18 de outubro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (11)

 

A PORTA APORTA

 

a porta roda ao invés da lua

a porta roda bússola enterrada ao invés dos olhos

a porta geme é um cão nocturno

a porta geme extinta na trela da noite

a porta areia

a porta caruncho pária de mar

a porta maré que vem e que vai que bate e que fecha

a porta com máscara de morte

a porta sem sorte

a porta joelho na alma das portas

a porta mulher da casa de passe

a porta manchou a manhã com o grito de porta

a porta enforcada no mastro da casa

a porta por asa

a porta roda

a porta sexo a vida toda

a porta tosca da madrugada pregos são estrelas mortas

a porta pregada

a porta leilão

a porta batente a porta aranha por coração

a porta tu

a porta eu

a porta ninguém na terra pequena

a porta roda

a porta geme

a porta facho

a porta leme

 

LUIZA NETO JORGE, Quarta Dimensão (1961)


17 de outubro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (10)

 

CARTA ABERTA

 

Um homem progride, blindado e hirsuto

como um porco-espinho.

É o poeta no seu reduto

abrindo caminho.

Abrindo caminho com passos serenos

e clava na mão,

que as noites são grandes e os dias pequenos

nesta criação.

 

Esmagando as boninas, os cravos e os lírios,

cortando as carótidas às aves canoras.

Chegaram as horas

de acender os círios,

de velar as ninfas no estreito caixão,

de enterrar as frases e as vozes incautas,

de oferecer a Lua para os astronautas

e as rosas fragantes à destilação.

 

ANTÓNIO GEDEÃO, Linhas de Força (1967)


16 de outubro de 2023

101 poemas portugueses #2


Cantiga sua partindo-se


Senhora, partem tão tristes
Meus olhos por vós, meu bem,
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.

Tão tristes, tão saudosos,
Tão doentes da partida,
Tão cansados, tão chorosos,
Da morte mais desejosos
Cem mil vezes que da vida.
Partem tão tristes os tristes,
Tão fora d'esperar bem,
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.


João Roiz de Castelo Branco (Sécs. XV-XVI).
antologiado por Garcia de Resende no Cancioneiro Geral

15 de outubro de 2023

MIL SÓIS RESPLANDECENTES

Para não ter de assumir o desconforto (ou a desvergonha) de recomendar o que proponho, a leitura deste livro excelente de Khaled Hosseini, deixo a missão a leitora cuidadosa, persistente e informada.

Oiçam-na! https://youtube.com/watch?v=dK7JAX7xprg&feature=share

13 de outubro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (9)

 

ELEGIA PARA UMA GAIVOTA

 

Morreu no Mar a gaivota mais esbelta,

a que morava mais alto e trespassava

de claridade as nuvens mais escuras com os olhos.

 

Flutuam quietas, sobre as águas, suas asas.

Água salgada, benta de tantas mortes angustiosas, aspergiu-a.

E três pás de ar pesado para sempre as viagens lhe vedaram.

 

Eis que deixou de ser sonho apenas sonhado.

 – : É finalmente sonho puro,

sonho que sonha finalmente, asa que dorme voos.

 

Cantos dos pescadores, embalai-a!

Versos dos poetas, embalai-a!

Brisas, peixes, marés, rumores das velas, embalai-a!

 

Há na manhã um gosto vago e doce de elegia,

tão misteriosamente, tão insistentemente,

sua presença morta em tudo se anuncia.

 

Ela vai, sereninha e muito branca.

E a sua morte simples e suavíssima

é a ordem-do-dia na praia e no mar alto.

 

SEBASTIÃO DA GAMA, Campo Aberto (1951)


12 de outubro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (8)

 

Não. Beijemo-nos, apenas.

Nesta agonia da tarde.

 

Guarda –

Para outro momento,

Teu viril corpo trigueiro.

 

O meu desejo não arde

E a convivência contigo

Modificou-me – sou outro…

 

A névoa da noite cai.

 

Já mal distingo a cor fulva

Dos teus cabelos – És lindo!

 

A morte

Devia ser

Uma vaga fantasia!

 

Dá-me o teu braço: – não ponhas

Esse desmaio na voz.

 

Sim, beijemo-nos, apenas!,

  Que mais precisamos nós?

 

ANTÓNIO BOTTO, Canções (1921-1932)


11 de outubro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (7)

 

AO LONGE OS BARCOS DE FLORES

 

Só, incessante, um som de flauta chora,

Viúva, grácil, na escuridão tranquila,

– Perdida voz que de entre as mais se exila,

– Festões de som dissimulando a hora.

 

Na orgia, ao longe, que em clarões cintila

E os lábios, branca, do carmim desflora…

Só, incessante, um som de flauta chora,

Viúva, grácil, na escuridão tranquila.

 

E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora

Cauta, detém. Só modulada trila

A flauta flébil… Quem há-de remi-la?

Quem sabe a dor que sem razão deplora?

 

Só, incessante, um som de flauta chora…

 

CAMILO PESSANHA, Clepsidra  (1920)


10 de outubro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (6)


SALOMÉ

 

Insónia roxa. A luz a virgular-se em medo,

Luz morta de luar, mais Alma do que a lua…

Ela dança, ela range. A carne, álcool de nua,

Alastra-se pra mim num espasmo de segredo…

 

Tudo é capricho ao seu redor, em sombras fátuas…

O aroma endoideceu, upou-se em cor, quebrou…

Tenho frio… Alabastro!... A minh´Alma parou…

E o seu corpo resvala a projectar estátuas…

 

Ela chama-me em Íris. Nimba-se a perder-me,

Golfa-me os seios nus, ecoa-me em quebranto…

Timbres, elmos, punhais… A doida quer morrer-me:

 

Mordura-se a chorar – há sexos no seu pranto…

Ergo-me em som, oscilo, e parto, e vou arder-me

Na boca imperial que humanizou um Santo…

 

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO, Orpheu, nº 1, Janeiro-Fevereiro-Março de 1915 

9 de outubro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (5)

 

Ela canta, pobre ceifeira,

Julgando-se feliz, talvez;

Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia

De alegre e anónima viuvez,

 

Ondula como um canto de ave

No ar limpo como um limiar,

E há curvas no enredo suave

Do som que ela tem a cantar.

 

Ouvi-la alegra e entristece,

Na sua voz há o campo e a lida,

E canta como se tivesse

Mais razões p´ra cantar que a vida.

 

Ah, canta, canta sem razão!

O que em mim sente ´stá pensando.

Derrama no meu coração

A tua incerta voz ondeando!

 

Ah, poder ser tu, sendo eu!

Ter a tua alegre inconsciência,

E a consciência disso! Ó céu!

Ó campo! Ó canção! A ciência

 

Pesa tanto e a vida é tão breve!

Entrai por mim dentro! Tornai

Minha alma a vossa sombra leve!

Depois, levando-me, passai!

 

FERNANDO PESSOA, Atena, nº 3, Dezembro de 1924

8 de outubro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (4)

 


JAZZ


Numa cadência de enigma

entrecortada de espasmos

saltos berros mil ruídos

o jazz canta a saudade

dum sonho que não se sabe.


Chora o jazz a velha perda

dum paraíso qualquer

deixado em longes de sombra.

 

E no seu ritmo diverso

langoroso e crepitante

martelado e insistente

triste e cheio de alegria

do que há muito está perdido.


ADOLFO CASAIS MONTEIRO, presença, nº 19, de Fevereiro / Março de 1929


7 de outubro de 2023

101 poemas portugueses - #1

Cantiga de amigo

Se eu podesse desamar
a que[n] me sempre desamou,

e podess' algun mal buscar
a quen me sempre mal buscou!
Assi me vingaria eu,
     se eu podesse coita dar
     a quen me sempre coita deu.

Mais non poss' eu enganar
meu coraçon, que m' enganou,
por quanto me fez desejar
a quen me nunca desejou.
E por esto non dormio eu
     se eu podesse coita dar
     a quen me sempre coita deu.

Mais rog' a Deus que desempar
a quen m' assi desemparou,
vel que podess' eu destorvar
a quen me sempre destorvou.
E logo dormiria eu,
     se eu podesse coita dar
     a quen me sempre coita deu.

Vel que ousass' eu preguntar
a quen me nunca preguntou,
por que me fez em si cuidar,
pois ela nunc' en mi cuidou.
E por esto lazeiro eu,
     se eu podesse coita dar
     a quen me sempre coita deu.

Pero da Ponte (Século XIII)

Cantiga presente nas três colectâneas da poesia trovadoresca: Cancioneiro da Ajuda, Cancioneiro da Vaticana e Cancioneiro da Biblioteca Nacional, in  Maria Ema Tarracha Ferreira, Antologia Literária Comentada -- Idade Média, Lisboa, Editorial Aster. s.d.
Há quem sustente ter sido Pero da Ponte galego (de Pontevedra), mas não se sabe. O certo é que foi trovador na corte de Afonso X o Sábio, rei de Leão e Castela, também ele grande poeta e avô de D. Dinis.

6 de outubro de 2023

pressupostos de uma antologia de poesia portuguesa (sécs. XII-XXI), pessoal, "solitária" e exclusiva

 Alguns de nós, confrades do Clube de Leitura do Museu Ferreira de Castro, ao retomarmos um velho hábito de trazer um poema para ler no final de cada sessão, desafiámo-nos a construir cada um uma antologia poética, prática que no meu caso é um vício antigo.

O desafio já foi aceite, com pundonor, pelo nossa confrade Manuel Matos Nunes, também ele poeta, arremessando já 3-poemas-3 às cabeças dos leitores, de uma antologia em construção intitulada Poesia em Língua Portuguesa, século XX, que não pudera começar melhor.

Para quem como eu já leu milhares de poemas e tem outros tantos para ler, uma antologia minimamente criteriosa pode ser uma lida insana e até impossível -- a não ser que ela se assuma como "antologia pessoal, 'solitária' e exclusiva".

Embora nenhum autor se repita, trata-se de uma antologia de poemas e não de poetas, o que significará que haverá grandes vates, tantos!, que não marcarão aqui presença, e outros que aqui estarão, ao lado de nomes menos conhecidos, muitos deles de segunda linha, alguns menores, até. O que me interessou foi fazer uma lista de poemas que me emocionam e não compor um ramalhete by the book, com todos os nomes grados que nunca poderiam faltar. Disso já há para aí muito. Como afirmou algures Jorge Luis Borges, um verso sublime pode sair da mão de um poeta menor, e mesmo um grande poema, acrescentaria eu.

Como sondagem representativa da poesia portuguesa, a minha antologia valerá zero, ou quase; como testemunho de uma preferência estética e de uma sensibilidade, valerá cem, ou perto disso.

A antologia é solitária, porque não quis ser influenciado na escolha, não porque me desgoste debater com quem tem as mesmas, ou outras, afinidades.. Será até possível que um mesmo poema apareça em diferentes antologias que aqui se farão, nada mais natural e previsível.

É também exclusiva, porque gratamente exclui. Repetindo-me: haverá ausências que seriam inadmissíveis numa antologia representativa da poesia portuguesa e presenças que só num exercício destes têm cabimento. Não vou, com pena, incluir poetas brasileiros. Uma antologia de 50 ou 100 poemas de outros tantos poetas já é suficientemente insensato, para ainda afunilar mais. Um dia, quem sabe? Talvez precedida de outra, apenas de autores do país que para ali criámos, onde, aliás, tenho raízes. Mas vou incluir autores africanos que a certa altura da vida deixaram de ser portugueses para abraçarem a sua nova nacionalidade. Faço-o, não por qualquer sentimento de paternalismo colonial serôdio, bem pelo contrário!; antes como forma de orgulho e reconhecimento àqueles que lutaram e poetaram a sua liberdade, conseguindo com isso também a nossa, fará 50 anos, em 2024.

Para terminar: espero que gostem e que não gostem também; que leiam e, se vos apetecer, comentem. Amanhã sairá o primeiro, é medieval, e o poeta talvez nem fosse português.

Ricardo António Alves

o início de O DEUS DAS MOSCAS

 «O garoto do cabelo cor-de-mel agachou-se, deixou-se escorregar ao longo do último troço do rochedo e encaminhou-se para a lagoa.» William Golding, O Deus das Moscas [1954], trad. de Luís de Sousa Rebelo, Porto, Público, 2002, p. 5. 

5 de outubro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (3)

 

IMAGEM

 

A vida da bem-casada

Está, toda branca, estirada

Sobre a cama

De casal.

 

A vida da bem-casada

Pulsa dentro da redoma

De cristal.

 

Em claro sol entornada,

Tem abismos de paisagem

Irreal…

 

E depois de abandonada,

Parece jazer à espera

Das três pazadas de cal.

 

NATÉRCIA FREIRE, Anel de Sete Pedras  (1952)


4 de outubro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (2)

 

ARIANE

 

Ariane é um navio.

Tem mastros, velas e bandeiras à proa,

E chegou num dia branco, frio,

A este rio Tejo de Lisboa.

 

Carregado de Sonho, fundeou

Dentro da claridade destas grades…

Cisne de todos, que se foi, voltou

Só para os olhos de quem tem saudades…

 

Foram duas fragatas ver quem era

Um tal milagre assim: era um navio

Que se balança ali à minha espera

Entre gaivotas que se dão no rio.

 

Mas eu é que não pude ainda por meus passos

Sair desta prisão em corpo inteiro,

E levantar a âncora, e cair nos braços

De Ariane, o veleiro.

 

MIGUEL TORGA, Diário I (1941)


3 de outubro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (1)

 

EPITÁFIO PARA UM POETA

 

As asas não lhe cabem no caixão!

A farpela de luto não condiz

Com seu ar grave, mas, enfim, feliz;

A gravata e o calçado também não.

Ponham-no fora e dispam-lhe a farpela!

Descalcem-lhe os sapatos de verniz!

Não vêem que ele, nu, faz mais figura,

Como uma pedra, ou uma estrela?

Pois atirem-no assim à terra dura,

Ser-lhe-á conforto:

Deixem-no respirar ao menos morto!

 

JOSÉ RÉGIO, Filho do Homem (1961)

15 de setembro de 2023

NATÁLIA: POÉTICAS A REBATE

 Pensar-te é pensar o amor e a morte.

Escrevo na margem da tarde

No seio mágico das estações o entardecer

No teu bairro é ainda o mesmo 

Com mulheres rubras e fantasmas de carne

E tinta gritando guarnicamente o não de

Todas as guerras. Fico a pensar nisto demoradamente e sinto o cântico do poema a

Sua deslocaçâo de ar o vaivém das marés 

Nas margens submersas do indizível .

Sinto alguns versos quando brandos,

A agudeza incómoda o esvoaçar de pomba

Quente como as línguas de espírito santo

Abrindo algumas portas metendo mesmo o ombro às portas do medo e do preconceito

Nas margens submersas do indizível.

21 de agosto de 2023

PESSOA E MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Ando a ler, com muito agrado, esta monumental obra. A dado passo (página 396), deparei com este curioso cotejo entre as personalidades de Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, que ajuda a compreender o percurso de vida escolhido por cada um dos amigos:




 "Sá-Carneiro escrevia com regularidade, sentava-se longamente nos cafés e deambulava pelos Jardins do Luxemburgo, mas a sua excitação por estar em Paris passou em breve a alternar com estados de torturada ansiedade por causa de aparentemente nada, a não ser pelo facto de que a beleza é fugidia e a vida imperfeita. Atrozmente consciente de tudo aquilo que faltava no mundo, que ele amava, e nele próprio, que ele adorava, era um infeliz sibarita e um narcisista falhado. Pessoa dava livre curso às suas próprias e ainda mais abstractas ansiedades, estando sobretudo preocupado com o porquê deste mundo e o lugar que nele ocupava, e imaginava outros mundos, outros eus."


F. Faria

5 de julho de 2023

o início de UM DEUS PASSEANDO PELA BRISA DA TARDE

«Brilha o céu, tarda a noite, o tempo é lerdo, a vida baça.» Mário de Carvalho, Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde (1994), 2.ª ed., Lisboa, Editorial Caminho, 1995, p. 13.

7 de junho de 2023

o início de A RUIVA

«A taberna do Pescada ficava mesmo em frente ao cemitério dos Prazeres, e era frequentada pela gente do sítio, especialmente de noite, à hora em que os cabouqueiros e os britadores abandonam os seus trabalhos e entram na cidade, em ruído.» Fialho de Almeida, A Ruiva [1878], Lisboa, Assírio & Alvim, 2005, p. 15.

24 de maio de 2023

o Autor e o seu livro: CARLOS DE OLIVEIRA -- O HALO E O ESPELHO TURBADO, por Vítor Viçoso

 


Sexta-feira, 26 de Maio, 18 horas
Museu Ferreira de Castro

o início de A SELVA

«Fato branco, engomado, luzidio, do melhor H.J. que teciam as fábricas inglesas, o senhor Balbino, com um chapéu de palha a envolver-lhe em sombra metade do corpo alto e seco, entrou na "Flor da Amazónia" mais rabioso do que nunca.» Ferreira de Castro, A Selva (1930), 42.ª ed., Lisboa, Cavalo de Ferro, p. 27.

3 de maio de 2023

o início da CRÓNICA DE D. PEDRO

 

«Morto el-rei Dom Afonso, como haveis ouvido, reinou seu filho o infante D. Pedro, havendo então de sua idade, trinta e sete anos e u mês e dezoito dias.» Fernão Lopes, Crónica de D. Pedro, edição de António Borges Coelho, Lisboa, Livros Horizonte, 1977, p. 45.

24 de abril de 2023

6 poemas de Liberto Cruz - o Autor e o seu Livro - 28-IV-2023

Quem a morte sentiu

Da vida não foge

(Livro de Registos / Última Colheita, 2022)


***


Tenho a idade

deste plátano 

e desta tília.


Todavia sei

que não vamos

envelhecer juntos.

(Sequências, 2000)


***


Uma só vida não chega

Nem outra nem outra ainda

Para dizer que te amo

Meu amor meu só amor.


E quando a morte vier

Inevitável e certa

Que seja eu o primeiro

A ficar no livro inscrito.


Que ali discreto seja

E feliz por ter amado

A mulher por que morri


Vivendo. Nada mais quero.

Se de meu amor morri

Morrendo volto a viver.

(Caderno de Encargos, 1994)


***


Como defender a Pátria falando outra língua,

Se outra língua ouvindo sei que esta terra

Minha Pátria não é?

(Jornal de Campanha, 1986)


***


Em Portugal haver mocidade portuguesa

é um pleonasmo a evitar

(Gramática Histórica, 1971)


***


SÓ PORQUE ÉRAMOS PUROS

Só porque demos as mãos

E gritámos bem alto 

O nome da amizade,

Só porque trocámos carícias

Sem o prazer dos sexos

E fomos amantes Como o luar e o rio,

Chamaram-nos devassos

E refugiaram-se no mundo 

Torpe, em que não caímos.

(Momento, 1956)





18 de abril de 2023

"Património e Mudança" - Dia Internacional dos Monumentos e Sítios / 2023


Conferência: «Ventos de Mudança: Património, História e Ideologia em Pequenos Mundos e Velhas Civilizações, de Ferreira de Castro»
18 de Abril, 18 horas, no Museu Ferreira de Castro

 

14 de abril de 2023

o início de UM PASSADO PERFEITO

«Não preciso de pensar para compreender que o mais difícil seria abrir os olhos.» Leonardo PaduraUm Passado Perfeito (1991), trad. Helena Pitta, Porto, Porto Editora, 2021, p. 15.

12 de abril de 2023

UM PASSADO PERFEITO

Já há muito que aqui não vinha. Da última vez que o fiz, esforcei-me por publicar uma léria sobre um livro meu, mas desisti depois de umas dez tentativas de ilustrar com uma imagem. Tentei atribuir o fiasco a um capricho do computador, mas, na verdade, é a central eléctrica que já vai falhando... Vale a tudo isto a autocomplacência com que um septuagenário procura camuflar a frustração do impiedoso desgaste... 

Hoje, terminada a leitura do magistral romance policial de Leonardo Padura, cuja discussão está aprazada para a próxima sexta-feira no Clube de Leitura Ferreira de Castro, de Sintra, voltei, disposto a dispensar a imagem e centrar-me nos caracteres.

Posso afirmar que me encheu as medidas. Tão inteligente, tão fino, tão humano. Brilhante, mesmo!

E deixo um pedacinho. Pena que um pouco mórbido...:

          «Agora faltava o brilho claro dos seus olhos e a voz, lançada com dramatismo sobre a multidão.              Faltava o hálito imaculado do seu rosto acabado de barbear, lavado, acordado. Faltava o sorriso             inevitável e seguro que esbanjava luz e simpatia. Parecia ter engordado, com uma gordura                    violácea e doentia, e precisava urgentemente de pentear o seu cabelo castanho.

            - Mas é ele - disse o Conde, e o médico-legista voltou a cobri-lo com o lençol, como o pano que             cai no último acto de uma peça sem encanto nem emoção.»

F.F. 

10 de março de 2023

o início de MATARAM A COTOVIA

 

«Quando estava prestes a completar treze anos, o meu irmão Jem fracturou gravemente o braço na zona do cotovelo.» Harper LeeMataram a Cotovia [1960], trad. Fernando Ferreira-Alves, Lisboa, Relógio d'Água, 2022, p. 13

3 de março de 2023

ATTICUS


--- Matar a cotovia é calar uma canção de amor. Alguém tem outra ideia? Quanto aos versos, não sei...---

To kill a mockingbird
Is to silence the song
That seduces you
Why?
'Cause you need that desire in your heart to survive
And you need that burning fire in your soul to know
You're still alive
To catch me when I fall
Or did I dive at your delight?

In my heart I can fly
And I cannot disguise my love
There is no time
And I wouldn't know how
Constellations tonight
Are so fiercesomely bright, my love
I have no fear
I am Atticus now

Remember what I lost like hot coals in my hand from days gone by
Like Pandora adored the euphoria as her heart raced
Like love lost you've got to try even in vain
Feels like you'll go insane
But you're the hardest instrument that I've ever had to play

In my heart I can fly
And I cannot disguise my love
There is no time
And I wouldn't know how to
Constellations tonight
Are so fiercesomely bright, my love
I have no fear
I am Atticus now

So why don't we fall into the waves?
Can't you see how my heart yearns to misbehave?

In my heart I can fly
And I cannot disguise my love
There is no time to
And I wouldn't know how
Constellations tonight
Are so fiercesomely bright, my love
I have no fear left
'Cause I am Atticus now

So why don't we fall into the waves?
Can't you see how my heart yearns to misbehave?