9 de janeiro de 2015

LEITURAS DAS QUARTAS...


«Era uma montanha como as outras.
Tinha formas arredondadas, como todas as montanhas já velhas, muito batidas pelos ventos. Tinha vales pouco profundos, por onde corria um regato que nascia no cume mais alto e descia em múltiplas curvas até à planície. Aí recebia água de outros riachos, nascidos noutras montanhas, e virava rio grande. Mas isso já era longe da nossa montanha, não entra na estória. Aqui era mesmo só um regato de água límpida, saltitando entre os rochedos, lambendo as raízes das árvores que cresciam nas margens. Toda a montanha estava coberta por vegetação: árvores grandes como a mafumeira, a molemba ou a amoreira de tronco branco, e também as de frutas silvestres. No chão se misturavam fetos de diferentes formas e tamanhos, begónias e rosas-de-porcelana. Só num ou noutro sítio tinha capim, capim tenrinho e que não crescia muito, por causa da sombra das grandes árvores, gigantes teimosos escondendo o Sol.
O clima não era muito quente, por causa da altitude. E chovia bastante, daquelas chuvadas rápidas que sem avisar nos caem em cima, embora nunca com grande violência.
A montanha tinha dois cumes principais: o cume Lupi, o mais alto, onde nascia o rio do mesmo nome, e o cume do Sol, no extremo oposto. No meio dos dois cumes havia um morrozito com pedras, sem plantas nem árvores, apenas capim baixo. Era o sítio mais calmo e perfumado da montanha e dali se podia ver melhor o luar de Lua cheia; por isso era o morro da poesia.
Era uma montanha como as outras. Mas seria mesmo?»

(Lido numa quarta-feira destas...)


   

de Ferreira de Castro

 «A imaginação de Reinaldo era tão opulenta e constituía uma tão profunda característica da sua personalidade, que, meia hora depois dele ter assistido a um acontecimento, o tornava incapaz de o reproduzir tal qual o vira. Vestia-o, fatalmente, de aspectos imaginários, tirando-o da mesquinhez da verdade para o colocar em relevo, em grandeza, em interesse -- para que ele fosse o que devia ter sido e não o que fora. E Reinaldo não fazia isto por cálculo, por técnica, por experiência do ofício, mas espontaneamente, naturalmente -- porque não podia ver a vida de outra maneira. A sua personalidade forçava-o a ser infiel à realidade, porque `realidade falta, geralmente, encanto, mistério, fascinação.»

«Reinaldo Ferreira», incluído n'O Livro do Repórter X, Lisboa, Agência Editorial Brasileira, 1936 -- livro de homenagem e auxílio à família de Reinaldo Ferreira, falecido no ano anterior.

(lido na sessão das quartas, 7-I-2015)

8 de janeiro de 2015

de José Eduardo Agualusa

«Chamava-se Hotel Gaivota e ficava quase escondido por detrás de uma enorme duna, numa praia deserta da Paraíba. Vi-o de longe e à luz incerta do entardecer pareceu-me um esplêndida toalha de renda, como aquelas que se vendem na Feira de Caruaru, estendida entre palmeiras altas. Quando me aproximei percebi que o edifício inteiro fora construído com tijolos dispostos lado a lado -- e não no enfiamento uns dos outros, como é usual --, de forma a que o ar pudesse circular livremente através dos orifícios. Mais tarde pude confirmar as virtudes deste ardil: os quartos, embora pequunos, permaneciam sempre frescos. À noite, estendido na minha cama, eu ouvia a brisa atravessar as paredes, e era como se o prédio inteiro respirasse.»

Início de «Um hotel entre palmeiras», Fronteiras Perdidas, 5.ª edição, Alfragide, Publicações Dom Quixote, 2009, p. 33.
(lido na sessão de quarta-deira, 10 de Dezembro de 2014)

7 de janeiro de 2015

entre o céu e a terra

O livro reúne duas duas intervenções do escultor, reflectindo sobre a Arte em geral, e a sua em particular. E executa-o com grande profundidade e uma solidez de escrita que encarreira os textos para a categoria de obras literárias, que irrefutavelmente (também) são.
Em «A história da minha vida», Chafes concebe um escultor nascido na Francónia medieval do século XIII e que, sem limitações de ou tempo de espaço, deambula entre o Norte e o Sul da Europa ao longo de mais de meio milénio, trabalhando e aprendendo com os mestres de cada época -- dos artistas das catedrais  francesas aos pré-românticos alemães. Trata-se de uma autobiografia estética, em que as inquietações e os desígnios de Chafes enquanto artista são equacionados. Como exercício estético, associo-o a Orlando, romance de Virginia Woolf e a A Arca Russa, filme de Alexander Sokurov.
O segundo texto, «O perfume das buganvíleas» é constituído por 46 fragmentos, cada um susceptível de comentário desenvolvido. Direi apenas que encontro uma marca estóica no encarar, no apreender e no justificar da morte ("A beleza é impossível sem as marcas da morte", p. 40); a consciência do dom e a responsabilidade ética que implica, acompanhada de nostalgia por uma pretensa época dourada, com o inevitável questionamento da desumanização da sociedade mercantilizada que nos coube viver, e em que o consumo se estende à arte. 
Prezo ainda a consequência que é retirada: a do artista (só não escrevo verdadeiro artista porque me lembra o Serafim Saudade) como elemento de resistência e sanidade em face da poluição mercantil que nos condiciona.
 
Rui Chafes, Entre o Céu e a Terra, Lisboa, Documenta, 1912.
 
[publicado noutro blogue, entretanto suspenso]

5 de janeiro de 2015

APOLO E DAFNE




Dafne foi perseguida por Apolo, aquela ninfa só pode escapar ao deus convertendo-se em louro, planta a que alude o seu nome. Esta metamorfose segundo algumas versões foi obra de seu pai o deus-rio Peneo, e, segundo outras, de Zeus. Desde então o louro foi a planta consagrada a Apolo , deus da música e das artes.
Na literatura o tema dos amores de Apolo e Dafne foi amplamente tratado na poesia do século de ouro por Gracilaso de la Vega , (1526-36); Arguijo   dedica-lhe um soneto (1605); e Quevedo escreve sonetos desmitificadores sobre o tema em 1605: Fábula de Dafne Y Apolo; no teatro Lope de Vega escreve El amor enamorado, publicado postumamente em 1635; em pintura são muitas as representações deste episódio tratado entre outros por Tiépolo(Louvre, sec XVIII). E, em escultura, por Bernini (Apolo Y Dafne 1622-25 galeria Borghese, Roma) e, G. Coustou Dafne, 1721, Louvre.  Na música é conhecido O louro de Apolo, uma zarzuela escrita em 1657.
Quanto a Apolo sabe-se que é o deus do fogo solar e da beleza, das artes plásticas e da música e da poesia; é também deus oracular e o deus da purificação. O seu poder é temível. É filho de Zeus e de Leto e irmão gémeo de Artemisa.
O mais formoso dos deuses teve numerosas aventuras amorosas nem  sempre afortunadas. Várias ninfas despertaram a sua paixão mas nem sempre o receberam de braços abertos. Cirene que  teve dele Aristeo; Clitia, e Dafne foram outras paixões. Teve amores com as musas como Talía ou Urania de cuja união nasceu Orfeo. Entre as amantes teve algumas mortais como Castalia jovem de Delfos que foi transformada em fonte; ou Casandra . Apolo amou também o jovem Jacinto e converteu-o em flor quando um acidente o privou da vida.

São múltiplas as funções de Apolo. Deus da harmonia, a ele se atribui a invenção da música e da poesia. Frequentemente dirige as danças das musas no monte Parnaso. É também o deus que purifica.  Conhece a arte de sarar as feridas livrando-as de todas as impurezas. É o luminoso (phoibos). É deus guerreiro que se põe do lado dos troianos durante o conflito contra os áqueos. Os seus animais preferidos são os lobos, cisnes e delfins e a sua planta o loureiro tributo da esquiva Dafne.

Os romanos adoptaram rapidamente este deus prestigioso do qual retiveram sobretudo o seu poder curativo e os seus atributos solares. Frequentemente aparece designado com o nome de Febo. O imperador Augusto (63-  14 ) converteu-o em seu deus tutelar e fez correr o rumor de que Apolo era seu pai.

Apolo aparece muitas vezes na Ilíada, Na República e nas Leis, de Platão; Na idade média em Gil Vicente, e, no séc XVIII  em Holderlin (1797-99) aí o deus  confunde-se com as figuras de Júpiter,  Dionísio, e, de Cristo.
 Para Holderlin o poeta está investido de uma missão divina e expressa, pela sua revolta, a evocação da sua origem solar. Assim mesmo em Keats Apolo encarna o acesso ao saber e à procura de uma nova poesia. Em Nietzsche particularmente em O Nascimento da tragédia (1872) Apolo aparece como representante do mundo do sonho, da ordem e do equilíbrio opondo-se neste sentido a Dionisio, simbolo do arrebatamento das forças criadoras. Desta definição procede o termo apolinismo.

( tradução livre que efectuei para a língua portuguesa a partir  da Mitología griega Y romana, de Rene Martin). LG. 

                                                                      

 

29 de dezembro de 2014

Alves Redol, 103



Alves Redol nasceu em Vila Franca de Xira
em 29 de Dezembro de 1911

24 de dezembro de 2014

Charlotte prepara o Natal

«No dia em que Werther escreveu ao seu amigo a última carta a que acabamos de aludir, fora no domingo antes do Natal; foi à noite a casa de Carlota e encontrou-a só. Estava ocupada a preparar os brinquedos que destinava aos irmãos e irmãs como prendas. Werther falou da alegria que iam ter as crianças e do tempo em que a abertura inesperada de uma porta e a aparição de uma árvore cheia de velas, de gulodices e de maçãs nos davam o maior prazer.»

Goethe, Werther [1774], tradução de João Barreira, Lisboa, Editorial Verbo, s.d., p. 153 

20 de dezembro de 2014

BOAS FESTAS!


Para o(a)s prezado(a)s confrades do Clube de Leitura Ferreira de Castro, de Sintra, e para todos os visitantes da "Curva", os meus votos de uma quadra natalícia cheia de Paz e Amor!

(Fernando Faria)




16 de dezembro de 2014

Jane Austen, 239

retrato de Jane, pela irmã, Cassandra, c. 1810

Jane Austen nasceu em Steventon, no Hampshire, 
em 16 de Dezembro de 1775

15 de dezembro de 2014

IN MEMORIAM, José Carlos Ary dos Santos

Requiem aeternum dona eis,
                                                                                                                                                                         Domine, et lux perpetua
                                                                                                                                                                                         luceat eis.»

Que a terra lhe seja pesada.
Que lhe apodreça o corpo e os olhos fiquem vivos,
Se lhe soltem os dentes e a fome fique intacta
E a alma, se a tiver, que lha fustigue o vento
E arrase com ela a memória gravada
Na lembrança demente dos que o choram.

Que a mulher que foi dele oiça o vento na noite,
Cheio de ossos e uivos
E garfos aguçados
E que reparta o medo com o primeiro intruso
E o vento se insinue pelas portas fechadas
E rasteje no quarto
E suba pela cama
E lhe entre no olhar como estiletes de aço
Lhe penetre os ouvidos como agulhas de som,
Lhe emaranhe os cabelos como um nó de soluços,
Lhe desfigure o rosto como um ácido em chama.

Que a mulher que foi dele oiça o vento na noite,
Que a mulher que foi dele oiça o vento na cama!

Que o nome que era o seu o persigam os ecos,
O gritem no deserto as gargantas com sede,
O murmurem no escuro os mendigos com frio,
O clamem na cidade as crianças com fome,
O soluce o amante de súbito impotente,
O maldigam no exílio as almas sem descanso

Que o nome que era o seu seja a bandeira negra,
A pálpebra doente,
O vómito de sangue..

Que o gesto que era o seu o imitem as mães
Que se torcem de dor quando abortam nas trevas,
O desenhem a lume os braços amputados,
O perpetue o esgar dos jovens mutilados,
O dance o condenado que morre na fogueira.

Que o gesto que era o seu seja o punhal do louco
A arma do ladrão
A marca do vencido.

Que o sangue que era o seu seja o rictus da tara,
A máscara de sal,
A vingança do pobre.
E que o Exterminadsor, no seu trono de enxofre,
O faça tilintar os guizos da tortura
Até que o mundo o esqueça
E mais ninguém o chore.


José Carlos Ary dos Santos, A Liturgia do Sangue (1963) / Obra Poética, edição de Francisco Melo, 6.ª edição, Lisboa, Edições «Avente!», 2002.
(lido na sessão de 4.ª feira, 19 de Novembro de 2014)

10 de dezembro de 2014

LEITURAS DAS QUARTAS-FEIRAS...

«Lhe entrego dinheiro, prometo, tenho muito dinheiro fora. Não duvide: são cifras, maquias e quantidades. Tenho e tenho. E dou-lhe tudo, totalmente. Mas me traga chuva, uma porção de chuva boa, grossa e gorda. Estou doido? Por causa de querer que chova aqui, dentro da prisão? Pode ser, pode ser loucura. Mas a loucura é a única que gosta de mim. O senhor que é um inventador de realidades, me faça esse favor. Me invente, rápido, uma urgente chuvinha.
Antigamente, valia a pena ser preso. O cantinho da prisão nem era mau, comparado com o mundo que nos cabia, lá fora. Falo sério. Maioria do que aprendi foi na prisão. Ler, escrever: foi na prisão que me letrinhei. Minha vida era uma roda-ronda entre roubo e grades. Me prendiam: era um consolo cheio de sossego. Lá fora ficava o mundo, mais suas doenças, suas nauseabundâncias.»

(Do conto "A última chuva do prisioneiro")





de Jane Austen

«As minhas filhas começam agora a exigir a minha atenção de um modo algo diferente ao que têm sido acostumadas, uma vez que atingiram, neste preciso momento, aquela idade em que lhes é, de certa forma, necessário tornarem-se mais sociais e activas no mundo circundante. A minha Augusta perfez dezassete e a sua irmã mal é um ano mais nova. Posso congratular-me do facto de a sua educação não ter constituído tarefa árdua, não representando, portanto, a sua apresentação social, tenho razões para o crer, algum tipo de problema. Efectivamente, são raparigas doces: sensíveis, mas sem qualquer tipo de afectamento; realizadas, porém, fáceis no trato; carinhosas e, no entanto, vivas.»
início de «Um conjunto de cartas» [De uma mãe à sua amiga"], Amor e Amizade, tradução de Inês Fraga, Sassoeiros, Coisas de Ler, 2005, p.77.
(lido na sessão de quarta-feira, 19 de Novembro de 2014)

8 de dezembro de 2014

Tiago Salazar fala sobre PEQUENOS MUNDOS E VELHAS CIVILIZAÇÕES

«Ler Ferreira de Castro, 40 anos depois». No Museu Ferreira de Castro, sexta-feira, 12 de Dezembro, pelas 19 horas.
tel.: 219238828
 
capa de Roberto Nobre (1937)
 

2 de dezembro de 2014

QUEIXA E IMPRECAÇÕES DUM CONDENADO À MORTE, José Carlos Ary dos Santos

Por existir me cegam,
Me estrangulam,
Me julgam,
Me condenam,
Me esfacelam.
Por me sonhar em vez de ser me insultam,
Por não dormir me culpam
E me dão o silêncio por carrasco
E a solidão por cela.
Por lhes falar, proíbem-me as palavras,
Por lhes doer, censuram-me o desejo
E marcam-me o destino a vergastadas
Pois não ousam morder o meu corpo de beijos.


Passo a passo os encontro no caminho
Que os Deuses e o sangue me traçaram.
E negando-me, bebem do meu vinho
E roubam um lugar na minha cama
E comem deste pão que as minhas mãos infames amassaram
Com angústia e com lama.


Passo a passo os encontro no caminho.
Mas eu sigo sozinho!
Dono dos ventos que me arremessaram,
Senhor dos tempos que me destruíram,
Herói dos homens que me derrubaram,
Macho das coisas que me possuíram.


Andando entre eles invento as passadas
Que hão-de em triunfo conduzir-me à morte
E as horas que sei que me estão contadas,
Deslumbram-me e correm, sem que isso me importe.


Sou eu que me chamo nas vozes que oiço,
Sou eu quem se ri nos dentes que ranjo,
Sou eu que me corto a mim mesmo no pescoço,
Sou eu que sou doido, sou eu que sou anjo.


Sou eu que passeio as correntes e as asas
Por sobre as cidades que vou destruindo,
Sou eu o incêndio que lhes devora as casas,
O ladrão que entra quando estão dormindo.


Sou eu quem de noite lhes perturba o sono,
Lhes frustra o amor, lhes aperta a garganta.
Sou eu que os enforco numa corda de sonho
Que apodrece e cai mal o sol se levanta.


Sou eu quem de dia lhes cicia o tédio,
O tédio que pensam, que bebem e comem,
O tédio de serem sem nenhum remédio
A perfeita imagem do que for um homem.


Sou eu que partindo aos poucos lhes deixo
Uma herança de pragas e animais nocivos.
Sou eu que morrendo lhes segredo o horror
De serem inúteis e ficarem vivos.



José Carlos Ary dos Santos, A Liturgia do Sangue (1963) / Obra Poética, edição de Francisco Melo, 6.ª edição, Lisboa, Edições «Avente!», 2002.
(lido na sessão de 4.ª feira, 19 de Novembro de 2014)

1 de dezembro de 2014

Woody Allen, 79


Woody Allen nasceu em Brooklyn, Nova Iorque, a 1 de Dezembro de 1935

25 de novembro de 2014

João de Melo fala sobre ETERNIDADE

«Ler Ferreira de Castro, 40 anos depois». No Museu Ferreira de Castro, sexta-feira, 28 de Novembro, pelas 19 horas.
informações: museu.fcastro@cm-sintra.pt;
tel.: 219238828

1.ª edição, 1933
capa: Bernardo Marques

Eça de Queirós, 169


25 de Novembro de 1869, Póvoa de Varzim

24 de novembro de 2014

notas sobre a sessão de «Nenhum Olhar»

* Um pouco fora de tempo, deixo aqui umas linhas sobre o livro do último mês: 
* Um romance sobre a vivência trágica da vida, escuro por vezes obscuro. Noto um ethos alentejano -- algo que uma das participantes na sessão da passada sexta-feira [a 1.ª de Novembro], por sinal alentejana, baixa-alentejana, diga-se, não subscreveu, embora aceitasse a possibilidade de o Alto Alentejo, em especial o distrito de Portalegre, poder ser diferente quanto à psicologia colectiva. Não sei nem , pelo sangue, tenho como o saber. [Curiosamente, já depois destas linhas escritas, estive com uma nossa confreira, também alentejana do Baixo, que sentiu essa identificação.[

*Um confrade falou num De Profundis bíblico, o que me pareceu muito feliz, não sei se também sugestionado pelos nomes bíblicos das personagens masculinas. Um outro, também com grande acerto, falou num livro sobre o caos humano, o conflito com o que não se quer ver, uma poética da sombra. Um terceiro, falou na narrativa como um longo poema, no que estou de acordo. Foi uma grande sessão!

* Trata-se do seu primeiro romance, e podemos detectar algumas influências, uma reais outras talvez sugestão minha. Quanto às reais, é inegável que o estilo de José Saramago aqui se faz muito sentir. Falou-se de António Lobo Antunes, mas eu não dei por isso. Subjectivamente, ouvi os ecos de algum José Régio, das narrativas alentejanas, e Manuel da Fonseca, alguns contos seus. Referência também a Raul Brandão: já não acompanho.

* Houve quem gostasse, e muito, e quem detestasse; quem lhe apreciasse a estética e quem achasse o texto um emaranhado de divagações e/ou lugares-comuns. Éramos vinte, e a coisa andava pela metade-metade.

20 de novembro de 2014

leituras das 4ª feiras


 «Perdera a vida só num olho, um lado da cara todo esfacelado. O olho dele era faz-conta um peixe morto no aquário do seu rosto. Mas o sargento era tão apático, tão sem meximento, que não sabia se de vidro era todo ele ou apenas o olho. Falava com impulso de apenas meia-boca. Evitava conversas, tão doloroso era ouvir-se. Não apertava a mão a ninguém para não sentir nesse aperto o vazio de si mesmo. Deixou de sair, cismado em visitar no obscuro da casa a antecâmara do túmulo. O Correia perdera interesses na vida: ser ou não ser tanto lhe desfazia. As mulheres passavam e ele nada. E ladainhava: «estou morto por metade»
Agora, reformado, sozinho, mutilado de guerra e incapacitado de paz, Antunes Correia e Correia tomava conta das suas lembranças. E se admirava do folgo da memória. Mesmo sem o outro hemisfério não havia momento que lhe escapasse nessa caçada ao passado. Das duas uma: ou minha vida foi muito enorme ou ela fugiu-me toda para o lado direito da cabeça. Para as recordações virem á tona ele inclinava o pescoço.

(do conto "A Viagem da Cozinheira Lagrimosa". Lido na sessão de 19-11-2014)

18 de novembro de 2014

de José Eduardo Agualusa

«-- O amigo acredita em Deus?
A pergunta apanhou-me desprevenido. Deus? Eu estava dentro de um táxi, tinha fechado a porta e indicado o destino. Ainda pensei em sair mas o carro já corria, às curvas, por entre o trânsito transtronado de Lisboa. Assim, acomodei-me no assento, suspirei fundo e preparei-me para o pior.»

Início de «O taxista de Jesus», in Fronteiras Perdidas, 5.ª ed., Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2009, p. 19. (Lido na sessão de quarta-feira, 12 de Novembro)

17 de novembro de 2014

de Sarah Adamopoulos

«Ele queria um filho. Ele queria um filho. Ele queria um filho. Ele queria um filho. Ele queria um filho. Vou fazer-te um filho. Mas eu não quero um filho. Mas eu preciso dum filho. Então manda vir. Mas eu quero um filho teu. Ou contigo. Ou qualquer coisa assim. Eu quero um filho. Então faz um. Mas um filho não se faz sozinho. Pois não. Faz-se com uma mulher que quer ter um filho. Dá-me um filho. Não. Então ele começou a beber. [...]»

Excerto de «O Adeus aos feijões verdes», A Vida Alcatifada, Lisboa, Fenda, 1997, p. 72.
(lido na sessão de quarta-feira, 12 de Novembro)

de Paul Auster

«L. e eu casámos em 1974. O nosso filho nasceu em 1977, mas no ano seguinte o casamento tinha terminado. Nada disto é relevante agora -- excepto para situar a cena de um incidente que ocorreu na Primavera de 1980.»

início do texto #4 de O Caderno Vermelho, tradução de Fátima Freire de Andrade, 8.ª ed., Porto, Edições Asa, 2002, p. 21.

(lido na sessão de quarta-feira, 12 de Novembro)

16 de novembro de 2014

40 ANOS DE MOVIMENTO



O número 1 da revista literária Movimento (cadernos de poesia & crítica) foi lançado na cidade do Funchal em Novembro de 1973. A direcção e coordenação deste número único esteve a cargo do  poeta A J Vieira de Freitas, o verdadeiro impulsionador desta publicação. Natural da Madeira, Vieira de Freitas, era   um dos raros modernos residentes  no espaço insular. Queria fazer desta revista, um espaço para a divulgação da autêntica poesia e simultaneamente despertar nos leitores o  gosto pela  leitura e crítica poéticas inexistente a nível local.

 Houvera no início dos anos 70 o colóquio “Ao encontro da poesia”, na Escola Industrial e Comercial do Funchal. Nele participaram a poetisa Irene Lucília Mendes de Andrade, os poetas A J Vieira de Freitas e José António Gonçalves e o jornalista Tolentino de Nóbrega. Aqui foi  debatida a interminável (?!) questão entre antigos e modernos. Questionou-se essencialmente o versilibrismo, que não era aceite por todos;  Pelo seu simbolismo estes dois acontecimentos culturais vão entusiasmar a geração a que pertenço nascida na década de 50 e projectá-la depois.         

De autêntica poesia se trata. A revista Movimento contem  na variedade das suas vozes mui particulares, o fermento do discurso social na literatura que é nexo relacional e emocional nos textos ora apresentados. Participaram, com poemas rigorosamente originais 4 poetas continentais e 4 poetas madeirenses, que coloco por ordem de publicação : Eugénio de Andrade, António Ramos Rosa, Pedro Tamen, José Bento, A J Vieira de Freitas, José Agostinho Baptista, José António Gonçalves,e, Gualdino Rodrigues. 

A  revista Movimento  está de certo modo inspirada nos ideais da Árvore,    e nos poetas de 50 mas não rigorosamente. Observamos textos situados entre o simbolismo e filamentos do surrealismo, quase. Mergulha, outrossim    nas questões da consciência social , da existência, e da condição humana. Pelas suas preocupações sociais e estéticas e partilha de meios literários e éticos é exemplar para as novas gerações de poetas.     

 

15 de novembro de 2014

de Alberto da Costa e Silva

«Poeta quis ser, e, agora consolam-me, dizendo-me que fui poeta e -- quem sabe? -- sou.»

Excerto de «O deslumbramento do mundo», discurso de aceitação do Prémio Camões 2014, em 29 de Outubro passado, na Fundação da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

De salientar outro excerto, formidável, de outro orador na cerimónia, Jorge Barreto Xavier, Secretário de Estado da Cultura, que aí se deslocou propositadamente, como era seu dever -- ao contrário do que sucedeu (talvez escandalosamente) com a ministra brasileira da Cultura, que justificou a ausência com "motivos de ordem pessoal". E disse Barreto Xavier: "Saúdo acima de tudo o homem que reúne de forma tão gloriosa todos eles [o poeta, o historiador, o ensaísta...], atribuindo a cada parte dons de palavra e de um imenso trabalho abençoado por uma escrita pessoal e ao mesmo tempo hoje património comum da língua portuguesa, uma escrita que que não se sabe bem se é literatura ou história, poesia ou prosa, ensaio ou novela, uma escrita que na reunião do conjunto da obra corresponde a um monumento construído ao rio Atlântico e às suas margens, do Brasil a África, de Portugal ao Brasil." 

in JL- Jornal de Letras, Artes e Ideias # 1151, Lisboa, 12 de Novembro de 2014
(lido na sessão de 12 de Novembro)

14 de novembro de 2014

de Antero de Figueiredo

«Nos paços reais de Santarém, D. Pedro esperava, impaciente, a chegada dos fidalgos criminosos. Mais de uma vez o rei passeara pela cortina do nascente e subira à torre albarrã, alongando aguçada e sôfrega vista por cima de Almeirim, das lezírias do Ribatejo -- para além, muito para além, para as bandas de Avis, de Barbacena, de Elvas, de Badajoz, em ânsia exasperada.»

Início de «A vingança de D. Pedro», extraído de D. Pedro e D. Inês (1913), in 14 Novelas Históricas Portuguesas, Lisboa, Estúdios Cor, 1965, p. 155.

(lido na sessão de quarta-feira, 29 de Outubro de 2014)

13 de novembro de 2014

de Ferreira de Castro

«Irmanados pelo mesmo arcabouço literário, pela mesma forte orquestração verbal, os dois separam-se quando as pupilas devem constituir elemento a aproveitar. Herculano tem pouca cor, usa poucas cores. A sua visão não encontra cromatismos e é como o seu pensamento: profundo, vasto, mas sóbrio. Se tivesse de pintar, seria como certos mestres da arte espanhola; sombrios, procurando exteriorizar-se pelo castanho e pelo negro. Há sempre algo de arte ibérica, conventual, neste génio português.»

Excerto de «Euclides e Herculano», Vária Escrita #3, Sintra, Câmara Municiapl, 1996, pp. 157. Texto originalmente publicado no n.º 0 (ou "espécime") de O Diabo -- Semanário de Crítica Literária e Artística, de que Ferreira de Castro foi fundador, tendo sido, por breve período, um dos seus directores..
Antologiei-o num pequeno conjunto de textos circunstanciais sob o título «A unidade fragmentada. Dispersos de Ferreira de Castro».

(lido na sesão de quarta-feira, 29 de Outubro de 2014)

12 de novembro de 2014

(IDEIAS AVANÇADAS...)

"Parecerá paradoxo a estes Catões portugueses ouvir dizer que as mulheres devem estudar; contudo, se examinarem o caso, conhecerão que não é nenhuma parvoíce ou coisa nova, mas bem usual e racionável.
Pelo que toca à capacidade, é loucura persuadir-se que as mulheres tenham menos que os homens. Elas não são de outra espécie no que toca à alma; e a diferença do sexo não tem parentesco com a diferença do entendimento.
... .... ....
Quanto à necessidade, eu acho-a grande, que as mulheres estudem. Elas, principalmente as mães de família, são as nossas mestras nos primeiros anos da nossa vida: elas nos ensinam a língua; elas nos dão as primeiras ideias das coisas. E que coisa boa nos hão-de ensinar, se elas não sabem o que dizem?
... ... ...
Além disso, elas governam a casa, e a direcção do económico fica na esfera da sua jurisdição. E que coisa boa pode fazer uma mulher que não tem alguma ideia da economia?
... ... ...
Muito mais porque não acho texto algum da lei, ou sagrada ou profana, que obrigue as mulheres a serem tolas e não saberem falar. As freiras já se sabe que devem saber mais alguma coisa, porque hão-de ler livros latinos. Mas eu digo que ainda as casadas e donzelas podem achar grande utilidade na notícia dos livros. Persuado-me que a maior parte dos homens casados que não fazem gosto de conversar com as suas mulheres e vão a outras partes procurar divertimentos pouco inocentes, é porque as acham tolas no trato.
... ... ...
Certo é que uma mulher de juízo exercitado saberá adoçar o ânimo agreste de um marido áspero e ignorante...
.... ... ...

(lido na sessão de 4ª feira, 12 de Novembro)

11 de novembro de 2014

Joana Bértholo fala sobre EMIGRANTES, de Ferreira de Castro

No MU.SA -- Museu das Artes de Sintra, 14 de Novembro 2014, 19 h.

capa de Stuart Carvalhais para a 1ª edição (1928)
 
informações: museu.fcastro@cm-sintra.pt;
tel.: 219238828

9 de novembro de 2014

ETERNIDADE






Quando não sabia. Mas o cavalinho de cartão entrara um dia na história da sua vida. Quando deu por ele? E são muitos quando. Quando a  fotografia de contornos pesados e rigorosos do Amândio Fotógrafo lhe devolveu a imagem. Menino com cavalo, isso mesmo. A cara plena de espanto, o colete de veludo, obviamente macio, calção, camisa branca, meia branca, sapato de fivela. A condizer com qualquer coisa animal. A pata branca do cavalo, o selim igualmente branco, a luz nas ventas. O espanto, também. Cavalo…cavalo, o nome soou.

 Mais tarde escreveria poemas dando-lhe prados maiores, veria cavalos correrem no grande ecrã, leria pinturas de cavalos em Júlio Pomar. Mas só mais tarde. O seu, de cartão e sonho quixotesco ficou agarrado ao minúsculo prado de madeira de pinho com rodízios. Quase um precipício.

Pediram-lhe que estivesse quietinho. Já  era, quietinho. E esteve mais. O momento era histórico. Sabia-o. Mas só sabia isso. Aquele era decididamente o momento. Susteve a respiração. Abriram-se-lhe instantaneamente duas luas de iluminação muito forte sobre o rosto. Ficou em décimos de segundo com as luas nos olhos. Disseram-lhe: “Já está”.

Foi a fotografia de menino com cavalo.  A única coisa verdadeiramente séria, certeira, que fez na vida. Interroga-se por vezes: fotografia? mas que é isso de fotografia? ainda não sabe. Gozou apenas aquele momento de menino-poeta-cavalo. Se a eternidade é. É aquilo: “já está”. E ele é, na marca do seu espanto aquele grão de eternidade.