14 de outubro de 2011

CECÍLIA COBRA, António Quintela Proença

Cecília me chama a minha mãe
Todos os outros cobra

Vivo no ilhéu de Câmara de Lobos
Há nove anos crescida descalça
E já fui duas vezes ao Funchal

Moro na «galaria»
São 25 quartos para 25 famílias
E 3 retretes ao lado
Nós somos 9, aqueles 6, aqueles 8
 
Sou a décima-quarta de 16 filhos de um pescador
Companheiro sem barco

Não ando na escola
A senhora diz que só para o ano vai haver sala para todos
 
O meu pai quando vem bêbado
Dá-me com cada malha
Que me mijo toda
Mas quando não, traz peixe e é bom

Sei dizer dinheiro em todas as línguas
Para pedir aos senhores bonitos e bem vestidos que cá vêm
Mesmo aos senhores do Funchal

A gente pede em inglês
Se não, não dão
Lavo-me ao domingo para ir à missa
E se lá não vou, a minha mãe dá-me porrada que me desfaz
 
O mar é a nossa horta
 
Quando troveja
A minha mãe reza e grita
Mas quando o mar alteia e quase galga a rocha
Ela diz «diabos o levem, era um freguês a menos na tasca»

Dormimos os 9 no mesmo quarto
Às vezes o meu pai manda-nos para a rua
Já tenho espreitado pela fechadura

Justiça é vir o polícia e levar a gente presa

Outro dia um homem de barbas disse que tinha o 5º. ano
Mas logo vimos que não podia ter:
Fumava Santa Maria

A minha irmã mais velha tem 4 filhos
E já anda outra vez de barriga
Ontem ouvi-a dizer para a minha mãe:
«O que mais me custa é pensar que vou ter o filho
por causa do abono»

Todos os turistas tiram retratos
Aos socalcos da vinha
Que sobem da Vila do Pico
Dizem que é lindo
O verde moço
Com que agora estão
Mas eu não vejo...
O verde mora nas vivendas do Funchal
O meu pai diz que bom para o pescador
Foi Marcelo Caetano
Tirou a guarda fiscal e deu os abonos
Nós andamos sujos
Somos tontos e falamos mal
Comemos o milho com a cebola
Se na loja fiarem
O peixe não do fino
Pior estão os filhos dos vilões
Que já têm de trabalhar nas fazendas
 
As mulheres do Ilhéu invejam a mãe da Goreti
Depois que lhe morreu o homem no mar
Recebe agora dinheiro
Como nunca antes
E não atura borracheiras.
Mas eu cá ficava triste
Se o meu pai morresse

Da Ilha que Somos, coordenação e prefácio de A. J. Vieira de Freitas, Funchal, Câmara Municipal, 1977, pp. 29-33.

(lido na sessão de 1 de Julho de 2011)

13 de outubro de 2011

sem ilusões

Aquilo que para Rothschild é uma insignificância, é para mim uma grande riqueza, e quanto a vantagens e ganhos, por toda a parte, e não apenas na roleta, os homens não fazem mais que tirar ou ganhar alguma coisa uns aos outros.

Fiódor Dostoievski, O Jogador, tradução de António Pescada, Lisboa, Biblioteca de Editores Independentes, 2007, p. 20.
(desenho: David Levine) 

12 de outubro de 2011

e assim começa O ANIMAL MORIBUNDO

Conheci-a há oito anos. Era minha aluna. Já não ensino a tempo inteiro; rigorosamente falando, já não ensino literatura, ponto final -- há anos que tenho apenas uma aula, um grande seminário sénior sobre escrita crítica chamado Crítica Prática. Atraio uma boa quantidade de estudantes femininas. Por duas razões. Porque é uma matéria com uma atraente combinação de fascínio intelectual e porque elas me ouviram no NRP a fazer crítica de livros ou me viram no Thirteen a falar de cultura. 

Philip Roth, O Animal Moribundo, tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, 2.ª edição, Publicações Dom Quixote, 2006, p. 11.

a nossa equipa

Philip Roth

11 de outubro de 2011

de Ernest Hemingway para Ursula Hemingway

AMAR, Ana Paula Rosa Soares

É ter sede e querer beber
É estar fraco e com força
É ter tudo e querer sempre mais
É sentir fogo e não arder
É chaga aberta sem doer
É ganhar sem conta
É sem conta perder
É dar ao frio o maior calor
É fingir sempre que não é amor
É estar longe e estar perto
É ver água no mais seco deserto
É julgar o incerto sempre certo
É estar cego sem querer ver
É ser tudo e nada ser
É, enfim, estar morto e não querer viver.

Da Ilha que Somos, coordenação e prefácio de A. J. Vieira de Freitas, Funchal, Câmara Municipal, 1977.

(lido numa sesão de 2011)

10 de outubro de 2011

Eros de Passagem, (org.) Eugénio de Andrade

A colectânea de poesia erótica contemporânea Eros de Passagem é a segunda edição revista da colectânea Variações de um corpo. Nessa primeira edição, de 1987, cada um dos poemas seleccionados dava corpo a um desenho do escultor José Rodrigues. Em 1997, Eugénio de Andrade, responsável pela selecção, decidiu alterar os critérios de selecção, deixando os poemas, por exemplo, de acompanhar ilustrações, e, deste modo, dar conta de alterações entretanto ocorridas na produção poética nacional, nomeadamente no modo como esta dá corpo o erotismo.
A obra reúne poemas de 58 autores, em que o erotismo que se apresenta como forma de expressão física do sentimento amoroso, registando o corpo e as suas pulsões.


Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco

Mário Cesariny

9 de outubro de 2011

D. João VI, um olhar distanciado

Emotivo -- chorava frequentemente durante o seu atribulado reinado --, não era um génio, mas também não era o idiota que aparece retratado na propaganda antimonárquica. Passava grande parte do dia a ler papéis oficiais e em reunião com os ministros para acabar envolvido em posições impossíveis, destinado a presidir a quase uma década de embustes diplomáticos antes de as tropas francesas por fim atravessarem as fronteiras indefesas de Portugal. Minado pela indecisão, conduziu de certa forma o país pelo labirinto político de 1807-1808, um dos mais complexos períodos na história nacional e imperial portuguesa, sobrevivendo como monarca enquanto que os seus congéneres europeus eram destronados e humilhados por Napoleão.

Patrick Wilcken, Império à Deriva, tradução de António Costa, 9ª edição, Porto, Civilização Editora, 2007, p. 77. 

A Religiosa


Uma prosa elegante e uma tradução que a serve bem.  
Um livro programático, pretendendo combater a organização social estribada no poder paternal e o enclausuramento religioso, fautor de vício e desvio de personalidade.
Uma apologia da liberdade.
Um romance póstumo, escrito na Rússia de Catarina II.
Uma capa da Europa-América no seu pior, pelo oportunismo boçal e pela falta de gosto -- não desfazendo do objecto da fotografia, e não me estou a referir à cruz.
 

6 de outubro de 2011

5 de outubro de 2011

retrato(s) romântico(s)

Diderot sobre o seu retrato, pintado por Louis-Michel van Loo: «Meus filhos: previno-vos de que não sou eu. Tinha num dia cem fisionomias diversas, segundo aquilo que me preocupava. Estava sereno, triste, sonhador, terno, violento, apaixonado, entusiasta; mas nunca fui tal como me vedes ali. Tinha uma grande testa, olhos muito vivos, traços bastante acentuados, a cabeça no género de um antigo orador, uma bonomia que tocava pela estupidez, pela rusticidade dos antigos tempos. [...] Tenho uma máscara que engana o artista; seja porque ela tem muitas coisas confundidas, seja porque as impressões da minha alma se sucedem muito rapidamente e se pintam no meu rosto, os olhos do pintor não me encontram igual dum momento para o outro e a sua tarefa se torna torna-se mais difícil do que ele supunha.»

In Jaime Brasil, Diderot e a Sua Época, Lisboa, Editorial Inquérito, 1940, pp. 28-29.

4 de outubro de 2011

FRÉMITO LITERAL, António Duarte Camacho de Brito Figueirôa

frémito literal ou palavra tressuada
a morder as gengivas deputadas

um olhar crepe rés ao barro
a terra entumescida o sexo venal
o gesto afásico nos contornos flácidos
da várzea informe

palavra desconhecida inventada
o estrépito adstrito
vagalhão real
a pedra revolta
palavra desenhada para ser esquecida

recordação migratória em que te embalas
nas profundezas da madrugada
sublime o entendimento
em que arrastas o foco
do regozijo baço:
é um tempo quebrado ao longo
das portas que já não abrigam o movimento
enquanto a dor se refresca num largo voo

frémito literal ou palavra tressuada
a morder as gengivas deputadas

um sangue que acaricia ao ritmo
dum olhar que passa
o grito duma terra indecisa
a força da memória derrotada pelo lamento
nu e húmido

na fronte o vil metal
na boca o pão sem sal: frémito

Da Ilha que Somos, coordenação e prefácio de A. J. Vieira de Freitas, Funchal, Câmara Municipal, 1977, p. 17.
(lido numa sessão de 2011)

3 de outubro de 2011

"Satana, vade retro, apage, Satana"

Aquilo que começou como uma joyeuse mystification, deu um grande romance que vai proporcionar uma próxima sessão muita animada.
De forma chã e clara, um insigne membro do clube de leitura chamou-lhe um embuste bem esgalhado. Em português é que nos entendemos!
Anseio por ouvir as opiniões dos nossos leitores, mormente a do prezado amigo que sugeriu a obra.

30 de setembro de 2011

A RELIGIOSA, segundo Jaime Brasil

     «O romance graças ao qual o nome de Diderot sobrevive como romancista é, sem dúvida, "A Religiosa". Romance realista, romance de costumes e de crítica social, foi escrito para condenar a tirania do pátrio poder e, ao mesmo tempo, a vida anti-natural dos conventos. [...]
     O romance é ousado por alvejar duas intituições que, então, mais ainda do que hoje, os preconceitos pretendem que sejam inatacáveis. Ousado ainda nas refrências às paixões lésbicas existentes nos conventos, sem contudo descer ao género licencioso, que alguns críticos pudibundos pretendem ver nele. [...]
     [...] "A Religiosa" é uma obra rica de diálogos, de frases curtas, de vivacidade, de pitoresco, demonstrando, mais do que qualquer outra,a riqueza e elegância do estilo de Diderot.»

Jaime Brasil, Diderot e a Sua Época, Lisboa, Editorial Inquérito, 1940, pp. 84-85.

o escritor e a oficina

«[...] além da tarefa de fazer o resumo das diversas escolas filosóficas e de tratar dos sinónimos, tinha escolhido para si todas as descrições das artes e ofícios. Como queria dar à obra um carácter eminentemente prático e expor a matéria com conhecimento de causa, ia às oficinas ver como se praticavam os diversos mesteres, como funcionavam as máquinas, como se chamavam e para que serviam os diversos utensílios. Não se contentava com ver e ouvir, pedia que lhe ensinassem o funcionamento, e ele próprio, graças a uma inteligência prodigiosa, executava, ante a surpresa dos artífices, os diversos trabalhos que depois descrevia. Assim aprendeu a tecer, a trabalhar no vidro, a imprimir, a burilar metais, etc., com tanta perfeição como os mais experimentados operários. Não esqueceu os mestres que lhe ensinaram essas artes, pois os nomes daqueles que lhe deram informações úteis nesse campo figuram na Enciclopédia -- coisa até então nunca vista -- ao lado dos de filósofos, artistas, homens de ciência.»

Jaime Brasil, Diderot e a Sua Época, Lisboa, Editorial Inquérito, 1940, pp. 72-73.

22 de setembro de 2011

Natureza e Homem em Ferreira de Castro

«Natureza e Homem em Ferreira de Castro: Imagens de uma relação», conferência pela nossa colega Ana Cristina Carvalho, sexta-feira, 23 de Setembro, pelas 18 horas, no Museu Ferreira de Castro. Apareçam!

imagem: Alex Gozblau

elogio do libertino

A moral que prègava era a sua moral, «sem obrigações nem sanções», moral voluntária e natural, sem conformismos convencionais. A sua vida de boémio foi apenas a dum libertino, na acepção que o termo tinha antigamente, isto é, de amante da liberdade, liberdade de acção e de expressão. 

Jaime Brasil, Diderot e a Sua Época, Lisboa, Editorial Inquérito, 1940, p.27.

da alquimia enciclopedista

Ao contrário dos medíocres, que só recebem do ambiente onde vivem o que há nele de estratificado, homens como Diderot sabem seleccionar o que é raro e colher no ar o pólen doirado do que parece insignificante, para o transformar em frutos opulentos.

Jaime Brasil, Diderot e a Sua Época, Lisboa, Editorial Inquérito, 1940, p. 25. 

21 de setembro de 2011

outro poema da Marquesa de Alorna

Como está sereno o Céu,
como sobe mansamente
a lua resplandecente,
e esclarece este jardim!

Os ventos adormeceram;
das frescas águas do rio
interrompe o murmúrio
de longe o som de um clarim.

Acordam minhas ideias,
que abrangem a Natureza,
e esta nocturna beleza
vem meu estro incendiar.

Mas se à lira lanço a mão,
apagadas esperanças
me apontam cruéis lembranças,
e choro em vez de cantar.

Poetas do Século XVIII, selecção, prefácio e notas de M. Rodrigues Lapa, 3.ª edição, Lisboa, Seara Nova, 1967.

(lido numa sessão de 2011)

Diderot, em traços largos

«Este homem portentoso, que soube ser iconoclasta e tolerante, era modesto e generoso como ninguém, mas como poucos orgulhoso dos seus méritos e ávido de riquezas para as distribuir. Visto a distância toma as proporções dum super-homem.  Era, porém, apenas um homem, com todas as misérias e toda a grandeza da condição humana. Sofreu muitas privações e angústias; andou mal vestido e passou fome; habitou em mansardas miseráveis; sujeitou-se a intoleráveis caprichos femininos e teve de molhar a sua pena nas tintas da adulação para retribuir a generosidade duma cabeça coroada, que lhe minorou com dinheiro algumas dificuldades materiais. Como todos os homens, aspirou à liberdade e sofreu a servidão.»

Jaime Brasil, Diderot e a Sua Época, "Nota do Autor", Lisboa, Editorial Inquérito, 1940, p. 9.

19 de setembro de 2011

um biógrafo português de Diderot

Antes de me lançar ao próximo livro, apeteceu-me reler a sucinta biografia Diderot e a Sua Época, de Jaime Brasil, publicada nos magníficos «Cadernos Culturais» da Editorial Inquérito, em Fevereiro de 1940.
Brasil foi um cultor do género biográfico, como poucos entre nós (Mário Domingues e Agostinho da Silva serão os casos mais salientes). Senhor de um grande estilo, jornalístico, na melhor acepção da palavra, dedicou-se a esquadrinhar as vidas de Ferreira de Castro (de quem foi grande amigo), Diderot, Victor Hugo, Zola, Rodin, Leonardo (esta recentemente reeditada), Velázquéz, Balzac... -- para além de outros géneros literários: da polémica à reportagem, da divulgação científica à bibliografia, sem esquecer as traduções ou a epistolografia, em que foi exímio.
Durante esta semana, colocarei uns pòzinhos deste estudo biográfico, que, diga-se, foi escrito em Paris, cidade em que se exilou até à ocupação alemã, que ainda viveu.

18 de setembro de 2011

olhar de frente

«O Bispo olhou-o. Era um homem igual a muitos outros. Lembrava a gente de Varzim. Tinha lama nos trapos e a escrita da fome na cara. Nas mãos havia um gesto de paciência. Um gesto muito antigo de paciência. E de repente pareceu ao velho Bispo que todo o abandono do mundo, todo o sofrimento, toda a solidão, o olhavam de frente no rosto daquele homem. Coisa difícil de olhar de frente.»

Sophia de Mello Breyner Andresen, «O jantar do Bispo», Contos Exemplares, Lisboa, Portugália Editora, s. d., p. 67.

A exemplaridade destes contos de Sophia, publicados em 1962 e prefaciados por D. António Ferreira Gomes, o bispo do Porto então no exílio.
Exemplaridade porque escritos sob a pureza de uma mensagem cristã, ao arrepio da Igreja oficial, comandada pelo cardeal Cerejeira, conivente com um país onde imperava a pobreza e o medo; Igreja que, cúmplice de um estado policial, se atraiçoava a si própria. Por isso, aqueles que não suportaram a mentira e olharam de frente, tiveram os destinos que são conhecidos. 

15 de setembro de 2011

e assim começa PLATERO E EU

Platero é pequeno, peludo, suave; tão macio, que dir-se-ia todo de algodão, que não tem ossos. Só os espelhos de azeviche dos seus olhos são duros como dois escaravelhos de cristal negro.

Juan Ramón Jimenez, Platero e Eu, tradução de José Bento, Lisboa, Livros do Brasil, s. d., p. 9.

13 de setembro de 2011

um poema da Marquesa de Alorna

Sozinha no bosque
com meus pensamentos,
calei as saudades,
fiz trégua a tormentos.

Olhei para a lua,
que as sombras rasgava,
nas trémulas águas
seus raios soltava.

Naquela torrente
que vai despedida
encontro, assustada,
a imagem da vida.

Do peito, em que as dores
já iam cessar,
revoa a tristeza,
e torno a penar.

Poetas do Século XVIII, selecção, prefácio e nytas de M. Rodrigues Lapa, 3.ª edição, Lisboa, Seara Nova, 1967, pp. 103-104.

(lido numa sessão de 2011)

a nossa equipa


Leonor de Almeida Portugal, 4.ª Marquesa de Alorna, por Pitschmann


9 de setembro de 2011

e assim escreveu Ferreira de Castro

Certamente existirá cópia (ou o original) no Museu. Vem na revista "a cidade", de Portalegre, número especial de Outubro de 1984, cujo exemplar me foi dado por um ilustre portalegrense. O autor de "Emigrantes" escrevia a Câmara Reys sobre um "MANIFESTO DOS INTELECTUAIS PORTUGUESES AO SEU PAIZ", manifesto que viria a ser assinado por 58 personalidades.

8 de setembro de 2011

e assim começa EMIGRANTES

Preta e branca, preta e branca, o preto mui luzidio e muito níveo o branco, a pega, de cauda trémula, inquieta, saracoteava entre carumas e urgueiras, esconde aqui, surge ali, e por fim erguia voo até a copa alta do pinheiro, levando no bico ramo seco ou graveto.


Ferreira de Castro, Emigrantes, 24.ª edição, Lisboa, Guimarães Editores, 1988, p. 19.



7 de setembro de 2011

e assim começa UMA VIDA PELA METADE

Willie Chandran perguntou um dia ao pai:
-- Porque me chamaram Somerset? Os miúdos na escola descobriram e andam a gozar-me.
O pai disse meio tristonho:
-- Pusemos-te o nome de um grande escritor inglês. Deves ter visto livros dele aí pela casa.
-- Mas não os li. Gostavas assim tanto dele?
-- Não sei bem. Ouve e logo verás.

V. S. Naipaul, Uma Vida pela Metade, tradução de Maria João Delgado, 4.ª edição, Lisboa Publicações Dom Quixote, 2002, p. 11.

5 de setembro de 2011

um soneto de João Xavier de Matos

Que assim sai a manhã, serena e bela!
Como vem no horizonte o sol raiando!
Já se vão os outeiros divisando,
já no céu se não vê nenhuma estrela.

Como se ouve na rústica janela
do pátrio ninho o rouxinol cantando!
Já lá vai para o monte o gado andando,
já começa o barqueiro a içar a vela.

A pastora acolá, por ver o amante,
com o cântaro vai à fonte fria;
cá vem saindo alegre o caminhante:

Só eu não vejo o rosto da alegria:
que enquanto de outro sol morar distante,
não há-de para mim nascer o dia.

Poetas do Século XVIII, selecção, prefácio e notas de Rodrigues Lapa, 3.ª edição, Lisboa, Seara Nova, 1967, pp. 85-86.


(lido numa sessão de 2011)