4 de abril de 2022

Sobre O Sentido do Fim, de Julian Barnes.

Tive o primeiro contacto com a escrita de Julian Barnes em 1990 com A História do mundo em 10 capítulos e ½  e continuei depois a ler muitas das suas obras. Reli agora O Sentido do Fim num ápiceGostei das frases curtas, do humor algo cínico, da narrativa muitas vezes desconcertante e provocadora que nos faz pensar em nós próprios - interessa-me quando o escritor nos leva a essa viagem interior e de algum modo nos assusta. Levanta muitas questões sem resposta ou resposta difícil - as melhores questões. Não é um livro de leitura confortável.
O papel da memória na História ( com h grande ) e na nossa história ( com h pequeno ) é fulcral. A questão do envelhecimento e da importância do que não nos lembramos  também é relevante. Será que somos o que pensamos ser ? Que memórias construímos mais perto do fim ? Numa entrevista ao jornal Público, Barnes falou do que a memória faz com o tempo e o que tempo faz à memória.  E como lidar com o facto de não podermos mudar o passado e qual a nossa responsabilidade nele Na primeira página do livro encontramos ( é a minha tradução porque li o original, não sei as palavras exatas da tradução portuguesa): “o que acabamos por recordar, nem sempre é o que testemunhámos “ e na última página o livro termina com, “ Há acumulação. Há responsabilidade. E para além destas, há inquietação. Há uma grande inquietação ”. O que nos transporta à descrição deliciosa  das aulas de História no inicio “o facto de que necessitamos de saber a história do historiador para compreender a versão que nos é dada “ e do professor cujo “sistema de controle dependia em manter um grau suficiente mas não excessivo de tédio “.
 
O afastamento do sentir, algum desprezo pelas  emoções ( dito tão British) para evitar o sofrimento é também muito presente; achei magníficos os exemplos de quando o Tony recebe a noticia do suicídio de Finn e o pai lhe diz que lamenta e ele diverge para a calvície do pai e se seria hereditária. Ou das memórias de quando Tony acaba a relação com Verónica e acaba por se focar na cor e no perfil sorridente da rainha na lata das bolachas. Ou quando se sabe quem é a mãe do filho de Finn e a narrativa passa para o sal nos diferentes tipos de batatas fritas. No fundo evitar ser magoado, não ganhar nem perder e chamar a isso capacidade de sobrevivência. A questão da “soma versus multiplicação” ao longo da vida, se o carácter se desenvolve com o tempo como nas novelas.
 
Barnes insinua esta pergunta muitas vezespreferiam amar menos e sofrer menos ou amar mais e sofrer mais? Mas será que afinal podemos fazer essa escolha conscientemente? Outra pergunta sem resposta .
 
Agora que estou " em repouso " com chá de limão e mel, está ao meu lado O Homem do Casaco Vermelhoo último livro de Julian Barnes em que o protagonista é um médico ginecologista na Belle Époque em Paris.
 

Saudações a todos e até Maio.


Zélia Mugli

21 de março de 2022

VATES (6)


 


Não cantes o meu nome em pleno dia

não movas os seus ásperos motivos

sob a luz dolorosa sob o som

da alegria


Não movas o meu nome sob as tuas 

mãos molhadas do choro doutros dias

não retenhas as sílabas caídas

do meu nome da tua boca extinta


Não cantes o meu nome a primavera

já o ameaça hoje principia

a vida do meu nome não o cantes

com a tua alegria


Nota: Hoje Dia Mundial da Poesia entendi homenagear Gastão Cruz. Só com a nossa intuição poética ou em registo áudio voltaremos a ouvi-lo. Por ironia do "destino" o poeta voou no início desta primavera tão frágil para outras galáxias donde continuará a inspirar-nos com a sua tão necessária gramática. Este caderno de 72 é um "ensaio" sobre a "imagem da linguagem", da memória literária e da experiência colocando a poesia no mundo. Não é necessário dizer que William Blake assiste em fundo as estes poemas. A transformação é inerente a qualquer poesia e só assim existe novidade e renovação. Nesse campo, aqui há um importante trabalho ao nível da sintaxe e dos elos que prendem o poema nomeadamente na segunda estância que lançam o leitor na captação de sonoridades acrescidas e de uma nova leitura de poesia.                             




  





4 de março de 2022

o início de A GARÇA E A SERPENTE

 

«"Este Novembro de 1917 continua frio mas dourado.» Francisco Costa, A Garça e a Serpente [1943], 2.ª ed., Lisboa, Parceria A. M. pereira, 1945, p. 11.

28 de fevereiro de 2022

FRANCISCO COSTA E A REVISTA MODERNISTA "ATHENA"

Ainda estou na leitura da 1ª parte de A Garça e a Serpente. Aquele impagável Manuel da Cunha e Silva - nomeado chefe da contabilidade do Banco Nacional, preparado para resolver o grave problema das "falhas nos balancetes de depositantes" e, ao mesmo tempo, arguto polemista em torno de matérias de arte - ainda me não convenceu. Curioso é que Francisco Costa - um não modernista - tenha publicado oito sonetos no nº 5 da revista Athena de Fernando Pessoa. Aqui se reproduz a última das quatro páginas desses sonetos. 

15 de fevereiro de 2022

SETÚBAL

Oferta cultural em Setúbal, terra do grande Elmano Sadino.

Dois tópicos, entre vários dignos de nota:

– CASA DA CULTURA, espaço de actividades diversas onde decorre, até 27 de Março, uma exposição de trabalhos de ilustração tendo como tema a figura de João Paulo Cotrim.

(R. Detrás da Guarda, 28)

– CASA DAS IMAGENS, acervo documental, audiovisual e artístico doado por Lauro António  ao município.   

(R. da Velha Alfândega, 8)

Informação para os nossos leitores que queiram incluir algum destes pontos numa eventual passagem pela cidade.

= Fotos de 12-2-2022


13 de fevereiro de 2022

LOURDES CASTRO


 






                                                                  
                                                                    PLEXOS

                     
                                         Pudesse surpreender a sombra
                                         que o tempo faz
                                         na graça do teu lençol


                                         Pudesse surpreender a sombra
                                         do vento


                                         Sombra de mim
                                         quando dizes:
                                         sou a que vai a teu lado.




            Nota: poema de minha autoria publicado no sexto número da Revista Margem, Departamento de Cultura da Câmara Municipal do Funchal, Junho de 1997. Colaboraram neste número: João de Melo, João Medina, Rosa Alice Branco, Lídia Goes Ferreira, António Ribeiro Marques da Silva, Aurora da Conceição Arantes, Irene Lucília, Ãngela Caires, José de Sainz-Trueva,  Egito Gonçalves, Bernardete Falcão, José Salvador, Noémi Reis, Fátima Dionísio, Luís Rocha, Robert Andres. 
     
                                                          



   

7 de fevereiro de 2022

POEMA ou CANÇÃO... eis a questão

 
De vez em quando, somos surpreendidos pela excelência de um trabalho dedicado, que se revela útil, apelativo, agradável. Mesmo quem não morresse de amores pela poesia acabaria cativado.

Quer experimentar? Então deixe-se prender por esta coletânea organizada pela equipa responsável pela Biblioteca Escolar da Secundária de Amares (até o nome parece fadado...). Basta um clique na imagem, escolher um dos três grupos de poemas e ouça, ouça.

Que tal?

31 de janeiro de 2022

o início de O ÚLTIMO CAIS

 

«Diário de Bordo / "Saímos de Quelimane na canhoneira Mandovi, com direcção à ilha de Moçambique, no dia 4 de Setembro de 1879, pelo meio dia.» Helena Marques, O Último Cais (1992), Alfragide, Leya, 2009, p. 9.

21 de janeiro de 2022

VATES (5)


AOS VINDOUROS, SE OS HOUVER...

Vós que trabalhais só duas horas
a ver trabalhar a cibernética,
que não deixais o átomo a desoras
na gandaia, pois tendes uma ética;

que do amor sabeis o ponto e a vírgula
e vos engalfinhais livres de medo,
sem preçarios, calendários, Pílula,
jaculatórias fora, tarde ou cedo; 

computai, computai a nossa falha
sem perfurar demais vossa memória,
que nós fomos pràqui uma gentalha
a fazer passamanes com a história;

que nós fomos (fatal necessidade!)
quadrúmanos da vossa humanidade.

ALEXANDRE O' NEILL, De Ombro na Ombreira (1969)

Nota: O' Neill, uma poesia que vai do satírico ao elegíaco (lembremo-nos de "Seis poemas confiados à memória de Nora Mitrani", Poemas com Endereço, 1962), aqui com uma saborosa antevisão de tempos  marcados pelo imaginário do nuclear, da computação, do amor livre e da sociedade do lazer. Mais de meio século depois, que dizer das palavras do poeta?

20 de janeiro de 2022

VATES (4)

De ANTÓNIO GEDEÃO, da obra Linhas de Força (1967) - na qual se encontram "Poema do coração", "Poema para Galileo", "Poema da buganvília", "Catedral de Burgos", "Lição sobre a água" e outros poemas bem conhecidos -, esta "Carta aberta"  que é a enunciação de uma arte poética da poesia moderna:

CARTA ABERTA

Um homem progride, blindado e hirsuto
como um porco-espinho.
É o poeta no seu reduto
abrindo caminho.
Abrindo caminho com passos serenos
e clava na mão,
que as noites são grandes e os dias pequenos
nesta criação.

Esmagando as boninas, os cravos e os lírios,
cortando as carótidas às aves canoras.
Chegaram as horas
de acender os círios,
de velar as ninfas no estreito caixão,
de enterrar as frases e as vozes incautas,
de oferecer a Lua para os astronautas
e as rosas fragrantes à destilação. 

17 de janeiro de 2022

VATES (3)

ou sim, ou não...
... oh! sim, onam!  4

Doente da luxúria de estar só
e não amar ninguém, ou quase, choro.
Zumbem, zangados zangãos, zês de ouro
mortal, e o zumbido é um solidó

enervador de vocação. Filhó
nostálgica e pardusca que o decoro
ousou deixar na mesa, sobre o ouro
sagaz mas fútil da baixela, Avó

qualificado pelos ministérios,
um colar torre espada, por serviços
antigos e distintos, na gaveta

terceira do armário da saleta,
ruim vinagre da vinha dos mistérios,
onanizo, mesquinho, os meus feitiços. 

JOÃO PEDRO GRABATO DIAS, Sonetos de Amor e Circunstância e Uma Canção Desesperada (Lourenço Marques, 1970)

Nota: João Pedro Grabato Dias é pseudónimo de ANTÓNIO QUADROS pintor (1933-1994) que além daquele usou os nomes fictícios de Multimati Barnabé João e Frei Ioannes Garabatus. 

16 de janeiro de 2022

CASA DA LUZ, FUNCHAL

NO FUNCHAL - II

No Museu da Electricidade
a que chamam a Casa da Luz
quando ele entrou
com seus sapatos flamejantes
as lâmpadas eléctricas
acenderam todas:

Seu nome era Eucanaã.

ANA HATHERLY, Itinerários (2003)

Nota: Este "post" é dedicado ao nosso amigo Laurindo que em 26-12-2021 aqui deixou uma foto com o título "Lembro-me desses Natais" e depois, em comentário, aludiu à Casa da Luz da cidade do Funchal. Na obra cuja capa se reproduz, há, além deste, outros poemas relacionados explicitamente com a Madeira: "Na Ilha de Porto Santo", "Voando para a Ilha da Madeira" e "No Funchal - I". Poemas  como "O Dragoeiro", "À sombra dos jacarandás", "Num hotel de cinco estrelas I e II" e "Turismo sénior" também parecem derivar da viagem à região. 
No poema, os «sapatos flamejantes» de Eucanaã pertencem, naturalmente, ao poeta brasileiro Eucanaã Ferraz (Rio de Janeiro, 1961). 

15 de janeiro de 2022

VATES (2)

DANIEL FILIPE

Correu sob as minhas pálpebras a tua imagem
agora pedra definitiva. Abraçava-te
inteiro, movendo-te entre mesas, sorrindo
aparentemente impreparado às arestas do dia. Óculo

de aferir o silêncio da pátria. Caçador
de girassóis entre o cimento. Tudo
o que de súbito extravasou da urna
e se tornou um rio que descia a cidade
e se mantinha vivo, voz agora impune.

Voz lírica e vibrátil, êmbolo
de aço que tempera. As visitas
sabem agora não te encontrar em casa. A voz
calou o que o futuro lhe daria. O passado
é porém um disco permanente
rolando sobre a agulha.

O que fizeste dessa voz, ferramenta
incorrupta, é agora amianto.
Passa purificadora pelo fogo
entre o mecanismo dos relógios.

Algures arquivam uma ficha. Sabem
já não estares ao alcance. O que fica é firme.
O resto simples cinza aérea
que já nem faz sombra no vento.

Deslizam-me dos dedos velhas fotografias. Servem
de vez em quando para lembrar teus fatos. 

9 de Abril, 1964

EGITO GONÇALVES, O Fósforo na Palha (1970)

14 de janeiro de 2022

RUY BELO : A NOVA POESIA EM PORTUGAL


 

                    Em 78 procuravam-se novos rumos para a cultura portuguesa após uma década de notáveis experimentalismos. Retenho algumas ideias que bebi em "A Vida da Poesia" de Gastão Cruz : a) quando R.B. surge o discurso poético estava por definir-se quanto a direcções a tomar - a linha discursiva que vinha de Sena, Rosa ou Helder estava suspensa.; b) surge um tempo de desconstrução do discurso com o desmantelamento de esquemas lógicos e sintáticos; c) Ruy Belo opta pela reconstrução do discurso.

Na revista Raíz e Utopia que sai no Inverno daquele ano, cuja leitura recomendo vivamente, (  que tenta ocupar o hiato cultural com reflexões muito amplas) é publicado na secção de Poesia um inédito de Ruy Belo que renova tudo o que sabemos ou pensamos a propósito do poeta. Cuidava-se então, neste número, de uma "nova poesia em Portugal" pelas mãos de José Manuel Alexandre, de Manuel Cintra e Luis Miguel Nava. São textos longos, com versos muito longos e irregulares aonde se deixa correr a pena a quente sem preocupações de rima numa confluência temática "delirante".  Não sei que é feito desta nova poesia...

O inédito manuscrito de Ruy Belo intitula-se "Na Noite de Madrid"  (escrito na Póvoa de Varzim, à vista do mar, 10 horas da manhã do dia 29 de Dezembro de 1971). Chama-se a atenção para este texto por ser o passo seguinte a Homem de Palavras(s) transportando contudo todas as abordagens temáticas que conhecemos no poeta nomeadamente a problemática da exclusão do sujeito e do anonimato do outro que tão humanamente expôs nos seus poemas: "que jornal contaria a imensidão do nome/de quem como um insulto ali jazia?/que pensamentos próximos tivera?/e o que levaria ele nos bolsos?/Donde viria?sorriria?onde ia?".

Para concluir: Foi esta forma de expressão aquela que mais me atingiu e deixou possivelmente algumas marcas nos meus escritos e nos da minha geração nas entrelinhas de finais de 70 despoletando em nós alguma poesia política despertando-nos para várias realidades do país real que eramos e país sonhado que continuamos a ser por muitos anos.       

                         

                

13 de janeiro de 2022

VATES (1)

ALTA NO CHÃO

Alta no chão,
ainda há pouco erguida.
Agora lâmina, 
lenha penetrável,
ardente, cega.

Rastejante boca
que a língua me inunda.

ANTÓNIO RAMOS ROSA, Nos Seus Olhos de Silêncio (1970).


8 de janeiro de 2022

"NO WAY OUT", de RUY BELO

Ontem, quando li na sessão parte do poema de Ruy Belo, não tinha presente o falecimento de SIDNEY POITIER (justamente na véspera, 6-1-2022), protagonista do filme evocado pelo poeta em Homem de Palavras[s]: No Way Out (1950), de Joseph L. Mankiewicz.  O actor representa o papel de um médico que presta tratamento hospitalar a um delinquente ferido, procedente de um problemático bairro de nome Beavar Canal. A sua intervenção não corre bem e é lançada sobre ele a falsa acusação de descurar intencionalmente os cuidados de saúde devidos ao ferido, por sinal branco e racista. Um filme sobre o ódio racial, dos mais fortes que Hollywood produziu. 

NO WAY OUT

Sei hoje que sou pequeno
e não é esse o meu menor mal
mas faço meus os problemas
da gente de Beavar Canal 

Nasci numa aldeia perdida
nestes caminhos de Portugal 
mas tanto tenho irmãos aqui
como os tenho em Beaver Canal

Eu a miséria da minha terra
contemplei-a ao natural 
enquanto vi no cinema
como se vive em Beaver Canal

Mais do que a pedra mais do que a árvore
o homem é para mim real
e tanto sofre a dois passos de mim
como sofre em Beaver Canal

Não há país que não seja meu
em qualquer parte morro pois sou mortal 
mas aproveito a força da rima
para dizer que a minha rua é Beaver Canal

Morra eu dividido aos quatro ventos 
seja o legado sentimental 
fique no mundo onde ficar 
deixo o meu coração a Beaver Canal


Ruy Belo, Homem de Palavra[s]

10 de dezembro de 2021

RUA DA AMARGURA - Texto lido por Ana Cristina Carvalho na apresentação pública de 15-10-2021

                                                               

                                                                Rua da Amargura

                                                                (de Fernando Faria)

1.  Penso que a escrita, em particular a escrita das nossas memórias, é um ato de íntima exposição (passe a incoerência), e o que desse ato resulta, como estes "Episódios de uma comarca de Província", iluminará para sempre o fio biográfico do seu autor, ocupando um lugar especial na vida que se lhe anuncia pela frente. Confiar a alguém a apresentação pública desse fruto é sinal de estima e consideração pessoal - distinção que muito agradeço ao Fernando Faria. companheiro de muitas e boas e partilhadas leituras no Museu Ferreira de Castro, aqui em Sintra. Como agradeço a todos os aqui presentes por, com essa presença, homenagearem o livro e o autor. 

2 . Algumas profissões, mais intensamente do que outras, lidam de perto com os limites da velha condição humana: as misérias, as expectativas, as dores e os deveres... A atividade de magistrado, particularmente numa comarca rural de um país que na década de 1980 respirava os primeiros ares de livre desenvolvimento, é uma delas. Disso só tive noção através da leitura deste testemunho ficcionado, que nos desvenda a partir de dentro, com os recortes e cores de quem a viveu, uma realidade que a maioria de nós só conhece de ouvido, para lá das baias da nossa própria experiência. Pois para isso serve a literatura: para nos trazer à vista aquilo que nós, desarmados de ângulos e perspetivas alheios, sozinhos não alcançaríamos.

3. Sabemos que a Rua (ou as ruas) da Amargura não é lugar onde se recomende demorarmo-nos. É "um vale de lágrimas", "um descer ao fundo do poço", é "ser tido em baixa consideração", diz o Dicionário Criativo na net. Mas esta Rua da Amargura do Fernando Faria percorrem-na 170 páginas que, aos amargos do quotidiano, vêm juntar o "bucolismo da região" (expressão do autor), a ambiência familiar dos cafés de província, o afeto cúmplice entre um cão e o seu dono coxo, a vivacidade das infâncias e até certo dilema ontológico do protagonista...

4. Por acaso, o GoogleMaps aponta-nos umas quantas "Rua da Amargura" em localidades portuguesas (Caldas da Rainha, Machico, etc...). Mas não em Figueiró dos Vinhos. Esta obra vive de uma toponímia fictícia que, parece-me, poupa deliberadamente um elemento incontornável da geografia real: o Zêzere. Respeita-se o grande rio da Estrela e a sua margem direita, já a rondarem o Tejo. Tudo o mais - a Vilar de Prantos onde Feliciano Feijó desagua com a família; o cemitério de Vale Escuro onde desce à terra o corpo do enforcado Serafim; ou o alto panorâmico de Santa Tecla, escolhido por Vitalino Próspero para liquidar a desonra com um tiro na têmpora - são lugares de clara designação figurativa, uma espécie de padroeiros linguísticos da dramaticidade de cada história.

5. Igualmente contêm muito de sugestivo, e até de irónico, os nomes próprios e apelidos atribuídos às personagens. Estas, já agora, são-nos apresentadas numa galeria, que a cada uma faz corresponder um capítulo. As nove vivem o tempo dos telexes, das tamancas, dos Citroën dois cavalos, do êxito Nikita do Elton John...

6. Sobre um cenário natural de "Pinhais ondulantes e sem fim", "vinhedos, pomares, prados", "hortas e canaviais" que beneficiam das águas do Zêzere [e sabe-se lá quanto, de tudo isto, sobrou do tempo entretanto decorrido e dos incêndios de 2017...], desenha-se um quadro social de interioridade rústica, eivado de analfabetismo, desespero, alcoolismo, trabalho infantil e declínio dos ofícios artesãos, como o do sapateiro do Capítulo 7.

7. O primeiro capítulo, dedicado à violência portas dentro, cujas nuances pouco mudaram em quarenta anos, menos mal que relata com vivacidade e humor como os vapores do morangueiro tanto seduziam homem como mulher, resultando num modus vivendi doméstico de "dás mas também levas". E lá está o desfecho a recordar-nos que nem tudo é o que parece...

8. Outras vívidas passagens de humor são o bate-boca entre Gertrudes e Arquimínio frente ao Dr. Delegado, nas páginas 41 a 43, risível apesar do alcoolismo e da pobreza subjacentes; ou o monólogo interior de autorrecriminação de Feliciano Feijó, arrependido do excesso de ética deontológica que o levara a recusar um potezinho de mel ao velho apicultor Salomão Lampreia, última personagem a entrar em cena.

9. Há momentos do livro em que a "realidade" excede a ficção, como se costuma dizer, incorrendo o autor na acusação injusta de faltar à verosimilhança. Um desses momentos é o furto do porco (vivo e vacinado), no capítulo dedicado à personagem Pencas, "uma trave de um metro e noventa" batizado como Expedito Manso Rouxinol. Outro é o suicídio no exato meio geométrico do paredão da Barragem da Feitosa e o corpo de Cesaltina mais tarde pescado com um anzol...

10. O livro de Fernando Faria exprime-se numa linguagem elegante e rica, num estilo que é realista, por vezes cru mas muitas vezes cândido. A natureza também lá aparece, com o ar da sua graça, em descrições da vila encaixada na vertente, da noite de inverno rodeando um lagar de azeite onde decorre um jantar de amigos, etc. Mas surge também prestando um último serviço ao desespero humano, como quando um suicida pede no bilhete de despedida que lhe enterrem o cão debaixo de um loureiro, ou quando a figura de Serafim Baleia se destaca na paisagem, pendendo de uma oliveira.

11. Rua da Amargura tem a legitimidade da vida experienciada e a riqueza de um olhar simultaneamente maduro (do autor que o escreve) e fresco (do jovem magistrado que viveu o ambiente retratado). Mas, saberes profissionais e papeis sociais à parte, este livro do Fernando Faria lembra-me um verso da cantora Mafalda Veiga (do álbum Pássaros do Sul, 1987), verso onde se diz que, acima de tudo, "Nós somos o ser extravasado que o nosso sentir nos dá".

ACC, Sintra, 15Out2021 

13 de novembro de 2021

ALENTEJO(S)

 Livro de estudiosos, para estudiosos, teve de se contentar, no que me diz respeito, com a leitura de um curioso.
Gosto de obras que me ensinem, ou que me alimentem a memória, ou que me revelem informações inesperadas. Aqui, em ALENTEJO(S) - imagens do ambiente natural e humano na literatura de ficção, editado / organizado por Ana Cristina Carvalho e Albertina Raposo, petisquei de tudo.
Mas, quando resolvi realçar alguns pontos que mais me tinham acordado, dei comigo a fazer a lista de quase todos os autores... não podia ser, porque acabaria a fazer um resumo que não estaria à altura do original.
Permiti-me, portanto, algumas referências de cunho mais pessoal, que a leitura me despertou:
- Manuel Ribeiro é autor cuja personalidade e obra me cativa desde os meus longínquos tempos de bibliotecário em Manteigas; vim encontrá-lo aqui e surpreendi-me com o que li;
- assim como José Régio (aqui, pela mão de Manuel Nunes) que, por enviesamento meu, teimo sempre em associar (só) a Vila do Conde (espraiada, entre pinhais...);
- tive possibilidade de conhecer pessoalmente Manuel da Fonseca e de trocar algumas impressões com ele, em tertúlia pós-revolucionária (a maior parte, se não todos os livros dele estão autografados e dormem cá por casa); a sessão alongou-se muitíssimo para lá do tempo previsto, e acabou com ele a levantar-se, clamando, com ar a condizer: «tenham paciência, mas temos de acabar, senão mijo-me todo...»; inesquecível, concordem;
- Florbela Espanca é ela mesma: a maior sonetista da língua portuguesa;
- o último livro que meu pai me recomendou que não perdesse, depois de ele ter lido, é de Fernando Namora; uma boa parte li no hospital, acompanhando os últimos dias dele;
- Bismarck disse que, contrariamente à estupidez, a ignorância tem cura; aqui vim descobrir o papel histórico de Branquinho da Fonseca nas Bibliotecas que alimentaram de prazer das melhores horas da minha vida.
Bem hajas, Cristina; valeu a pena o teu trabalho e saber, a que juntaste fotografias a desenhar a realidade descrita.
Recomendo.

17 de outubro de 2021

Geografias Literárias

 Estão online, em acesso aberto ao público, os dois livros que a Ana Cristina Carvalho organizou em 2020 e 2021, início da coleção “Literatura e Ambiente”, inédita em Portugal, que “correrá” todas as regiões do país e envolve dezenas de autores e revisores de várias universidades de Portugal, Brasil e Espanha:

Amazónia – Reflexos do Lugar nas Literaturas Portuguesa e Brasileira:

https://research.unl.pt/ws/portalfiles/portal/20273278/AmzoniaReflexosLugar.pdf

Alentejo(s) – Imagens do Ambiente Natural e Humano na Literatura de Ficção:

https://research.unl.pt/ws/portalfiles/portal/33755593/Carvalho_Raposo2021ALENTEJO_S_.pdf

 

Os livros em papel podem ser adquiridos na Almedina, Bertrand, FNSC e outras livrarias de Portugal e do Brasil.


Sendo verdadeiramente um "trabalho coletivo que poderá constituir um manual de promoção de novas leituras, novos debates e novas reflexões", é uma obra de leitura e/ou de consulta indispensável e merecedora de ampla divulgação.

8 de outubro de 2021

NOTAS SIMPLES SOBRE "RUA DA AMARGURA", DE FERNANDO FARIA

Rua da Amargura, de subtítulo “Episódios de uma comarca de província”, é constituído por nove narrativas decorrentes de experiências do autor durante o período em que, nos anos oitenta do século XX, desempenhou funções de delegado do Procurador da República na comarca de Figueiró dos Vinhos.

A transposição ficcional dá como espaço de acção Vilar de Prantos, topónimo que se ajusta ao espírito da matéria narrada, tendo em conta a vida miserável de algumas personagens, os episódios de violência e os suicídios cometidos nas diferentes histórias (ao todo, quatro!), embora haja nelas, por vezes, um acento de picaresco e trágico-cómico.

Na diversidade do narrado, há figuras que aparecendo em várias ou todas as histórias reforçam a unidade dos textos já por si subordinados ao denominador comum de «episódios de comarca» : o funcionário judicial Gonçalves, o médico Dr. Teófilo Assunção, o cabo da GNR Secundino Dias e, naturalmente, Feliciano Feijó, cujos nomes são formados com as mesmas iniciais dos nomes do autor, Fernando Faria.

Quem esperar destas narrativas um desenvolvimento literário na tradição dos vultos da modernidade habitualmente citados – Allan Poe, Kafka, Borges, etc. – pode desiludir-se. Fernando Faria escreve nos moldes de um realismo focado nos estratos sociais mais desfavorecidos, com situações e personagens típicas, mas ultrapassando o mero memorialismo ou o testemunho chão com apontamentos de valor artístico como este do conto “A barragem da Feitosa (Cesaltina)”:

 

«Afastado, um pouco, do parapeito mágico e, consequentemente, liberto do síndrome vertiginoso, Feliciano pôde apreciar a jusante da barragem o fundo desfiladeiro cavado pelo rio ao longo de milénios, de cujas margens calcárias brotavam carvalhos e medronheiros, os quais, à distância, dir-se-ia não passarem de simples arbustos. A água, terminado o cativeiro da represa e vencida a provação das turbinas, retomara o trilho no velho leito e deslizava já, álacre como uma escolopendra, abrindo caminhos por entre arbustos e calhaus brancos.»  p. 70.

 

De salientar as múltiplas referências técnicas ao trabalho do delegado, o qual até chega a funcionar como uma espécie de Juiz de Paz (conto “Rua da Amargura (Gertrudes)”), promovendo a concórdia entre os esposos e tentando evitar, em relação ao filho, o abandono escolar e o trabalho infantil. Igualmente os processos de investigação dos pequenos crimes – o porco roubado em “Só ficaram os ossos… (Pencas)” – e aspectos de medicina legal – cremos poder chamar-lhes assim –, nas considerações feitas em “O homem pênsil (Serafim)” – um título perfeito! – relativamente às várias possibilidades do «aspecto do enforcado»:

 

«(…) expressão serena ou terrífica?; olhos abertos ou fechados?; língua projectada ou mantida entre os maxilares?; cabeça decaída para o peito ou tombada para um dos lados (dependendo da posição do laço)?; maior ou menor profundidade do sulco causado pela corda na cerviz?; presença ou ausência de protuberância nas calças, indiciadora de erecção peniana? Havia casos, explicados pela neurologia.» p. 86

 

Estamos – como desde logo fica exposto na nota introdutória –, perante um conjunto de ficções de pendor autobiográfico, mostrando na sua vertente testemunhal a pobreza existente no interior- centro do país num período já marcado pela consolidação do regime democrático. Como Feliciano Feijó de imediato verificou, não iria encontrar naquela vilória pastores da Arcádia, nem Lianores descalças a caminho da fonte, nem sequer moleirinhas, toc, toc, toc, sobre os seus jumentinhos, como nos versos de Guerra Junqueiro. A realidade era outra!

Diga-se que a Igreja e a Política– normalmente presentes em histórias de província através de personagens determinantes como o padre e o regedor  – estão ausentes deste livro. Tudo se passa no seio do povo e dos agentes da Justiça, havendo entre estes grande lisura e cooperação, situação talvez idílica, mas que foi a adoptada pelo autor na sua estratégia narrativa.    

Feliciano Feijó não fala muito da sua vida pessoal, sabendo-se apenas que está familiarmente acompanhado e que tem dois filhos de dois e quatro anos que são deixados diariamente no infantário. Situação comovente, aquela da separação imposta aos pequenos em cada dia de trabalho dos progenitores, já sentida em algum momento por todos os que são pais e até, em contexto mais adiantado, quando arribam à condição de avós.

Outro ponto digno de nota: o facto de a cada título de história se associar o nome do protagonista, revelador do cunho pessoal das narrativas, da dimensão humanista que as enforma.

Para além disto – e abreviando, para não roubar muito tempo aos visitantes do blogue – , cumpre dizer que se sente neste livro a grande alegria de narrar. Alegria antiga, vinda dos poemas homéricos, das Mil e Uma Noites e de obras imortais como o Decameron.

Que seria do homem sem narrativas? Ouvir ou ler o que é narrado é um imperativo de sobrevivência. Pelo poder da narrativa se salvou Sherazade da morte anunciada, também por via dele resistiram Pimpinea e os seus jovens amigos e amigas ante a peste que grassou em Florença no ano de 1348, tal como nos relata a ficção admirável de Boccaccio.  

Todos nos salvamos um pouco quando escrevemos ou lemos ficções. E  especialmente nós, leitores, quando estamos perante livros, como este Rua da Amargura, que se lêem com simpatia e agrado.    

 

21 de setembro de 2021

FERREIRA DE CASTRO E ROBERTO NOBRE EM "PASSAGEIRO CLANDESTINO"

Do primeiro volume de Passageiro Clandestino, diário de Mário Dionísio este ano publicado com um volume de notas de Eduarda Dionísio, retiro o seguinte apontamento relacionado com a sua saída/expulsão do Partido Comunista:

«6.9.56
Manhã e parte da tarde em Sintra com M. L. e a E. Enquanto a Maria vai mostrar o Palácio à Eduarda, longa conversa no café com o F. de C. Percebo a insistência com que ele me dizia há tempos que aparecesse, para conversarmos. Queria saber directamente «do meu caso». É com natural satisfação que o ouço dizer-me a indignação com que repudiou certas apreciações e falsas narrações que alguns «amigos» meus lhe haviam feito a meu respeito. A velha campanha que já não me surpreende nem indigna. Velha, e ao que parece, já tristemente histórica... Nem o F. de C. nem o R. N. - que passou ontem à tarde cá em casa e que, de certo modo, a puxar a conversa - podem compreender nada disto até ao fundo e em toda a sua vastidão. Faltam-lhes pormenores, a experiência real de certas pessoas, que julgam conhecer pelo seu convívio acidental de café. Falta-lhes, além de tudo, um ângulo de visão que, abrangendo por dentro os meus objectivos e os, supostamente iguais, das pessoas de que falam, lhes permita ajuizar em pormenor. Mas há neles qualquer coisa que os não deixa enganarem-se. Sensibilidade? Vontade de justiça? Confiança no homem?»

12 de setembro de 2021

EVOCAR JOSÉ RÉGIO - 120º ANIVERSÁRIO DO SEU NASCIMENTO

No próximo sábado, 18 de Setembro, sessão evocativa de JOSÉ RÉGIO na Biblioteca Municipal de S. Domingos de Rana. Para efeitos de controle da lotação da sala (máximo de 25 pessoas), pede-se seja feita inscrição pelos números de telefone indicados no cartaz.



5 de setembro de 2021

RUBAYAT de Omar Khayyan

 Poesia, para me comover, tem de ser excelente, ou, definindo melhor, tem de aconchegar-se ao meu gosto... que não sei definir neste caso específico, confesso.

Entretanto, é de poesia que venho escrever, recomendando a leitura de Rubayat, sua obra mais conhecida entre nós, numa versão hodierna.

Surpreendente que um matemático persa dos séculos 11 e 12  que, entre outras coisas, foi poeta, me tivesse despertado a atenção a este ponto. Atrevido sobre as determinações religiosas, ousado nas conceções de vida e de morte, apresenta-nos posições filosóficas em que descubro muitas das minhas posições interiores sobre o princípio, o meio e o fim da realidade (ou da ilusão) humana.

Deixo-lhe a ligação de acesso: clique em https://bibliotronicaportuguesa.pt/livronicos-na-internet/ e depois procure «Khayyan»; mais um clique e ficará com o livro disponível para leitura, sem custos.

Experimente: vale a pena.

31 de agosto de 2021

o início de A AMANTE HOLANDESA

 


«--Compreende?»

J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003), Lisboa, Bertrand Editora - 11x17, 2016, p. 9.