Outubro de 2012)

25 de outubro de 2012

OS NAVEGADORES, Sophia de Mello Breyner Andresen

Eles habitam entre um mastro e o vento.

Têm as mãos brancas de sal
E os ombros vermelhos de sol.

Os espantados peixes se aproximam
Com olhos de gelatina.

O mar manda florir seus roseirais de espuma.

No oceano infinito
Estão detidos num barco
E o barco tem um destino
Que os astros altos indicam.

in Ana Hatherly, Caminhos da Moderna Poesia Portuguesa, Lisboa, Direcção-Geral do Ensino Primário, 1960, p. 33.

(lido na sessão de  de 12 de Outubro de 2012)

15 de outubro de 2012

ANNO DOMINI 1348

Estive directamente envolvido na (a)parição do Anno Domini 1348 (Prémio Ferreira de Castro / 1989), por razões profissionais. Há mais de vinte anos já...
Releio-o passado todo este temp -- e que bem se porta o livro, que bem ele se aguenta! O que é ainda mais digno de registo, tendo esta sido a primeira obra de ficção publicada por Sérgio Luís de Carvalho, então um jovem medievalista sem nome na ficção, ao contrário do que hoje sucede.

Em três penadas, o que registei no fim desta esplêndida releitura:
1) A história social e mental medieval está presente sem que o historiador surja como um intruso no trabalho do ficcionista. A informação é-nos dada (com fidedignidade, acrescento) currente calamo, afastando a desagradável sensação de ter sido despejada no meio da acção, por didactismo ou excesso de especialização. Não há aqui outro imperativo que não seja o da boa economia narrativa.
2)  O protagonista, João Lourenço, tabelião que realmente existiu em Sintra e foi vitimado pela Peste Negra, como o atesta a documentação da época (três fragmentos são publicados no final, em apêndice), passa a última semana de vida a redigir o testamento, pretexto para uma rememoração do tempo perdido: a infância, a aprendizagem do tabelionado, o amor, os acidentes em que a vida de todos nós é fértil.  É uma personagem com densidade psicológica; interpela Deus, e nesse diálogo evidencia-se uma moderna (e propositadamente anacrónica) consciência de individualidade -- como será moderna a consciência da humanidade do Outro que se verifica em relação aos judeus. A propósito, o episódio da judiaria de Sintra é um dos momentos do livro, que nunca baixa o patamar elevado em que o autor soube colocar a narrativa.
3) Sendo um romance, no que respeita à bibliografia sintrense, Anno Domini 1348 é uma obra que nela fundamente se inscreve. Não é impunemente que se recria o passado de um modo tão contemporâneo.

Transcrevo parte da crítica de Daniel Bermond, na revista Lire de Novembro de 2003 (Le Bestiaire Inachevé, na tradução francesa), que encontrei no sítio do escritor: «Transparece destas páginas fortes uma gravidade que sustenta a graça de um língua que poderia se a adas orações e dos salmos. Uma pequena obra-prima de uma austeridade sumptuosa.»

13 de outubro de 2012

"Atentai no dragão."*



Fresco de San Pietro al Monte, Civate, séc. XI.
(imagem)

* Sérgio Luís de Carvalho, Anno Domini 1348, Sintra, Câmara Municipal, 1990.

9 de outubro de 2012

Carlos Ceia, 51

Carlos Ceia nasceu em Portalegre, a 9 de Outubro de 1961.

5 de outubro de 2012

Diderot, 299

Denis Diderot nasceu em Langres, na Champagne, em 5 de Outubro de 1713.

17 de setembro de 2012

José Régio 111

José Régio (José Maria dos Reis Pereira) nasceu em Vila do Conde, a 17 de Setembro de 2001.

12 de setembro de 2012

LUSITÂNIA, Sophia de Mello Breyner Andresen

Os que avançam de frente para o mar
E nele enterram como uma aguda faca
A proa negra dos seus barcos
Vivem de pouco pão e de luar.

in Ana Hatherly, Caminhos da Moderna Poesia Portuguesa, Lisboa, Direcção-Geral do Ensino Primário, s.d.

(lido na sessão de 7 de Setembro de 2012)

10 de setembro de 2012

AS PUPILAS DO SENHOR REITOR

(a Liberto Cruz)

Recusas abandonar essas páginas
O estilo dúctil perfeito enganoso
Na aparência os dramas modelados
Pela elegância das frases rejeitas

A fealdade do presente a
Profanação da inocência
Das crianças o aviltamento
Escravo a prostituição dos
Coetâneos o lixo

Não largas o teu júlio dinis

Mas repara bem escava-lhe a prosa
Maviosa a doce prosódia das personagens
E lerás também a nudez forte da verdade
A miséria moral a velhacaria a cupidez.
 
(POSTADO TAMBÉM AQUI)

8 de setembro de 2012

Bar cubano cria cocktail gigante em homenagem a Hemingway

via 

Ernest Hemingway, que viveu durante cerca de 20 anos em Cuba, foi homenageado por um bar em Havana que recriou, no dia em que celebraria 113 anos, um daiquiri gigante. Pelas suas dimensões, o cocktail terá conseguido um lugar no Guiness Book Of World Records.

Os Olhos Castanhos vistos por Alves Coelho

Teus olhos castanhos
de encantos tamanhos
são pecados meus,
são estrelas fulgentes,
brilhantes, luzentes,
caídas dos céus,
Teus olhos risonhos
são mundos, são sonhos,
são a minha cruz,
teus olhos castanhos
de encantos tamanhos
são raios de luz.

Olhos azuis são ciúme
e nada valem para mim,
Olhos negros são queixume
de uma tristeza sem fim,
olhos verdes são traição
são crueis como punhais,
olhos bons com coração
os teus, castanhos leais.

Os Olhos Castanhos vistos por Júlio Dinis

Morena, morena
Dos olhos castanhos,
Quem te deu morena,
Encantos tamanhos? 

Encantos tamanhos
Não vi nunca assim.
Morena, morena
Tem pena de mim.

Morena, morena
Dos olhos rasgados,
Teus olhos, morena,
São os meus pecados.

São os meus pecados
Uns olhos assim.
Morena, morena
Tem pena de mim.

Morena, morena
Dos olhos galantes,
Teus olhos morena
São dois diamantes.

São dois diamantes
Olhando-me assim.
Morena, morena
Tem pena de mim.

Morena, morena
Dos olhos morenos,
O olhar desses olhos
Concede-me ao menos.

Concede-me ao menos
Não sejas assim.
Morena, morena
Tem pena de mim.

Ray Bradbury homenageado em Marte


A NASA anunciou recentemente que o lugar onde a sonda Curiosity aterrou será designado Bradbury Landing, em homenagem ao autor de The Martian Chronicles, recentemente falecido.Via Blogtailors - o blogue da edição.  

7 de setembro de 2012

«As Pupilas do Senhor Reitor», segundo Herculano, Eça e Camilo

Na indispensável Biografia de Júlio Dinis, Liberto Cruz recolhe algumas apreciações contemporâneas sobre As Pupilas do Senhor Reitor, o primeiro romance que lhe saiu dos prelos (1867).
Para Alexandre Herculano tratava-se d'"o primeiro romance português" (p. 129); Eça de Queirós (cuja frase assassina n'As Farpas, à data da morte do escritor notava que este "vive[ra] de leve, escreve[ra] de leve, morre[ra] de leve") defendera ou defenderá (desconheço a data) que As Pupilas "era um livro real. Surgia no meio duma literatura artificial" (ibidem); já Camilo Castelo Branco, em carta a António Feliciano de Castilho, depois de lido "As Pupilas do Abade" (sic) -- era tramado o sacrista do Camilo... -- notava, quem sabe se divertido se despeitado: "Aquilo é rebate de entroixar eu a minha papelada e desempecer a estrada à nova geração" (p. 130)...

Liberto Cruz, Biografia de Júlio Dinis, Lisboa, Círculo de Leitores, 2006.

6 de setembro de 2012

É a Espanha!...

Na tarde que cai, ergue-se, claro, o latim andaluz dos salmos.

Juan Ramón Jimenez, Platero e Eu, tradução de José Bento, Lisboa, Livros do Brasil, s.d., p. 67.

1 de setembro de 2012

Olhò Júlio Dinis!... (2)

Um frequentador do Clube de Leitura - que já declarou a sua intenção de não faltar à sessão das Pupilas - confraternizando com Júlio Dinis, no Funchal, em Novembro de 2011. Foto minha.

29 de agosto de 2012

Olhò Júlio Dinis!...

Muito refrescante, em final de férias, a leitura d'As Pupilas do Senhor Reitor, com mais de 150 anos de literatura em cima.


10 de agosto de 2012

Jorge Amado, 100

Jorge Amado nasceu há cem anos, na fazenda Auricídia, Ferradas, município de Itabuna, na Bahia.

21 de julho de 2012

Ernest Hemingway, 123

Ernest Hemingway nasceu em Oak Park, no Illinois, em 21 de Julho de 1899

17 de julho de 2012

Se te dissesse..., Richard Zimler

Se te dissesse
que as andorinhas madrugadoras de Lisboa
me falam das suas alegrias e misérias
na linguagem da pedra e das bougainvilleas
compreender-me-ias?

O primeiro poema escrito em português pelo autor, a pedido do DN, que queria um breve texto para comemorar o dia de S. António e que falasse dele ou de Lisboa.

Pirâmide Alimentar

Ray Bradbury inspira novo código de Internet

 "O código 404, que serve para indicar aos utilizadores de Internet que uma página não se encontra disponível, ou que não é possível encontrar, é provavelmente o mais conhecido da rede. Mas, após o falecimento do autor de Fahrenhein 451, um novo código foi criado em sua homenagem: o 451, que servirá para assinalar páginas de Internet cujo conteúdo não pode ser acedido devido a censura governamental."
in Blogtailors - o blogue da edição

11 de julho de 2012

AS ROSAS, Sophia de Mello Breyner Andresen

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.

Um Ramo de Rosas -- Colhidas por José da Cruz Santos na Poesia Portuguesa e Estrangeira, Porto, Modo de Ler, 2010, p. 52

(lido na sessão de 6 de Julho de 2012)

7 de julho de 2012

Carlos Daniel apresenta novo livro


O nosso colega de tertúlia Carlos Daniel vai apresentar o seu novo livro na FNAC DO COLOMBO, no dia 15 de Julho - domingo, pelas 18 horas.

Chama-se " A MORTE DO REI DE ESPANHA" e conta a história de um jovem que vê o seu pai injustamente condenado pelos horrosos crimes de Cádis, ocorridos na década de 80, e que elege o rei de Espanha como alvo da sua vingança.

Fala também do tempo e dos acasos, da paixão e das ilusões de que somos capazes e sobre as quais edificamos a nossa vida.

25 de junho de 2012

George Orwell, 109

George Orwell (pseudónimo de Eric Arthur Blair, nasceu em Motihari, Bihar (Índia),
a 25 de Junho de 1903