30 de junho de 2014

um parágrafo de Ferreira de Castro

«Estes velhos e velhas, em cujo rosto a charrua do tempo lavrou profundos sulcos, estas crianças maltrapilhas, criadas ao deus-dará, entre a lama dos pobres burgos e os animais domésticos, esta gente simples e despecuniada, que me faz sentir o frio que ela sente nas noites invernais e me recorda os seus desolados casebres quando percorro algumas ruas de Lisboa, onde se exibem sumptuosas moradias, demonstra-nos que se a felicidade não se obteve com as conquistas da civilização, também não existia, senão em casos singulares, antes de o homem ter colocado o seu génio ao serviço da sua ansiedade.»

Excerto do «Pórtico» de Terra Fria [1934], 12.ª edição, Lisboa, Guimarães & C.ª, 1980
(lido na sessão de 27.VI.2014)

27 de junho de 2014

um parágrafo de Sophia de Mello Breyner Andresen


«É uma cidade antiga onde estagnada se desagrega e se dissolve lentamente uma vida desvivida gesto por gesto, sílaba por sílaba.»

«Vila d'Arcos», Histórias da Terra e do Mar, Lisboa, Edições Salamandra, 1984, pp. 115-117.
(lido na sessão de 25.VI.2014)

24 de junho de 2014

1 parágrafo de Manuel Alegre

«De certo modo não havia lugar para o pai nem para mim. Havia lugar para a nossa presença na ordem incessante dos ritos, a horas certas. Não para as cavalgadas solitárias que cada um tinha necessidade de fazer sem ser interrompido pela tarefa do dia. Mesmo que fosse o dia de receber visitas, com chá e bolos. Não tínhamos direito à nossa desordem interior, éramos prisioneiros de um espaço contantemente invadido por obrigações cujo sentido não podíamos entender. Não era por mal, era assim.»
«A grande subversão», O Homem do País Azul (1989), 7.ª edição, Lisboa, Dom Quixote, 2009, pp. 51-56.
(lido na sessão de 18 de Junho de 2014)

Ambrose Bierce, 172

Ambrose Bierce nasceu no Meigs County, Ohio, em 24 de Junho de 1842.

23 de junho de 2014

2 parágrafos de Bruce Chatwin

«O que faço eu aqui? Deitado num hospital dos Serviços Nacionais de Saúde, espero, rezando para que as dores e a febre que há três meses me atormentam sejam realmente sintomas de malária -- apesar das numerosas análises que me fizeram, nenhum para sita foi detectado. Há treze horas que tomo comprimidos de quinino, mas a temperatura parece não baixar. Toco nas orelhas. Estão frias. Meto a mão entre as pernas. Vá lá... Basta um pouco de excitação para que a febre aumente.
Entra, então, uma das pessoas que aqui trabalha de quem eu mais gosto: Assunta, a mulher a dia e encarregada de servir o chá.» 
Excerto de «Assunta -- Uma história», O que Faço Eu Aqui?, tradução de José Luís Luna, Quetzal Editores, Lisboa, 1993.
(lido na sessão de 18.VI.2014)

20 de junho de 2014

LIDO NA SESSÃO DE 18 DE JUNHO DE 2014



"O ofício de cão é um mau ofício, um ofício sem meio-termo: pelos vistos entre os cães não há classe média, mas sim áurea aristocracia e sebenta e faminta vulgaridade. Uns cães vivem como duques e comem peitinhos de frango e bebem leite, e outros, pelo contrário, farejam nos matadouros, levam pauladas e, quando chega o carnaval, até voam pelos ares com o espinhaço partido em dois. Os cães, pelo entrudo, são pintados às riscas para maior e mais cauteloso escárnio do próprio e regozijo dos outros, e assim, quando vão pelos ares, as pessoas dizem: «Parecem borboletas!», e divertem-se honestamente e sem fazer mal a ninguém [...]
A Blas Tronchón, Harinita, quando o jogo acabou, puseram-no no meio da manta e começaram a atirá-lo ao ar e a divertir-se com ele, como fazem aos cães no entrudo. A cena foi de muita graça e crueldade, e o público, enquanto moíam os ossos a Blas Tronchón, Harinita, com uma circunspecção muito recatada.
- Que não tivesse falhado o penalty, não é verdade?
- Pois claro, é como eu costumo dizer: que não tivesse falhado o penalty. Assim vai aprender a afinar a pontaria!
Blas Tronchón, Harinita, tinha um chuto potente e impiedoso que era o orgulho dos seguidores da equipa do clube e o terror dos guarda-redes inimigos. Blas Tronchón, Harinita, era muto habilidoso e tanto chutava com um pé como com o outro; a cabeça, por fora, também a usava bem e oportunamente. Blas Tronchón, Harinita, era o verdugo dos penalties, o feroz e frio executor da pena de morte do futebol. Às vezes, no entanto, falhava, e então os companheiros, ao terminar o jogo, manteavam-no como fazem aos cães no entrudo, para lhes servir de escarmento.
- Mas o que é que estão a fazer com esse desgraçado?
- Nada, minha senhora; estão a manteá-lo para que aprenda a ter pontaria. [...]

(do conto COMO UM CÃO NO ENTRUDO)

Ramalho Ortigão e os prazeres da caça

   
 [Querida...]

     [...] Enquanto se esperava pelo almoço eu saí com um cão, uma espingarda e seis cargas e fui dar uma volta à lagoa*. Matei cinco galinhas do mar e um pato bravo. Apesar de haver 14 anos (quem tal diria!) que eu não caçava, não errei um tiro, e quando vim para o almoço tinha empregado optimamente as minhas seis cargas. Parecia-me que tinha voltado aos 18 anos, e achei-me resignado e feliz com o modo como me tem passado o tempo e a vida desde a minha última caçada até esta.
     Do almoço ao jantar matámos coelhos, uma codorniz, uma rola, e mais dois patos. Voltámos carregado para Porto Brandão. Os coelhos são magníficos aqui. A carne é branca como a da vitela e tem um sabor bravio que sabe às ervas ao cheiro e à amargura da charneca. [...] Quando tornámos a passar a lagoa já havia luar. Que solidão, que silêncio, que imensa concentração naquelas águas imóveis do lago! Não imaginas que beleza! Depois de mais a mais sem a estúpida companhia de ninguém que fizesse literatura nem poesia. Eram apenas honrados caçadores singelos e robustos, habituados à fadiga e ao monte. [...] Do lado de cá da Lagoa montámos os nossos burros e lá viemos de pernas a bamboar pelo tojo, embrulhados nos nossos mantos, com as espingardas de baixo do braço. Cansa-me muito andar em burro e aquele movimento que eles têm quando principiam a cansar e que parece com o de uma pessoa que nada, faz-me dores nas costas e nos rins, de modo que das quatro léguas para lá e quatro para cá andei quase tudo a pé com a minha firmeza sólida e proverbial. [...]

     * Lagoa d'El-Rei, Sesimbra
[excert de carta a sua mulher, Emília, s.ll., s.d.]

Cartas a Emília, Lisboa, Lisóptima / Biblioteca Nacional, 1993
edição: Beatriz Berrini. 

(excerto lido na sessãp de 4.VI.2014)

Desperdício 3, Sebastião Belfort Cerqueira



Desperdicei ouvintes muitas vezes
Na esperança de poder mais que falar
Sem planos para lá das intenções
Tiros limpos quis fazê-los difíceis
Com excesso de barulho e desrazões
E ainda assim ter sol até à porta
E a porta até à tarde e até à estrada.
Admito que houve vezes que sorri
Que se pudesse agora retirava
Que espero que quem viu tenha esquecido
E que parecem pouco ou quase nada
Ao lado do que já disse ao ouvido.

Lido na sessão de 18-06-2014.

Desperdício 4, Sebastião Belfort Cerqueira

Desperdizes ao vento muito embora
Cada vez mais embora
E um último cartucho
Cheguei a casa e joguei-o fora
Ao lixo
Por luxo.
Desperdizes ao vento muito ao vento
E eu morto
E agora
De tudo.

Lido na sessão de 18-04-2014

Desperdício 1, Sebastião Belfort Cerqueira


Desperdisse ao ouvido muitas coisas
Só pra provar o toque de uma orelha
Sem planos especiais para depois
E queria fazer disso como o outro
Uma linha que acaba em nós os dois
Pra rirmos e acompanhar à guitarra
Mas não tenho mais música pra dar.
Já fui visto na doca a perder tempo
A dizer coisas parvas sobre o mar
A um gajo que ninguém sabe quem era
E oh meu amor eu gosto de aqui estar
Mas nem aquilo que eu fiz foi estar à espera
Nem o que tu fizeste foi chegar
E se um dia leres isto vai-se andando.
 
in Forma de Vida nº4, www.formadevida.org
 
 
Lido na sessão de 18-06-2014.

19 de junho de 2014

LEITURAS DAS QUARTAS


A CAMA, SE AO MENOS MUDASSE A CAMA

Excertos do conto filosófico “Maridos”, de Fernando Pessoa:

«Não há mulher nenhuma neste mundo – nem a mais séria, senhor juiz – que não tenha invejado essas que lá andam nas ruas à procura  dos homens – nenhuma, senhor juiz (…)
Isto, senhor juiz, e para que Vossa Excelência saiba, e os senhores jurados, é o que todas as mulheres sentem.
(…) E vem uma vontade de meter a costura pela pia abaixo, e de ir para longe ao menos só para chorar à vontade.
(…) Sempre o mesmo homem, senhor juiz – o mesmo homem todos os dias, com o mesmo corpo e a mesma maneira! Todas as noites, senhor juiz, e na mesma cama – nem a cama muda ao menos. E aquilo ao fim de tempo já não era viver, nem coisa que se parecesse – era uma coisa entre comer para não ter fome e fazer o serviço da casa… Se os homens soubessem o que custa a aturar! Se soubessem o nojo que a gente tem por eles quando está encostada a eles!
E eu, senhor juiz, não tinha outro remédio senão matá-lo para estar bem com a minha consciência e com a Igreja.
Foi por isto, senhor juiz e senhores jurados que matei o meu marido.»

18 de junho de 2014

13 de junho de 2014

B

BACO, n.  Uma divindade conveniente, inventada pelos antigos como desculpa para se embriagarem.
BANDEIRA, n.  Um trapo colorido que se usa acima das tropas e nos quartéis e navios. Parece ter a mesma função de certos cartazes que se podem ver nos terrenos baldios de Londres: «Pode atirar-se lixo para aqui».
BANDIDO, n. Uma pessoa que, à força, tira a A aquilo que A, com manhas, tirou a B.
BAPTIZAR, v.t.  Infligir cerimoniosamente um nome a uma criança indefesa.
BARBEIRO, n.  (Do Latim barbarus, selvagem, a partir de barba, a barba.) Um selvagem que nos faz esquecer a laceração da nossa cara, perante o tormento superior que é ter de ouvir a sua conversa.
BIOGRAFIA, O tributo literário que um pequeno homem presta a uma grande homem.
BRUTO, n. Ver MARIDO.
BRUXA, n. (1) Uma mulher feia e repelente, que fez um pacto demoníaco com o Diabo. (2) Uma jovem mulher bela e atraente, muito mais demoníaca que o próprio Diabo.

Ambrose Bierce, Dicionário do Diabo, Lisboa, Tinta da China, 2006, pp. 25-29.

Alguma entradas da letra B, lida na sessão de 11 de Junho de 2014. 

11 de junho de 2014

um parágrafo de José Eduardo Agualusa

 
«Porém, quando estávamos quase a chegar ao Sumbe, o lagarto começou a rir. Sei que parece estranho, mas é a pura verdade: Leopoldino ria. Não ria exactamente como uma pessoa, claro, ria como uma pessoa semelhante a um lagarto, mas ria. Eram gargalhadas secas, cínicas, que estalavam dentro do jipe de uma forma vagamente assustadora. Eu ouvi-o e não tive vontade de rir. O meu amigo, que conduzia o jipe, ficou ainda mais inquieto:»

Do conto «Dos perigos do riso», lido na sessão de 21 de Maio de 2014
in Fronteiras Perdidas (1999), 5.ª edição, Lisboa, Dom Quixote, 2009, pp. 15-19.

solidão absoluta


Os últimos anos de D. João V, em deslocações regulares às Caldas da Rainha (de onde o autor é natural), para enfrentar um mal que o deixara semiparalizado, talvez um avc. Um bom pretexto para falar-se do lugar, a que se junta uma história de amor entre Pedro Fontes, escudeiro do infante D. Manuel, irmão mais novo do rei e Sara, uma filha ilegítima d'o Magnânimo -- o episódio mais eminentemente ficcional do livro, pois trata-se de romance histórico.
Neste aspecto, a pesquisa parece-me ter sido muito conseguida, não faltando o episódio de conspiração (ou alucinação visionária de um certo Pedro de Rates Henequim, personagem verídica, sentenciada pela Inquisição), que procurara fazer do infante D. Manuel um futuro imperador do Brasil, como forma de instaurar o V Império bandarro-vieirino.
O mais interessante da narrativa é a solidão do rei absoluto diante da doença e da aproximação da morte. Menos interessante, para mim, a história de amor, central, prejudicando, talvez, alguns aspectos que gostaria de ter visto mais desenvolvidos.

Carlos Querido, A Redenção das Águas, Lisboa, Arranha-céus, 2013

5 de junho de 2014

O início de A REDENÇÃO DAS ÁGUAS


O rei morreu. O dobre de finados dos 114 sinos do convento de Mafra espalha a notícia pelos céus do oeste com uma cadência grave e desolada, que se propaga por um vasto território, para norte, entre a serra e o mar, até à vila das termas, até aos sinos da igreja de Nossa Senhora do Pópulo.

Carlos Querido, A Redenção das Águas -- As Peregrinações de D. João V à Vila das Caldas, Lisboa, Arranha-céus, 2013.

um parágrafo de Ruben A.

«Pusemos arraial na encosta, pedra ao pé de pedra. Lá fomos entre o formigueiro. A capela é mesmo viva pelas coisas de pedra colorida e pela situação escondida do altar-mor. Tem uma estátua do Santo Miguel a cutilar o Senhor Diabo que é uma maravilha. Todos entre Lima e Minho têm respeito ao Senhor Diabo para ele estar quietinho. Nada de obras do Diabo! O Senhor Diabo merece toda a consideração. Deitei lá umas cinco coroas para não ter nada com as iras e más disposições do Senhor Diabo.»

Ruben A., «S. João d'Arga», Antologia, organização de Liberto Cruz e Madalena Carretero Cruz, Lisboa, Roma Editora, 2009, pp. 89-94.

Lido na sessão de 28 de Maio de 2014.

26 de maio de 2014

Jorge Amado sobre a sua obra, em 1990

 «Sobre mim e minha obra literária muito se escreveu, de bem e de mal. Disseram certos críticos que não passo de um limitado romancista de putas e de vagabundos. Creio que é verdade e orgulho-me de ser o porta-voz dos mais despossuídos de todos os despossuídos. Disseram também que tenho a paixão da mestiçagem, e dizem-no com raiva racista. Honro-me infinitamente de ser um romancista da nação mulata do Brasil. Creio que, querendo ofender-me, esses críticos me exaltaram e definiram.»

Excerto do discurso no Doutoramento Honoris Causa de Jorge Amado em Línguas e Literaturas Estrangeiras na Universidade de Bari (Itália - 1990), s.l., Colóquio Internacional 100 Anos de Jorge Amado, 2012, pp. 1-4, lido na sessão de 21 de Maio de 2014.

Divulgação CLUBE DE LEITURA - LEITURAS NA JUVENTUDE 2014

A iniciativa “Clube de Leitura - Leituras na Juventude 2014” tem a primeira sessão marcada na Casa da Juventude da Tapada das Mercês, no dia 28 de maio, das 18h00 às 20h00.
A primeira leitura é da obra “O Leitor”, romance escrito por Bernhard Schlink, publicado pela primeira vez em 1995 e adaptado para o cinema em 2008, por Stephen Daldry.
As sessões realizam-se na última quarta-feira do mês de acordo com o calendário seguinte:
Mês, Dia: Sugestão de Leitura
Maio, 28: O Leitor, Bernhard Schlink
Junho, 25: No meu Peito não Cabem Pássaros, Nuno Camarneiro
Julho, 30: O Senhor das Moscas, William Golding
Agosto, 27: Livro sem Ninguém, Pedro Guilherme-Moreira
Setembro, 24: A Vida de Pi, Yann Martel
Outubro, 29: Manhã Submersa, Vergílio Ferreira
Novembro, 26: Incrivelmente Alto e Incrivelmente Perto, Jonathan Safran Foer
O “Clube de Leitura - Leituras na Juventude 2014” insere-se no projeto da Câmara Municipal de Sintra “Clube de Leitura” e tem como objectivos promover hábitos de leitura, conhecer novos autores e promover o diálogo e o debate de ideias sobre diferentes obras.
A iniciativa “Clube de Leitura - Leituras na Juventude 2014”, em particular, é promovida pela Divisão de Desporto e Juventude da Câmara Municipal de Sintra e pretende abordar obras com temáticas ligadas à juventude e promover o contato com novos autores.
Entrada livre

21 de maio de 2014

JÁ VAI A MEIO! 

Sem qualquer menosprezo pelo autor, que não tenho o prazer de conhecer ainda, tenho a dizer que me sinto surpreendido com o quilate desta obra. Uma escrita fluente, madura, cheia de pitoresco, a fazer lembrar o melhor Saramago. Encontrei páginas luminosas, de antologia!

19 de maio de 2014

um parágrafo de Apollinaire

«Recuei de imediato, com medo de pisá-la. Receava fazer-lhe mal. Sentia uma piedade imensa pelo seu abandono. Mas, de repente, num acto de correspondência inexplicável, pareceu-me que ela me dava a entender  que era feliz, e que os seus soluços outra coisa não eram que soluços de ventura, que havia nela uma vida imortal que lhe permitia sobreviver ao corpo desaparecido e enlear-se em tudo o que este havia acarinhado. A felicidade dessa sombra era feita da sua presença nesses locais que havia frequentado.»

Excerto de «O passeio da sombra», conto de Guillaume Apollinaire, lido na sessão de 14 de Maio.

15 de maio de 2014

deus(es), consciência e outras energias

O QUE EU LI NA 2ª SESSÃO DAS QUARTAS - O BARÃO DE MINHINHONHÁ

Pelas conversações que o Imperador teve em Lisboa [D. Pedro II do Brasil], soube-se que existe no Rio de Janeiro – e é ilustre e preponderante – um homem que possui este título:
Barão de Minhinhonhá!
Se assim é – e se há ainda algum rasto de dignidade nacional, pedimos a intervenção enérgica do governo.
Um país não deixa esbofetear no estrangeiro os seus cidadãos, nem rasgar a sua bandeira: desforram-se à bala estas humilhações da honra.
Ora a bochecha do cidadão ou o paninho azul e branco não têm mais direito ao respeito público que a língua nacional. Arrastar pelo chão do grotesco, – uma língua – até ao vocábulo Minhinhonhá, é desfeitear a inteligência de uma nação, a austera dignidade da sua palavra, o verbo do seu pensamento, a literatura e a memória dos puristas, e a inviolabilidade da sua ideia.
Minhinhonhá – é uma nódoa, é um pingo de lama, é um traço de saliva, é um espapado de gordura, – na pureza altiva de uma língua, onde sucessivamente veio depor a essência da sua alma, a geração venerada que vai de Bernardim Ribeiro a Garrett.
Se os srs. brasileiros não podem coibir-se de vir para o português de frei Luís de Sousa e de António Vieira, deixar escorrer aquele melaço fluido e baboso que lhes sai dos beiços – quando falam – tenham a bondade de pôr entre a sua palavra e a nossa língua – uma bacia! Vocábulos daqueles não se depositam num dicionário respeitável, atiram-se para uma escarradeira. Os srs. brasileiros tenham a bondade de falar – para a rua, ou nos seus lenços!
E o governo, se tem dignidade, deve pelos seus agentes diplomáticos pôr cobro àquele extravasamento do brasileiro sobre o português de Camões. Os srs. do Brasil que dêem uma direcção à sua linguagem – de modo que não venha cair como um enxurro sobre os nossos dicionários que passam. Em último caso que a canalizem! E assim o brasileiro que tiver a expelir um período eloquente ou uma frase sublime, já não se aproxima da nossa gramática – dirige-se logo à sargeta!
Esperamos tranquilos as decisões dos poderes públicos.
(Fevereiro de 1872)
RAMALHO ORTIGÃO, As Farpas, coordenação de Maria Filomena Mónica, Cascais, Principia-Publicações Universitárias e Científicas, 2004, pp. 389 e 390.

8 de maio de 2014

da 1.ª Sessão das Quartas

Ontem leu-se variado e bem. Como estávamos no Museu Ferreira de Castro, foi a ele que coube inaugurar esta nova sessão das quartas: seguiram-se Pepetela, João Ricardo Pedro, Miguel Real, Franz Kafka, Eça de Queirós, Maria do Rosário Pedreira, Bertolt Brecht, Adelino Caldeira, e até dois folhetos: um sobre a morte de Alves Redol, em 1969, e a lista dos candidatos da CDE  no distrito de Lisboa, para o simulacro de eleições havido no mesmo ano, creio, com candidatos que dariam (e alguns ainda dão) que falar...  
Aqui ficam algumas linhas das minhas escolhas:

Ferreira de Castro, «Delfim Guimarães» (a propósito da morte do seu editor): "[...] Tenho conhecido muita gente. Uns, mascarados, às esquinas da vida; outros, colocados ao sol, espírito aberto à compreensão, que tudo justifica e tudo absolve, à solidariedade humana, ao amor pelos que sofrem e até por aqueles que parecem não sofrer... [...]". In Memoriam de Delfim Guimarães (1934)

Eça de Queirós, em carta a Jaime Batalha Reis, defendendo-se de não ter participado o seu casamento: "[...] Mil trovões! Estás tu certo disso? O quê! Eu não te disse que ia casar, -- falando de pé, com um gesto largo, lá na casa de Langham St.?... / Bem diz o Santo Antero, como ja o ensinara o Buda divino! Tudo é nada: só há aparencias: o universo é uma grande ilusão: a única realidade é o não-ser! [...]". Cartas Inéditas de Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, Batalha Reis e Outros (edição de Beatriz Berrini, 1987).

Sarah Adamopoulos, «A Marylin»: "[...] Todos os dias ela ia morrer. Acontecia-lhe em qualquer lugar. Podia ser no supermercado junto às arcas dos ultracongelados. Convencia-se de que ia ter um colapso cardíaco ou uma hemorragia cerebral e imaginava-se a cair e a ficar com a cabeça colada às embalagens dos panadinhos Capitão Iglo. [...]".  A Vida Alcatifada (1997)

Bertolt Brecht, «Desfile do povo alemão»: "Decorridos cinco anos nos disseram / que aquele que a si próprio se intitula / enviado de Deus já aprontou / sua guerra, os armamentos; / [...]".  O Terror e a Miséria no Terceiro Reich (1938 - tradução de Fiama Hasse Pais Brandão).

O olho de vidro

Uma coisa parecia certa: no dia vinte e cinco de abril de mil novecentos e setenta e quatro, faltaria ainda um bom bocado para as sete da manhã, Celestino apertou a cartucheira à cintura, enfiou a

Browning a tiracolo, verificou o tabaco e as mortalhas, esqueceu-se do relógio pendurado num prego que também segurava um calendário e saiu porta fora. O céu começava a clarear. Ou talvez nem sequer tivesse começado a clarear. Por cima das sopas de café com leite, Celestino emborcara, sem esforço, dois tragos de bagaço. O primeiro, para a azia. O segundo, para os pensamentos cismáticos, que ele, como, aliás, todos os traços fisionómicos sugeriam, era homem dado a prolongadas melancolias.
Por volta das onze horas da manhã, nenhum vento de mudança fora ainda sentido por aqueles que viviam da cruel aritmética dos alqueires, dos cinchos, das safras, das luas, das maleitas, das malinas, das geadas. Nos campos, homens e mulas rasgavam a terra em irrepreensíveis geometrias, enquanto, na penumbra dos currais, embaladas por ladainhas que os próprios lábios iam tecendo, as mulheres atestavam as gamelas dos porcos, das cabras, dos filhos. E, se alguém tivesse o desplante de interromper os seus laboriosos afazeres para lhes comunicar que, naquele preciso momento, o Presidente do Conselho de Ministros de Portugal se encontrava encurralado num quartel de Lisboa, cercado por soldados que exigiam a sua rendição, o mais certo seria obter como resposta um olhar de absoluta indiferença.
É que naquela pequena aldeia com nome de mamífero, encalacrada num sopé da Serra da Gardunha, voltada para sul sem consciência de que estava voltada para sul, a única exceção àquele total alheamento acerca dos destinos da pátria, como se a pátria fosse um lugar longínquo, era a casa do doutor Augusto Mendes, onde, numa espécie de gabinete de crise, se encontravam reunidas as suas mais ilustres personalidades: Adolfo, Bocalinda, Larau, padre Alberto, Fangaias e, claro está, o anfitrião, o doutor Augusto Mendes.
[...]
Excerto do primeiro capítulo de O Teu Rosto Será o Último, João Ricardo Pedro, Leia (BIS).
(Sessão de 7 de Maio de 2014)

Ficou vazio o teu lugar à mesa, Mª do Rosário Pedreira

à Avó
 
Ficou vazio o teu lugar à mesa. Alguém veio dizer-nos
que não regressarias, que ninguém regressa de tão longe.
E, desde então, as nossas feridas têm a espessura
do teu silêncio, as visitas são desejadas apenas
a outras mesas. Sob a tua cadeira, o tapete
continua engelhado, como à tua ida.
Provavelmente fiará assim para sempre.

No outro Natal, quando a casa se encheu por causa
das crianças e um de nós ocupou a cabeceira,
não cheguei a saber
se era para tornar a festa menos dolorosa,
se para voltar a sentir o quente do teu colo.

in A Casa e o Cheiro dos Livros, Gótica, Lisboa, 2002.

à minha mãe
(Sessão de 7 de Maio de 2014)

7 de maio de 2014

6 de maio de 2014

um romance canónico

Barranco de Cegos (1961) conta o fim de um tempo, entre o Ultimato inglês (1890) e o pós-5 de Outubro de 1910, e revela-nos uma família de grandes lavradores ribatejanos, cujo chefe é uma personagem inesquecível: Diogo Relvas, homem excessivo, cruel e reaccionário, fiel a uma tradição agrária que vê na terra as virtudes ancestrais duma nação, e no desenvolvimento industrial a condenação da pátria, motivada pela cupidez e pela ambição de poder de uma elite cega -- cegos conduzindo cegos, uns e outros na iminência de caírem num barranco, de onde dificilmente se sairá. Relvas carrega consigo o peso dos antepassados, regendo-se por uma ética abstracta, inflexível quanto ao essencial -- a manutenção do poder: simbólico, através dos cerimoniais do mando, e de facto,  pela posse efectiva do agro; inflexível no essencial, moderadamente maleável quanto a questões mais prosaicas. As restantes personagens, em especial os filhos, órfãos de mãe, débeis, volúveis -- um deles esmagado pelo peso excessivo do progenitor --, as duas filhas, Milai e Maria do Pilar, fortes e marcadas, complexas no lidar com o patriarca, dão profundidade ao romance. Outras personagens secundárias, em especial as populares, são também fundamentais; mas esta é uma história de senhores, homens senhores doutros homens.
No prefácio que escreveu em 1964, Mário Dionísio, que não era de elogio fácil e se afastara já do PCP, na sequência do Relatório Krushchov, não hesita em classificar o livro como "um dos grandes romances de toda a nossa história literária".
Barranco de Cegos é, com efeito, literatura da boa, da que conta, da que interessa, da que constrói identidade, da que dá substrato à comunidade de que emana -- e também da que experimenta, da que burila, da que arrisca. Para além de todas as classificações que cada vez fazem menos sentido, a não ser numa abordagem historiográfica, trata-se de neo-realismo, e do melhor -- isto é: não evidenciando a vulgata que simplifica e sectariza, é suficientemente amplo para ser subscrito por todos quanto comungam de preocupações afins, sem que com isso o autor traia (e se traia) o escopo ideológico que lhe subjaz. O final do romance, magistral, traz-nos uma atmosfera que dir-se-ia paralela à do realismo mágico, que o recém-falecido Gabriel García Márquez consagraria anos mais tarde.
Redol é, sempre foi -- mesmo no inaugural Gaibéus (1939) -- um romancista de raça, um criador de mundos, de atmosferas, de personagens de carne e osso. Barranco de Cegos evidencia-o de tal forma que -- para desgosto de alguns cadáveres -- se inscreve duradouramente no nosso cânone literário.

Em tempo: informou-me António Redol que Mário Dionísio saiu do PCP em 1951, antes, portanto, da divulgação do célebre Relatório (algo que eu cria ter lido na Autobiografia do próprio Dionísio,  mas, pelos vistos fui atraiçoado pela minha memória -- o que, infelizmente, é frequente). Substituí também o adectivo "incipiente", relativo a Gaibéus, pelo neutro "inaugural", menos equívoco quanto ao meu ponto de vista.