28 de outubro de 2014

de Paul Auster

«Pouco tempo depois do meu regresso a Nova Iorque (Julho de 1974), um amigo contou-me a história seguinte. Ela decorre na Jugoslávia, durante os que iriam ser os últimos meses da Segunda Guerra Mundial.»

Início do fragmento 3 de O Caderno Vermelho, de Paul Auster (1993), tradução de Fátima Freire de Andrade, 8.ª edição, Porto, Edições Asa, 2002, p. 15.
 (lido na sessão de quarta-feira, 22 de Outubro de 2014)

NA CASA DA ACHADA: Dez artistas de que Mário Dionísio falou

Na parte da exposição referente a Cândido Portinari, esta nota em que se fala de Ferreira de Castro:

27 de outubro de 2014

de H. Lopes de Mendonça

«Na açoteia da torre de menagem, Fernão Rodrigues Pacheco, debruçado sobre uma aberta das ameias, medita. O sol nascente banha de radiações leitosas o almafre amolgado e jogueteia nas solhas do laudel. Ouve-se a distância o surdo embate das catapultas de encontro aos muros da vila.»

Início de «A Truta», in 14 Novelas Histórica Portuguesas, Lisboa, Lisboa, Estúdios Cor, 1965, p. 127.
(lido na sessão de quarta-feira, 22 de Outubro de 2014)

24 de outubro de 2014

17 de outubro de 2014

Prémios Literários Sintrenses

atribuídos pela Câmara Municipal de Sintra entre 1987 - 2008

1987

DIÁLOGO DO VENTO E DO MAR
AUTOR: Guida Fonseca
Prémio Literário Ferreira de Castro, 1987 – Ficção Narrativa

O PORTÃO DAS COLINAS DO NADA– (Poemas da cidade de Londres)
AUTOR: Fernando Cabrita
Prémio Literário Oliva Guerra/1987 – Poesia

OS PAPELINHOS DE GARRETT
AUTOR: Luís Augusto Costa Dias
Prémio Literário Ferreira de Castro, 1987 – Ensaio Literário

1989

ANNO DOMINI 1348
AUTOR: Sérgio Luís de Carvalho
Prémio Literário Ferreira de Castro, 1989 – Ficção Narrativa

ODES DE MITILENE
AUTOR: Orlando Neves
Prémio Literário Oliva Guerra/1989 – Poesia

CONTA-CORRENTE 6 – ENSAIO SOBRE O DIÁRIO DE VERGILIO FERREIRA
AUTOR: Luís Mourão
Prémio Literário Ferreira de Castro, 1989 – Ensaio Literário

1992
A TEIA DE UM SEGREDO
AUTOR: José Jorge Letria
Prémio Literário Ferreira de Castro, 1992 – Literatura Infanto-Juvenil

LES TOURS DU MONDE DE FRADIQUE MENDES: A RODA DA HISTÓRIA E A VOLTA DA MANIVELA
AUTOR: Américo António Lindeza Diogo e Osvaldo Manuel Silvestre
Prémio Literário Ferreira de Castro, 1992 – Ensaio Literário

CAPELA DOS ÓCIOS
AUTOR: José Jorge Letria
Prémio Literário Oliva Guerra, 1992 – Poesia

OS RIOS SOBRE A PAREDE
AUTOR: Hugo Santos
Prémio Literário Oliva Guerra/1992 – Poesia

RAPOSINHA MINHA AMADA
AUTOR: Álvaro Lopes Cardoso
Prémio Literário Ferreira de Castro/1992 – Literatura Infanto-Juvenil

1994
CARTA DE AUSENTES
AUTOR: Hugo Santos
Prémio Literário Oliva Guerra, 1994 – Poesia

1995
A CRIANÇA SUSPENSA
AUTOR: Risoleta Pedro Natálio
Prémio Literário Ferreira de Castro /1995 - Ficção Narrativa

ELOGIO DO CAVALEIRO
AUTOR: Serafim Ferreira
Prémio Literário Ferreira de Castro, 1995 – Ficção Narrativa

CARLOS DE OLIVEIRA – O TESTEMUNHO INADIÁVEL
AUTOR: Silvina Rodrigues Lopes
Prémio Literário Ferreira de Castro,1995 – Ensaio Literário

ELA JOGAVA XADREZ COM A LUA
AUTOR: Natália Bebiano da Providência
Prémio Literário Ferreira de Castro, 1995 – Literatura Infanto-Juvenil

1997

A SIBERIANA
AUTOR: Rui da Costa Lopes
Prémio Literário Ferreira de Castro, 1997 – Ficção Narrativa

O PÁSSARO DO TEMPO
Autor: Natália Bebiano da Providência
Prémio Literário Ferreira de Castro, 1997 – Literatura

1999

AUTOBIOGRAFIA
AUTOR: Rui Miguel Saramago
Prémio Literário Oliva Guerra, 1999

2000
UM TRIÂNGULO NO INFINITO
AUTOR: Teresa Mascarenhas
Prémio Literário de Sintra/Ferreira de Castro, 2000 – Ficção Narrativa

RUBENS E A COMPANHIA DO ESPANTO EM O CASO DA MITRA DESAPARECIDA
AUTOR: Garcia Barreto
Prémio Literário Infanto-Juvenil– Adolfo Simões Muller

2002
O BARCO DE CHOCOLATE
AUTOR: Cristina Norton
Prémio Literário de Sintra, 2002/Adolfo Simões Muller – Literatura Infanto-Juvenil

A NOITE DOS CARANGUEJOS
AUTOR: Ascênsio de Freitas
Prémio Literário de Sintra/Ferreira de Castro, 2002 – Ficção Narrativa

2004
A SIMBÓLICA DA CHUVA NO LIVRO DO DESASSOSSEGO
AUTOR: Maria Luísa Guerra
Prémio Literário Vergílio Ferreira, 2004 – Ensaio Literário

QUANDO AS ESTEVAS ENTRAM NO POEMA
AUTOR: Graça Pires
Prémio Literário Oliva Guerra, 2004 – Poesia

2005
LEILÃO DE PENSAMENTOS
AUTOR: Pedro Ludgero
Prémio Literário de Sintra / Ferreira de Castro, 2005 – Ficção Narrativa

2006

BAZAR ÍNTIMO
AUTOR: António Augusto Menano
Prémio Literário de Sintra/Oliva Guerra, 2006 – Poesia

2008
CONTOS DE JANELA
AUTOR: Eugénio Roda
Prémio Literário Adolfo Simões Muller – Ensaio Literário

DA AUSÊNCIA À PROIBIÇÃO EM O VALE DA PAIXÃO DE LIDÍA JORGE
AUTOR: Maria de Lurdes Trilho
Prémio Literário Vergílio Ferreira, 2008 – Ensaio Literário

DOZE CANTOS DO MUNDO
AUTOR: Amadeu Baptista
Prémio Literário de Sintra –Oliva Guerra /2008 – Poesia

NA VOZ DE UM NOME
AUTOR: Fernando Guimarães
Prémio Literário de Sintra – Ruy Belo/2008 – Obra Poética Publicada

14 de outubro de 2014

de Sarah Adamopoulos

 «Eles vinham em estado de graça, da praia. Bronzeados e em salmoura, saíram do carro e entraram no palácio frio. Que já era tarde, que as portas iam encerrar ao público, disse-lhes a funcionária, visivelmente fatigada., com o olhar num qualquer sítio perto do mar. Que era só aquele grupo de franceses terminarem a visita guiada pela directora do palácio, uma senhora importante, mulher de ex-ministro, amiga de secretários de Estado. Mas só depois dela mostrar aos franceses excursionistas todas as reproduções das peças do espólio do palácio, retratadas pelo pintor, por brilhante ideia e irrecusável encomenda dela-própria.»

Início de «O Palácio da Ajuda», in A Vida Alcatifada, Lisboa, Fenda, 1997, p. 17.

(lido na sessão de quarta-feira, 8 de Outubro de 2014)

13 de outubro de 2014

de Woody Allen

«Desfolhava eu uma revista enquanto esperava que o meu beagle Joseph K. saísse da sua sessão habitual de cinquenta minutos às terças-feiras com um analista de Park Avenue -- um veterinário junguiano que, a cinquenta dólares a sessão, trabalha corajosamente para o convencer que a papada não é uma desvantagem social -- quando topei com uma frase que captou a minha atenção como se fosse um aviso de um cheque sem cobertura.»

Início de «Sim, mas a máquina a vapor é capaz de fazer isto?», in Para Acabar de Vez com a Cultura (ed. original, 1966), tradução de Jorge Laitão Ramos,  4.ª edição, Amadora, Livraria Bertrand, 1981, p. 37.
(lido na sessão de quarta-feira, 9 de Outubro de 2014)



10 de outubro de 2014

BASTAM DUAS LINHAS, E ENTRAMOS NUM CONTINENTE NOVO, NUM LUGAR INÉDITO DO ESPAÇO LITERÁRIO" - Eduardo Prado Coelho




«Hoje o tempo não me enganou. Não se conhece um aragem na tarde. O ar queima como se fosse um bafo quente de lume. e não ar simples de respirar, como se a tarde não quisesse já morrer e começasse aqui a hora do calor. Não há nuvens, há riscos brancos, muito finos, desfiados de nuvens. E o céu, daqui, parece fresco, parece a água limpa de um açude. Penso: talvez o céu seja um mar grande de água doce e talvez a gente não ande debaixo do céu mas em cima dele; talvez a gente veja as coisas ao contrário e a terra seja como um céu e quando a gente morre, quando  a gente morre, talvez a gente caia e se afunde no céu.»


(Início do livro)

Boas leituras!

9 de outubro de 2014

de José Eduardo Agualusa

«Não gosto de aeroportos nem de aviões. Não é que tenha medo de voar. Tenho medo, isso sim, do aparato policial. Por outro lado incomoda-me a ideia de ficar sentado durante seis horas, às vezes mais, junto de um desconhecido.»

Início de «Os Mistérios do Mundo», Fronteiras Pedridas (1999), 5.ª edição, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2009, p.13.

(lido na sessão de quarta-feira, 8 de Outubro de 2014)

8 de outubro de 2014

NO MUSEU FERREIRA DE CASTRO ACONTECEM COISAS MUITO INTERESSANTES (TAMBÉM) ÀS QUARTAS-FEIRAS (18H00-20H00).

Hoje, por exemplo, entre outras boas iguarias, leu-se um conto de 


Eis um pequeno excerto:

"Adrianito, o eremita louco, tocou várias vezes o chocalho de avisos e dirigiu uma arenga a Dominico Fernández, o defensor da baliza de futebol da cidade: o defensor da cidade. 
- Que a cidade também não seja o primeiro túmulo da tua consciência! Olha bem para ela, Dominico Fernández, aí a tens: a cidade está aí, com os seus telhados, o seu sol e os seus choupos; com os seus sinos e os seus fornos de pão; com as suas searas de trigo de paciente lavoura, onde não se pode jogar futebol; com a sua verde veiga feminina e a porta militar que, essa sim, podes - e deves - defender jogando, como jogavam os Gregos nas suas guerras (ainda nobres, atléticas e engenhosas). Desce às portas da tua cidade, Dominico Fernández, e liberta-a das visitas (e até dos olhares) dos forasteiros..."
... ...
"Para que é que bordas pés-de-galo e olhos-de-formiga nas dobras da tua colcha nupcial, Mabelita Smith Catasueiro, se o teu prometido Dominico Fernández, o defensor da cidade, o mais provável é cair morto (ou, pelo menos, ferido) na defesa da cidade? - perguntavam-lhe, cofiando o bigode, as mais gordas e hediondas viúvas...."

do conto Retornelo do Defensor da Cidade ("Onze Contos de Futebol")

7 de outubro de 2014

o saco e o baraço

«Tratam-se com uma familiaridade imensa, cansada, caldeada em quase um século vivido lado a lado. Chamam-se nomes feios que não ofendem: maltês, estraga-albardas, freige-moscas. Acabam estes insultos por ser cumprimentos, segundo me capacito ao ver que nenhum deles reage desabridamente. Quando acontece aproximar-se o tio Domingos já quando o companheiro tem desdobrado a toalha das recordações, costuma o tio Zé das Candeias saudar-lhes a chegada com um imensamente terno "Olá, freguês da limonada!" O tio Domingos salva respeitosamente o adjunto e não se dá por achado. E uma vez ouvi o tio Zé despedir-se dele com um "Deus te dê anos de vida como de palmos tem a formiga!" Amicíssimas hostilidades.»

A. M. Pires Cabral, «O saco e o baraço», O Diabo Veio ao Enterro, Lisboa, Nova Nórdica, 1985, p. 20.
(lido na sessão de quarta-feira, 25 de Setembro de 2014)

directamente do galego


«Tiña eu once anos cando meu pai, que estaba na Arxentina, nos chamou cabo de si; e alá fomos embarcados, a miña nai e mais eu, num paquete alemán. E axiña de arribar a Bos Aires pillamos un tren que corría moito e logo outro tren que corría pouco e dispois un coche da cabalos que nos levou a tombos polo deserto da Pampa. Naquela soedade plantara meu pai unha casa para facerse rico, cavilando sempre nos eidos nativos; i era forza pecha-los ollos ó circio traballo en espera do retorno feliz.»

Alfonso R. Castelao, «O segredo», Retrincos e Un Ollo de Vidro, edição de Manuel Rosales, 2.ª edição, Vigo, Editorail Galaxia, 2002, p. 51
(lido na sessão de quarta-feira, 25 de Setembro de 2014)

Um lugar para os dias

Uma longa carta à pessoa amada, já falecida, que é, simultaneamente, um diário, uma revisitação memorialística e um balanço, com micro-ensaios e reflexões, pequenas narrativas de viagem, poesia -- um livro compósito, enfim, que reflecte os interesses da autora. Pintora de formação, foi na escrita que Irene Lucília Andrade encontrou um lugar para os seus dias, embora a aguda capacidade observadora e descritiva não deixe, creio, de ser tributária dessa aprendizagem de base.
As observações de carácter genericamente político (em especial os relativos aos fenómenos internacionais a que vimos assistindo nos últimos anos) são talvez o menos conseguido desta obra, embora traduzam a impotência do cidadão comum diante do momentoso de que (ainda) só somos testemunhas, em diferido e por vezes em directo; e, nesse especto, constitui um exemplo fidedigno do ambiente geral. O melhor, para mim: as evocações do passado, os pais, a infância, e a descoberta do mundo; e também os vários apontamentos, magníficos, sobre arte, em especial a pintura

1 de outubro de 2014

um parágrafo de Irene Lucília Andrade

«O Natal chegava e depois dele a Páscoa. E era nestas épocas que se operavam os abalos. A morte das galinhas e do peru, a morte do porco, eram acidentes monstruosos que lhe alteravam todo o entendimento do mundo. Ela procurava então o esconderijo amigo das suas sombras predilectas e fechava-se à estridência das azáfamas exteriores, porque o pequeno coração só se abria diante do esplendor das flores e das borboletas, o corpo aconchegava-se ao conforto macio dos brinquedos e os únicos ruído consentidos eram apenas os das suas fantasias.»

Um Lugar para os Dias, Lisboa, Chiado Editora, 2013, p. 105.

25 de setembro de 2014

Roteiro Castriano de Sintra


Ferreira de Castro, Jaime Cortesão e Luís da Câmara Reys
Sintra, Setembro de 1952

 O primeiro Roteiro Castriano de Sintra vai realizar-se no dia 26 de Setembro de 2014, no âmbito das Jornadas Europeias do Património.
O encontro terá lugar no pátio do Museu Ferreira de Castro (Rua Consiglieri Pedroso, 34), às 14,30 h. e terminará junto ao túmulo do escritor, na Serra de Sintra.
A acompanhar o percurso, leremos textos do próprio Ferreira de Castro, de Agustina Bessa Luís,  Francisco Costa, Vergílio Ferreira, Jaime Cortesão, José Gomes Ferreira, Luís de Oliveira Guimarães e Jorge Segurado, entre outros.
Recomenda-se calçado confortável.

11 de setembro de 2014

apanhados pela História

Um bom romance sobre o drama dos chamados retornados -- episódio central do pós-revolução de Abril, em que sobressai o choque cultural e consequente rejeição da "Metrópole", que responde em conformidade. Rejeição sentida principalmente por parte dos jovens, que nunca a haviam conhecido ou dela tinham uma ideia distorcida, porque mitificada, nomeadamente nos programas escolares. Decepção que acarreta um sentimento de impotência e revolta. Todos os que não fomos retornados conhecemos e tivemos parentes que o foram. Eu tenho a idade de Dulce Maria Cardoso, e lembro-me.
Esta é, pois, uma história sobre as vítimas da História, as que foram apanhadas no turbilhão em que, por um lado, se intersectaram as contingências da política interna (Guerra Colonial, Revolução e estado de pré-guerra civil, Descolonização) e, por outro, as dinâmicas geopolíticas decorrentes da Guerra Fria. Demasiado para simples pessoas que a pobreza da "Metrópole" ou o espírito de iniciativa fizeram com que fossem atraídas por essas terras de oportunidade. Daí que o mainstream político retornado espelhe uma enorme hostilidade ao 25 de Abril e àqueles que o protagonizaram, militares e políticos. Os doestos com que mimoseavam Soares e Rosa Coutinho, por exemplo, são expressão patética dessa impotência.
Dulce Maria Cardoso trata o tema, não apenas com mestria literária (a chegada ao Aeroporto da Portela é um dos grandes momentos do livro), mas igualmente com sabedoria autoral, pois O Retorno é um livro que se esforça por não tomar posição. Embora se perceba a inelutabilidade histórica -- e, desse ponto de vista, não há um mínimo de justificação do colonialismo, bem pelo contrário --, o romance é feliz ao dar-nos um perfil perfeitamente normal daqueles que vieram de África: na maioria, gente comum apanhada pelo vórtice da História. 
A forma como a autora o veicula é inteligentemente dada através do discurso do protagonista, Rui, um adolescente a quem, nós leitores, permitimos e compreendemos todos os desabafos, todas as invectivas, todas as perplexidades.

4 de setembro de 2014


"Ei tu que fumas, a voz não pertence ao soldado que está de pé, ei tu que fumas, foi outro soldado, talvez o da cara quadrada. Antes de isto ter começado um preto podia levar uma sova por tratar um branco por tu e nem pensar que, ei tu que fumas. Os soldados riem-se e o pai ri-se outra vez. De cima do jipe o soldado da cara quadrada está cada vez mais divertido, chegou a altura de vingar-se do murro que o Lee lhe deu, já não tem os olhos semicerrados, peço a deus que os soldados se vão embora, prometo rezar uma ladainha inteira, das da emissora católica, peço a deus que o tio Zé chegue, o tio Zé anda a ajudar o povo oprimido, tem um cartão e tudo, talvez eles o ouçam e nos deixem em paz, peço que o soldado não se lembre do jogo de futebol nem de mim, peço tantas coisas a deus, mas deus, como sempre, mais surdo que uma porta, os soldados continuam à nossa frente satisfeitos pelo medo que nos provocam."

O RETORNO, Dulce Maria Cardoso   

1 de setembro de 2014

António Lobo Antunes, 72


António Lobo Antunes nasceu a 1 de Setembro de 1942,
em Benfica, Lisboa

26 de agosto de 2014

18 de agosto de 2014

ENQUANTO NÃO CHEGA "O RETORNO"...

"No verão de 18... ao declinar de um dia ardentíssimo, passeiava eu no espaçoso largo do Rocio, quando vi parar a cura distancia uma caleche e a pessoa que vinha dentro fazer-me um aceno para que me approximasse.
Era o meu particular amigo O... (que tratarei pelo nome de Carlos), conhecido nesta cidade pela elegância da sua figura e pela gentileza, não menos notável, do seu caracter.
- Vem dar um passeio até Bemfica, disse elle, abrindo a portinhola e convidando-me a tomar um logar à sua direita.
Acceitei de boa mente o offerecimento.
- Que tens feito? Desde que chegaste da provincia é a segunda vez que te vejo. Estiveste em Cintra?
- Não, tenho estado sempre em Lisboa.
- Vens do campo para te encerrares em casa na cidade?
- Pelo contrario, saio todos os dias e vou a todos os sitios.
- Mas que sitios são esses? Eu appareço em todos onde se reune gente e não te vejo em nenhum.
Sorrio-se como quem fosse apanhado n'uma ingenua fraude e depois continuou:
- É verdade, não tenho frequentado o Marrare, o theatro, o passeio, nem a casa da neve.
- O que equivale a dizer que não vaes a parte nenhuma onde se encontre alguem conhecido. Estarás tu apaixonado!
- E se assim fosse, o que dizias?
- Que era uma desgraça como outra qualquer.
- E a peior de todas as desgraças.
.... ....  "

23 de julho de 2014

O QUE TERIA SIDO LIDO HOJE, SE...

"Os lupis tinham boas relações com alguns animais da planície. Em particular com o cágado e a cabra de rabo-de-leque. Muitas vezes se visitavam. Os lupis gostavam muito da prudência e sabedoria do cágado. Sobretudo o lupi-pensador e o lupi-sábio, seus grandes kambas, que tinham conversas profundas com ele, a tentar descobrir sentidos escondidos na desordem babélica deste mundo. A cabra de rabo-de-leque era muito meiga e bondosa, com aqueles olhos assustados e cheios de ternura. Também o esperto coelho, o Kandimba, vinha muitas vezes à montanha. Os lupis lupilavam de gozo até se rebolarem no chão com as divertidas anedotas e muimbos que ele contava. 
Os animais maiores, como o elefante, o búfalo e o próprio rinoceronte, não tinham relações nenhumas com os lupis. Ignoravam-se. Os lupis nunca desciam da montanha para ir à planície e, depois da expulsão dos rinocerontes, estes não mais subiram à montanha. E passaram o mujimbo dos seus tormentos aos elefantes e búfalos, os quais não ousavam pisar território lupi, certamente com medo de ficarem arrasados dos nervos."

PEPETELA -  A MONTANHA DA ÁGUA LILÁS (Fábula para todas as idades)



18 de julho de 2014

EXCERTO DO FUTURÍVEL "O ASCETA"

Aos domingos e dias de preceito o átrio das cruzes perdia um pouco do seu ar desolado e animava-se com o afluxo dos fiéis que chegavam das aldeias mais próximas para assistir à missa conventual ou ser ouvidos em confissão. Alguns traziam víveres para os monges, coisas simples e parcas, como pão de centeio, peixe seco, algum cabaz de frutas, uma ou duas onças de sal, um molho de nabiças, uma púcara de azeitonas, meia dúzia de queijinhos de cabra, um selamim de feijão. Por vezes, quando achava que a quantidade das dádivas excedia as necessidades imediatas do convento - a regra impunha que não se armazenasse mais do que o necessário para três dias - o guardião recusava com delicadeza, e alguns camponeses regressavam a casa com o alforge só parcialmente aliviado."

(F. Faria)

14 de julho de 2014

um parágrafo de Raul Brandão

«Lá está a velha casa abandonada, e as árvores que minha mãe, por sua, dispôs: a bica deita a mesma água indiferente, o mesmo barco arcaico sobre o rio, guiado à espadela pelo mesmo homem do Douro, de pé sobre a gaiola de pinheiro. Só os mortos não voltam. Dava tudo no mundo para os tornar a ver, e não há lágrimas no mundo que os façam ressuscitar.»

Memórias, vol. I [1919], Lisboa, Perspectivas & Realidades, s.d.
(lido na sessão de 9.VII.2014)

11 de julho de 2014

A PRIMEIRA BISNETA, João de Barros

 
 
Para o futuro neto da Teresa e do
Marcelo. Na noite de Natal de 1956.

Tal o menino Jesus
os meninos nascem nus...
Mas Aquele não tem frio,
vem lá do céu direitinho,
e no céu tudo é quentinho.
Os outros, quanto arrepio
no seu corpinho macio!
Então a Avó, com afã,
para evitar-lhe percalços,
por causa dos pés descalços,
corre a buscar sapatinhos
de boa lã
(boa lã da Covilhã)
que os pèzinhos aconchega...
Nenhum inverno lhes chega!
-- Oferta de puro amor
que é sempre o melhor calor.



João de Barros, Eterno Mar -- Último Versos, edição da família do Autor, 1967
(lido na sessão de 9.VII.2014)

8 de julho de 2014

"memórias de uma estranha primavera"

Testemunho romanceado da vida de seminarista que o autor conheceu na juventude. A meu ver, a leitura fará mais sentido encarada como relato memorialístico do que como ficção, apesar de existirem elementos ficcionais (e até de fantástico, como um viajante no tempo sob o qual a narrativa se estrutura). O subtítulo, Memórias de uma Estranha Primavera, é, aliás, bastante claro.  
Um aspecto interessante do livro é o da não coincidência com outros textos de temática idêntica sobre a vida nos seminários, habitualmente mais negros. Não que o trauma não esteja presente -- nada mais natural num universo disciplinador vivido durante a adolescência; porém, a narrativa é destituída dos episódios escabrosos que à partida aguardamos, quando se trata de seminários ou internatos. (Preconceito, ou sorte de quem viveu esta história concreta?) Há passagens particularmente interessantes, entre as quais destaco as que giram em torno do afastamento da casa e da família, das saudades lancinantes, que afloram como a mais dolorosa provação de Filinto, ou seja, o autor. 
Fernando Faria,  As Viagens de Filinto, Lisboa, Chiado Editora, 2013

3 de julho de 2014

um parágrafo de D'Annunzio

«Ela e o Delfim tinham-se amado sempre, desde o tempo em que brincavam no areal, atormentavam os caranguejos ou patinhavam na água; haviam-se beijado mil vezes à luz do sol, em frente do mar; mil vezes tinham lançado ao mar e ao sol a divina canção da mocidade de ambos... Ah, que bela, robusta, audaciosa mocidade, temperada na água salgada, como rija lâmina de aço!»

«O Delfim», Terra Virgem, tradução de M. L., Lisboa, Editorial Minerva, 1955, pp. 107-112.
(lido na sessão de 25.VI.2014)

30 de junho de 2014

um parágrafo de Ferreira de Castro

«Estes velhos e velhas, em cujo rosto a charrua do tempo lavrou profundos sulcos, estas crianças maltrapilhas, criadas ao deus-dará, entre a lama dos pobres burgos e os animais domésticos, esta gente simples e despecuniada, que me faz sentir o frio que ela sente nas noites invernais e me recorda os seus desolados casebres quando percorro algumas ruas de Lisboa, onde se exibem sumptuosas moradias, demonstra-nos que se a felicidade não se obteve com as conquistas da civilização, também não existia, senão em casos singulares, antes de o homem ter colocado o seu génio ao serviço da sua ansiedade.»

Excerto do «Pórtico» de Terra Fria [1934], 12.ª edição, Lisboa, Guimarães & C.ª, 1980
(lido na sessão de 27.VI.2014)

27 de junho de 2014

um parágrafo de Sophia de Mello Breyner Andresen


«É uma cidade antiga onde estagnada se desagrega e se dissolve lentamente uma vida desvivida gesto por gesto, sílaba por sílaba.»

«Vila d'Arcos», Histórias da Terra e do Mar, Lisboa, Edições Salamandra, 1984, pp. 115-117.
(lido na sessão de 25.VI.2014)

24 de junho de 2014

1 parágrafo de Manuel Alegre

«De certo modo não havia lugar para o pai nem para mim. Havia lugar para a nossa presença na ordem incessante dos ritos, a horas certas. Não para as cavalgadas solitárias que cada um tinha necessidade de fazer sem ser interrompido pela tarefa do dia. Mesmo que fosse o dia de receber visitas, com chá e bolos. Não tínhamos direito à nossa desordem interior, éramos prisioneiros de um espaço contantemente invadido por obrigações cujo sentido não podíamos entender. Não era por mal, era assim.»
«A grande subversão», O Homem do País Azul (1989), 7.ª edição, Lisboa, Dom Quixote, 2009, pp. 51-56.
(lido na sessão de 18 de Junho de 2014)

Ambrose Bierce, 172

Ambrose Bierce nasceu no Meigs County, Ohio, em 24 de Junho de 1842.