25 de setembro de 2014

Roteiro Castriano de Sintra


Ferreira de Castro, Jaime Cortesão e Luís da Câmara Reys
Sintra, Setembro de 1952

 O primeiro Roteiro Castriano de Sintra vai realizar-se no dia 26 de Setembro de 2014, no âmbito das Jornadas Europeias do Património.
O encontro terá lugar no pátio do Museu Ferreira de Castro (Rua Consiglieri Pedroso, 34), às 14,30 h. e terminará junto ao túmulo do escritor, na Serra de Sintra.
A acompanhar o percurso, leremos textos do próprio Ferreira de Castro, de Agustina Bessa Luís,  Francisco Costa, Vergílio Ferreira, Jaime Cortesão, José Gomes Ferreira, Luís de Oliveira Guimarães e Jorge Segurado, entre outros.
Recomenda-se calçado confortável.

11 de setembro de 2014

apanhados pela História

Um bom romance sobre o drama dos chamados retornados -- episódio central do pós-revolução de Abril, em que sobressai o choque cultural e consequente rejeição da "Metrópole", que responde em conformidade. Rejeição sentida principalmente por parte dos jovens, que nunca a haviam conhecido ou dela tinham uma ideia distorcida, porque mitificada, nomeadamente nos programas escolares. Decepção que acarreta um sentimento de impotência e revolta. Todos os que não fomos retornados conhecemos e tivemos parentes que o foram. Eu tenho a idade de Dulce Maria Cardoso, e lembro-me.
Esta é, pois, uma história sobre as vítimas da História, as que foram apanhadas no turbilhão em que, por um lado, se intersectaram as contingências da política interna (Guerra Colonial, Revolução e estado de pré-guerra civil, Descolonização) e, por outro, as dinâmicas geopolíticas decorrentes da Guerra Fria. Demasiado para simples pessoas que a pobreza da "Metrópole" ou o espírito de iniciativa fizeram com que fossem atraídas por essas terras de oportunidade. Daí que o mainstream político retornado espelhe uma enorme hostilidade ao 25 de Abril e àqueles que o protagonizaram, militares e políticos. Os doestos com que mimoseavam Soares e Rosa Coutinho, por exemplo, são expressão patética dessa impotência.
Dulce Maria Cardoso trata o tema, não apenas com mestria literária (a chegada ao Aeroporto da Portela é um dos grandes momentos do livro), mas igualmente com sabedoria autoral, pois O Retorno é um livro que se esforça por não tomar posição. Embora se perceba a inelutabilidade histórica -- e, desse ponto de vista, não há um mínimo de justificação do colonialismo, bem pelo contrário --, o romance é feliz ao dar-nos um perfil perfeitamente normal daqueles que vieram de África: na maioria, gente comum apanhada pelo vórtice da História. 
A forma como a autora o veicula é inteligentemente dada através do discurso do protagonista, Rui, um adolescente a quem, nós leitores, permitimos e compreendemos todos os desabafos, todas as invectivas, todas as perplexidades.

4 de setembro de 2014


"Ei tu que fumas, a voz não pertence ao soldado que está de pé, ei tu que fumas, foi outro soldado, talvez o da cara quadrada. Antes de isto ter começado um preto podia levar uma sova por tratar um branco por tu e nem pensar que, ei tu que fumas. Os soldados riem-se e o pai ri-se outra vez. De cima do jipe o soldado da cara quadrada está cada vez mais divertido, chegou a altura de vingar-se do murro que o Lee lhe deu, já não tem os olhos semicerrados, peço a deus que os soldados se vão embora, prometo rezar uma ladainha inteira, das da emissora católica, peço a deus que o tio Zé chegue, o tio Zé anda a ajudar o povo oprimido, tem um cartão e tudo, talvez eles o ouçam e nos deixem em paz, peço que o soldado não se lembre do jogo de futebol nem de mim, peço tantas coisas a deus, mas deus, como sempre, mais surdo que uma porta, os soldados continuam à nossa frente satisfeitos pelo medo que nos provocam."

O RETORNO, Dulce Maria Cardoso   

1 de setembro de 2014

António Lobo Antunes, 72


António Lobo Antunes nasceu a 1 de Setembro de 1942,
em Benfica, Lisboa

26 de agosto de 2014

18 de agosto de 2014

ENQUANTO NÃO CHEGA "O RETORNO"...

"No verão de 18... ao declinar de um dia ardentíssimo, passeiava eu no espaçoso largo do Rocio, quando vi parar a cura distancia uma caleche e a pessoa que vinha dentro fazer-me um aceno para que me approximasse.
Era o meu particular amigo O... (que tratarei pelo nome de Carlos), conhecido nesta cidade pela elegância da sua figura e pela gentileza, não menos notável, do seu caracter.
- Vem dar um passeio até Bemfica, disse elle, abrindo a portinhola e convidando-me a tomar um logar à sua direita.
Acceitei de boa mente o offerecimento.
- Que tens feito? Desde que chegaste da provincia é a segunda vez que te vejo. Estiveste em Cintra?
- Não, tenho estado sempre em Lisboa.
- Vens do campo para te encerrares em casa na cidade?
- Pelo contrario, saio todos os dias e vou a todos os sitios.
- Mas que sitios são esses? Eu appareço em todos onde se reune gente e não te vejo em nenhum.
Sorrio-se como quem fosse apanhado n'uma ingenua fraude e depois continuou:
- É verdade, não tenho frequentado o Marrare, o theatro, o passeio, nem a casa da neve.
- O que equivale a dizer que não vaes a parte nenhuma onde se encontre alguem conhecido. Estarás tu apaixonado!
- E se assim fosse, o que dizias?
- Que era uma desgraça como outra qualquer.
- E a peior de todas as desgraças.
.... ....  "

23 de julho de 2014

O QUE TERIA SIDO LIDO HOJE, SE...

"Os lupis tinham boas relações com alguns animais da planície. Em particular com o cágado e a cabra de rabo-de-leque. Muitas vezes se visitavam. Os lupis gostavam muito da prudência e sabedoria do cágado. Sobretudo o lupi-pensador e o lupi-sábio, seus grandes kambas, que tinham conversas profundas com ele, a tentar descobrir sentidos escondidos na desordem babélica deste mundo. A cabra de rabo-de-leque era muito meiga e bondosa, com aqueles olhos assustados e cheios de ternura. Também o esperto coelho, o Kandimba, vinha muitas vezes à montanha. Os lupis lupilavam de gozo até se rebolarem no chão com as divertidas anedotas e muimbos que ele contava. 
Os animais maiores, como o elefante, o búfalo e o próprio rinoceronte, não tinham relações nenhumas com os lupis. Ignoravam-se. Os lupis nunca desciam da montanha para ir à planície e, depois da expulsão dos rinocerontes, estes não mais subiram à montanha. E passaram o mujimbo dos seus tormentos aos elefantes e búfalos, os quais não ousavam pisar território lupi, certamente com medo de ficarem arrasados dos nervos."

PEPETELA -  A MONTANHA DA ÁGUA LILÁS (Fábula para todas as idades)



18 de julho de 2014

EXCERTO DO FUTURÍVEL "O ASCETA"

Aos domingos e dias de preceito o átrio das cruzes perdia um pouco do seu ar desolado e animava-se com o afluxo dos fiéis que chegavam das aldeias mais próximas para assistir à missa conventual ou ser ouvidos em confissão. Alguns traziam víveres para os monges, coisas simples e parcas, como pão de centeio, peixe seco, algum cabaz de frutas, uma ou duas onças de sal, um molho de nabiças, uma púcara de azeitonas, meia dúzia de queijinhos de cabra, um selamim de feijão. Por vezes, quando achava que a quantidade das dádivas excedia as necessidades imediatas do convento - a regra impunha que não se armazenasse mais do que o necessário para três dias - o guardião recusava com delicadeza, e alguns camponeses regressavam a casa com o alforge só parcialmente aliviado."

(F. Faria)

14 de julho de 2014

um parágrafo de Raul Brandão

«Lá está a velha casa abandonada, e as árvores que minha mãe, por sua, dispôs: a bica deita a mesma água indiferente, o mesmo barco arcaico sobre o rio, guiado à espadela pelo mesmo homem do Douro, de pé sobre a gaiola de pinheiro. Só os mortos não voltam. Dava tudo no mundo para os tornar a ver, e não há lágrimas no mundo que os façam ressuscitar.»

Memórias, vol. I [1919], Lisboa, Perspectivas & Realidades, s.d.
(lido na sessão de 9.VII.2014)

11 de julho de 2014

A PRIMEIRA BISNETA, João de Barros

 
 
Para o futuro neto da Teresa e do
Marcelo. Na noite de Natal de 1956.

Tal o menino Jesus
os meninos nascem nus...
Mas Aquele não tem frio,
vem lá do céu direitinho,
e no céu tudo é quentinho.
Os outros, quanto arrepio
no seu corpinho macio!
Então a Avó, com afã,
para evitar-lhe percalços,
por causa dos pés descalços,
corre a buscar sapatinhos
de boa lã
(boa lã da Covilhã)
que os pèzinhos aconchega...
Nenhum inverno lhes chega!
-- Oferta de puro amor
que é sempre o melhor calor.



João de Barros, Eterno Mar -- Último Versos, edição da família do Autor, 1967
(lido na sessão de 9.VII.2014)

8 de julho de 2014

"memórias de uma estranha primavera"

Testemunho romanceado da vida de seminarista que o autor conheceu na juventude. A meu ver, a leitura fará mais sentido encarada como relato memorialístico do que como ficção, apesar de existirem elementos ficcionais (e até de fantástico, como um viajante no tempo sob o qual a narrativa se estrutura). O subtítulo, Memórias de uma Estranha Primavera, é, aliás, bastante claro.  
Um aspecto interessante do livro é o da não coincidência com outros textos de temática idêntica sobre a vida nos seminários, habitualmente mais negros. Não que o trauma não esteja presente -- nada mais natural num universo disciplinador vivido durante a adolescência; porém, a narrativa é destituída dos episódios escabrosos que à partida aguardamos, quando se trata de seminários ou internatos. (Preconceito, ou sorte de quem viveu esta história concreta?) Há passagens particularmente interessantes, entre as quais destaco as que giram em torno do afastamento da casa e da família, das saudades lancinantes, que afloram como a mais dolorosa provação de Filinto, ou seja, o autor. 
Fernando Faria,  As Viagens de Filinto, Lisboa, Chiado Editora, 2013

3 de julho de 2014

um parágrafo de D'Annunzio

«Ela e o Delfim tinham-se amado sempre, desde o tempo em que brincavam no areal, atormentavam os caranguejos ou patinhavam na água; haviam-se beijado mil vezes à luz do sol, em frente do mar; mil vezes tinham lançado ao mar e ao sol a divina canção da mocidade de ambos... Ah, que bela, robusta, audaciosa mocidade, temperada na água salgada, como rija lâmina de aço!»

«O Delfim», Terra Virgem, tradução de M. L., Lisboa, Editorial Minerva, 1955, pp. 107-112.
(lido na sessão de 25.VI.2014)

30 de junho de 2014

um parágrafo de Ferreira de Castro

«Estes velhos e velhas, em cujo rosto a charrua do tempo lavrou profundos sulcos, estas crianças maltrapilhas, criadas ao deus-dará, entre a lama dos pobres burgos e os animais domésticos, esta gente simples e despecuniada, que me faz sentir o frio que ela sente nas noites invernais e me recorda os seus desolados casebres quando percorro algumas ruas de Lisboa, onde se exibem sumptuosas moradias, demonstra-nos que se a felicidade não se obteve com as conquistas da civilização, também não existia, senão em casos singulares, antes de o homem ter colocado o seu génio ao serviço da sua ansiedade.»

Excerto do «Pórtico» de Terra Fria [1934], 12.ª edição, Lisboa, Guimarães & C.ª, 1980
(lido na sessão de 27.VI.2014)

27 de junho de 2014

um parágrafo de Sophia de Mello Breyner Andresen


«É uma cidade antiga onde estagnada se desagrega e se dissolve lentamente uma vida desvivida gesto por gesto, sílaba por sílaba.»

«Vila d'Arcos», Histórias da Terra e do Mar, Lisboa, Edições Salamandra, 1984, pp. 115-117.
(lido na sessão de 25.VI.2014)

24 de junho de 2014

1 parágrafo de Manuel Alegre

«De certo modo não havia lugar para o pai nem para mim. Havia lugar para a nossa presença na ordem incessante dos ritos, a horas certas. Não para as cavalgadas solitárias que cada um tinha necessidade de fazer sem ser interrompido pela tarefa do dia. Mesmo que fosse o dia de receber visitas, com chá e bolos. Não tínhamos direito à nossa desordem interior, éramos prisioneiros de um espaço contantemente invadido por obrigações cujo sentido não podíamos entender. Não era por mal, era assim.»
«A grande subversão», O Homem do País Azul (1989), 7.ª edição, Lisboa, Dom Quixote, 2009, pp. 51-56.
(lido na sessão de 18 de Junho de 2014)

Ambrose Bierce, 172

Ambrose Bierce nasceu no Meigs County, Ohio, em 24 de Junho de 1842.

23 de junho de 2014

2 parágrafos de Bruce Chatwin

«O que faço eu aqui? Deitado num hospital dos Serviços Nacionais de Saúde, espero, rezando para que as dores e a febre que há três meses me atormentam sejam realmente sintomas de malária -- apesar das numerosas análises que me fizeram, nenhum para sita foi detectado. Há treze horas que tomo comprimidos de quinino, mas a temperatura parece não baixar. Toco nas orelhas. Estão frias. Meto a mão entre as pernas. Vá lá... Basta um pouco de excitação para que a febre aumente.
Entra, então, uma das pessoas que aqui trabalha de quem eu mais gosto: Assunta, a mulher a dia e encarregada de servir o chá.» 
Excerto de «Assunta -- Uma história», O que Faço Eu Aqui?, tradução de José Luís Luna, Quetzal Editores, Lisboa, 1993.
(lido na sessão de 18.VI.2014)

20 de junho de 2014

LIDO NA SESSÃO DE 18 DE JUNHO DE 2014



"O ofício de cão é um mau ofício, um ofício sem meio-termo: pelos vistos entre os cães não há classe média, mas sim áurea aristocracia e sebenta e faminta vulgaridade. Uns cães vivem como duques e comem peitinhos de frango e bebem leite, e outros, pelo contrário, farejam nos matadouros, levam pauladas e, quando chega o carnaval, até voam pelos ares com o espinhaço partido em dois. Os cães, pelo entrudo, são pintados às riscas para maior e mais cauteloso escárnio do próprio e regozijo dos outros, e assim, quando vão pelos ares, as pessoas dizem: «Parecem borboletas!», e divertem-se honestamente e sem fazer mal a ninguém [...]
A Blas Tronchón, Harinita, quando o jogo acabou, puseram-no no meio da manta e começaram a atirá-lo ao ar e a divertir-se com ele, como fazem aos cães no entrudo. A cena foi de muita graça e crueldade, e o público, enquanto moíam os ossos a Blas Tronchón, Harinita, com uma circunspecção muito recatada.
- Que não tivesse falhado o penalty, não é verdade?
- Pois claro, é como eu costumo dizer: que não tivesse falhado o penalty. Assim vai aprender a afinar a pontaria!
Blas Tronchón, Harinita, tinha um chuto potente e impiedoso que era o orgulho dos seguidores da equipa do clube e o terror dos guarda-redes inimigos. Blas Tronchón, Harinita, era muto habilidoso e tanto chutava com um pé como com o outro; a cabeça, por fora, também a usava bem e oportunamente. Blas Tronchón, Harinita, era o verdugo dos penalties, o feroz e frio executor da pena de morte do futebol. Às vezes, no entanto, falhava, e então os companheiros, ao terminar o jogo, manteavam-no como fazem aos cães no entrudo, para lhes servir de escarmento.
- Mas o que é que estão a fazer com esse desgraçado?
- Nada, minha senhora; estão a manteá-lo para que aprenda a ter pontaria. [...]

(do conto COMO UM CÃO NO ENTRUDO)

Ramalho Ortigão e os prazeres da caça

   
 [Querida...]

     [...] Enquanto se esperava pelo almoço eu saí com um cão, uma espingarda e seis cargas e fui dar uma volta à lagoa*. Matei cinco galinhas do mar e um pato bravo. Apesar de haver 14 anos (quem tal diria!) que eu não caçava, não errei um tiro, e quando vim para o almoço tinha empregado optimamente as minhas seis cargas. Parecia-me que tinha voltado aos 18 anos, e achei-me resignado e feliz com o modo como me tem passado o tempo e a vida desde a minha última caçada até esta.
     Do almoço ao jantar matámos coelhos, uma codorniz, uma rola, e mais dois patos. Voltámos carregado para Porto Brandão. Os coelhos são magníficos aqui. A carne é branca como a da vitela e tem um sabor bravio que sabe às ervas ao cheiro e à amargura da charneca. [...] Quando tornámos a passar a lagoa já havia luar. Que solidão, que silêncio, que imensa concentração naquelas águas imóveis do lago! Não imaginas que beleza! Depois de mais a mais sem a estúpida companhia de ninguém que fizesse literatura nem poesia. Eram apenas honrados caçadores singelos e robustos, habituados à fadiga e ao monte. [...] Do lado de cá da Lagoa montámos os nossos burros e lá viemos de pernas a bamboar pelo tojo, embrulhados nos nossos mantos, com as espingardas de baixo do braço. Cansa-me muito andar em burro e aquele movimento que eles têm quando principiam a cansar e que parece com o de uma pessoa que nada, faz-me dores nas costas e nos rins, de modo que das quatro léguas para lá e quatro para cá andei quase tudo a pé com a minha firmeza sólida e proverbial. [...]

     * Lagoa d'El-Rei, Sesimbra
[excert de carta a sua mulher, Emília, s.ll., s.d.]

Cartas a Emília, Lisboa, Lisóptima / Biblioteca Nacional, 1993
edição: Beatriz Berrini. 

(excerto lido na sessãp de 4.VI.2014)

Desperdício 3, Sebastião Belfort Cerqueira



Desperdicei ouvintes muitas vezes
Na esperança de poder mais que falar
Sem planos para lá das intenções
Tiros limpos quis fazê-los difíceis
Com excesso de barulho e desrazões
E ainda assim ter sol até à porta
E a porta até à tarde e até à estrada.
Admito que houve vezes que sorri
Que se pudesse agora retirava
Que espero que quem viu tenha esquecido
E que parecem pouco ou quase nada
Ao lado do que já disse ao ouvido.

Lido na sessão de 18-06-2014.

Desperdício 4, Sebastião Belfort Cerqueira

Desperdizes ao vento muito embora
Cada vez mais embora
E um último cartucho
Cheguei a casa e joguei-o fora
Ao lixo
Por luxo.
Desperdizes ao vento muito ao vento
E eu morto
E agora
De tudo.

Lido na sessão de 18-04-2014

Desperdício 1, Sebastião Belfort Cerqueira


Desperdisse ao ouvido muitas coisas
Só pra provar o toque de uma orelha
Sem planos especiais para depois
E queria fazer disso como o outro
Uma linha que acaba em nós os dois
Pra rirmos e acompanhar à guitarra
Mas não tenho mais música pra dar.
Já fui visto na doca a perder tempo
A dizer coisas parvas sobre o mar
A um gajo que ninguém sabe quem era
E oh meu amor eu gosto de aqui estar
Mas nem aquilo que eu fiz foi estar à espera
Nem o que tu fizeste foi chegar
E se um dia leres isto vai-se andando.
 
in Forma de Vida nº4, www.formadevida.org
 
 
Lido na sessão de 18-06-2014.

19 de junho de 2014

LEITURAS DAS QUARTAS


A CAMA, SE AO MENOS MUDASSE A CAMA

Excertos do conto filosófico “Maridos”, de Fernando Pessoa:

«Não há mulher nenhuma neste mundo – nem a mais séria, senhor juiz – que não tenha invejado essas que lá andam nas ruas à procura  dos homens – nenhuma, senhor juiz (…)
Isto, senhor juiz, e para que Vossa Excelência saiba, e os senhores jurados, é o que todas as mulheres sentem.
(…) E vem uma vontade de meter a costura pela pia abaixo, e de ir para longe ao menos só para chorar à vontade.
(…) Sempre o mesmo homem, senhor juiz – o mesmo homem todos os dias, com o mesmo corpo e a mesma maneira! Todas as noites, senhor juiz, e na mesma cama – nem a cama muda ao menos. E aquilo ao fim de tempo já não era viver, nem coisa que se parecesse – era uma coisa entre comer para não ter fome e fazer o serviço da casa… Se os homens soubessem o que custa a aturar! Se soubessem o nojo que a gente tem por eles quando está encostada a eles!
E eu, senhor juiz, não tinha outro remédio senão matá-lo para estar bem com a minha consciência e com a Igreja.
Foi por isto, senhor juiz e senhores jurados que matei o meu marido.»

18 de junho de 2014

13 de junho de 2014

B

BACO, n.  Uma divindade conveniente, inventada pelos antigos como desculpa para se embriagarem.
BANDEIRA, n.  Um trapo colorido que se usa acima das tropas e nos quartéis e navios. Parece ter a mesma função de certos cartazes que se podem ver nos terrenos baldios de Londres: «Pode atirar-se lixo para aqui».
BANDIDO, n. Uma pessoa que, à força, tira a A aquilo que A, com manhas, tirou a B.
BAPTIZAR, v.t.  Infligir cerimoniosamente um nome a uma criança indefesa.
BARBEIRO, n.  (Do Latim barbarus, selvagem, a partir de barba, a barba.) Um selvagem que nos faz esquecer a laceração da nossa cara, perante o tormento superior que é ter de ouvir a sua conversa.
BIOGRAFIA, O tributo literário que um pequeno homem presta a uma grande homem.
BRUTO, n. Ver MARIDO.
BRUXA, n. (1) Uma mulher feia e repelente, que fez um pacto demoníaco com o Diabo. (2) Uma jovem mulher bela e atraente, muito mais demoníaca que o próprio Diabo.

Ambrose Bierce, Dicionário do Diabo, Lisboa, Tinta da China, 2006, pp. 25-29.

Alguma entradas da letra B, lida na sessão de 11 de Junho de 2014. 

11 de junho de 2014

um parágrafo de José Eduardo Agualusa

 
«Porém, quando estávamos quase a chegar ao Sumbe, o lagarto começou a rir. Sei que parece estranho, mas é a pura verdade: Leopoldino ria. Não ria exactamente como uma pessoa, claro, ria como uma pessoa semelhante a um lagarto, mas ria. Eram gargalhadas secas, cínicas, que estalavam dentro do jipe de uma forma vagamente assustadora. Eu ouvi-o e não tive vontade de rir. O meu amigo, que conduzia o jipe, ficou ainda mais inquieto:»

Do conto «Dos perigos do riso», lido na sessão de 21 de Maio de 2014
in Fronteiras Perdidas (1999), 5.ª edição, Lisboa, Dom Quixote, 2009, pp. 15-19.

solidão absoluta


Os últimos anos de D. João V, em deslocações regulares às Caldas da Rainha (de onde o autor é natural), para enfrentar um mal que o deixara semiparalizado, talvez um avc. Um bom pretexto para falar-se do lugar, a que se junta uma história de amor entre Pedro Fontes, escudeiro do infante D. Manuel, irmão mais novo do rei e Sara, uma filha ilegítima d'o Magnânimo -- o episódio mais eminentemente ficcional do livro, pois trata-se de romance histórico.
Neste aspecto, a pesquisa parece-me ter sido muito conseguida, não faltando o episódio de conspiração (ou alucinação visionária de um certo Pedro de Rates Henequim, personagem verídica, sentenciada pela Inquisição), que procurara fazer do infante D. Manuel um futuro imperador do Brasil, como forma de instaurar o V Império bandarro-vieirino.
O mais interessante da narrativa é a solidão do rei absoluto diante da doença e da aproximação da morte. Menos interessante, para mim, a história de amor, central, prejudicando, talvez, alguns aspectos que gostaria de ter visto mais desenvolvidos.

Carlos Querido, A Redenção das Águas, Lisboa, Arranha-céus, 2013

5 de junho de 2014

O início de A REDENÇÃO DAS ÁGUAS


O rei morreu. O dobre de finados dos 114 sinos do convento de Mafra espalha a notícia pelos céus do oeste com uma cadência grave e desolada, que se propaga por um vasto território, para norte, entre a serra e o mar, até à vila das termas, até aos sinos da igreja de Nossa Senhora do Pópulo.

Carlos Querido, A Redenção das Águas -- As Peregrinações de D. João V à Vila das Caldas, Lisboa, Arranha-céus, 2013.

um parágrafo de Ruben A.

«Pusemos arraial na encosta, pedra ao pé de pedra. Lá fomos entre o formigueiro. A capela é mesmo viva pelas coisas de pedra colorida e pela situação escondida do altar-mor. Tem uma estátua do Santo Miguel a cutilar o Senhor Diabo que é uma maravilha. Todos entre Lima e Minho têm respeito ao Senhor Diabo para ele estar quietinho. Nada de obras do Diabo! O Senhor Diabo merece toda a consideração. Deitei lá umas cinco coroas para não ter nada com as iras e más disposições do Senhor Diabo.»

Ruben A., «S. João d'Arga», Antologia, organização de Liberto Cruz e Madalena Carretero Cruz, Lisboa, Roma Editora, 2009, pp. 89-94.

Lido na sessão de 28 de Maio de 2014.