18 de abril de 2020

leitura em tempo de Covid-19 - «Vila d'Arcos», de Sophia de Mello Breyner Andresen

Magistral na concisão e na precisão de cada palavra; uma poética aberta a leituras sobre leituras, alegoria da vida e sobrevida esperada.


VILA D'ARCOS
Sophia de Mello Breyner Andresen

Vila d'Arcos fica ao Norte, um pouco para Leste, numa região de montanhas. É uma cidade de província e pequena com ruas empedradas em torno da catedral enorme como um navio de eternas viagens. As suas casas antigas -- nobres mesmo quando pobres -- são proporcionadas com justeza desde o degrau da escada até ao quadrado da janela, desde a balaustrada da varanda até à superfície da parede de granito sem reboco onde só a pedra de armas com arruelas, grifos e leões é grande demais sobre os ferros e as madeiras desconjuntadas da porta; como se no mundo em que estamos nada importasse, nem o frio do granito, nem a estreiteza sombria dos quartos, nem a pobreza monótona dos dias, mas só importasse a nobreza que mostramos à luz e que é o projecto da nossa alma.
É uma cidade antiga onde estagnada se desagrega e se dissolve lentamente uma vida desvivida gesto por gesto, sílaba por sílaba.
Os carros gemem ao longo das ruas empedradas. Passam poucos homens e rápidas mulheres vestidas de preto e em Maio as roseiras florescem nos muros que o Inverno cobriu de musgo. Por trás da portada verde da pequena janela da casa de esquina uma mulher de olhos agudos, muito juntos e castanhos, vê tudo, sábia e arguta, terrivelmente atenta, como se o seu olhar lesse e amparasse o desacontecer das coisas. Há jardins imprevistos, mais subtis e complexos do que o imaginável, onde crescem altas magnólias, com grandes flores brancas de pétalas profundas e largas, macias e espessas e onde a água de prata que irrompe da boca dos golfinhos de pedra cai nos pequenos tanques oitavados. Jardins de buxo, camélias e violetas perfumados de contemplação e paixão, de esquecimento e silêncio. Jardins docemente abandonados a uma solidão dançada pelas brisas, enquanto um longo sussurro de adeus acena de folha em folha nos ramos mais altos das árvores. Jardins onde reconhecemos que a nossa condição é não saber. É não poder jamais encontrar a unidade. E encontrar a unidade seria acordar.

1972

 
Sophia de Mello Breyner Andresen, Histórias da Terra e do Mar, Lisboa, Edições Salamandra, 1984.

16 de abril de 2020

EPHEMERIDES

16 DE ABRIL DE 1889 (131 ANOS)

ALBERTO CAEIRO






Aquela senhora tem um piano
Que é agradável mas não é o correr dos rios
Nem o murmúrio que as árvores fazem...

Para que é preciso ter um piano?
O melhor é ter ouvidos
E amar a Natureza.

15 de abril de 2020

EPHEMERIDES

15 DE ABRIL DE 1919 (101 ANOS)
FERNANDO NAMORA






"São quilómetros tortuosos, noites fechadas de névoa, olhos e ouvidos varando as sombras, e o rumor alcoviteiro do vento que desce das malhadas da serra."

(A Noite e a Madrugada)

leitura em tempo de Covid-19 - «Notas para fazer um conto», de Maia Alcoforado

 
Um texto, como tantos outros, de exaltação da terra de adopção, introduzindo de um característico do lugar, que sempre os há. Mas também há expressões que me fascinam, denotando um trabalhar lúdico das palavras: "para aqui me cuspiu um solavanco brusco e destrambelhado da carripana que nos transporta do berço à sepultura", "brincalhotando no ar a chuva miúda"; "amesend[ar-se] com a morte".


NOTAS PARA FAZER UM CONTO…
Maia Alcoforado






Ao Carvalhão Duarte


Ao cabo da estrada que de Cantanhede fica apontada ao mar -- uma recta enorme, tamanha como uns dez quilómetros bem puxados, enfadonha e triste, com três montes de casas poisados nas ilhargas e alguns fornos de cal enrodilhando de fumo negro a ramaria dos pinheiros -- velhos, com mais de um século e altos como alarves -- aparece-nos de enfiada na ponta do nariz a Vila de Mira, que, ao contrário de Cantanhede, comarcã e burguesa, afidalgada e petulante, não tem na sua monografia capítulo de monta, nem réstia forte de alambicada pretensão... Terra de gente ordeira que o vinho em dias de arraial ou de mercado não torna ruim, trabalhadora e honesta, com uma percentagem que mal se enxerga em pilhas e madraços, ciosa dos bens que por direito de herança aferroa e arrecada com jeito económico, mas sem modos de usura -- para aqui me cuspiu um solavanco brusco e destrambelhado da carripana que nos transporta do berço à sepultura, num dia aziago, de sol esplêndido e luminoso, brincalhotando no ar a chuva miúda do seu pólen doirado...


O povo mirão que anda à bulha com o mar uma grande parte do ano, porque é pescador que se arroja e atreve com as suas charrafuscas e motins e que desentranha a terra a golpes de enxada e amamenta os filhos nas arrevezadas lições do trabalho -- precisa que, de quando em quando, falem dele nestes lençóis onde se esculpem letras e estampam gravuras, porque anda até os gornes da garganta farto de tanto ostracismo que o tolhe e engarrafa.» Pois se é raro o mapa onde se topa o nome da terra... -- e tem foral, que recebeu das mãos venturosas do Senhor D. Manuel I e é concelho antigo e mais remoto fora se Cantanhede não lhe tivesse, sorrateiro, surripiado a primeira autonomia há mais de trinta anos...


Foi aqui que em 1856, a 26 de Março, se amesendou com a morte o mavioso e rebelde Francisco Joaquim Bingre -- o Francélio Vouguense da Nova Arcádia -- e que, aquando da fúria pombalina, se agacharam parentes dos Távoras -- de quem ainda agora há restos, numa degenerescência vulgar, doentia e inútil...


O solo é fecundo, porque de bem trabalhada no alqueive não há leira que não resplenda, nem brilhe; quintal que não sorria para a gente com o seu pomar e a sua horta; vinhedo que pelo São Tiago não tenha os bagos pintados, limpos, carnudos -- que os pardais depenicam numa orgia arreliadora de amarrotados gorjeios...


De um lado o mar; do outro, a gândara -- a enfaixá-la, a cingi-la, em sombras e em claridade.


O mar estrebuchando a toda a hora de encontro às casas dos pescadores, feitas de madeira velha e de originais feições -- a escoucinhar na areia e às trombadas nas dunas, berrando como um doido, barafustando de espinha dorsal erguida como tirano a quem não arrefece a ira


A gândara, silenciosa e erma, de pinheiros hirtos como a soldadesca impávida que não se move nem pestaneja e por onde vagueiam sombras de que não se entendem as formas à maneira que o sol desanda na sua elipse -- alinhavada de carreiritos estreitos que em certa quadra do ano as moças que vão à cata das pinhas, à caruma e ao rapão, palmilham de bustos alçados e quadris coleantes, num formigueiro polícromo e alegre...


E, já que falo das moças, deixem-me concluir: -- nenhuma delas possui beleza clássica que entonteça, ou que perturbe, mas não lhes escasseia a graça dum sorriso tentador, e elegância fenícia, delevelmente mutilada e a luz vibrante duns olhos copiada da luz do sol à hora rútila das sestas...


Anda por aqui um doido que, como uma sombra, viscosa como a lama e trágica como o perfil de todas as sombras que o dedo maldito do fatalismo desenha e imprime nas paredes negras de certas vidas, leva as manhãs num vozeirão de tribuno, pletórico de frasalhões aprendidos e decorados no tempo em que ainda tinha juízo, a correr as ruas a assaltar quem passa, protestando cóleras e inflingindo insultos, àquilo que ele supõe ser o morbus que destrói e deteriora os alicerces milenários da sociedade e do mundo, da civilização e dos costumes...


É alto e forte como as paredes mestras dos antigos castelos.


O seu carão moreno, semeado de rugas profundas, onde baila e vibra a chama azul e ingénua duns olhos que eu vi algures descritos nuns versos de Espronceda, tem a expressão indómita dum batalhador que não se deixa vencer a golpes de cutelo...


Às vezes fico-me a pensar se este doido que anda por aqui, só nas manhãs em que o sol doira os prados e as veigas, namorado da luz, arremedando com a sua cabeleira que lhe cai desmazeladamente sobre os ombros, os Apóstolos e os revolucionários, não devia ser cuidadosamente escutado por tantos que por aí andam a semear teorias e a impingir princípios -- de que nunca se vêm os fins...


Talvez que aprendessem com o doido -- com este doido que num vozeirão de tribuno, apregoa, em frases onde abunda o bom estilo e onde não escasseia a ironia que contunde, fere e faz sangrar, aquilo que para ele e para muitos que passam por doidos, mas que têm juízo às carradas -- é a traça e o gorgulho que dizima e rói as aduelas do mundo e as arcadas sobre que assenta a civilização...



1945


Paisagem do Dia Ausente, Porto, Edições AOV, 1947

11 de abril de 2020

leitura em tempo de Covid-19 - «Lázaro», de Gabriele D'Annunzio

Terra Virgem (1882) é o primeiro livro em prosa de D'Annunzio (1863-1938), muito influenciado ainda pelo chamado verismo literário. O cenário decorre nos Abruzos, região da Itália central, na costa adriática, de onde o escritor era natural, e as figuras que perpassam pela maioria dos contos são seres rente ao chão, vadios, aleijados, raparigas inocentemente sensuais, rapazes largados à sua sorte, acabando por cansar um pouco o desfile de abortos e desgraçado atavismo. Mas há um enlevo para com a paisagem, que em parte condiciona os indivíduos, que acaba por redimir a obra. O último conto, «Lázaro» sintetiza, no seu inefável horror, boa parte destes contos.

LÁZARO
                                  Gabrielle D'Annunzio

Estava de pé, em frente da barraca, meio embrutecido, amortalhado num fato de malha sujo, que se lhe rugava nas barrigas das pernas esqueléticas; fitava o campo lívido, taciturno, entristecido pelas poucas árvores despidas de folhagem, que se erguiam esguias por baixo dum dossel de nuvens pardacentas, humedecidas pela neblina. Fitava o campo lívido e o clarão sinistro da fome incendiava-lhe o negrume dos olhos. A barraca, coberta de lona encharcada pela chuva, assemelhava-se na penumbra a enorme animal, todo ossos e pele flácida.
Passaram um dia sem comer; os últimos bocados de pão havia-os devorado naquela manhã o filho, esse pequeno monstro humano, de crânio calvo e separado como esférica abóbora. Ele, porém, o mísero, tinha o ventre mais vazio do que o tambor no qual rufava, para atrair os curiosos e exibir o horrível fenómeno a troco dalguns cobres. Não se enxergava, porém, alma viva e a criança jazia dentro da barraca, deitada num montão de velhos farrapos, as pernas contorcidas, o busto deformado, matraqueando os dentes num acesso de febre, enquanto o rufar das baquetas na pele do tambor lhe produzia espasmos dolorosos nos temporais.
Do céu escurentado tombava uma chuva miudinha, persistente, raivosa, que, por toda a parte se infiltrava, encharcava até à medula, gelava o sangue.
rufar do tambor perdia-se sem eco na tristeza do crepúsculo outonal; e Lázaro rufava, rufava de pé, lívido, triste, cravando o olhar angustiado na sombra como para descortinar nela algo que devorasse, apurando o ouvido a cada momento na ânsia de ouvir as vaias de alguns borrachos que se aproximassem. Por duas ou três vezes se voltou para examinar o ignóbil farrapo de carne viva, que arquejava estendido por terra, e, de todas, os olhos do mísero fixavam outros onde se lia a suprema dor.
Não se avistava vivalma. A sombra dum cão surgiu duma viela negra, passou com rapidez em frente de Lázaro, cauda entre as pernas, e parou por detrás da barraca para esburgar um osso encontrado Deus sabe onde. O tambor calava-se; rajadas de vento faziam turbilhonar folhas secas arrancadas dos galhos das carvalheiras. Pairou seguidamente pávido silêncio, silêncio apenas quebrado de vez em quando pelo rosnar do cão, o surdo rumor das cordas de água fustigando a lona branca e o estertor da criança -- um estertor que parecia sair duma garganta mutilada.

Gabriele d'Annunzio, Terra Virgem, trad., M. L., Lisboa, Editorial Minerva, 1955.

10 de abril de 2020

EPHEMERIDES

10 DE ABRIL DE 1924 (96 ANOS)

SEBASTIÃO DA GAMA




PEQUENO POEMA

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...

9 de abril de 2020

PARA SEMPRE, Vergílio Ferreira e histórias de padres

Por conselho de gurus, no nosso CL, mergulhei na leitura de PARA SEMPRE do meu vizinho Virgílio Ferreira. Um mergulho, sublinho. Mas vou ficar pelas margens.
Um dos personagens, recorrentemente invocado, é "o padre Parente", e é a partir dele que venho partilhar...
Escreve o autor: «... um homem fardado na plataforma, tinha uma corneta, seria o chefe? Nós olhámo-lo e subitamente, que estranho. Era o dente saído, o olho azul, o jeito de erguer de lado a cabeça, tudo. Tia Joana não aguentou mais. Dirigiu-se ao homem, nós atrás:
- O senhor desculpe. Mas é alguma coisa ao senhor padre Parente?
- Sou filho.
Tia Joana varada.»
Ora, por esta altura, se, em Manteigas, alguém tivesse perguntado a Ana (que o povo complementara com a alcunha de Parente), "A senhora desculpe. Mas é alguma coisa ao senhor padre Parente?", a resposta, talvez encabulada... ou talvez não, teria sido "Sou filha".
Coincidência?!
Padre António de Jesus Hipólito Parente, pároco de Melo, que Virgílio relembra como músico qualificado e devotado, era irmão de padre Joaquim Dias Parente, excelente músico e intérprete, que paroquiava em Manteigas, freguesia de Santa Maria, onde me batizou.
Genialidades semelhantes, como vemos.
Com o irmão José, farmacêutico na Covilhã, outro génio notado em guitarra, deram concertos em Melo (até para o bispo, em visita), terra de Virgílio Ferreira, e em Manteigas, minha terra.
O padre Joaquim tocou mesmo em Roma, perante Pio XI, que se comoveu (cito).
Para não me alongar, além de referir que este Pe. Joaquim foi convertido em "padre Barradas", por Ferreira de Castro, em A Lã e a Neve, e que eram família de  oito irmãos, uma delas, Maria do Rosário, também personagem castriana, falarei apenas de mais uma história... de padres.
O padre Pedro da Fonseca, meu professor de português e literatura, foi colega de Virgílio Ferreira no seminário do Fundão, e guarda dele a mesma visão tenebrosa do nosso autor. Defensor acérrimo da abolição do celibato obrigatório, não teve a coragem, por causa do amor acrisolado à mãe, de seguir o exemplo do colega, dois anos mais velho. Viveu amargurado toda a vida. Ponto.
Referências: Fotografia dos irmãos Parente, com a mãe e uma personagem não identificada.
Deixo ainda, pelo interesse, uma ligação sobre os padres Parente:

8 de abril de 2020

prosa e poesia, a propósito de uma epígrafe de T. S. Eliot

A epígrafe deste volume de contos de Ruben A., Cores (1.ª edição, 1960), é um excerto dos ensaios de T. S. Eliot sobre poesia, fragmento cuja exegese só por si daria um livro. Eliot defende o equilíbrio e a musicalidade na estrutura interna de um poema através da modulação da forma, da intensidade e emoção que transmite, terminando com a ideia de que nenhum poeta poderá produzir um longo poema digno desse nome se não for um mestre da prosa. Ruben A. (nome literário do historiador Ruben Andresen Leitão) é um mestre da escrita, cada palavra é necessária no preciso lugar em que foi empregue. Isto para dizer que a grande prosa deve ser sempre servida por um carácter poético que a torne pelo menos encantatória aos olhos que no momento da leitura exercem também função "auditiva", contrariando a oposição simplista entre texto poético e texto prosaico.

7 de abril de 2020

EPHEMERIDES

7 DE ABRIL DE 1893 (127 ANOS)

ALMADA NEGREIROS







"Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas; só faltava uma coisa: salvar a humanidade"

6 de abril de 2020

RUBEN ALFREDO ANDRESEN LEITÃO

ENQUANTO NÃO RECEBO O LIVRO DA SESSÃO DE MAIO, vou passando os olhos por esta biografia que fazia prolongada quarentena na minha estante. Diz-se na página 136: «Os contos de Cores são meticulosamente portugueses; o seu autor recorre à fantasia para descrever o conformismo e o paradoxo de tanta vida sem cor. Avesso às cores distribuídas, o narrador insurge-se contra tão descromática vivência, tão deslavada presença humana. Para o conseguir mistura, de forma inconfundível, a razão e a ternura, a sageza e a tolerância.» Bem, falando-se de fantasia, outra coisa não esperava de Ruben A.
Aproveito para informar os colegas que pedi o livro à Bertrand, via mail. Não estive para me envolver nos meandros da livraria online com registos e registinhos, cestos de compras, checkouts e não sei mais o quê. Dizem que me vão dar as referências para fazer o pagamento e depois procedem à entrega. Estou para saber é quanto tempo levará a coisa...

5 de abril de 2020

AINDA AS "100 CARTAS"


Encerrando, pela minha banda, o tema das “100 Cartas”, refiro-me às de Jorge Amado (p. 48) e Alves Redol (p. 146).
Como vem sendo hábito, faço a partir de ambas algumas considerações de ordem particular e pessoal.

= 1ª, de JORGE AMADO, datada de 10 de Setembro de 1934.
A carta é escrita do Rio de Janeiro para onde o escritor se havia mudado em 1930, ingressando no ano seguinte na Faculdade de Direito. Parte importante é sobre o romance em preparação Jubiabá, a história de António Balduíno, menino pobre da cidade de Salvador que foi crescendo e ganhando consciência da sua condição de explorado. Pai Jubiabá, cujo nome dá título ao romance, é muito mais que um macumbeiro ou pai-de-santo, é a personagem que representa, também pela língua, a ancestral cultura ioruba dos escravizados. Pai Jubiabá não percebia nada de greve, diz Balduíno, mas conhecia a história e o sofrimento do povo escravo de África.
Este livro estava agendado para a sessão de Março da Comunidade de Leitores de São Domingos de Rana. A discussão foi sendo feita no blogue, tal como aqui, e no dia próprio – 27 de Março – teve lugar uma discussão virtual na página da Comunidade no facebook. Esta discussão recebeu 69 comentários e teve 39 visualizações.
= 2ª, de ALVES REDOL, datada de Agosto de 1950.
É uma carta em torno do romance  A Curva da Estrada, romance que tem tanto de psicológico como de mensagem ética e política. De acordo com o texto do Pórtico, Redol reconhece nele os gérmenes duma grande peça de teatro, e como que incita o escritor a realizar essa transposição: «Está ali uma grande peça de teatro, sem dúvida também. Nada lhe falta para conquistar o tablado; mas pelo seu prefácio parece deduzir-se que não está tentado a fazê-lo. Que galeria de tipos e de caracteres!»
De Alves Redol, Fanga foi o primeiro livro que li, ainda na adolescência, pois o meu pai – operário da Ford Lusitana – tinha uma tosca estante em que se aglomeravam livros como este, alguns de Júlio Verne e Júlio Dinis, mais uns tantos como A Rosa do Adro e outros comprados em fascículos depois agregados em encadernações baratas, como A Toutinegra do Moinho. Este, em vários volumes, é referido por Saramago n´As Pequenas Memórias. Era uma literatura ingénua de consumo tipicamente popular. Mais tarde reli A Fanga com outros olhos e também Gaibéus, Avieiros e Barranco de Cegos, a obra-prima do escritor de Vila Franca.
Nota: as imagens reproduzidas correspondem aos livros em meu poder - a edição de Jubiabá, livro usado, que recentemente me chegou às mãos; e o Fanga velhinho da estante do meu pai. 

4 de abril de 2020

- 100 cartas a Ferreira de Castro - XL


Meus amigos do Clube de Leitura

Tenho que admitir, que nestes tempos de pandemia as minhas leituras têm andado bastante....direccionadas!  Mas isso pode ter uma explicação, como me escrevia o meu irmão há uns dias já do seu reduto em autoisolamento. E porque é de cartas que tratamos agora, passo a transcrever: “ Agora que virámos todos filósofos e procuramos o sentido da vida, versão Monty Python, não há como seguir os que já pensaram a coisa. «Sobre o futuro todos se enganam. O homem não pode estar seguro que do momento presente. Mas será isto verdade? Pode verdadeiramente conhecer o presente? Terá a capacidade de julgar? De certeza que não. Como é que aquele que não pode conhecer o futuro, poderia conhecer o sentido do presente? Se não sabemos a que futuro o presente nos conduz, como podemos dizer que este presente é bom ou mau, merecendo a nossa adesão, a nossa desconfiança ou o nosso ódio?» Milan Kundera”

             Sim, tenho andado à procura do sentido da vida e a reler muito devagarinho quem já pensou as coisas .“ (...) nesse momento, o ruir da sua coragem, da sua vontade e da sua paciência era tão brusco que lhes parecia que não poderiam jamais sair desse precipício. Então sujeitaram-se a não pensar no termo da sua clausura, a não voltar o olhar para o futuro e a conservar sempre os olhos baixos.  Mas, naturalmente, esta prudência, esta maneira de enganar a dor, de bater em retirada para recusar o combate, eram mal recompensadas. Ao mesmo tempo que evitavam este abatimento que não queriam por nenhum preço, privavam-se com efeito, desses momentos bastantes frequentes em que podiam esquecer a peste nas imagens da sua futura reunião. E, assim, encalhados a meia distância entre estes abismos e estes cumes, mais flutuavam do que viviam, abandonados a dias sem sentido e a recordações estéreis, sombras errantes que só poderiam ter ganho força aceitando criar raízes na terra da sua dor.
             Experimentavam assim o sofrimento profundo de todos os prisioneiros e de todos os exilados que vivem com uma memória que para nada lhes serve. Este próprio passado em que eles reflectiam sem cessar tinha apenas o gosto do arrependimento (...) Impacientes do presente, inimigos do passado e privados do futuro, parecíamo-nos assim bastante com aqueles que a justiça ou o ódio humano fazem viver atrás das grades. Para terminar, o único meio de escapar a estas férias insuportáveis era, pela imaginação, fazer andar de novo os comboios e encher as horas com o tinir repetido de uma campainha, contudo, obstinadamente silenciosa” A. Camus, A Peste, Livros do Brasil, 2016, pp.69-70
            
           Agora, andando eu tão pensativamente atarefada com questões filosóficas, tinha para ler as 100 Cartas a Ferreira de Castro que tão bem o Ricardo António Alves, seleccionou, comentou, anotou e, melhor ainda, nos ofereceu!

           Ao folhear, tropecei  numa e fiquei-me logo por ali. “Muito obrigado pela sua carta e pelos seus livros (...), os livros vieram-me lembrar aquele período da minha vida em que há muito de descoberta, de revelação e ao mesmo tempo de mistério (...) Nessa altura eu tinha uma sede de conhecimento enorme, e lia tudo, com uma pressa incrível. (Só mais tarde aprendi que um livro se deve ler devagar, com calma, para conseguirmos tocar, quando a inteligência e a sensibilidade o permitam, o mundo que o autor nos oferece). Durante anos li muitos livros, esqueci outros e reli alguns. Tive prazer em encontrar de novo o Pavel, a Ana Karenine, o Manuel [da] Bouça e o Juvenal, desta vez com mais compreensão da minha parte e já na companhia de Jean Christophe, de João, de Sérgio, Jim, Robert Jordane até mesmo de Lewis Alison.
Durante esses anos aprendi também que, apesar da desgraça comum, nem todos os homens tinham boa-vontade, dignidade e compreensão. E mais – que grande parte dos artistas tinham em si uma secura, uma desumanidade e um desenraizamento tal, que fariam estremecer as pedras, se os seus dedos as tocassem.
   Aqui tem, Ferreira de Castro, um dos motivos da minha admiração por si. Sei que v. lutou sempre por uma dignidade humana e para a construção dum mundo melhor. Como intelectual v. esteve sempre ao lado dos que queriam gritar e o seu grito não passava da garganta. Por isso os seus homens da Selva, dos Emigrantes, da Terra Fria, são vivos, são autênticos. Por isso nós precisamos de homens como V.” Carta de Eugénio de Andrade, Castelo Viegas, Abril 46 

           Imaginando que estou ao pé de vós na nossa tertúlia mensal, pergunto-vos: quem seriam essa "grande parte dos artistas" que E. de A., refere? E a mim, pergunto-me: Se eventualmente os li, será que com esse conhecimento os releria com um sentimento diferente? (estou a lembrar-me do O. Pamuk, n´O Romancista Ingénuo e o Sentimental...)

         Ricardo, confirma-se que o personagem Lewis Alison, poderia ser de um livro de  Charles Langbridge Morgan (1894-1958)? Em A Fonte, publicado em 1932, Lewis A. é um oficial inglês que está preso num castelo holandês durante a Primeira Guerra Mundial, para quem a prisão significa, de algum modo, a liberdade de se poder dedicar somente à leitura, meditação e a um livro que ele próprio está escrevendo.  Charles Morgan, foi ele próprio oficial subalterno na Divisão Naval do Churchill, enviada para a defesa de Antuérpia e esteve prisioneiro na Holanda.

Um abraço saudoso,
Sara Fonseca Ferreira

3 de abril de 2020

100 CARTAS A FERREIRA DE CASTRO

SANT'ANNA DIONÍSIO


Entre 2012 e 2015, li e reli, a pente fino, estas 100 Cartas a Ferreira de Castro.
Deixo a transcrição de uma das que mais gostei, pelo conteúdo e pelo tom, simultaneamente coloquial e seco.
Foi remetida a partir de S. Miguel da Carreira, Minho, a 22 de Setembro de 1934, por Sant'Ana Dionísio, principal mentor e promotor dessa obra espantosa e única da Geografia e da Ecologia Humana do nosso país que é o Guia de Portugal.

pp. 51-52:
Meu caro Ferreira de Castro
O que é feito de Você? Que lhe deu este verão? A mim quase nada de aproveitável, além do ar dos pinheiros. Tenho tido mais do que uma vez, em cada dia, nesta temporada de lagarto, a ideia-desejo de lhe escrever mas o diabo do deixa-para-logo não me tem deixado tomar o papel e riscá-lo. - «De resto - dirá V. com os seus botões - que terá o Santana [sic] que dizer-me se aqui em Lx, morando a dois passos um do outro, só nos encontrávamos como se um tivesse casa em Sagres e outro no Soajo? É de facto justo o seu resmungo. A verdade porém é que não há nada mais hostil à convivência que a raiva surda de que anda possuído quando se anda a empurrar um livro. A gente quase se faz feroz. Agora que estou por um ou dois meses em deliberado chômage, se aí estivesse, apareceria podos os dias, tenho a certeza. Havíamos de arrumar um pouco melhor aquela questão que esboçámos sobre a interpretação do suicídio. Tem pensado ainda nisso? Se leu o livro, que lhe pareceu esse ponto? 
"O Século" não publicou uma linha, sequer, que eu saiba, sobre esse mono. Se fosse um livrinho de versos de uma menina histérica até vinha retrato. ..
Diga daí alguma coisa. Estarei ainda por aqui até ao dia 1 de Outubro. No dia 6 devo descer a Lx talvez para embarcar de novo para a Madeira. Gostaria de receber antes duas palavras. Do livro não faça caso. Fale de si e dos seus projectos.
Um abraço do 
Sant'Ana Dionísio

ACC




NOTA:
Esta publicação é a reprodução (excepto o título e a imagem) de um comentário escrito pela Cristina Carvalho (ACC) a uma antecedente publicação minha tendo por objecto uma carta de Maria Archer. 
Bem tentou a autora publicar directamente mas, por falta de credenciais, viu-se impedida...
F.Faria


2 de abril de 2020

EPHEMERIDES

2 DE ABRIL DE 1840 (180 ANOS)

ÉMILE ZOLA







"A verdade marcha e nada conseguirá detê-la"

"O sofrimento é o melhor remédio para acordar o espírito"

(Amanhã, primeira sexta, estaríamos no "cenáculo" (desculpe quem achar de mau gosto, mas aquele baú invertido faz-me lembrar) a discutir as "100 CARTAS A FERREIRA  DE CASTRO, se não fosse o inimigo invisível que pôs a humanidade de joelhos...
Abraço a todos os confrades e que no próximo mês lá possamos estar, às voltas com as CORES de Ruben A.!) 

31 de março de 2020

EPHEMERIDES

31 DE MARÇO DE 1596 (424 ANOS)
RENÉ DESCARTES







"DARIA TUDO O QUE SEI PELA METADE DO QUE IGNORO"
(nunca veio tão a-propósito!)

28 de março de 2020

EPHEMERIDES

28 DE MARÇO DE 1810 - 210 ANOS
ALEXANDRE HERCULANO







"O segredo da felicidade é encontrar a nossa alegria na alegria dos outros"

25 de março de 2020

100 CARTAS A FERREIRA DE CASTRO - CARTA LXXVII

MARIA ARCHER


Eu, que me considero um ignorante curioso e vagamente esclarecido, venho confessar pública e humildemente que até há poucochinho (quando li a carta de Maria Archer e respectivas notas), ignorava quase tudo acerca da escritora e activista anti-fascista. Obrigado, mais uma vez, R.A., por esta tão rica manta de valiosos retalhos que é o livro 'sub judice'.
Muitas das cartas revelam amplas facetas dos seus autores. Mas a da M. Archer parece-me dever figurar em lugar de destaque. 
Que delicadeza, que sensibilidade, que distinção!
Metade da carta é para, com fina elegância e grande detalhe, explicar a FC o motivo por que não lhe pôde acenar da amurada, depois de embarcar não sei em que navio, rumo ao Brasil, aproveitando, no final, para pedir-lhe, à cautela, para representar igual explicação a Aquilino, que também terá ficado a ver navio(s). Não sei qual a posição da senhora perante o assunto religião, muito menos o que pensava sobre a Senhora de Fátima, mas tocou-me a forma respeitosa e nobre com que ela  relata o incómodo e transtorno que lhe trouxe o embarque da imagem. Não é coisa que se veja muito, nomeadamente em pessoas que não professam uma qualquer fé. Outro qualquer aproveitaria para expelir impropérios contra o pedaço de madeira que só foi perturbar o sossego de um pacato viajante...
A outra metade continua a revelar uma mulher do mundo, muito inteligente, atenta e crítica ao que se passa à sua volta (em meia dúzia de linhas traça um bom retrato do Brasil, sobretudo Rio e São Paulo, sem esquecer uma nota sobre a pouca relevância da colónia portuguesa) e sobremaneira preocupada com a forma como fintar a censura...
Um dia destes, se o covid permitir, ainda vou procurar qualquer coisa de M.A. para ler!



(Se F.C. teve um caso com M.A., teve muito bom gosto, a todos os títulos...)

FF
    

"uma pantomima diligente"

«É uma segunda-feira, a cidade agita-se por detrás do ecrã de nevoeiro. As pessoas vão para o trabalho como nos outros dias, apanham o eléctrico, o autocarro, sobem para a imperial e ficam a cismar ao frio. Mas o dia 20 de Fevereiro desse ano não foi uma data igual às outras. Contudo, a maioria passou a manhã em tarefas árduas, mergulhada nessa grande mentira decente do trabalho, com esses pequenos gestos em que se concentra uma verdade muda, decorosa, na qual toda a epopeia da nossa existência se resume a uma pantomima diligente.» Éric Vuillard, A Ordem do Dia [2017], trad. João Carlos Alvim, Lisboa, D. Quixote, 2018, pp. 11-12.
  

24 de março de 2020

"100 CARTAS A FERREIRA DE CASTRO" - JOÃO DE BARROS


Carta interessante que dá para perceber o grau de amizade e confiança existente entre os correspondentes. Também de algum vínculo familiar, pois, segundo vi nas notas, João de Barros era padrinho da filha de Ferreira de Castro.
Do autor tive em tempos, e já não sei onde está, a sua adaptação em prosa da Odisseia de Homero. A partir daí, as minhas referências ficaram pela monumental História da Literatura Portuguesa, de António José Saraiva e Óscar Lopes, em cuja 6º Época, Capítulo XII se pode ler: «A imaginária helénica torna-se particularmente insistente em João de Barros (1881-1960), que, além das suas campanhas de pedagogia e de aproximação luso-brasileira, se distingue por uma afirmativa confiança no progresso, na razão, nas reservas de energia imanentes ao homem terreno e ao povo».
Assim, limito-me a dois apontamentos de ordem pessoal. Primeiro, o facto de partilhar com João de Barros o gosto pela praia de Santa Cruz, de onde é expedida a missiva de 15 de Agosto de 49 – de «MAR-LINDO, restaurante e salão de chá, alimentação esmerada, appartements e quartos com água quente e fria».  Há pouco tempo, numa das minhas passagens pela praia, fotografei o monumento que o homenageia:
«POETA DO QUE NÃO MORRE,
AVENTUREIRO DOS CIMOS,
NAVEGADOR ENTRE ABISMOS,
DESCANSA, REPOUSA EM PAZ…
TEU SULCO NÃO SE DESFAZ
NUM FRÁGIL FLUIR DE ESPUMAS…»
O segundo apontamento é sugerido pelo pintor Machado da Luz, citado na nota biográfica, que penso ser pai do meu companheiro de “armas” em Nampula (ele no Q.G. e eu no Serviço de Intendência) Manuel Machado da Luz, arquitecto e crítico de cinema, falecido precocemente em 1997. O Manel era um homem de uma cultura e bonomia extraordinárias. Belas noites de copos e conversas no bar Bagdad de Nampula… No regresso a Lisboa (1972), tínhamos combinado um jantar no Gambrinus com mais dois elementos do grupo, e foi a única vez que entrei no emblemático local. Já depois de 1974, encontrei-o várias vezes num restaurante da Rua Rodrigo da Fonseca, pois trabalhava como arquitecto no Gabinete da Área de Sines que ficava ali mesmo ao pé. Por fim fomos ficando distanciados, cada um pelo seu caminho, e nem sequer soube da sua morte.
Desculpem-me estes apontamentos pessoais que se esgueiram um bocado da matéria do livro, mas julgo que numa sessão de leitores, mesmo virtual, também há lugar para eles.

23 de março de 2020

Uma leitura de 100 CARTAS A FERREIRA DE CASTRO

Há muito que um livro não me obrigava a trabalhar tanto: porque me agarrou, porque me informou e ensinou, porque me levou a conhecer pensadores de ideologias libertárias, que aprendi com Fernando Biencard Raposo, homem de teoria e ação daqueles tempos (quem sabe se conhecido de alguns dos literatos referidos no livro), pelo panorama geral da intelectualidade portuguesa dos primeiros quarteis do século XX, pelo testemunho político subjacente a muitas cartas, e como manancial do que designamos por cultura geral.
E isto, graças ao trabalho excelente do nosso "abade entre confrades", Ricardo Alves. Bem haja.
Em sessão discutida, não imaginam o que me teriam de ouvir; nestas circunstâncias de confinamento (a palavra é quase tétrica), vou "morigerar", seguindo bons conselhos sussurrados... aos olhos. Assim, deixo apenas referências ao que me despertou mais a atenção:
Na página 8, a referência a Raul Brandão. Na 22, a confissão dorida que brota na linha 3. Na 32, a sova a Júlio Dantas. Na 70, o tom, entre coloquial e urdido, com finalidade clara, de Tomás Ribeiro Colaço. Na 98, quando ... «Em 1940, decidi escrever um romance...». Na 104, o "epitáfio" a Guerra Junqueiro. Na 109, a Referência a Rocha Martins. Na 128, a mensagem de apoio a Norton de Matos. Na 149, o testemunho genuíno de Maria Lamas. Na 145, em Referência, o que escreve Armindo Rodrigues. Na 171, o que António José Saraiva diz de Ferreira de Castro. Na 178, a carta de Maria Archer. Na 204, a carta de Óscar Lopes, e na 210, a de António Álvaro Dória, além das palavras tumulares de Jorge Segurado. Na 225, o apelo de Virgínia Moura e o que está subjacente. Finalmente, da página 228, o texto que se inicia com «Quando há meio século entrámos no túnel...» e termina «... a chorar com a alegria que só os velhos sabem sentir.», nas palavras de José Gomes Ferreira.
Por fim, um desafio ao nosso Ricardo: fiz o levantamento de todas as obras referidas neste livro, com edições com mais de 70 anos; como princípio geral, livres para divulgação pública (várias já o estão, aliás). Muitas delas, no espólio do Museu Ferreira de Castro. Porque não proceder à sua digitalização para que, ressuscitadas, possam voltar a ser lidas, homenageando quem as escreveu? E mesmo outras que, não existindo no Museu, a que se pudesse aceder. Se o museu não pudesse carregar esse acervo, eu disponibilizo-me para ajudar a encaminhar os ficheiros para local digital adequado, e a divulgá-los em plataforma do maior crédito. No entanto, já comecei a ver quais deles estão já disponíveis para evitar duplicações.
... Eu sei: só as pessoas muito ocupadas têm tempo para empreender novas coisas.

da carta de Raul Brandão a Ferreira de Castro:

«São raras efectivamente as pessoas que em Portugal estimam os meus livros, mas essas bastam-me, quando compreendem não o que vale a minha obra necessariamente imperfeita, mas o esforço que faço para arrancar alguns farrapos ao Sonho…»

Carta I, datada da Nespereira, Guimarães, em 28 de Março de 1922.
Resposta a um artigo sobre Brandão escrito por Ferreira de Castro, na revista  A Hora. Brandão foi uma das principais referências de Castro, como já o dissera Jorge de Sena.
100 Cartas a Ferreira de Castro, edição de Ricardo António Alves, Sintra, Câmara Municipal e Rede Portuguesa de Museus, 2007, p. 7.



20 de março de 2020

"100 CARTAS A FERREIRA DE CASTRO" - MANUEL FERREIRA

Uma carta que me surpreendeu pelo tom de humildade deste "escrevinhador" com obra feita, 1º sargento do exército, pensando eu que fosse oficial... Conheci Manuel Ferreira aí por 1966 ou 67 como frequentador do pavilhão Ribamar de Algés onde tomava café com a companheira Orlanda Amarílis, também contista da ficção cabo-verdiana. Moravam em Linda-a-Velha, era ali perto.Tenho dele este livro:

Edição da Plátano Editora, Colecção Poliedro, Junho de 1972.
Muito curioso, este livro de contos tem uma espécie de pórtico, como era usual nas obras de Ferreira de Castro. Aludindo ao triângulo de subsistência do cabo-verdiano, diz: «Milho, feijão, cabra. Mas de tempos a tempos a escassez das chuvas.Vai-se a cabra - e eis o equilíbrio destruído. Com milho e feijão (cachupa pobre)  ainda o cabo-verdiano subsiste. Ciclicamente porém o drama da estiagem. O feijão some-se. Milho apenas, e pouco. Um luxo de ricos. A tragédia da fome. Fome oculta, fome crónica, fome epidémica, fome total. A boqueira, o beribéri, a caquexia, o inchaço, a pelagra larvando. A pelagra na sua destruição dos três dd: dermatose, diarreia, demência.» 
Uma nota final: o pavilhão Ribamar de Algés é hoje um estabelecimento Burger King. 

19 de março de 2020

100 CARTAS A FERREIRA DE CASTRO

CARTAS XXIX e XLV

Vou a meio do livro e sinto-me bastante enriquecido cultural e esteticamente com o que vou lendo (as próprias cartas e as suculentas e mui eruditas notas do autor). Renovo, por isso, o meu agradecimento e as felicitações ao Ricardo Alves.
O que em primeiro lugar ressalta destas cartas e creio que da generalidade da literatura epistolar é o revelarem a personalidade e os gostos (às vezes as fraquezas e achaques) de quem as escreve e, indirectamente, também do destinatário. São quase um espelho da própria alma. Curiosa, por exemplo, a confissão/lamento de um já septuagenário M. Teixeira-Gomes (Carta XXIV) quando diz que os empachos da idade só lhe permitem ler muito lentamente. 


Muitas coisas me impressionaram até agora, mas vou apenas referir em particular duas:

Na carta XXIX (João da Silva Correia) achei imensa graça à passagem em que o autor diz a Castro que apesar da prova de algodão quanto ao êxito de uma obra (o fazer chorar a criada) duvidava que tal se verificasse sempre, porque uma peça de teatro que escreveu ao 19 anos e que não tinha pés nem cabeça fez chorar mais na sala de espectáculos do que um Sermão do Encontro (se alguém não souber o que é, posso esclarecer) 

Na carta XLV, Herberto Sales, falando de A Lã e a Neve, diz:
"Ali há vida como só na vida... Não sei como se pode criar um mundo e criar gente de carne e osso, através da simples enfileiração de caracteres tipográficos... Sua força de persuasão é tão grande que a gente não se conforma que Horácio seja um mero tipo de romance. Não. É um moço português que vive e foi recenseado. Ele está aí. Não pode deixar de estar."
Que maior elogio pode receber um autor?

100 CARTAS A FERREIRA DE CASTRO - a 1.ª edição

Em 1992, o Museu Ferreira de Castro reabria após quase um década de encerramento ao público. Pareceu que a melhor maneira de assinalar o facto seria a edição de uma amostra do acervo documental, através de uma selecção de correspondência passiva.
Desde que a minha, num Natal, me oferecera a edição mais completa até então da Correspondência de Eça de Queirós, editado por Guilherme de Castilho na Imprensa Nacional, que e epistolografia se me revelara como um género extraordinário que combinava dois dos meus grandes interesses: a História e a Literatura.
Nessa altura, a correspondência não estava ainda toda inventariada, pelo que se tratou de uma pesca à linha; mais tarde, estando anunciando-se esta edição praticamente esgotada, pois tivera uma distribuição nacional, e tendo sido muito bem recebida, foi o momento, aproveitando um programa da Rede Portuguesa de Museus, onde pontificava Raquel Henriques da Silva, de avançar, entre outras edições com uma nova desta 100 Cartas, mas refundida. 
Amanhã darei conta das diferenças. Para já, na capa, Jaime Brasil, Roberto Nobre e Ferreira de Castro em Versalhes, em 1948, numa fotografia de Maria do Céu Nobre.

"100 CARTAS A FERREIRA DE CASTRO" - ANTÓNIO BOTTO


A carta (datada de 14-11-1940) é curiosa, mesmo à maneira de António Botto. Começa por louvar o romance A Tempestade, editado pela Guimarães naquele ano, dizendo de seguida que não possuía os romances Emigrantes e Terra Fria e que queria «completar a colecção», naturalmente com exemplares que o autor tivesse disponíveis: «se lhe for possível agradecia-lhe muito que aí deixasse o que consta do pedido acima mencionado.» E em post scriptum acrescenta esta pergunta talvez impertinente: «Poderei mandar aí amanhã o portador?»

José Régio, autor do ensaio António Botto e o Amor (1938), tinha, como outros escritores, razões de queixa do poeta. Fundamentalmente pela sua índole em que imperava a intriga, a duplicidade e a mentira. Nunca deixou, porém, de reconhecer o valor da sua poesia.
No 5º volume do ciclo romanesco A Velha Casa, Botto é representado na personagem do poeta João Salvador. Fique-se com uma ideia da personagem criada por este pequeno trecho: «Toda Lisboa mais ou menos culta assumia perante o poeta-esteta João Salvador uma posição complicada e peculiar: pois ao mesmo tempo o admirava (ou não sabia se devia admirá-lo), o desprezava um pouco, repetia a seu respeito anedotas indecorosas, o temia pela sua língua delicadamente viperina, e alimentava por ele uma curiosidade que o próprio se empenhava em açular sem satisfazer. Desde a noite em que Lelito o conhecera, sempre a sua fama, ou popularidade, viera grassando. Uma popularidade pouco invejável, diziam os moralistas e puritanos. Até alguns colegas o diziam;  – e colegas em todos o sentidos, embora alguns secretos. Os versos destes eram vulgares, por isso eram estes que mais o odiavam e invejavam. Porém Fernando Pessoa escrevera em seu louvor, outros tinham acompanhado tal arrojo, e, embora a autoridade do Mestre ainda então não fosse reconhecida por muitos, já bastava a refrear um pouco o fel dos invejosos.» (JOSÉ RÉGIO, Vidas São Vidas, edição da Obra Completa, IN-CM, p. 120).

18 de março de 2020

EPHEMERIDES

16 DE MARÇO DE 1825 (195 ANOS)

(desculpem o atraso, mas não podia passar em claro o maior esteta da prosa nacional)

CAMILO CASTELO BRANCO








"Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de Freimas, tem hoje quarenta e nove anos, por ter nascido em 1815, na aldeia de Caçarelhos, termo de Miranda."
(A Queda dum Anjo)

17 de março de 2020

"100 CARTAS A FERREIRA DE CASTRO" - REINALDO DOS SANTOS


Carta de Reinaldo dos Santos, médico, cirurgião e historiador de arte, datada 3 de Janeiro de 1953. Como se diz na súmula biográfica, «a amizade com Castro data de 1931, quando este, internado com uma gravíssima septicemia, foi salvo pela intervenção do cirurgião e historiador.» No anto anterior ocorrera o falecimento de Diana de Lis, companheira do escritor. Estes acontecimentos foram determinantes na escrita do pórtico de Eternidade (1933) em que se exprime o sonho de o homem poder vir um dia a superar a morte.  
Vejo as obras do médico e historiador de arte existentes no Museu, e esta, por razões óbvias (é de 1922 e teve uma edição limitada), não está lá:
Consultei-a há duas semanas nos reservados da BN por causa de uma visita da Comunidade de Leitores de São Domingos de Rana à exposição de Álvaro Pires de Évora no MNAA. Reinaldo dos Santos foi a Itália (Toscânia) em demanda dos trabalhos do pintor quatrocentista e terá sido o primeiro português a escrever sobre ele. Este livro – cuja capa fotografei – é o resultado dessa viagem. Obra de estudo e divulgação do artista, mas também com apontamentos de literatura de viagens pelas impressões deixadas sobre os diversos locais visitados, em alguns casos com fotos.

16 de março de 2020

AS "100 CARTAS A FERREIRA DE CASTRO" E A SESSÃO QUE NÃO SE REALIZARÁ

Daí eu propor a realização de uma sessão virtual ao longo das próximas semanas. O livro está muito bem organizado: as cartas, as notas com referências biográficas e bibliográficas, a indicação da existência de livros e documentos do correspondente no acervo do Museu Ferreira de Castro.
Refiro-me hoje a Judith Navarro e à sua carta de 21 de Junho de 1966 cujo conteúdo gira em torno deste livrinho (1ª edição de 1958)
que consegui requisitar na biblioteca municipal de Vila Franca de Xira antes do seu encerramento. É literatura juvenil com boas ilustrações de Martins da Costa. O nosso Ferreira de Castro é explicado aos jovens a partir da sua aventura no Amazonas, tendo como guia A Selva e, como fontes para a autora, as biografias feitas por Jaime Brasil e Alexandre Cabral. Acho-o um trabalho interessante, de utilidade para a "promoção" do autor de Ossela junto do público juvenil.
Não tive possibilidade de investigar como surgiu a ideia do livro e qual foi o seu acolhimento crítico, bem assim como a que «recorte» se refere Judith Navarro na sua carta. A verdade é que teve uma 2ª edição em 1967. O Ricardo dirá certamente alguma coisa. A Cristina também, penso seu.