29 de fevereiro de 2012

Abd el-Krim e a História

A propósito da sangrenta Guerra do Rife, que opôs os insurrectos marroquinos, liderados por Abd El-Krim, contra os exércitos espanhol e francês, escreveu Ferreira de Castro, n'A Batalha:
«[...] a figura de Abd-el-Krim- chega a atingir um sentido epopeico e só não merece as páginas da História porque a História desde há muito está desonrada, porque a História é indigna dele.» (14 de Setembro de 1925).
Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2004, p.67.

Para Ferreira de Castro, a desonra da História -- ou da historiografia, melhor diríamos -- tem que ver com a noção, consagrada na década seguinte pela revista Annales, de Marc Bloch e Lucien Febvre, que o registo do passado nunca poderia limitar-se à inventariação das dinastias, das batalhas, das grandes figuras, meras conjunturas das estruturas económica, social e das mentalidades de que aquelas emanavam. E é essa concepção da História que presidirá ao projecto gorado da «Biografia do Século XX» -- de que só se salvará o póstumo O Intervalo (incluído n'Os Fragmentos) ou n'As Maravilhas Artísticas do Mundo, apresentada como «A prodigiosa aventura do Homem através da Arte».

Abd El-Krim
(também aqui)

28 de fevereiro de 2012

Carlos Malheiro Dias, o romancista, melhor que Carlos Malheiro Dias, o panfletário

Malheiro Dias foi, durante alguns anos, um escritor muito apreciável, que pôde fazer, à margem da sua obra política, uma obra literária de grande brilho.
«A [sic] paixão de Maria do Céu», se não é um dos melhores romances da literatura portuguesa dos últimos anos, é, pelo menos, um dos mais interessantes. [...]
Ultimamente, porém, Malheiro Dias [...] deu-se ao necrófilo prazer de acariciar múmias, de afagar espectros -- e tornou-se, com Antero de Figueiredo, em paladino de D. Sebastião e de outras sombras pretéritas. [...]
[...] Malheiro Dias exorta a mocidade luso-brasileira a trilhar os negros caminhos do reaccionarismo; exorta-a a adorar a Deus, a pátria e seus heróis de antanho, é dizer, a adorar a escravidão e os escravizadores.*

* Carlos Malheiro Dias, Exortação à Mocidade, Lisboa, 1924.
(A Batalha, 9 de Março de 1925)

Ferreira de Castro, Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2004, p. 30. 

(caricatura por Arnaldo Ressano)
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Gama, o pirata

Dizer que Vasco da Gama foi um arrojado pirata, é ofender os patriotas, mas é restabelecer a verdade. E a ter que escolher entre os patriotas que formam uma casta transitória de obcecados, e a verdade, que é eterna, nós optamos pela última.

(A Batalha, 2 de Fevereiro de 1925)
Ferreira de Castro, Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2004, p. 18.

(também aqui)

Charles Maurras

Charles Maurras, um maître à penser de Salazar, é escolhido por pares como o sucessor de Anatole France, «príncipe dos escritores»:

«Eu reconheço, fora de todas as divergências de ideias, que o famigerado reaccionário de "L'Action Française» é um espírito culto e um crítico, por vezes, muito penetrante. Mas daí a considerá-lo como o príncipe das letras francesas... Não, isso é querer afrontar o próprio ridículo. É afrontar a memória de Anatole, que usou aquele título -- é afrontar os escritores que futuramente o virão a usar, merecidamente.»
A Batalha, 19 de Janeiro de 1925

Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2004, p. 14.

(também aqui)

27 de fevereiro de 2012

aproximava-se o 1.º Centenário de Camilo Castelo Branco

O que se tem feito com Camilo! O cadáver deste homem tem dado para alimentar legiões de medíocres, que nunca teriam nome, nem editor, nem leitores, se não se acolhessem à sombra trágica do romancista. (A Batalha, 22 de Dezembro de 1924)

Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2004, p. 6.

(também aqui)

O barão de Wrangel

Ferreira de Castro sobre o barão Piotr de Wrangel, um dos mais emblemáticos generais do Exército Branco, derrotado na guerra civil russa pelo Exército Vermelho, de Trotsky, n'A Batalha de 15 de Dezembro de 1924:

«Esse palhaço disfarçado de Marte, não deixa extinguir seu ódio ao novo regime russo, não pelo regime em si, mas porque supõe ver nele a encarnação da Liberdade.» 

Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, introdução e notas de Luís Garcia e Silva, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2004, p. 4.
(também aqui)

25 de fevereiro de 2012

Ruy Belo, 79

Ruy Belo nasceu há 79 anos, em Rio Maior
(25 de Fevereiro de 1933)

Cesário, 157

Cesário Verde nasceu em Lisboa, a 25 de Fevereiro de 1855.

24 de fevereiro de 2012

22 de fevereiro de 2012

ao encontro de Deus

--Ah! -- disse ela --, mesmo perdida, vejo como tudo é perfumado e maravilhoso. Mesmo sem saber se jamais chegarei, apetece-me rir e cantar em honra da beleza das coisas. Mesmo neste caminho que eu não sei onde leva, as árvores são verdes e frescas como se as alimentasse uma certeza profunda. Mesmo aqui a luz pois leve nos nossos rostos como se nos reconhecesse. Estou cheia de medo e estou alegre.

«A Viagem», Contos Exemplares, 3.ª edição, Portugália Editora, Lisboa, 1970, p. 102.

15 de fevereiro de 2012

JACQUES SADOUL (1881-1956)

“Não faltavam os cantares da estepe e as danças cossacas. Jacques Sadoul, o antigo oficial da missão militar francesa que ficara na Rússia em 1917, sustentava que essas tradições  folclóricas tinham constituído uma contribuição decisiva para a vitória da guerra civil.”
Gérard  Rosenthal, Trotsky, Venda Nova, Livraria Bertrand, 1976, pp. 16 e 17.
“Sadoul vem de regressar a França, vem de transpor as fronteiras que o separavam daquele regime que ele abandonara, que ele desdenhara, para ir colocar a sua espada ao serviço dum outro regime, julgado mais belo. Para mim, que conheço a inutilidade dos exércitos, que os considero perniciosos, indignos da nossa época, o gesto do capitão Sadoul, quando há anos demandou a Rússia, mereceu a simpatia do meu espírito. A  ter de se empunhar uma espada, que ela sirva para fazer triunfar algo que possua signos inéditos, algo que constitua uma nova aspiração; embora esta venha a fenecer em breve, como aconteceu na Rússia.”
Ferreira de Castro, “Sadoul e Wrangel”, Ecos da Semana, Lisboa, Cadernos d’ A Batalha, 2004, p. 3.

SEGREDO, Maria Teresa Horta

Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar

Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 64.

(lido na sessão de 3 de Fevereiro de 2012)

13 de fevereiro de 2012

PRESÍDIO, David Mourão-Ferreira

Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?

E o ventre, inconsistente como lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo...

É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!

Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 50.

(lido na sessão de 3 de Fevereiro de 2012)

9 de fevereiro de 2012

traços dum lapuz

Ao tecer o êxito futuro, a sua expressão tornara-se sombria: os olhos castanhos, pequeninos e movediços em outros azares, paravam agora em fundo querer; as faces secas desciam, sem contracções, sobre o negro e longo bigode, de lábios delgados, dentes sujos de tabaco, aquietava-se também em cima do queixo agudo, rude, plebeu. Assim imobilizado, era tosca cariátide de sobreiro aquele corpo meão mas rijo, de linhas enérgicas, sem adiposidades, todas elas atestando pertinácia no trabalho e saúde campesina, saúde dos que se levantam quando se apagam as últimas estrelas e se deitam quando as primeiras se acendem.

Ferreira de Castro, Emigrantes [1928], 24.ª edição, Lisboa, Guimarães Editores, 1988, p. 23.

também aqui

8 de fevereiro de 2012

Ela canta, pobre ceifeira, Fernando Pessoa

Ela canta, pobre ceifeira
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anónima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.
Ouvi-la alegra e entristece,

Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões p'ra cantar que a vida.
Ah! canta, canta sem razão!
O que em mim sente 'stá pensando.

Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!
Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!

Ó campo! Ó canção! A ciência
Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

Fernando Pessoa, Cancioneiro
 
(Poema não lido na sessão de 03 de Fevereiro.)

29 de janeiro de 2012

porque gosto tanto do Manuel da Fonseca

porque esta atmosfera, para além do real, impregna a sua escrita:

Na madrugada escura, o homem ergueu o peito e soprou no búzio o último aviso. O som atravessou a vila e ganhou eco na encosta do castelo, estalando como um ai. Cães responderam com uivos, de focinho curvo para o céu, e um galo, atónito ante tanto mistério, gritou pelo Sol.

«Sete-estrelo», Aldeia Nova (1942), 7.ª edição, Lisboa, Editorial Caminho, 1984, p. 63. 

26 de janeiro de 2012

mais uma epígrafe, esta de Nietzsche

"Quando se ama o abismo, é preciso ter asas."

Biografia (sonetos)  de JOSÉ RÉGIO

uma epígrafe de Almeida Garrett

Mas são flores que nascem na serra
Onde todo o seu mundo se encerra,
Porque aí tem -- o seu bem -- seus amores.

                               A Adélia, apud Bernal-Francês.




n'Os Meus Amores, de Trindade Coelho

22 de janeiro de 2012

uma epígrafe de Fernando Pessoa

Cumpriu-se o mar e o império se desfez.
Senhor, Falta cumprir-se Portugal.

Mensagem


n'O Labirinto da Saudade, de Eduardo Lourenço.

Alice Ruiz

Alice Ruiz nasceu a 22 de Janeiro de 1946, em Curitiba.
(foto Vilma Slomp, daqui)

19 de janeiro de 2012

Pedro da Fonseca - um escritor desconhecido - homenagem


Professor, por necessidade e vocação, sacerdote, por amor à mãe e singular missão, escritor, por entranhado afeto à pátria / língua portuguesa e necessidade pungente de clamar revoltas, angústias, ideias, solidão e medos, Pedro Inês da Fonseca, aos 93 anos, deixou que lhe entregassem o corpo, à terra, na manhã fria de 27 de Novembro de 2011.

Homem simples, solitário, humilde, mas sensível e conhecedor da vida e da alma humanas, além de artífice, rigoroso, da língua que falamos, foi capaz de nos legar uma obra literária, em 28 volumes, impressos a custas suas (Europress), e mais 42, já publicados e em vias de publicação, em blog criado para o efeito: (http://pedrofonseca1918.blogspot.com). Nas gavetas e estantes, segundo confidência, estará quase outro tanto que o tempo e a saúde lhe não permitiram rever (com visão monocular debilitada pelos anos e esforço, é pena que muitas gralhas de digitação lhe perturbem, muitas vezes, a escrita).

Filhos, assim lhes chamava, com desilusão de não ter tido outros.

Rigoroso na forma, seguidor dos clássicos, insurgiu-se contra os desmandos do linguajar e escrever; três dos seus livros foram batizados “Venha Aprender Português Comigo”.

Conservador, nalgumas questões do mundo e da vida (religião e vocação genuína, educação cívica, morigeração de costumes, homossexualidade…) não hesitou em assumir posições de fronteira, contra o celibato imposto (por antinatural, causador de males sociais e morais, não determinado por Jesus), a educação forçada e não construída na razão (sem respeito pela liberdade de cada ser), a vocação induzida, seja para a vida religiosa, seja para qualquer mister (manancial de infelicidade sem termo)…

Com amor arreigado, à pátria, zurziu os seus vendilhões, de ontem e de hoje.

De uma religiosidade profunda, os seus escritos estão impregnados dos mais puros conceitos, influenciados por algum ecumenismo quando, em África, conviveu, de perto, com várias confissões cristãs.

Sem olvidar o romance (ou novela, como preferia chamar), a sua obra tem como pilares as Memórias (diários d’aquém e d’além mar) e a didática, em vários espaços da vida e do saber, sob o título Consulta da Tarde.

Ao sofrer, na pele, os horrores e humilhações, como refugiado, no sul de Angola e Namíbia, aquando da descolonização, deixou-nos linhas talhadas a sangue, retratos palpitantes de uma época da nossa história, com os erros e virtudes dos mesmos homens que a foram decidindo.

O que fica por dizer, contrariando o meu impulso de antigo aluno e de amigo de há muitos anos! Manda porém o bom senso que me detenha.

Mas, na hora em que o seu coração deixou de bater, impunha-se-me o dever, sentido, deste preito singelo.

JMS

Homenagem prestada na sessão de 6 de janeiro de 2012

16 de janeiro de 2012

POEMA CONFIADO À MEMÓRIA DE NORA MITRANI, Alexandre O'Neill

Se eu pudesse dizer-te: -- Senta aqui
nos meus joelhos, deixa-me alisar-te,
ó amável bichinho, o pêlo fino;
depois, a contra-pêlo, provocar-te!
Se eu pudesse juntar no mesmo fio
(infinito colar!) cada arrepio
que aos viajeiros comprazidos dedos
fizesse descobrir novos enredos!
Se eu pudesse fechar-te nesta mão,
tecedeira fiel de tantas linhas,
de tanto enredo imaginário, vão,
e incitar alguém: -- Vê se adivinhas...
     Então um fértil jogo amor seria.
     Não este descerrar a mão vazia!

Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 48.

Lido na sessão de 6 de Janeiro de 2012

15 de janeiro de 2012

flores em la mar

«[...] o velho sempre pensava no mar como feminino, como algo que entrega ou recusa favores supremos, e, se tresvariava ou fazia maldades era porque, não podia deixar de as fazer. A lua influi no mar como nas mulheres, pensava ele.»

Ernest Hemingway, O Velho e o Mar, tradução de Jorge de Sena, Lisboa, Livros do Brasil, s.d., pp. 30-31.

11 de janeiro de 2012

Oswald de Andrade, 122

Oswald de Andrade nasceu em São Paulo, a 11 de Janeiro de 1890.