Para não ter de assumir o desconforto (ou a desvergonha) de recomendar o que proponho, a leitura deste livro excelente de Khaled Hosseini, deixo a missão a leitora cuidadosa, persistente e informada.
Oiçam-na! https://youtube.com/watch?v=
Para não ter de assumir o desconforto (ou a desvergonha) de recomendar o que proponho, a leitura deste livro excelente de Khaled Hosseini, deixo a missão a leitora cuidadosa, persistente e informada.
Oiçam-na! https://youtube.com/watch?v=
ELEGIA PARA UMA GAIVOTA
Morreu no Mar a gaivota mais esbelta,
a que morava mais alto e trespassava
de claridade as nuvens mais escuras com
os olhos.
Flutuam quietas, sobre as águas, suas
asas.
Água salgada, benta de tantas mortes
angustiosas, aspergiu-a.
E três pás de ar pesado para sempre as
viagens lhe vedaram.
Eis que deixou de ser sonho apenas
sonhado.
–
: É finalmente sonho puro,
sonho que sonha finalmente, asa que
dorme voos.
Cantos dos pescadores, embalai-a!
Versos dos poetas, embalai-a!
Brisas, peixes, marés, rumores das
velas, embalai-a!
Há na manhã um gosto vago e doce de
elegia,
tão misteriosamente, tão
insistentemente,
sua presença morta em tudo se anuncia.
Ela vai, sereninha e muito branca.
E a sua morte simples e suavíssima
é a ordem-do-dia na praia e no mar alto.
SEBASTIÃO DA GAMA, Campo Aberto (1951)
Não. Beijemo-nos, apenas.
Nesta agonia da tarde.
Guarda –
Para outro momento,
Teu viril corpo trigueiro.
O meu desejo não arde
E a convivência contigo
Modificou-me – sou outro…
A névoa da noite cai.
Já mal distingo a cor fulva
Dos teus cabelos – És lindo!
A morte
Devia ser
Uma vaga fantasia!
Dá-me o teu braço: – não ponhas
Esse desmaio na voz.
Sim, beijemo-nos, apenas!,
–
Que mais precisamos nós?
ANTÓNIO BOTTO, Canções (1921-1932)
AO LONGE OS BARCOS DE FLORES
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila,
– Perdida voz que de entre as mais se
exila,
– Festões de som dissimulando a hora.
Na orgia, ao longe, que em clarões
cintila
E os lábios, branca, do carmim desflora…
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila.
E a orquestra? E os beijos? Tudo a
noite, fora
Cauta, detém. Só modulada trila
A flauta flébil… Quem há-de remi-la?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?
Só, incessante, um som de flauta chora…
CAMILO PESSANHA, Clepsidra (1920)
SALOMÉ
Insónia roxa. A luz a virgular-se em
medo,
Luz morta de luar, mais Alma do que a
lua…
Ela dança, ela range. A carne, álcool de
nua,
Alastra-se pra mim num espasmo de
segredo…
Tudo é capricho ao seu redor, em sombras
fátuas…
O aroma endoideceu, upou-se em cor,
quebrou…
Tenho frio… Alabastro!... A minh´Alma
parou…
E o seu corpo resvala a projectar
estátuas…
Ela chama-me em Íris. Nimba-se a
perder-me,
Golfa-me os seios nus, ecoa-me em
quebranto…
Timbres, elmos, punhais… A doida quer
morrer-me:
Mordura-se a chorar – há sexos no seu
pranto…
Ergo-me em som, oscilo, e parto, e vou
arder-me
Na boca imperial que humanizou um Santo…
MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO, Orpheu, nº 1, Janeiro-Fevereiro-Março de 1915
Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz, talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anónima viuvez,
Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.
Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões p´ra cantar que a vida.
Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente ´stá pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!
Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência
Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!
FERNANDO PESSOA, Atena, nº 3, Dezembro de 1924
JAZZ
Numa cadência de enigma
entrecortada de espasmos
saltos berros mil ruídos
o jazz canta a saudade
dum sonho que não se sabe.
Chora o jazz a velha perda
dum paraíso qualquer
deixado em longes de sombra.
E no seu ritmo diverso
langoroso e crepitante
martelado e insistente
triste e cheio de alegria
do que há muito está perdido.
ADOLFO CASAIS MONTEIRO, presença, nº 19, de Fevereiro / Março de 1929
Cantiga de amigo
Alguns de nós, confrades do Clube de Leitura do Museu Ferreira de Castro, ao retomarmos um velho hábito de trazer um poema para ler no final de cada sessão, desafiámo-nos a construir cada um uma antologia poética, prática que no meu caso é um vício antigo.
O desafio já foi aceite, com pundonor, pelo nossa confrade Manuel Matos Nunes, também ele poeta, arremessando já 3-poemas-3 às cabeças dos leitores, de uma antologia em construção intitulada Poesia em Língua Portuguesa, século XX, que não pudera começar melhor.
Para quem como eu já leu milhares de poemas e tem outros tantos para ler, uma antologia minimamente criteriosa pode ser uma lida insana e até impossível -- a não ser que ela se assuma como "antologia pessoal, 'solitária' e exclusiva".
Embora nenhum autor se repita, trata-se de uma antologia de poemas e não de poetas, o que significará que haverá grandes vates, tantos!, que não marcarão aqui presença, e outros que aqui estarão, ao lado de nomes menos conhecidos, muitos deles de segunda linha, alguns menores, até. O que me interessou foi fazer uma lista de poemas que me emocionam e não compor um ramalhete by the book, com todos os nomes grados que nunca poderiam faltar. Disso já há para aí muito. Como afirmou algures Jorge Luis Borges, um verso sublime pode sair da mão de um poeta menor, e mesmo um grande poema, acrescentaria eu.
Como sondagem representativa da poesia portuguesa, a minha antologia valerá zero, ou quase; como testemunho de uma preferência estética e de uma sensibilidade, valerá cem, ou perto disso.
A antologia é solitária, porque não quis ser influenciado na escolha, não porque me desgoste debater com quem tem as mesmas, ou outras, afinidades.. Será até possível que um mesmo poema apareça em diferentes antologias que aqui se farão, nada mais natural e previsível.
É também exclusiva, porque gratamente exclui. Repetindo-me: haverá ausências que seriam inadmissíveis numa antologia representativa da poesia portuguesa e presenças que só num exercício destes têm cabimento. Não vou, com pena, incluir poetas brasileiros. Uma antologia de 50 ou 100 poemas de outros tantos poetas já é suficientemente insensato, para ainda afunilar mais. Um dia, quem sabe? Talvez precedida de outra, apenas de autores do país que para ali criámos, onde, aliás, tenho raízes. Mas vou incluir autores africanos que a certa altura da vida deixaram de ser portugueses para abraçarem a sua nova nacionalidade. Faço-o, não por qualquer sentimento de paternalismo colonial serôdio, bem pelo contrário!; antes como forma de orgulho e reconhecimento àqueles que lutaram e poetaram a sua liberdade, conseguindo com isso também a nossa, fará 50 anos, em 2024.
Para terminar: espero que gostem e que não gostem também; que leiam e, se vos apetecer, comentem. Amanhã sairá o primeiro, é medieval, e o poeta talvez nem fosse português.
Ricardo António Alves
«O garoto do cabelo cor-de-mel agachou-se, deixou-se escorregar ao longo do último troço do rochedo e encaminhou-se para a lagoa.» William Golding, O Deus das Moscas [1954], trad. de Luís de Sousa Rebelo, Porto, Público, 2002, p. 5.
IMAGEM
A vida da bem-casada
Está, toda branca, estirada
Sobre a cama
De casal.
A vida da bem-casada
Pulsa dentro da redoma
De cristal.
Em claro sol entornada,
Tem abismos de paisagem
Irreal…
E depois de abandonada,
Parece jazer à espera
Das três pazadas de cal.
NATÉRCIA FREIRE, Anel de Sete Pedras (1952)
ARIANE
Ariane é um navio.
Tem mastros, velas e bandeiras à
proa,
E chegou num dia branco, frio,
A este rio Tejo de Lisboa.
Carregado de Sonho, fundeou
Dentro da claridade destas grades…
Cisne de todos, que se foi, voltou
Só para os olhos de quem tem
saudades…
Foram duas fragatas ver quem era
Um tal milagre assim: era um navio
Que se balança ali à minha espera
Entre gaivotas que se dão no rio.
Mas eu é que não pude ainda por meus
passos
Sair desta prisão em corpo inteiro,
E levantar a âncora, e cair nos
braços
De Ariane, o veleiro.
MIGUEL TORGA, Diário I (1941)
EPITÁFIO
PARA UM POETA
As asas não
lhe cabem no caixão!
A farpela de
luto não condiz
Com seu ar
grave, mas, enfim, feliz;
A gravata e
o calçado também não.
Ponham-no
fora e dispam-lhe a farpela!
Descalcem-lhe
os sapatos de verniz!
Não vêem que
ele, nu, faz mais figura,
Como uma
pedra, ou uma estrela?
Pois
atirem-no assim à terra dura,
Ser-lhe-á
conforto:
Deixem-no
respirar ao menos morto!
JOSÉ RÉGIO, Filho do Homem (1961)
Pensar-te é pensar o amor e a morte.
Escrevo na margem da tarde
No seio mágico das estações o entardecer
No teu bairro é ainda o mesmo
Com mulheres rubras e fantasmas de carne
E tinta gritando guarnicamente o não de
Todas as guerras. Fico a pensar nisto demoradamente e sinto o cântico do poema a
Sua deslocaçâo de ar o vaivém das marés
Nas margens submersas do indizível .
Sinto alguns versos quando brandos,
A agudeza incómoda o esvoaçar de pomba
Quente como as línguas de espírito santo
Abrindo algumas portas metendo mesmo o ombro às portas do medo e do preconceito
Nas margens submersas do indizível.
«Brilha o céu, tarda a noite, o tempo é lerdo, a vida baça.» Mário de Carvalho, Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde (1994), 2.ª ed., Lisboa, Editorial Caminho, 1995, p. 13.
«Fato branco, engomado, luzidio, do melhor H.J. que teciam as fábricas inglesas, o senhor Balbino, com um chapéu de palha a envolver-lhe em sombra metade do corpo alto e seco, entrou na "Flor da Amazónia" mais rabioso do que nunca.» Ferreira de Castro, A Selva (1930), 42.ª ed., Lisboa, Cavalo de Ferro, p. 27.
«Morto el-rei Dom Afonso, como haveis ouvido, reinou seu filho o infante D. Pedro, havendo então de sua idade, trinta e sete anos e u mês e dezoito dias.» Fernão Lopes, Crónica de D. Pedro, edição de António Borges Coelho, Lisboa, Livros Horizonte, 1977, p. 45.
Quem a morte sentiu
Da vida não foge
(Livro de Registos / Última Colheita, 2022)
***
Tenho a idade
deste plátano
e desta tília.
Todavia sei
que não vamos
envelhecer juntos.
(Sequências, 2000)
***
Uma só vida não chega
Nem outra nem outra ainda
Para dizer que te amo
Meu amor meu só amor.
E quando a morte vier
Inevitável e certa
Que seja eu o primeiro
A ficar no livro inscrito.
Que ali discreto seja
E feliz por ter amado
A mulher por que morri
Vivendo. Nada mais quero.
Se de meu amor morri
Morrendo volto a viver.
(Caderno de Encargos, 1994)
***
Como defender a Pátria falando outra língua,
Se outra língua ouvindo sei que esta terra
Minha Pátria não é?
(Jornal de Campanha, 1986)
***
Em Portugal haver mocidade portuguesa
é um pleonasmo a evitar
(Gramática Histórica, 1971)
***
SÓ PORQUE ÉRAMOS PUROS
Só porque demos as mãos
E gritámos bem alto
O nome da amizade,
Só porque trocámos carícias
Sem o prazer dos sexos
E fomos amantes Como o luar e o rio,
Chamaram-nos devassos
E refugiaram-se no mundo
Torpe, em que não caímos.
(Momento, 1956)
Já há muito que aqui não vinha. Da última vez que o fiz, esforcei-me por publicar uma léria sobre um livro meu, mas desisti depois de umas dez tentativas de ilustrar com uma imagem. Tentei atribuir o fiasco a um capricho do computador, mas, na verdade, é a central eléctrica que já vai falhando... Vale a tudo isto a autocomplacência com que um septuagenário procura camuflar a frustração do impiedoso desgaste...
Hoje, terminada a leitura do magistral romance policial de Leonardo Padura, cuja discussão está aprazada para a próxima sexta-feira no Clube de Leitura Ferreira de Castro, de Sintra, voltei, disposto a dispensar a imagem e centrar-me nos caracteres.
Posso afirmar que me encheu as medidas. Tão inteligente, tão fino, tão humano. Brilhante, mesmo!
E deixo um pedacinho. Pena que um pouco mórbido...:
«Agora faltava o brilho claro dos seus olhos e a voz, lançada com dramatismo sobre a multidão. Faltava o hálito imaculado do seu rosto acabado de barbear, lavado, acordado. Faltava o sorriso inevitável e seguro que esbanjava luz e simpatia. Parecia ter engordado, com uma gordura violácea e doentia, e precisava urgentemente de pentear o seu cabelo castanho.
- Mas é ele - disse o Conde, e o médico-legista voltou a cobri-lo com o lençol, como o pano que cai no último acto de uma peça sem encanto nem emoção.»
F.F.
«Quando estava prestes a completar treze anos, o meu irmão Jem fracturou gravemente o braço na zona do cotovelo.» Harper Lee, Mataram a Cotovia [1960], trad. Fernando Ferreira-Alves, Lisboa, Relógio d'Água, 2022, p. 13
To kill a mockingbird
Is to silence the song
That seduces you
Why?
'Cause you need that desire in your heart to survive
And you need that burning fire in your soul to know
You're still alive
To catch me when I fall
Or did I dive at your delight?
In my heart I can fly
And I cannot disguise my love
There is no time
And I wouldn't know how
Constellations tonight
Are so fiercesomely bright, my love
I have no fear
I am Atticus now
Remember what I lost like hot coals in my hand from days gone by
Like Pandora adored the euphoria as her heart raced
Like love lost you've got to try even in vain
Feels like you'll go insane
But you're the hardest instrument that I've ever had to play
In my heart I can fly
And I cannot disguise my love
There is no time
And I wouldn't know how to
Constellations tonight
Are so fiercesomely bright, my love
I have no fear
I am Atticus now
So why don't we fall into the waves?
Can't you see how my heart yearns to misbehave?
In my heart I can fly
And I cannot disguise my love
There is no time to
And I wouldn't know how
Constellations tonight
Are so fiercesomely bright, my love
I have no fear left
'Cause I am Atticus now
So why don't we fall into the waves?
Can't you see how my heart yearns to misbehave?
«Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de Inverno, em Turim, que é quase tão frio como Sampetersburgo -- entende-se.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra 1846], Mem Martins, Publicações Europa-América, 1976, p. 9.
Annie Ernaux, Os Anos [2008], trad. Maria Etelvina Santos, Porto, Livros do Brasil, 2022, p. 9.
Este, realço, é diferente de todos os que leu até hoje; para não estar a repetir informação, transcrevo o que a editora refere sobre a obra.
|
Latente, aparentando magma sonolento, sob uma crosta
que se julga intransponível, a
Em Beto e Arlinda, reedição em
livro pela Bibliotrónica Portuguesa de textos diarísticos, |
O autor já tinha sido homenageado no nosso blogue, aquando da sua morte. Merecidamente.