Sem qualquer menosprezo pelo autor, que não tenho o prazer de conhecer ainda, tenho a dizer que me sinto surpreendido com o quilate desta obra. Uma escrita fluente, madura, cheia de pitoresco, a fazer lembrar o melhor Saramago. Encontrei páginas luminosas, de antologia!
21 de maio de 2014
19 de maio de 2014
um parágrafo de Apollinaire
«Recuei de imediato, com medo de pisá-la. Receava fazer-lhe mal. Sentia uma piedade imensa pelo seu abandono. Mas, de repente, num acto de correspondência inexplicável, pareceu-me que ela me dava a entender que era feliz, e que os seus soluços outra coisa não eram que soluços de ventura, que havia nela uma vida imortal que lhe permitia sobreviver ao corpo desaparecido e enlear-se em tudo o que este havia acarinhado. A felicidade dessa sombra era feita da sua presença nesses locais que havia frequentado.»
Excerto de «O passeio da sombra», conto de Guillaume Apollinaire, lido na sessão de 14 de Maio.
15 de maio de 2014
O QUE EU LI NA 2ª SESSÃO DAS QUARTAS - O BARÃO DE MINHINHONHÁ
Pelas conversações que o Imperador teve em Lisboa [D. Pedro II do Brasil], soube-se que existe no Rio de Janeiro – e é ilustre e preponderante – um homem que possui este título:
Barão de Minhinhonhá!
Se assim é – e se há ainda algum rasto de dignidade nacional, pedimos a intervenção enérgica do governo.
Um país não deixa esbofetear no estrangeiro os seus cidadãos, nem rasgar a sua bandeira: desforram-se à bala estas humilhações da honra.
Ora a bochecha do cidadão ou o paninho azul e branco não têm mais direito ao respeito público que a língua nacional. Arrastar pelo chão do grotesco, – uma língua – até ao vocábulo Minhinhonhá, é desfeitear a inteligência de uma nação, a austera dignidade da sua palavra, o verbo do seu pensamento, a literatura e a memória dos puristas, e a inviolabilidade da sua ideia.
Minhinhonhá – é uma nódoa, é um pingo de lama, é um traço de saliva, é um espapado de gordura, – na pureza altiva de uma língua, onde sucessivamente veio depor a essência da sua alma, a geração venerada que vai de Bernardim Ribeiro a Garrett.
Se os srs. brasileiros não podem coibir-se de vir para o português de frei Luís de Sousa e de António Vieira, deixar escorrer aquele melaço fluido e baboso que lhes sai dos beiços – quando falam – tenham a bondade de pôr entre a sua palavra e a nossa língua – uma bacia! Vocábulos daqueles não se depositam num dicionário respeitável, atiram-se para uma escarradeira. Os srs. brasileiros tenham a bondade de falar – para a rua, ou nos seus lenços!
E o governo, se tem dignidade, deve pelos seus agentes diplomáticos pôr cobro àquele extravasamento do brasileiro sobre o português de Camões. Os srs. do Brasil que dêem uma direcção à sua linguagem – de modo que não venha cair como um enxurro sobre os nossos dicionários que passam. Em último caso que a canalizem! E assim o brasileiro que tiver a expelir um período eloquente ou uma frase sublime, já não se aproxima da nossa gramática – dirige-se logo à sargeta!
Esperamos tranquilos as decisões dos poderes públicos.
(Fevereiro de 1872)
RAMALHO ORTIGÃO, As Farpas, coordenação de Maria Filomena Mónica, Cascais, Principia-Publicações Universitárias e Científicas, 2004, pp. 389 e 390.
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8 de maio de 2014
da 1.ª Sessão das Quartas
Ontem leu-se variado e bem. Como estávamos no Museu Ferreira de Castro, foi a ele que coube inaugurar esta nova sessão das quartas: seguiram-se Pepetela, João Ricardo Pedro, Miguel Real, Franz Kafka, Eça de Queirós, Maria do Rosário Pedreira, Bertolt Brecht, Adelino Caldeira, e até dois folhetos: um sobre a morte de Alves Redol, em 1969, e a lista dos candidatos da CDE no distrito de Lisboa, para o simulacro de eleições havido no mesmo ano, creio, com candidatos que dariam (e alguns ainda dão) que falar...
Aqui ficam algumas linhas das minhas escolhas:
Ferreira de Castro, «Delfim Guimarães» (a propósito da morte do seu editor): "[...] Tenho conhecido muita gente. Uns, mascarados, às esquinas da vida; outros, colocados ao sol, espírito aberto à compreensão, que tudo justifica e tudo absolve, à solidariedade humana, ao amor pelos que sofrem e até por aqueles que parecem não sofrer... [...]". In Memoriam de Delfim Guimarães (1934)
Eça de Queirós, em carta a Jaime Batalha Reis, defendendo-se de não ter participado o seu casamento: "[...] Mil trovões! Estás tu certo disso? O quê! Eu não te disse que ia casar, -- falando de pé, com um gesto largo, lá na casa de Langham St.?... / Bem diz o Santo Antero, como ja o ensinara o Buda divino! Tudo é nada: só há aparencias: o universo é uma grande ilusão: a única realidade é o não-ser! [...]". Cartas Inéditas de Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, Batalha Reis e Outros (edição de Beatriz Berrini, 1987).
Sarah Adamopoulos, «A Marylin»: "[...] Todos os dias ela ia morrer. Acontecia-lhe em qualquer lugar. Podia ser no supermercado junto às arcas dos ultracongelados. Convencia-se de que ia ter um colapso cardíaco ou uma hemorragia cerebral e imaginava-se a cair e a ficar com a cabeça colada às embalagens dos panadinhos Capitão Iglo. [...]". A Vida Alcatifada (1997)
Bertolt Brecht, «Desfile do povo alemão»: "Decorridos cinco anos nos disseram / que aquele que a si próprio se intitula / enviado de Deus já aprontou / sua guerra, os armamentos; / [...]". O Terror e a Miséria no Terceiro Reich (1938 - tradução de Fiama Hasse Pais Brandão).
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O olho de vidro
Browning a tiracolo, verificou o tabaco e as mortalhas, esqueceu-se do relógio pendurado num prego que também segurava um calendário e saiu porta fora. O céu começava a clarear. Ou talvez nem sequer tivesse começado a clarear. Por cima das sopas de café com leite, Celestino emborcara, sem esforço, dois tragos de bagaço. O primeiro, para a azia. O segundo, para os pensamentos cismáticos, que ele, como, aliás, todos os traços fisionómicos sugeriam, era homem dado a prolongadas melancolias.
Por volta das onze horas da manhã, nenhum vento de mudança fora ainda sentido por aqueles que viviam da cruel aritmética dos alqueires, dos cinchos, das safras, das luas, das maleitas, das malinas, das geadas. Nos campos, homens e mulas rasgavam a terra em irrepreensíveis geometrias, enquanto, na penumbra dos currais, embaladas por ladainhas que os próprios lábios iam tecendo, as mulheres atestavam as gamelas dos porcos, das cabras, dos filhos. E, se alguém tivesse o desplante de interromper os seus laboriosos afazeres para lhes comunicar que, naquele preciso momento, o Presidente do Conselho de Ministros de Portugal se encontrava encurralado num quartel de Lisboa, cercado por soldados que exigiam a sua rendição, o mais certo seria obter como resposta um olhar de absoluta indiferença.
É que naquela pequena aldeia com nome de mamífero, encalacrada num sopé da Serra da Gardunha, voltada para sul sem consciência de que estava voltada para sul, a única exceção àquele total alheamento acerca dos destinos da pátria, como se a pátria fosse um lugar longínquo, era a casa do doutor Augusto Mendes, onde, numa espécie de gabinete de crise, se encontravam reunidas as suas mais ilustres personalidades: Adolfo, Bocalinda, Larau, padre Alberto, Fangaias e, claro está, o anfitrião, o doutor Augusto Mendes.
[...]
Excerto do primeiro capítulo de O Teu Rosto Será o Último, João Ricardo Pedro, Leia (BIS).
(Sessão de 7 de Maio de 2014)
Ficou vazio o teu lugar à mesa, Mª do Rosário Pedreira
à Avó
Ficou vazio o teu lugar à mesa. Alguém veio dizer-nos
que não regressarias, que ninguém regressa de tão longe.E, desde então, as nossas feridas têm a espessura
do teu silêncio, as visitas são desejadas apenas
a outras mesas. Sob a tua cadeira, o tapete
continua engelhado, como à tua ida.
Provavelmente fiará assim para sempre.
No outro Natal, quando a casa se encheu por causa
das crianças e um de nós ocupou a cabeceira,
não cheguei a saber
se era para tornar a festa menos dolorosa,
se para voltar a sentir o quente do teu colo.
in A Casa e o Cheiro dos Livros, Gótica, Lisboa, 2002.
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| à minha mãe |
7 de maio de 2014
José Marmelo e Silva, 103
6 de maio de 2014
um romance canónico
Barranco de Cegos (1961) conta o fim de um tempo, entre o Ultimato inglês (1890) e o pós-5 de Outubro de 1910, e revela-nos uma família de grandes lavradores ribatejanos, cujo chefe é uma personagem inesquecível: Diogo Relvas, homem excessivo, cruel e reaccionário, fiel a uma tradição agrária que vê na terra as virtudes ancestrais duma nação, e no desenvolvimento industrial a condenação da pátria, motivada pela cupidez e pela ambição de poder de uma elite cega -- cegos conduzindo cegos, uns e outros na iminência de caírem num barranco, de onde dificilmente se sairá. Relvas carrega consigo o peso dos antepassados, regendo-se por uma ética abstracta, inflexível quanto ao essencial -- a manutenção do poder: simbólico, através dos cerimoniais do mando, e de facto, pela posse efectiva do agro; inflexível no essencial, moderadamente maleável quanto a questões mais prosaicas. As restantes personagens, em especial os filhos, órfãos de mãe, débeis, volúveis -- um deles esmagado pelo peso excessivo do progenitor --, as duas filhas, Milai e Maria do Pilar, fortes e marcadas, complexas no lidar com o patriarca, dão profundidade ao romance. Outras personagens secundárias, em especial as populares, são também fundamentais; mas esta é uma história de senhores, homens senhores doutros homens.
No prefácio que escreveu em 1964, Mário Dionísio, que não era de elogio fácil e se afastara já do PCP, na sequência do Relatório Krushchov, não hesita em classificar o livro como "um dos grandes romances de toda a nossa história literária".
Barranco de Cegos é, com efeito, literatura da boa, da que conta, da que interessa, da que constrói identidade, da que dá substrato à comunidade de que emana -- e também da que experimenta, da que burila, da que arrisca. Para além de todas as classificações que cada vez fazem menos sentido, a não ser numa abordagem historiográfica, trata-se de neo-realismo, e do melhor -- isto é: não evidenciando a vulgata que simplifica e sectariza, é suficientemente amplo para ser subscrito por todos quanto comungam de preocupações afins, sem que com isso o autor traia (e se traia) o escopo ideológico que lhe subjaz. O final do romance, magistral, traz-nos uma atmosfera que dir-se-ia paralela à do realismo mágico, que o recém-falecido Gabriel García Márquez consagraria anos mais tarde.
Redol é, sempre foi -- mesmo no inaugural Gaibéus (1939) -- um romancista de raça, um criador de mundos, de atmosferas, de personagens de carne e osso. Barranco de Cegos evidencia-o de tal forma que -- para desgosto de alguns cadáveres -- se inscreve duradouramente no nosso cânone literário.
Em tempo: informou-me António Redol que Mário Dionísio saiu do PCP em 1951, antes, portanto, da divulgação do célebre Relatório (algo que eu cria ter lido na Autobiografia do próprio Dionísio, mas, pelos vistos fui atraiçoado pela minha memória -- o que, infelizmente, é frequente). Substituí também o adectivo "incipiente", relativo a Gaibéus, pelo neutro "inaugural", menos equívoco quanto ao meu ponto de vista.
No prefácio que escreveu em 1964, Mário Dionísio, que não era de elogio fácil e se afastara já do PCP, na sequência do Relatório Krushchov, não hesita em classificar o livro como "um dos grandes romances de toda a nossa história literária".
Barranco de Cegos é, com efeito, literatura da boa, da que conta, da que interessa, da que constrói identidade, da que dá substrato à comunidade de que emana -- e também da que experimenta, da que burila, da que arrisca. Para além de todas as classificações que cada vez fazem menos sentido, a não ser numa abordagem historiográfica, trata-se de neo-realismo, e do melhor -- isto é: não evidenciando a vulgata que simplifica e sectariza, é suficientemente amplo para ser subscrito por todos quanto comungam de preocupações afins, sem que com isso o autor traia (e se traia) o escopo ideológico que lhe subjaz. O final do romance, magistral, traz-nos uma atmosfera que dir-se-ia paralela à do realismo mágico, que o recém-falecido Gabriel García Márquez consagraria anos mais tarde.
Redol é, sempre foi -- mesmo no inaugural Gaibéus (1939) -- um romancista de raça, um criador de mundos, de atmosferas, de personagens de carne e osso. Barranco de Cegos evidencia-o de tal forma que -- para desgosto de alguns cadáveres -- se inscreve duradouramente no nosso cânone literário.
Em tempo: informou-me António Redol que Mário Dionísio saiu do PCP em 1951, antes, portanto, da divulgação do célebre Relatório (algo que eu cria ter lido na Autobiografia do próprio Dionísio, mas, pelos vistos fui atraiçoado pela minha memória -- o que, infelizmente, é frequente). Substituí também o adectivo "incipiente", relativo a Gaibéus, pelo neutro "inaugural", menos equívoco quanto ao meu ponto de vista.
5 de maio de 2014
As sessões das quartas: alguns dos próximos convidados
O Clube de Leitura do Museu Ferreira de Castro passará a realizar-se também às quartas-feiras, entre as 18 e as 20 horas, excepto a última do mês. Ao contrário das sessões das primeiras sextas-feiras -- em que é debatido um livro previamente lido --, às quartas cada pessoa lerá para os restantes confrades contos, poemas, crónicas, correspondência, páginas de diário, excertos de romances, etc. Ferreira de Castro continuará a receber convidados no seu Museu:
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Paul Auster,
Ruben A.,
Sarah Adamopoulos
27 de abril de 2014
Reverberações, Vasco Graça Moura
das
palavras tinha
a incerta
medida
de eu viver a
minha
e
em contrapartida,
como se
adivinha,
a letra
corrida,
que fiz,
encaminha
uma
ressonância
em que
transformei
tudo, desde a
infância
quanto
experimentei,
perto ou à
distância
para o que
escutei.
21 de abril de 2014
15 de abril de 2014
Aldeia da Palhota
No passado mês , visitei a aldeia avieira da Palhota, onde Alves Redol viveu vários meses. O espaço é gerido pela Associação Palhota Viva e é possivel pernoitar na Casa do Avieiro, que permanece idêntica e que recomendo.


Para mais informações:
Pedro Santos - 963752615


![]() |
| Saudações Escotistas! |
Para mais informações:
Pedro Santos - 963752615
Tânia Simões - 926564424
Email: palhotaviva@gmail.com
4 de abril de 2014
desrazões
Narrativa habilmente entretecida entre passado e presente, fluindo à medida dessa Helena comedida, mas de ideias firmes, oriunda da pequena burguesia lisboeta. O tempo é o dos últimos sessenta anos, da opressão à libertação, da PIDE ao Facebook, da carência à abundância para a qual, dizem, não tínhamos possibilidades. Opressão e libertação, não apenas da cidadania, mas da própria condição da mulher portuguesa, cidadã de terceira num universo de preconceito e tabus, ontem; emancipada, em boa medida, hoje -- inclusivamente na sexualidade, de que a filha, Yolanda, é exemplo; ou, ainda, o mundo novo da net, protagonizada por Joana, em paternalista interacção com a avó.
Na noite de mediocridade e pobreza (também moral) que foi o Estado Novo, Delgado foi o fogo-fátuo que a iluminou brevemente, para desaparecer de imediato -- excepto na memória de todos quantos viveram aquele período de ilusão.
O Eléctrico 16 é igualmente um relato dos amores possíveis, os que se efectivaram, uns na carne, no espírito, outros, sabendo-se que os vários homens e mulheres que existem dentro de nós nunca se conformam com a domesticação que a (des)razão e a civilidade impõem.
Filomena Marona Beja, O Eléctrico 16, Lisboa, Divina Comédia, 2013.
31 de março de 2014
"O ELÉCTRICO 16"
Peguei hoje
no livro, depois de ter passado os olhos pelas notícias do dia: Medvedev visita
a Crimeia, Hollande perde nas municipais, anuncia-se um “alerta amarelo” para
toda a costa portuguesa e realiza-se – o que pode ser o pior de tudo – um conselho
de ministros extraordinário. Acredito que nada disto me vai impedir de acabar a
leitura: quarenta e tal páginas já cá cantam. E que páginas!
23 de março de 2014
EFEITO MÁGICO DAS LUZES
EFEITO MÁGICO DAS LUZES
A
Vasco Graça Moura,
CCB,
22.03.2014
vou
pelos vestígios de luz das palavras
com
as quais ilumino a tarde
compondo horas menos solares?
vou pelos vestígios de
luz, disse
assim ouço melhor
algumas vozes,
o ciciar
do vento também
o real?
vou
pelos vestígios,
escavando
na casca do poema-vivo
o
efeito mágico de luzes, algures.
21 de março de 2014
POEMA EM PROGRESSO
TORSO DE MULHER
Derrubado entre musgos
o mármore antiquíssimo
consome no espaço do colo
a matutina e frígida luz.
15 de março de 2014
CADERNOS CALIBAN
Máscara de Angoche
Lourenço Marques, 1971. Capa e segunda página de um dos preciosos "Cadernos Caliban", adquirido naquela cidade do Índico no ano da sua publicação. A coordenação destes cadernos de poesia estava a cargo de J. P. Grabato Dias e Rui Knopfli. Além dos coordenadores, colaboraram neste número Jorge de Sena, Eugénio Lisboa (com uma tradução de T. S. Eliot), José Craveirinha, Rui Nogar, Sebastião Alba e Jorge Viegas.
Caliban é personagem de A Tempestade, de W. Shakespeare. J. P. Grabato Dias era um dos pseudónimos de António Quadros (pintor).
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Sebastião Alba
9 de março de 2014
POESIA E PROSA (II)
TEXTO ESQUISITO E ESCASSO (NÃO DÁ
PARA ADORMECER) ONDE SE FALA DO LEITO DE PROCUSTO, DE OUTROS MITOS E DE IDEIAS
DE GRANDES MESTRES MALBARATADAS PELO ESCREVENTE.
Um prosador qualquer desfruta fama
honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie;
E a mim, não há questão que mais me
contrarie
Do que escrever em prosa.
CESÁRIO
VERDE, “Contrariedades”
Respeite-se o sentimento do grande
Cesário, cada um nasce para a sua arte. “Contrariedades” é um belo poema:
dezassete quadras de rima interpolada (ABBA) estruturadas segundo três versos
de doze silabas (alexandrinos) com remate de um verso hexassilábico. Foi bom
ouvi-lo na sessão da passada sexta-feira do Clube de Leitura.
A opção entre verso rimado e verso branco,
como entre verso medido e verso livre, é hoje uma questão resolvida: a rima e a
métrica são auxiliares rítmicos do poema, mas são igualmente uma limitação do
poeta. Mário de Andrade, vulto grande do Modernismo brasileiro, escreverá em
1922 no “Prefácio interessantíssimo” de Pauliceia
Desvairada: “Não
acho mais graça nenhuma nisso da gente submeter comoções a um leito de
Procusto para que obtenham, em ritmo convencional, número convencional
de sílabas (…) Minhas reivindicações? Liberdade. Uso dela.”
Sem rima nem métrica, o que distingue
a poesia da prosa? Disse Shelley que “a distinção entre poetas e
prosadores é um erro vulgar”, acrescentando: “Um
poema é a própria imagem da vida, expressa na sua verdade eterna. Uma diferença
existe entre uma história e um poema, que é esta: uma história é um catálogo de
factos desligados, que não possuem nenhuma outra conexão que não seja o tempo,
lugar, circunstâncias, causa e efeito; o poema é a criação das acções de acordo
com as formas imutáveis da natureza humana, como existem no espírito do
Criador, que é ele próprio a imagem de todos os outros espíritos.” E Edgar Allan Poe não anda longe
desta ideia. Segundo ele, a diferença entre poema e romance é que aquele tem
por seu objecto um prazer indefinido, enquanto
o romance se realiza no domínio do prazer
definido. Ou seja: “O
romance apresenta imagens perceptíveis com sensações definidas, e a poesia com
sensações indefinidas, para cujo fim a música é uma parte essencial, dado que a nossa concepção mais indefinida é a
compreensão de um som doce.”
No prefácio-dedicatória de O Spleen de Paris, diz Baudelaire: “Qual de nós não sonhou, nos seus
dias de ambição, com o milagre de uma prosa poética, musical sem ritmo e sem
rima, suficientemente maleável e suficientemente contrastante para se adaptar
aos movimentos líricos da alma, às ondulações do devaneio, aos sobressaltos da
consciência?”
Não é então da condição perene da
poesia nem a rima nem a métrica. O poema pode estar disposto em prosa, a prosa
pode ser poesia. Assim o entendeu Wordsworth, para quem a arte verbal abriga, sob uma mesma concepção estética, tanto a
poesia metrificada como a prosa artística, sendo que “algumas das partes mais interessantes
dos melhores poemas pertencem rigorosamente à linguagem da prosa, quando a prosa é bem escrita.”
Confuso? Não será por falta de
clareza dos mestres citados; só se for pelo pouco jeito do escrevente que ainda
mal entende destas coisas e já se apressa em as “explicar” aos outros.
Desculpem-no lá, coitado.
Citações tiradas de:
= BAUDELAIRE, Charles – O Spleen de Paris, tradução de Jorge
Fazenda
Lourenço, Relógio de Água Editores,
2007.
= DOLOZEL, Lubomir – A Poética Ocidental, tradução de Vivina
de Campos Figueiredo, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1990.
= POE, Edgar Allan – Poética (textos teóricos), tradução de
Helena Barbas, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2004.
= RIBEIRO, Maria Aparecida – Literatura Brasileira, Lisboa,
Universidade Aberta, 1994.
= SHELLEY, Percy – Defesa da Poesia, tradução de J. Monteiro-Grillo, Lisboa, Editores
Reunidos, 1996.
= VERDE, Cesário – O Livro de Cesário Verde, Lisboa, Editora Ulisseia, s/d.
E em jeito de nota final: safa!, este
texto quase tem mais linhas de citações do que de escrita original. Uma verdadeira
arte de recorte e colagem!
8 de março de 2014
POESIA E PROSA (I)
Enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia
O poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:
Abaixo o mistério da poesia.
ANTÓNIO GEDEÃO, "Abaixo o Mistério da Poesia"
Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente, (...)
ALBERTO CAEIRO, O Guardador de Rebanhos, XXVIII
O poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:
Abaixo o mistério da poesia.
ANTÓNIO GEDEÃO, "Abaixo o Mistério da Poesia"
Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente, (...)
ALBERTO CAEIRO, O Guardador de Rebanhos, XXVIII
O GRITO DE DIGNA PARDO ANTE A QUEDA MORTAL
DE SEU AMO JUVENAL URBINO*
Foi às quatro horas e sete minutos da
tarde de Domingo
de Pentecostes, pairavam nos ramos
altos da mangueira
as línguas flamejantes do divino
Paracleto. O calor prenunciava
a chuva, o mar rumorejava dentro de
todos os búzios.
O papagaio palrava insídias e uma
escada romba preparava-se
para escrever uma página da história
da infelicidade.
Nem sequer teve tempo de encomendar a
alma: o corpo
desprendeu-se da árvore como um fruto podre
lançado ao solo em súbita demolição de
músculos e ossos,
e nenhum anjo-da-guarda saiu dos catecismos para lhe aparar
a queda. O grito da criada, Digna
Pardo de seu nome, trespassou
de pânico as cúpulas de ouro da
cidade velha, os pássaros
calaram-se, enquanto Deus,
indiferente ao destino dos homens,
sorria de ócio e tédio na sombra roxa
da sua eternidade.
* Digna Pardo e Juvenal Urbino
são personagens de Gabriel García Márquez em O Amor nos Tempos da Cólera
7 de março de 2014
para sempre seja louvada!...
6 de março de 2014
O amor antigo, Carlos Drummond de Andrade
O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.
O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.
Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
a antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.
Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.
O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.
Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
a antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.
Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.
(Sessão de 7 de Março)
Gabo, 87
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Gabriel García Márquez
5 de março de 2014
assim começa O AMOR NOS TEMPOS DE CÓLERA:
«Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas recordava-lhe sempre o destino dos amores contrariados. O doutor Juvenal Urbino senti-o assim que entrou na casa, ainda mergulhada em penunbra, onde fora de urgência para tratar um caso que, para ele, já tinha deixado de ser urgente há muitos anos. O refugiado antilhano, Jeremiah de Saint-Amour, inválido de guerra, fotógrafo de crianças e o seu mais tolerante adversário de xadrez, tinha-se posto a salvo das inquietações da memória com um defumador cianeto de ouro.»
Gabriel García Márquez, O Amor nos Tempos de Cólera [1985], tradução de Margarida Santiago, 2.ª ed., Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987.
26 de fevereiro de 2014
Victor Hugo, 212
13 de fevereiro de 2014
7 de fevereiro de 2014
CANTIGA, Francisco Rodrigues Lobo
Vai Vilante a ver o gado,
Mas não vê Sol levantado
Que vê primeiro a Vilante.
VOLTAS
É tanta a graça que tem
Com uma touca mal envolta,
Manga de camisa solta,
Faixa pregada ao desdém,
Que se o Sol a vir diante
Quando vai mungir o gado
Ficará como enleado
Ante os olhos de Vilante.
Descalça às vezes se atreve
Ir em mangas de camisa,
Se entre as ervas neve pisa
Não se julga qual é neve;
Duvida o que está diante
Quando a vê mungir o gado,
Se é tudo leite amassado,
Se tudo as mãos de Vilante.
Se acaso o braço levanta
Porque a beatilha encolhe,
De qualquer pastor que a olhe
Leva a alma na garganta;
E inda que o Sol se alevante
A dar graça e luz ao prado,
Já Vilante lha tem dado,
Que o Sol tomou de Vilante.
José Régio, Poesia de Ontem e de Hoje para o Nosso Povo Ler, Lisboa, Campanha Nacional de Educação de Adultos, 1956, pp. 25-27.
(lido na sessão de 3 de Janeiro de 2014)
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3 de fevereiro de 2014
Qual a sua leitura favorita em 2013?
Findo o
período de votação, com a participação de 16 leitores, o alinhamento de
leituras favoritas do Clube foi:
8 votos:
Se Isto é um
homem, de Primo Levi
4 votos:
O que Diz
Molero, de Dinis Machado
O
Malhadinhas, de Aquilino Ribeiro
3 votos:
Os
Fragmentos, de Ferreira de Castro
O Processo,
de Franz Kafka
O Deus das
Pequenas Coisas, de Arundhati Roy
2 votos:
Contos, de
José Régio
Os Milagres
do Anti-Cristo, de Selma Lagerlöf
1 voto:
Orlando, de
Virginia Woolf
Um, Ninguém
e Cem Mil, de Luigi Pirandello
Sem votação:
A Morte do
Rei de Espanha, de Carlos Daniel
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