3 de outubro de 2011

"Satana, vade retro, apage, Satana"

Aquilo que começou como uma joyeuse mystification, deu um grande romance que vai proporcionar uma próxima sessão muita animada.
De forma chã e clara, um insigne membro do clube de leitura chamou-lhe um embuste bem esgalhado. Em português é que nos entendemos!
Anseio por ouvir as opiniões dos nossos leitores, mormente a do prezado amigo que sugeriu a obra.

30 de setembro de 2011

A RELIGIOSA, segundo Jaime Brasil

     «O romance graças ao qual o nome de Diderot sobrevive como romancista é, sem dúvida, "A Religiosa". Romance realista, romance de costumes e de crítica social, foi escrito para condenar a tirania do pátrio poder e, ao mesmo tempo, a vida anti-natural dos conventos. [...]
     O romance é ousado por alvejar duas intituições que, então, mais ainda do que hoje, os preconceitos pretendem que sejam inatacáveis. Ousado ainda nas refrências às paixões lésbicas existentes nos conventos, sem contudo descer ao género licencioso, que alguns críticos pudibundos pretendem ver nele. [...]
     [...] "A Religiosa" é uma obra rica de diálogos, de frases curtas, de vivacidade, de pitoresco, demonstrando, mais do que qualquer outra,a riqueza e elegância do estilo de Diderot.»

Jaime Brasil, Diderot e a Sua Época, Lisboa, Editorial Inquérito, 1940, pp. 84-85.

o escritor e a oficina

«[...] além da tarefa de fazer o resumo das diversas escolas filosóficas e de tratar dos sinónimos, tinha escolhido para si todas as descrições das artes e ofícios. Como queria dar à obra um carácter eminentemente prático e expor a matéria com conhecimento de causa, ia às oficinas ver como se praticavam os diversos mesteres, como funcionavam as máquinas, como se chamavam e para que serviam os diversos utensílios. Não se contentava com ver e ouvir, pedia que lhe ensinassem o funcionamento, e ele próprio, graças a uma inteligência prodigiosa, executava, ante a surpresa dos artífices, os diversos trabalhos que depois descrevia. Assim aprendeu a tecer, a trabalhar no vidro, a imprimir, a burilar metais, etc., com tanta perfeição como os mais experimentados operários. Não esqueceu os mestres que lhe ensinaram essas artes, pois os nomes daqueles que lhe deram informações úteis nesse campo figuram na Enciclopédia -- coisa até então nunca vista -- ao lado dos de filósofos, artistas, homens de ciência.»

Jaime Brasil, Diderot e a Sua Época, Lisboa, Editorial Inquérito, 1940, pp. 72-73.

22 de setembro de 2011

Natureza e Homem em Ferreira de Castro

«Natureza e Homem em Ferreira de Castro: Imagens de uma relação», conferência pela nossa colega Ana Cristina Carvalho, sexta-feira, 23 de Setembro, pelas 18 horas, no Museu Ferreira de Castro. Apareçam!

imagem: Alex Gozblau

elogio do libertino

A moral que prègava era a sua moral, «sem obrigações nem sanções», moral voluntária e natural, sem conformismos convencionais. A sua vida de boémio foi apenas a dum libertino, na acepção que o termo tinha antigamente, isto é, de amante da liberdade, liberdade de acção e de expressão. 

Jaime Brasil, Diderot e a Sua Época, Lisboa, Editorial Inquérito, 1940, p.27.

da alquimia enciclopedista

Ao contrário dos medíocres, que só recebem do ambiente onde vivem o que há nele de estratificado, homens como Diderot sabem seleccionar o que é raro e colher no ar o pólen doirado do que parece insignificante, para o transformar em frutos opulentos.

Jaime Brasil, Diderot e a Sua Época, Lisboa, Editorial Inquérito, 1940, p. 25. 

21 de setembro de 2011

outro poema da Marquesa de Alorna

Como está sereno o Céu,
como sobe mansamente
a lua resplandecente,
e esclarece este jardim!

Os ventos adormeceram;
das frescas águas do rio
interrompe o murmúrio
de longe o som de um clarim.

Acordam minhas ideias,
que abrangem a Natureza,
e esta nocturna beleza
vem meu estro incendiar.

Mas se à lira lanço a mão,
apagadas esperanças
me apontam cruéis lembranças,
e choro em vez de cantar.

Poetas do Século XVIII, selecção, prefácio e notas de M. Rodrigues Lapa, 3.ª edição, Lisboa, Seara Nova, 1967.

(lido numa sessão de 2011)

Diderot, em traços largos

«Este homem portentoso, que soube ser iconoclasta e tolerante, era modesto e generoso como ninguém, mas como poucos orgulhoso dos seus méritos e ávido de riquezas para as distribuir. Visto a distância toma as proporções dum super-homem.  Era, porém, apenas um homem, com todas as misérias e toda a grandeza da condição humana. Sofreu muitas privações e angústias; andou mal vestido e passou fome; habitou em mansardas miseráveis; sujeitou-se a intoleráveis caprichos femininos e teve de molhar a sua pena nas tintas da adulação para retribuir a generosidade duma cabeça coroada, que lhe minorou com dinheiro algumas dificuldades materiais. Como todos os homens, aspirou à liberdade e sofreu a servidão.»

Jaime Brasil, Diderot e a Sua Época, "Nota do Autor", Lisboa, Editorial Inquérito, 1940, p. 9.

19 de setembro de 2011

um biógrafo português de Diderot

Antes de me lançar ao próximo livro, apeteceu-me reler a sucinta biografia Diderot e a Sua Época, de Jaime Brasil, publicada nos magníficos «Cadernos Culturais» da Editorial Inquérito, em Fevereiro de 1940.
Brasil foi um cultor do género biográfico, como poucos entre nós (Mário Domingues e Agostinho da Silva serão os casos mais salientes). Senhor de um grande estilo, jornalístico, na melhor acepção da palavra, dedicou-se a esquadrinhar as vidas de Ferreira de Castro (de quem foi grande amigo), Diderot, Victor Hugo, Zola, Rodin, Leonardo (esta recentemente reeditada), Velázquéz, Balzac... -- para além de outros géneros literários: da polémica à reportagem, da divulgação científica à bibliografia, sem esquecer as traduções ou a epistolografia, em que foi exímio.
Durante esta semana, colocarei uns pòzinhos deste estudo biográfico, que, diga-se, foi escrito em Paris, cidade em que se exilou até à ocupação alemã, que ainda viveu.

18 de setembro de 2011

olhar de frente

«O Bispo olhou-o. Era um homem igual a muitos outros. Lembrava a gente de Varzim. Tinha lama nos trapos e a escrita da fome na cara. Nas mãos havia um gesto de paciência. Um gesto muito antigo de paciência. E de repente pareceu ao velho Bispo que todo o abandono do mundo, todo o sofrimento, toda a solidão, o olhavam de frente no rosto daquele homem. Coisa difícil de olhar de frente.»

Sophia de Mello Breyner Andresen, «O jantar do Bispo», Contos Exemplares, Lisboa, Portugália Editora, s. d., p. 67.

A exemplaridade destes contos de Sophia, publicados em 1962 e prefaciados por D. António Ferreira Gomes, o bispo do Porto então no exílio.
Exemplaridade porque escritos sob a pureza de uma mensagem cristã, ao arrepio da Igreja oficial, comandada pelo cardeal Cerejeira, conivente com um país onde imperava a pobreza e o medo; Igreja que, cúmplice de um estado policial, se atraiçoava a si própria. Por isso, aqueles que não suportaram a mentira e olharam de frente, tiveram os destinos que são conhecidos. 

15 de setembro de 2011

e assim começa PLATERO E EU

Platero é pequeno, peludo, suave; tão macio, que dir-se-ia todo de algodão, que não tem ossos. Só os espelhos de azeviche dos seus olhos são duros como dois escaravelhos de cristal negro.

Juan Ramón Jimenez, Platero e Eu, tradução de José Bento, Lisboa, Livros do Brasil, s. d., p. 9.

13 de setembro de 2011

um poema da Marquesa de Alorna

Sozinha no bosque
com meus pensamentos,
calei as saudades,
fiz trégua a tormentos.

Olhei para a lua,
que as sombras rasgava,
nas trémulas águas
seus raios soltava.

Naquela torrente
que vai despedida
encontro, assustada,
a imagem da vida.

Do peito, em que as dores
já iam cessar,
revoa a tristeza,
e torno a penar.

Poetas do Século XVIII, selecção, prefácio e nytas de M. Rodrigues Lapa, 3.ª edição, Lisboa, Seara Nova, 1967, pp. 103-104.

(lido numa sessão de 2011)

a nossa equipa


Leonor de Almeida Portugal, 4.ª Marquesa de Alorna, por Pitschmann


9 de setembro de 2011

e assim escreveu Ferreira de Castro

Certamente existirá cópia (ou o original) no Museu. Vem na revista "a cidade", de Portalegre, número especial de Outubro de 1984, cujo exemplar me foi dado por um ilustre portalegrense. O autor de "Emigrantes" escrevia a Câmara Reys sobre um "MANIFESTO DOS INTELECTUAIS PORTUGUESES AO SEU PAIZ", manifesto que viria a ser assinado por 58 personalidades.

8 de setembro de 2011

e assim começa EMIGRANTES

Preta e branca, preta e branca, o preto mui luzidio e muito níveo o branco, a pega, de cauda trémula, inquieta, saracoteava entre carumas e urgueiras, esconde aqui, surge ali, e por fim erguia voo até a copa alta do pinheiro, levando no bico ramo seco ou graveto.


Ferreira de Castro, Emigrantes, 24.ª edição, Lisboa, Guimarães Editores, 1988, p. 19.



7 de setembro de 2011

e assim começa UMA VIDA PELA METADE

Willie Chandran perguntou um dia ao pai:
-- Porque me chamaram Somerset? Os miúdos na escola descobriram e andam a gozar-me.
O pai disse meio tristonho:
-- Pusemos-te o nome de um grande escritor inglês. Deves ter visto livros dele aí pela casa.
-- Mas não os li. Gostavas assim tanto dele?
-- Não sei bem. Ouve e logo verás.

V. S. Naipaul, Uma Vida pela Metade, tradução de Maria João Delgado, 4.ª edição, Lisboa Publicações Dom Quixote, 2002, p. 11.

5 de setembro de 2011

um soneto de João Xavier de Matos

Que assim sai a manhã, serena e bela!
Como vem no horizonte o sol raiando!
Já se vão os outeiros divisando,
já no céu se não vê nenhuma estrela.

Como se ouve na rústica janela
do pátrio ninho o rouxinol cantando!
Já lá vai para o monte o gado andando,
já começa o barqueiro a içar a vela.

A pastora acolá, por ver o amante,
com o cântaro vai à fonte fria;
cá vem saindo alegre o caminhante:

Só eu não vejo o rosto da alegria:
que enquanto de outro sol morar distante,
não há-de para mim nascer o dia.

Poetas do Século XVIII, selecção, prefácio e notas de Rodrigues Lapa, 3.ª edição, Lisboa, Seara Nova, 1967, pp. 85-86.


(lido numa sessão de 2011)

30 de agosto de 2011

Kant em Luanda

Conta-se que Immanuel Kant (1724-1804), o filósofo do imperativo categórico («Age de modo a que a máxima da tua acção possa ser considerada como o princípio de uma lei universal.»), era um homem  de regularíssimos hábitos. Na pequena cidade natal de Königsberg, seguia sempre o mesmo percurso, às mesmas horas; de tal forma que os conterrâneos regulavam o tempo pelas caminhadas do autor da Crítica da Razão Pura, todos os dias, todos os anos.
Assim está o centenário Arcénio de Carpo, de A Conjura, cujos hábitos inalteráveis determinavam o horário de uma parte do comércio e dos serviços de Luanda: «Assim, de manhãzinha, mal o viam assomar ao topo da Rua Direita, os lojistas conheciam que era chegada a hora de estender os panos nos varais [...]. E quando, Sol alto, o velho, saindo da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, atravessava o Largo da Alfândega para entrar na tasca do Martins, meio mundo largava mão do que estivesse a fazer e ia almoçar sossegadamente [...]. Depois, Arcénio saía da tasca e ia sozinho passear [...] e o povo sabia que eram exactamente cinco horas da tarde. O velho regressava arrastado pelos primeiros ventos e era então que os lojistas fechavam as portas e os amanuenses trocavam os escritórios pelos pelos bancos das tabernas ou as bermas sujas dos passeios públicos.»

José Eduardo Agualusa, A Conjura, Alfragide, Leya, 2008, p. 114.

a nossa equipa

José Eduardo Agualusa

24 de agosto de 2011

E nós? (quando a propósito de Júlio Dinis se fala em Garrett e Herculano...)

O Jerónimo Caninguili de A Conjura anda a ler à Judite As Pupilas do Senhor Reitor, do Júlio Dinis. E nós, quando agendaremos um dos quatro romances deste grande escritor de oitocentos?
Se a memória não me falha, é o único romancista do século XIX que resiste, ao lado de Camilo e Eça. Garrett é essencialmente as Viagens (o que não é pouco, tratando-se de um livro fundador e charneira); o Herculano, pelo menos o do Eurico, requer alguma profundidade no conhecimento da Alta Idade Média peninsular, para que não seja lido pela rama, o que o afasta do leitor comum. O bom do Júlio Dinis, esse -- como muito Camilo e todo o Eça -- mantém  actualidade e interesse.

P.S. Claro que me refiro a Garret e a Herculano enquanto romancistas. Garrett persiste também no teatro (e como!) e na poesia; Herculano é apenas o maior historiador português de sempre. Para além disso, as suas figuras históricas, como soldados na guerra civil entre liberais e absolutistas e as funções públicas que desempenharam dá-lhes, também neste campo, um lugar na História de Portugal. Enfim, dois homens superiores, que foram amigos, apesar dos temperamentos completamente opostos (Garrett, um dândi guloso dos prazeres da vida; Herculano, um homem rígido e austero. Um foi feito visconde, o outro recusou o título).

22 de agosto de 2011

Alfredo Troni



No dia anterior o afável Marimont havia surpreendido a clientela habitual com um exemplar do Diário da Manhã, que todas as semanas recebia de Lisboa, trazendo na segunda página um folhetim intitulado «Nga Muturi -- Cenas de Luanda». Assinava-a Alfredo Trony. [..] porque com todos Trony havia privado de perto e de todos tinha recolhido informações e confidências, qualquer deles se sentia um pouco autor da obra, querendo ver em cada frase uma sua contribuição, em cada palavra o eco da própria voz.
Alfredo Trony recebia os abraços e felicitações quase envergonhado, torcendo nervoso o farto bigode de vassoura:
-- Ora vamos -- repetia já enfastiado --, é apenas um ensaiozito; e ao meus amigos o devo.

José Eduardo Agualusa, A Conjura, Alfragide, Leya, 2008, p. 33.



imagens daqui e daqui

o calor do trópico

Abro A Conjura numa tarde de Guincho, encoberta, pouco ventosa, calor q.b., praia atlântica, em suma.
Reconheço um certo calor de trópico no contar do Agualusa, uma alegria que encontrei também na literatura brasileira (Jorge Amado above all), alegria até no meio dos escombros, algo raramente vislumbrado na literatura portuguesa, mais pesada, mais europeia.

21 de agosto de 2011

"A CONJURA"

Josephine era bonita: os olhos largos e macios, a quindumba cheirosa, o alto corpo ondulante como palmeira embalada pelas brisas. Josephine gostava dos homens e da forma como os homens gostavam dela. Gostava do pai Pedro e do miúdo Severino. E aos dois servia feliz e exuberante.

Mulher de quissanguela, ela? Mulher apenas. Senhora de quem a fizera escrava. Senhora de todos os corações onde poisassem os seus olhos quentes. E ofuscantes. Como o Sol.


José Eduardo Agualusa, A Conjura, Alfragide, Leya,SA, 2008, p. 36

19 de agosto de 2011

uma epígrafe de Camões

Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas,
Me parecem belas
Como os meus amores

Endechas a Bárbara Escrava

(escolhida por Trindade Coelho para Os Meus Amores)

17 de agosto de 2011

e assim começa FOSTE TU QUE ME ESCREVESTE DE SINTRA?

Ralph Galbraith abanava-se lentamente com um belíssimo chapéu creme, com fita de couro, peça de luxo do seu novíssimo padrão colonial.

Carlos Daniel, Foste Tu que Me Escreveste de Sintra?, Sintra, Editora Vral, 2005, p. 13.

16 de agosto de 2011

PELAS LANDES, À NOITE, Eugénio de Castro

Pelas landes e pelas dunas
Andam os magros como pregos,
Os lobos magros como pregos,
Pelas landes e pelas dunas.

Olhos de fósforo, esfaimados,
Numa pavorosa alcateia,
Andam, andam buscando ceia,
Olhos de fósforo, esfaimados.

Nas landes grandes, junto às dunas,
Um menino perdido anda,
Anda perdido, a chorar anda,
Nas landes, junto às brunas dunas.

Senhor Deus de Misericórdia,
Protegei o róseo menino,
Protegei o róseo menino,
Senhor Deus de Misericórdia.

Porque nas landes e nas dunas
Andam os magros como pregos,
Os lobos magros como pregos,
Nas grandes landes e nas dunas.



Poesia da Noite, selecção e prefácio de Urbano Tavares Rodrigues, Lisboa, Neo-Farmacêutica, 1970, p. 37.


(lido numa sessão de 2011)

a nossa equipa

Eugénio de Castro

15 de agosto de 2011

e assim começa O VELHO E O MAR

Era um velho que pescava sòzinho num esquife da Corrente do Golfo, e saíra havia já por oitenta e quatro dias sem apanhar um peixe. Nos primeiros quarenta dias um rapaz fora com ele. Mas, após quarenta dias sem um peixe, os pais do rapaz disseram a este que o velho estava definitivamente e declaradamente salao, o que é a pior forma de azar, e o rapaz fora por ordem deles para outro barco que na primeira semana logo apanhou três belos peixes. Fazia tristeza ao rapaz ver todos os dias o velho voltar com o esquife vazio e sempre descia a ajudá-lo a trazer as linhas arrumadas ou o croque e o arpão e a vela enrolada no mastro. A vela estava remendada com quatro sacos de farinha e, assim ferrada, parecia o estandarte da perpétua derrota.

Ernest Hemingway, O Velho e o Mar, tradução de Jorge de Sena, Lisboa, Livros do Brasil, s. d., pp. 7-8.